RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
LIÇÃO DE ANATOMIA
Todos ouviram a palavra que foi dita.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
Cegarrega para crianças
A Velha dormindo
o rato roendo
a Velha zumbindo
o rato correndo
a Velha rosnando
o rato rapando
a Velha acordando
o rato calando
a Velha em sentido
o rato escondido
a Velha marchando
o rato mirando
a Velha dizendo
o rato escutando
a Velha ordenando
o rato fazendo
a Velha correndo
o rato fugindo
a Velha caindo
o rato parando
a Velha olhando
o rato esperando
a Velha tremendo
o rato avançando
a Velha gritando
o rato comendo
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
UMA DAS LIBERDADES
Um pequeno coelho
a correr
com o desespero
entre as pernas
e a erva a crescer
um cão babando
a correr
com a obediência
entre as pernas
e a erva a passar
um caçador rindo
a correr
com a espingarda
entre a morte
e a erva a fugir
um tiro gritando
a parar
com o caçador
entre o estômago
e a erva a esperar
um pequeno coelho
a correr
com a liberdade
entre as pernas
e a erva a sorrir
CONFRATERNIZAÇÃO
A anca bem tostada
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
A CIDADE ADORMECIDA
Foi decretada a mobilização geral.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
Origem dos sonhos esquecidos
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…