Lista de Poemas

NICOTINA

'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)



Preso em meus dedos um cigarro ameno

- Tragos de tédio e brasas de desejo,

Destilando o cilíndrico veneno,

Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.


Se adelgaça no ar o doce fumo

Como fosse uma etérea serpentina

Nada importa, se agora me consumo.

Em minhas veias corre nicotina.


'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.

'Tão triste é perder novo um grande amigo'

E eu me disperso nesse lento crime...


Nada mais justo, minha doce irmã,

Trocar uns dias de uma vida vã

Por uns minutos de prazer sublime

439

SEGREDOS

Quantos versos já tive que impedir
A caneta, imprudente, de escrever?
Nesses versos eu quase me traí
Revelando o que tinha que esquecer.

Quantas vezes, num esforço desumano,
Meus lábios eu mantive contraídos
Pra que esses versos, mesmo por engano,
Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.

Vontade de dizer-te, em verso e rima,
Todo carinho que a minha alma anima,
Toda a saudade que lhe faz penar.

Quero teu corpo, teus abraços, beijos...
Mas no meu peito guardo esses desejos
Que nem em versos ouso confessar.
350

A LENDA

Reza dos gregos uma antiga lenda
De que no Monte Hélicon vivia
O Pégaso, mais bela e mais selvagem
Das alimárias que no mundo havia

Belerofonte, para o seu intento
De derrotar Quimera, monstro horrendo,
Tivera que domar o cavalo alado
Que a ninguém jamais obedecia.

A única coisa com poder bastante
De fazer Pégaso obedecer alguém
Eram arreios mágicos, dourados,
Que Atena para o herói oferecera.

Doce menina, escuta o que eu de digo:
Meu coração é um Pégaso selvagem.
Teus cabelos, dourados como o Sol,
São os arreios que podem domina-lo.

Evolve, pois, meu corpo nos teus laços.
O meu amor encerra em tuas mãos.
Qual Pégaso e Belerofonte voaremos
Ao ponto mais distante da amplidão.
357

AUTO-ANAMNESE

Descobri
Que não sabia escrever
Quando percebi
Que não sabia rimar
Amor com dor.

Descobri
Que não sabia viver
Quando percebi
Que não sabia sofrer
Nem sabia sonhar.

Descobri, enfim
Que não sabia amar
Quando percebi
Que não sabia rimar
Solidão com amor.
407

BALADA PÓS-MODERNA

Fiquei sabendo
que você era rockeira
desejei-te a vida inteira
essa é a hora de tentar.

Eu joguei fora
meus cd's de Fábio Júnior
levo o Ozzy no meu punho
só pra te impressionar.

Só uso preto
se tornou meu pesadelo
ter que cortar o cabelo
ou usar uma outra cor.

Comprei um disco
desse tal de Sex Pistols
meu ouvido não suporta
mas meu coração gostou.

Tomei uísque
tomei pinga, tomei vinho
transformei o meu caminho
onde o vinho me conduz.

Virei ateu,
virei gnóstico, budista,
só não quis deixar na vista
que meu nome era Jesus.

Fiquei com medo
de escrever-te uma poesia
pois tão grande é a agonia
que me causa teu amor.

Roubei uns versos
de Carlos Drummond de Andrade
e disse que era na verdade
Dylan Thomas e Rimbaud.

Fiquei sabendo
que você curte cinema
e pra melhorar o esquema
muita coisa eu assisti.

Eu vi Carlitos
mesmo mudo causar riso,
vi 'Cinema Paradiso'
e Glauber Rocha eu não entendi.

Fiquei pensando
as coincidências que não temos
li 'A Era dos Extremos'
só pra gente debater.

E depois disso
tatuei todo o meu braço,
dei uns tapas no barato
mesmo sem sentir prazer...

Não fiz a barba
pra virar socialista
fiz pose de guitarrista
pra você olhar pra mim.

Pintei uns quadros
pra expor na galeria
mas você sequer os via.
Por que as coisas são assim?

Comprei uns livros
de ciências, de magia,
de história e filosofia
pra poder te emprestar.

Eu fiz uns versos,
inventei uma paranóia,
tentei dar uma de Goya,
fiz sonatas ao luar.

Eu tive amigos,
tive fãs e seguidores,
tive amores, tive dores,
mas você nunca terei.

Eu já sabia
meu destino era maldito
já dizia Raulzito:
Sou cowboy fora da lei.
433

ENTARDECER

Nada de novo canta a voz
do vento
Uma velha canção
Que já encontrou seu tema

Nada é tão duro
quanto o tempo
- Um bicho que vem
Da profundeza das eras
Rumando em trilhos obscuros

De que me nasce esta saudade?
Pássaro de ferro
que não conhece nada
a não ser a cor do mar
se dissolvendo em pedras.

Quisera não ser fraco,
não ter o chão de vidro
quisera ter a força
das árvores
que desfalecem em pé

E os dias seguem ruminando tudo
pintando as minhas têmporas
com o gris das mágoas
As minhas têmporas...
querem sentir o sabor
de uma pistola.
368

DON JUAN

Permita apresentar-me, bela senhorita.
Eu venho de outros tempos, de terras inauditas.
Sou filho da chama mais quente que existe.
A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.

Trago na boca o gosto dos mares onde vivo,
As vagas escalando, deles sou cativo
Como um fantasma vagando pelos portos,
Mas trago em mim uma porção de dias mortos.

Quando o pulso febril no corpo arde
E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde,
Espalhando no mundo a solidão e o frio,
Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.

Nessas horas cruéis o que minh’alma quer
É apenas tua forma linda de mulher.
Quando a angústia crescer minh’alma sente
Meu coração deseja a tua boca ardente.

Tal como o beija-flor do néctar suculento
Da tua beleza vivo e dela me alimento
E como fosse o fôlego da vida humana
Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.

Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor.
Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
431

BALADA PÓS-ROMÂNTICA

Para Rafaela Duccini


Ela chegou de repente
Onde há tempos estava
Expulsando a sujeira
E o vazio da casa

Só vivia escondida
Nesses cantos da vida
E sofrendo calada
E chorando sozinha

A menina era bela
E estes olhos sabiam
Mas não olhavam pra ela
Como deveriam

E ela andava na noite
E cantava e sorria
Sua rara alegria
Qual se fosse madura

Como tudo era breve
Mais que a brisa mais leve
Seu amor tão escasso
Era breve também.

Não sei como eu sabia
Que da força do dia
Vinha um raio mais claro
Me fazendo ir além

Da distância tão grande,
Das florestas, dos montes
E de mil horizontes
Que zombavam de mim.

Ela era tão linda
E estes olhos sabiam
Que era assas perigoso
Encara-la nos olhos.

Como a chuva que chega
Numa tarde de sol,
Como um barco que avista
De repente um farol,

Assim foi que ela veio
Onde há tempos estava,
Libertando minha alma
De tristezas escrava.

Mas uma coisa ficou
Nos seus olhos sombrios:
Seu coração é um porto alegre
Onde só cabem dois navios.

Mas ela era tão linda
E meu coração sabia
Quem sem ela por perto
Eu não mais viveria.

Mesmo estando tão triste
Como um rio sem leito
A lembrança no peito
Concedeu-me o perdão.

Ela foi se aninhando
Onde nada restava,
Anulando a tristeza
E o vazio da alma.

Ela é um receio
Que me torna mais forte.
Ela é minha vida
E também minha morte.

Ela é minhas asas
Quando pairo no ar...
Ela é, ela foi,
Ela sempre será.

Mas uma coisa ficou
Em mim sem ela saber:
Seu abraço é a terra
Onde eu hei de morrer...
461

QUANDO OS CORVOS CHORAM

Quando ele estende
A negra envergadura
Sobre a face do abismo
E o gosto das alturas
Definha no seu peito,
É hora de dizer adeus.

Quando a noite não traz
Na fria face de breu
A recôndita ausência
Dos males do mundo.
É hora de dizer adeus.

Quando ele vê brotar
No coração afeito à luta
Uma dor maior que o suportável
E vê rolar na face
A lágrima de ferro,
É hora de dizer adeus...

Quando até mesmo o céu
Lhe nega o refrigério
Que, malogrado, desistiu
De procurar na terra,
É hora de dizer adeus...

Mas não! É cedo!
Inda nem desmaiou a luz do dia...
Mas quando até mesmo os corvos choram,
Querida, é hora de dizer adeus.
428

O MARTELO DAS BRUXAS

Não hei de ser um boi
Perdido no campo
Do antes e agora

Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento

Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso

Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...

Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?

Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas

Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
320

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