Martha Medeiros

Martha Medeiros

n. 1961 BR BR

Martha Medeiros é uma escritora e cronista brasileira, conhecida pela sua escrita fluida e acessível que aborda o universo feminino, as relações amorosas, a vida quotidiana e a busca pela felicidade. Com uma linguagem direta e um tom confessional, as suas crónicas e livros conquistaram um vasto público, tornando-a uma das vozes mais populares da literatura contemporânea em língua portuguesa.

n. 1961-08-20, Porto Alegre · m. , Río de Janeiro

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A Morte Devagar

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
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Biografia

Identificação e contexto básico

O nome completo é Martha de França Medeiros. Nasceu em Porto Alegre, Brasil, a 20 de setembro de 1961. É escritora, cronista e jornalista brasileira. Escreve em língua portuguesa.

Infância e formação

Martha Medeiros cresceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Desde cedo demonstrou interesse pela escrita. Frequentou a Faculdade de Jornalismo, mas a sua carreira literária ganha força com a escrita de crónicas para jornais e revistas.

Percurso literário

O seu percurso literário começou com a publicação de crónicas em jornais e revistas, que rapidamente ganharam popularidade. Publicou o seu primeiro livro, "Vestido de Noiva", em 1990. Desde então, tem uma produção literária regular, com livros de crónicas, romances e até livros infantis. As suas crónicas são frequentemente publicadas em jornais de grande circulação e revistas, e também em plataformas digitais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Martha Medeiros é marcada pela abordagem de temas do quotidiano, das relações humanas, do amor, da autoestima, da maternidade e da busca pela felicidade. O seu estilo é caracterizado pela linguagem clara, direta e acessível, com um tom confessional e intimista, que cria uma forte conexão com o leitor. Utiliza frequentemente o humor e a ironia para abordar assuntos sérios. As crónicas são a sua forma literária preferida, onde explora fragmentos da vida com sensibilidade e perspicácia.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Martha Medeiros insere-se no contexto da literatura contemporânea brasileira, marcada pela diversidade de estilos e temas. A sua obra dialoga com as transformações sociais e culturais do Brasil nas últimas décadas, especialmente no que diz respeito ao papel da mulher, às novas configurações familiares e às dinâmicas das relações afetivas na era digital. É uma escritora com grande projeção mediática e popularidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Martha Medeiros é conhecida pela sua abertura ao falar sobre a sua vida pessoal nas suas crónicas, abordando temas como os seus relacionamentos, a maternidade e os seus desafios pessoais. Esta transparência contribui para a proximidade com os seus leitores. É mãe de um filho.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A sua obra alcançou um enorme sucesso comercial e de público, com livros que figuram nas listas de mais vendidos. É uma das escritoras contemporâneas mais lidas em língua portuguesa. Recebeu vários prémios e distinções ao longo da sua carreira, sendo reconhecida pela sua capacidade de se conectar com um público amplo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora seja difícil apontar influências diretas, o seu estilo dialoga com a tradição da crônica brasileira, de autores como Clarice Lispector e Rubem Braga, mas com uma abordagem contemporânea e voltada para as questões atuais. O seu legado reside na forma como democratizou a leitura, incentivando muitas pessoas a se aproximarem da literatura através de temas que lhes são familiares.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Martha Medeiros é frequentemente analisada pela sua capacidade de captar o "espírito do tempo" e as angústias e alegrias da vida moderna. A sua abordagem de temas como a autoestima e a busca pela felicidade feminina tem sido objeto de estudo e debate.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Martha Medeiros é também conhecida por ser uma defensora da culinária e da boa mesa, temas que por vezes surgem nas suas crónicas. A sua presença ativa nas redes sociais permite uma interação direta com os seus leitores, fortalecendo o seu vínculo com o público.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até o momento, Martha Medeiros está viva e continua a sua produção literária e jornalística, sendo uma figura ativa na cena cultural.

Poemas

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A nova minoria

É um grupo formado por poucos integrantes. Acredito que hoje estejam até em menor número do que a comunidade indígena, que se tornou minoria por força da dizimação de suas tribos. A minoria a que me refiro também está sendo exterminada do planeta, e pouca gente tem se dado conta. Me refiro aos sensatos.

A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.

Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.

O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.

O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.

O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.

O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.

Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.

Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
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Feliz por nada

Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.

Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. 

Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.

Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

Feliz por nada, nada mesmo?

Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. 

“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.

Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.

Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.

Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?

A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.
1 109

já meio sem esperança

já meio sem esperança
de encontrá-la depois dos quarenta
eis que um amigo me apresenta
uma mulher de trança


manteve-se meio a distância
mas já havia dito bom dia
e era mais do que queria
um coração que descansa


falava de maneira lenta
com palavras que ninguém alcança
suspeitei que era uma mulher mansa
dessas que não se enfrenta


quanto mais eu temia a aliança
mais ela me seduzia
um amor que não se comenta
diga que homem sustenta


fazia notar sua presença
como que distraída
sabia ficar isenta
do próprio pecado que inventa


quanto mais queria tocá-la
mais escorregadia
preso nessa paixão tardia
ninguém pagaria a fiança


enquanto meu amor arrebenta
seu olhar tripudia
quem é essa mulher que se ausenta
e ao mesmo tempo me tenta


é a mulher de trança
aquela que só se contenta
quando toda a imprensa
vem testemunhar sua vingança


não sabia que a mulher de trança
acabara de ter sido traída
1 121

da janela da frente

da janela da frente
vejo uma delicatessen
uma praça e o salão de beleza
onde faço permanente


da janela dos fundos
vejo o pátio da vizinha
com seu varal cheio de trapos
e um sofá vagabundo


da janela da frente
vejo crianças na calçada
saindo da escola com a empregada
de uniforme reluzente


da janela dos fundos
vejo crianças ranhentas
comendo com as mãos
e deixando o chão imundo


da janela da frente
vejo carros estacionados
e uma loja de importados
que todo bairro é cliente


da janela dos fundos
vejo a área de serviço alheia
escuto gritos histéricos
e há um cheiro de urina profundo


da janela da frente
vejo um prédio de vidro fumê
sacadas organizadas
e bares de adolescentes


da janela dos fundos
vejo o crime organizado
dezenas de delinquentes
cheirando e queimando fumo


da janela da frente
eu vejo o mundo


da janela dos fundos
eu vejo a gente
1 050

de mim, que tanto falam

de mim, que tanto falam
quero que reste
o que calei
que tanto rezam por mim
quero que fique
o que pequei
de mim, que tanto sabem
quero que saibam
que não sei
1 209

se você nunca levou um tiro

se você nunca levou um tiro
eu conto como é
não tem cronologia
primeiro o disparo, depois a dor
nada disso, você ouve o disparo muito depois
e bem fraquinho, só um eco
porque você não acredita no que aconteceu
aliás, esqueça a dor
tiro não dói
tiro é um impacto que você sente
e não sabe que é tiro
pensa que o sutiã arrebentou
que foi atingido pelo Cupido
que as artérias ficaram velozes de repente
você não sente o buraco que ficou
você não ouve sirenes
você sabe que algo aconteceu de importante
mas não é na morte que você pensa
você não repassa sua vida
como acontece com os afogados
você sabe que o tempo parou
mas não consegue chamar ninguém
a verdade é que você foi irremediavelmente
surpreendido
e é isto que é esquisito
todo o seu sangue converge para o mesmo
ponto
lá onde ficou a bala
todo o seu corpo vai dar boas-vindas a
este corpo estranho
e você se contrai
você enfraquece
não raciocina como todo mundo
não articula a voz
ainda não há medo
e já se passaram quatro segundos
nada é rápido, nada é dramático
um tiro é o que há de mais definitivo
não machuca, não rasga
não estraga
é só o parto prematuro
de uma nova vida que te traga
1 044

casada, três filhos, arquiteta

casada, três filhos, arquiteta
não foi vista tomando um campari
na companhia de um turista alemão


senhor respeitável, discreto, comprometido
não foi apanhado em flagrante
com uma morena gostosa sem sutiã


filha de deputado, 17 anos, namorado firme
não foi surpreendida nos braços de outro
quando deveria estar na aula de inglês


senhora decente, viúva, cinquentona
não foi alvo de comentários
por hospedar na sua casa o marido de alguém


fidelidade é não contar pra ninguém
1 034

narcisismo do avesso

narcisismo do avesso
costumo não gostar
das pessoas com as quais eu me pareço
1 176

a administração da minha vida amorosa

a administração da minha vida amorosa
não anda como eu queria
o primeiro pretendente não pagou o que
devia
o segundo, inadimplente, não entregou a
mercadoria
o terceiro, dependente, deixou minha
geladeira vazia
e o último, incompetente, não estava
na garantia


abro amanhã meu coração
para uma auditoria
1 224

ele não é meu

ele não é meu
porque não dorme comigo
mas também não é amigo
porque me beija e me vê despida
não é meu marido
mas telefona e reparte um passado
que eu queria também ter vivido
não é meu porque não tem roupas
penduradas ao lado das minhas
não tenho dele um retrato
não passa comigo um domingo
jamais ganhei um presente
que não fosse de seda rendada
eu sou a preferida
de um homem comprometido
queria não ser um perigo
uma bomba que pode explodir
e deixar outra mulher arruinada
ele é o terrorista
eu o alvo escolhido
preferia aceitar um pedido
fazer nada escondido
mas ele não é meu marido
não é namorado, não é bom partido
não pode andar ao meu lado
não sabe a que horas acordo
não racha as contas comigo
não fica para ouvir um disco
não é exigido, não é meu parente
e anda sumido
nada é mais deprimente
quando chamo seu número ela atende
e eu desligo
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Comentários (7)

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Olá Poetisa Martha Medeiros... lindo texto de se morrer lentamente... eu por exemplo tentei várias coisas e não alcancei o que procurava. até chegar-me a poesia , que me faz admira-la em seus belos versos. felicidades e muita luz para ti. grande abraço . e agora aos 73 anos sou mais humano.

Fabrício Surya
Fabrício Surya

Muito bom, pena que vai na net como se fosse de Neruda, nós temos poesia sim!

Marnielly

Amei o texto!!!

rafavtres

Parece verídico ;D

lcarlos coelho

No silencio poeta encontra a sua alma que permeia os meios de sempre sonhar.