Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

1886–1968 · viveu 82 anos BR BR

Manuel Bandeira foi um poeta, crítico literário e professor brasileiro, considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira do século XX e um dos pioneiros do Modernismo. A sua obra, marcada pela simplicidade, pela musicalidade e por uma profunda melancolia, abordou temas como a infância, a morte, a doença, a saudade, a vida quotidiana e a condição humana. Bandeira deixou um legado poético singular, caracterizado pela sua lírica intimista e pela sua capacidade de encontrar beleza na simplicidade e na efemeridade da vida.

n. 1886-04-19, Recife · m. 1968-10-13, Rio de Janeiro

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Poema Tirado de Uma Notícia de Jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Manuel Carneiro Bandeira nasceu em Recife, Pernambuco, a 19 de abril de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro a 13 de outubro de 1968. É um dos poetas mais importantes e amados da literatura brasileira. Veio de uma família de classe média. O seu pai foi engenheiro e a sua mãe era filha de um pastor protestante. A sua infância e adolescência em Recife, marcada pela beleza do clima tropical e pelas memórias familiares, foram cruciais para a sua formação poética. Mudou-se para o Rio de Janeiro na juventude para prosseguir os estudos.

Infância e formação

A infância de Bandeira foi marcada por uma doença grave: tuberculose, que o acompanhou toda a vida e o obrigou a longos períodos de repouso e tratamento. Esta experiência com a fragilidade da vida e a proximidade da morte influenciou profundamente a sua obra. Foi educado em colégios internos e demonstrou desde cedo um grande interesse pela leitura e pela escrita. A sua formação foi, em grande parte, autodidata, complementada pela sua paixão pelos livros e pela literatura.

Percurso literário

Bandeira iniciou a sua carreira literária com a publicação de 'Cinzas das Horas' em 1907, mas foi com 'A Seca' (1909) e 'O Ritmo Discreto da Poesia' (1911) que começou a delinear o seu estilo. A sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922, com a leitura do poema "Os Sapos", foi um marco na sua carreira e na história do Modernismo brasileiro, embora ele próprio se sentisse um pouco alheio aos exageros vanguardistas. Publicou inúmeros livros de poesia, além de crônicas, contos e ensaios.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Bandeira é caracterizada por um lirismo profundo, marcado pela melancolia, pela saudade e pela reflexão sobre a vida e a morte. Temas como a infância perdida, a doença, a fugacidade do tempo, a beleza das coisas simples e a condição humana são centrais. A sua linguagem é de uma simplicidade aparente, mas carregada de emoção e musicalidade, utilizando o verso livre de forma inovadora. Poemas como "Vou-me embora pra Pasárgada", "A Morte de um Moleque", "O Último Poema", "Andorinha" e "Os Sapos" são representativos do seu estilo. A sua voz poética é intimista, confessional e, por vezes, irónica, capaz de transfigurar o quotidiano em arte. A sua poesia é marcada por uma delicadeza ímpar e pela sensibilidade em captar os momentos fugazes da existência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bandeira viveu um período de intensa efervescência cultural no Brasil, tendo sido um dos nomes chave do Modernismo. A sua obra dialoga com as preocupações estéticas e sociais da época, mas sempre mantendo a sua individualidade. Manteve relações de amizade e colaboração com outros importantes escritores modernistas, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bandeira foi marcada pela sua saúde frágil, devido à tuberculose, que o obrigou a fazer diversos tratamentos e a viver em constante preocupação com a doença. Foi professor de literatura em liceus e na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro, profissão que desempenhou com dedicação. A sua vida pessoal foi relativamente discreta, mas a sua poesia é um espelho da sua sensibilidade e da sua profunda humanidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha sido um dos nomes centrais do Modernismo, o reconhecimento pleno da sua obra veio gradualmente. Hoje, Manuel Bandeira é considerado um dos pilares da poesia brasileira, sendo a sua obra amplamente estudada e admirada. A sua capacidade de tocar o leitor com a sua sinceridade e o seu lirismo conquistou um lugar especial no coração dos brasileiros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bandeira foi influenciado por poetas como Cruz e Sousa, Verlaine e Walt Whitman. O seu legado é imenso, tendo aberto caminhos para a poesia mais lírica e intimista dentro do Modernismo e influenciado inúmeros poetas posteriores pela sua autenticidade e pela sua forma única de tratar temas universais. A sua poesia continua a ser uma fonte de inspiração pela sua beleza e pela sua humanidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bandeira tem sido analisada sob diversas perspetivas, destacando-se a sua capacidade de expressar a melancolia e a efemeridade da vida, a sua relação com a doença e a morte, e a sua habilidade em encontrar poesia no banal. A sua lírica intimista e a sua linguagem acessível, mas profundamente expressiva, são pontos centrais na crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bandeira era conhecido pela sua timidez e pela sua dedicação à escrita. Uma curiosidade é a sua paixão por animais, especialmente cães, que por vezes aparecem na sua poesia. Os seus hábitos de escrita eram metódicos, apesar das interrupções causadas pela sua saúde.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Manuel Bandeira faleceu no Rio de Janeiro, deixando um vasto acervo poético que se tornou um tesouro da literatura brasileira. A sua memória é honrada pela contínua leitura e estudo da sua obra, que permanece viva e comovente para as novas gerações.

Poemas

487

Macumba de Pai Zusé

Na macumba do Encantado
Nego véio pai de santo fez mandinga
No palacete de Botafogo
Sangue de branca virou água
Foram vê estava morta!
1 663

Comentário Musical

O meu quarto de dormir a cavaleiro da entrada da barra.
Entram por ele dentro
Os ares oceânicos,
Maresias atlânticas:
São Paulo de Luanda, Figueira da Foz, praias gaélicas da Irlanda...

O comentário musical da paisagem só podia ser o sussurro sinfônico da vida civil.

No entanto o que ouço neste momento é um silvo agudo de sagiúim:
Minha vizinha de baixo comprou um sagiim.
1 389

Oração no Saco de Mangaratiba

Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

1926
1 877

Louvado

Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
E a com que me maravilho
Louvo após, que um sofrer novo

Trouxe a esta via afanosa,.
Sem fé nem vez, nem defesa:
Aquela que tem da rosa
O nome, o aroma, a beleza.

Juntei ao corpo de Vênus
Sua cabeça, e estou quite
Com o meu destino, que ao menos
Uma feminafrodite
Criei para ressarcir-me
Desta paixão que, ignorada,
Nem por isso é menos firme
Nem mais mal-aventurada.

Cada vez me maravilho
Mais com o que nela há de novo:
Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
1 117

Ouro Preto

Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto d'El-Rei, para a glória do imposto.

Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras... templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agência postal era a Casa de Entrada...
Este escombro foi um solar... Cinza e desgosto!

O bandeirante decaiu — é funcionário.
Ultimo sabedor da crônica estupenda,
Chico Diogo escarnece o último visionário.

E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão lavrada como renda,
— Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!
1 677

Peregrinação

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... E tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...
1 056

Chambre Vide

Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pêse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frêre du silence
Reste encore
Reste auprês de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat

La nuit pêse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Ou sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de Pélectricite
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frere du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprês de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.

Petrópolis, 1925
1 777

Canção

Mandaste a sombra de um beijo
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.

No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!

Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
1 611

Natal 64

A Moussy

Ao deitar-me para a dormida,
Desejara maior repouso
Do que adormecer, e não ouso
Desejar o jazer sem vida.

Vida é possibilidade
De sofrimento; quando menos,
Do sofrimento da saudade,
Com os seus vãos apelos e acenos.

Mas a não haver outra vida,
Aos que morrem pode a saudade
Dar-lhes, senão a eternidade,
Um prolongamento de vida.

Então, por que neste momento
Me sinto tão amargo assim?
E a saudade me é um tal tormento,
Se estás viva dentro de mim?
960

Noturno da Rua da Lapa

A janela estava aberta. Para o quê não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanáres, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
1 107

Citações

3

Livros

10

Videos

50

Comentários (19)

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Lexa
Lexa

Você que interpretou de forma errônea. Sua interpretação só estaria correta se houvesse vírgula antes e depois de "nojentos".

Gabriel Paulino

Incrível.

Bolsonaro Mito da Silva
Bolsonaro Mito da Silva

Então os homens heterossexuais são nojentos! Que cabeça...

Mito
Mito

Vá para a Coreia do Norte!!!

Caião
Caião

Achei top, homens heteros nojentos choram