Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

Perfil
16 779 Visualizações

OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

Ler poema completo

Poemas

43

SILÊNCIO

As estrelas
São gotas de tristeza
No céu

Os versos
São marcas de silêncio
No papel.
359

EU NUNCA DISSE QUE TE AMO

Eu nunca disse que te amo
Mas muita força as prende aqui
Domá-las como um bicho
Prendê-las antes que desaguem
No intervalo de um beijo
Rumo ao mar amargo do remorso.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O preço que se paga pelo apego
Substantivamente as mãos procuram
No escuro, a doce fantasia
Do afago proibido

Este é o caminho sem volta
E nunca a mesma chuva
Lava o solo queimado de sol
E nunca o mesmo nunca
Pousa no ouvido sempre virgem.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O nome desse pulso febril que me enfraquece
Sinto apenas no ardor desta manhã
Uma tristeza e uma dor crepuscular
Como quem segue viagem logo cedo
Com saudade e sem pressa de chegar.
396

A LENDA

Reza dos gregos uma antiga lenda
De que no Monte Hélicon vivia
O Pégaso, mais bela e mais selvagem
Das alimárias que no mundo havia

Belerofonte, para o seu intento
De derrotar Quimera, monstro horrendo,
Tivera que domar o cavalo alado
Que a ninguém jamais obedecia.

A única coisa com poder bastante
De fazer Pégaso obedecer alguém
Eram arreios mágicos, dourados,
Que Atena para o herói oferecera.

Doce menina, escuta o que eu de digo:
Meu coração é um Pégaso selvagem.
Teus cabelos, dourados como o Sol,
São os arreios que podem domina-lo.

Evolve, pois, meu corpo nos teus laços.
O meu amor encerra em tuas mãos.
Qual Pégaso e Belerofonte voaremos
Ao ponto mais distante da amplidão.
369

A MENINA DOS PÁSSAROS

Quem sabe o que existe além
Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar?
Talvez o tesouro de algum deus incauto
Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.

Aonde hão de nos levar esses carinhos
Que a mão etérea ensaia em pensamentos?
Alguns sonhos são como flores espinhosas,
Forjados no coração de fogo das estrelas,
Crescendo no peito inebriado de dor.

Eu gostaria de dizer que vou seguindo
Mas os meus olhos estão abertos
E o meu amor é triste como a onda
Que inutilmente se atira nos rochedos
Ou como os portos sombrios onde os barcos
Sempre partem cobertos de silêncio.

No entanto uma menina emerge da neblina
E há nos seus olhos a dor do entardecer:
A esperança é uma explosão de negros pássaros
Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
483

O TEU LUGAR

Para Kalinina Sampaio


Divago sobre teu perfil, mas não te encontro
Na violenta agitação do mar.
Encontrei-te impressa nessas pedras
Que onda nenhuma consegue perfurar.

Escuto a tua voz, mas não consigo
Achá-la nesses campos tortuosos
Onde as cores desvanecem com um aceno
E se desmontam com os primeiros raios da alvorada.

Tu não estás no vendaval
Que sai decapitando as roseiras, nem tampouco
Na corrente do rio que tudo afoga.

Em vão rasgaria o tecido do espaço
E inclinaria o olhar para a casa dos deuses:
Veria berços vazios e covas lotadas,
Um relógio vomitado pelo acaso,
Astros que seguem caminhando sem guia...
Tu não estás lá.

Não te encontras no rol das estrelas de gelo
Nem das flores de fogo, que são filhas do tempo.
Não estás neste solo que piso
Como fosse de vidro, ou de nuvens, talvez.

Teu lugar é ali, onde os números reinam.
Na dimensão dos átomos sem massa,
Nas margens do curso do tempo,
Entre a página onze e doze da Odisseia.

Teu nome está escrito com uma tinta indelével
Na parte mais profunda do meu coração
335

ENTARDECER

Nada de novo canta a voz
do vento
Uma velha canção
Que já encontrou seu tema

Nada é tão duro
quanto o tempo
- Um bicho que vem
Da profundeza das eras
Rumando em trilhos obscuros

De que me nasce esta saudade?
Pássaro de ferro
que não conhece nada
a não ser a cor do mar
se dissolvendo em pedras.

Quisera não ser fraco,
não ter o chão de vidro
quisera ter a força
das árvores
que desfalecem em pé

E os dias seguem ruminando tudo
pintando as minhas têmporas
com o gris das mágoas
As minhas têmporas...
querem sentir o sabor
de uma pistola.
378

A NOITE MAIS DENSA

A noite era densa.
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.

A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão

A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
363

MOÇA DOS OLHOS DE CHUVA

Para Amanda Santos


Moça dos olhos de chuva,
Pra onde levas, assim, meu coração?
Fardo cruel que trago no peito
E que carrego por caminhos onde a luz jamais pisou.
Para onde o levas? Que obscuros mistérios
Movem de tal forma tua mão involuntária?

Moça dos olhos de chuva, do rosto de neve,
Por mil noites vaguei na sombra silenciosa do tempo
E ouvi a voz austera do vento de Março
Soprando pelos corredores da mansão do medo
Para onde me arrastas. Rumino, a um canto, a conclusão:
Minha alma não paga esse sequestro...

Moça dos olhos de chuva e do sorriso de Sol,
O mundo inteiro jaz no simples gesto
De derramar nos meus ouvidos lassos
A doce canção da tua voz. No entanto
A paz é fuzilada. Caminha, tropeça, morre
Nos campos onde sempre é dia de finados.

Moça dos olhos de chuva, dos olhos imensos,
Profundos como o céu e repletos de perigo
Como as entranhas dos vastos oceanos.
Quero por eles lançar minhas velas em chamas
Mesmo que o naufrágio seja a única promessa.
O mundo inteiro jaz no teu sorriso...

Moça dos olhos de chuva, a tempestade anuncia
A completa ruína das muralhas de outrora.
A tristeza das horas fica gravada pelo gesto frio
De entalhar teu nome nas pedras do tempo
Enquanto observo teu vulto se distanciando
Como uma ave que se dissolve em pleno voo.

Moça dos olhos de chuva, derrame sobre o campo
Onde plantei a semente da minha ternura
Esses raios de luz do teu olhar
Que atravessam meu peito como flechas de saudade.
377

ESPELHO FALSO

Meu olhar é uma vela no escuro
Um tiro no muro
Que me faz dizer não.

É um espelho que mente
Como flores de sangue
Espalhadas no chão.

Mas a farsa sincera
Desta falsa mentira
Na verdade é um véu.

Meu olhar é sem igual
- toupeira transcendental
Cavando buracos no céu.


383

EU NÃO TE AMO!

Se amar é desejar o tempo inteiro
A presença real do ser amado.
Se é sentir no afago derradeiro
O seio para sempre magoado.

Se é dar suspiros tristes ao luar
Pela flor morta a estremecer num ramo.
Se é uma outra alma escravizar
Então, sinceramente, eu não te amo!

Porque o que sinto é muito mais que isso.
Não é manter teu coração submisso
E nem gravar em mim esta ferida.

Se é desejar felicidade plena,
Mesmo que a minha seja tão pequena,
Outra pessoa nunca amei na vida.
517

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.