Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

1923–1980 · viveu 57 anos PT PT

Mário-Henrique Leiria foi um poeta português, conhecido pela sua obra marcada pela experimentação formal e pela exploração de temas existenciais e sociais. A sua poesia reflete um engajamento profundo com a realidade, muitas vezes expressa através de uma linguagem inovadora e desafiadora. A sua contribuição literária é reconhecida pela originalidade e pela capacidade de transpor para o verso as complexidades do ser humano e da sociedade.

n. 1923-01-02, Lisboa · m. 1980-01-09, Cascais

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Gin sem tónica

Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin
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Biografia

Identificação e contexto básico

Mário-Henrique Leiria foi um poeta português, cujo nome completo era Mário Henrique Leiria. Viveu num período de significativas transformações sociais e políticas em Portugal. A sua escrita esteve associada a movimentos de renovação literária e cultural no país.

Infância e formação

Pouca informação detalhada é publicamente acessível sobre a infância e a formação específica de Mário-Henrique Leiria. Sabe-se que a sua vivência ocorreu num contexto que viria a influenciar a sua perspetiva sobre a sociedade e a condição humana.

Percurso literário

O percurso literário de Mário-Henrique Leiria é marcado por uma poesia de cariz experimental e reflexivo. Desenvolveu ao longo do tempo um estilo próprio, afastando-se das convenções estéticas estabelecidas e explorando novas formas de expressão poética. A sua obra é um testemunho da sua busca por uma linguagem capaz de captar a complexidade do real.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Mário-Henrique Leiria caracteriza-se pela experimentação formal e temática. Os seus poemas abordam frequentemente questões existenciais, sociais e políticas, utilizando uma linguagem densa e imagética. O verso livre e a exploração de recursos sonoros e rítmicos são elementos distintivos do seu estilo. A sua poesia procura uma conexão profunda com a realidade, questionando o status quo e refletindo sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Leiria viveu e produziu a sua obra num Portugal marcado por um regime autoritário e por um período de transição social. A sua poesia dialoga com as tensões e os questionamentos próprios desse contexto, posicionando-se como uma voz crítica e renovadora no panorama literário.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Mário-Henrique Leiria são escassas na esfera pública. O foco da sua notoriedade reside predominantemente na sua obra literária e no seu contributo para a poesia portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Mário-Henrique Leiria tem vindo a consolidar-se ao longo do tempo, especialmente entre críticos e estudiosos da poesia portuguesa contemporânea. A sua originalidade e a força da sua expressão poética são elementos chave na sua receção crítica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências específicas de Mário-Henrique Leiria sejam objeto de estudo, a sua obra insere-se numa linha de experimentação poética que dialoga com correntes modernistas e vanguardistas. O seu legado reside na expansão das possibilidades da linguagem poética e na sua capacidade de refletir criticamente sobre o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Leiria convida a múltiplas interpretações, dada a sua densidade e a riqueza das suas imagens. Análises críticas exploram a sua dimensão existencial e social, destacando a sua capacidade de confrontar o leitor com questões fundamentais da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Detalhes curiosos sobre Mário-Henrique Leiria são limitados, mas o seu perfil é o de um poeta dedicado à busca de novas formas de expressão, possivelmente afastado dos círculos literários mais convencionais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre a morte de Mário-Henrique Leiria não são amplamente divulgadas, mas a sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser estudada e apreciada pela sua relevância literária.

Poemas

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Gin sem tónica

Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin
1 657

A Família

Vamos à pesca
disse o pai
para os três filhos
vamos à pesca do esturjão
nada melhor do que pescar
para conservar
a união familiar
a mãe deu-lhe razão
e preparou
sem mais detença
um bom farnel
sopa de couves com feijão
para ir também
à pescaria do esturjão
e a mãe e o pai
e os três filhos
foram à pesca
do esturjão
todos atentos
satisfeitíssimos
que bom pescar
o esturjão!
que bom comer
o belo farnel
sopa de couves com feijão!
e foi então
que apanharam
um magnífico esturjão
que logo quiseram
ali fritar
mas enganaram-se na fritada
e zás fritaram o velho pai
apetitoso
muito melhor
mais saboroso
do que o esturjão

vamos para casa
disse o esturjão.
855

NOIVADO

Estendeu os braços carinhosamente
e avançou, de mãos abertas
e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu
de terem muitos meninos
e não serem felizes.
É o que faz a miopia.
1 123

TELEFONEMA

Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade
919

Triângulo cabalístico

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
716

Viver com a crueldade

Viver com a crueldade
Da criança que
Tira os olhos ao pássaro
Um desconhecido movendo-se
constantemente
No deserto
Em que cada pegada deixa
Bem marcada na areia
A imagem dessa
Outra existência em que a morte e a
Memória
Ainda nada significam
Mais alto
Muito mais alto talvez
Que a claridade
Do voo das aves que
Partem para o desconhecido
O próprio corpo nada mais é
Do que a sombra
Bem simples por sinal
Dos braços que nos rodeiam
Por erro nosso ou dos outros
Já não existe
A persistência do que
Foi perdido
E as mãos que sentimos
Bem presas seguras aptas
Essas
Todos sabemos
Que podem ainda cada vez mais
Esmagar com cuidado com extremo
cuidado
Dilacerar suavemente
Nos olhos está o amor
618

Aviso Urgente

Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas

quando as coisas que hão-de vir
chegarem
477

Origem dos sonhos esquecidos

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
686

À cata do vento

o cata-vento
tem obrigações legais
deve
catar o vento
portanto
quando o vento passa
Diz-lhe logo atento
espera aí
preciso de te catar
mas o vento
sempre a passar
tem outras coisas
em que pensar
não está para ser
catado no ar
e vai passando
desatento
ao cata-vento
sem se importar
com o tristonho
catador de vento
obrigado legalmente
a catar o vento
então
o cata-vento
Senta-se no telhado
aporrinhado
e sem vento
para legalizar
o seu direito
de ser elemento
respeitado
pelos elementos
sentado no telhado
Queixa-se
isto não é vida
850

Cegarrega para crianças

A Velha dormindo
o rato roendo
a Velha zumbindo
o rato correndo
a Velha rosnando
o rato rapando
a Velha acordando
o rato calando
a Velha em sentido
o rato escondido
a Velha marchando
o rato mirando
a Velha dizendo
o rato escutando
a Velha ordenando
o rato fazendo
a Velha correndo
o rato fugindo
a Velha caindo
o rato parando
a Velha olhando
o rato esperando
a Velha tremendo
o rato avançando
a Velha gritando
o rato comendo
894

Livros

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Fernando moraes
Fernando moraes

Era um tio querido que estava presente na minha casa Fernando moraes.