Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

A LENDA

Reza dos gregos uma antiga lenda
De que no Monte Hélicon vivia
O Pégaso, mais bela e mais selvagem
Das alimárias que no mundo havia

Belerofonte, para o seu intento
De derrotar Quimera, monstro horrendo,
Tivera que domar o cavalo alado
Que a ninguém jamais obedecia.

A única coisa com poder bastante
De fazer Pégaso obedecer alguém
Eram arreios mágicos, dourados,
Que Atena para o herói oferecera.

Doce menina, escuta o que eu de digo:
Meu coração é um Pégaso selvagem.
Teus cabelos, dourados como o Sol,
São os arreios que podem domina-lo.

Evolve, pois, meu corpo nos teus laços.
O meu amor encerra em tuas mãos.
Qual Pégaso e Belerofonte voaremos
Ao ponto mais distante da amplidão.
367

SONETO DO AMOR VAGABUNDO

'Meu coração vagabundo

Quer guardar o mundo em mim'

(Caetano Veloso)


Tão grande é o meu amor para entregá-lo

A uma pessoa só no vasto mundo.

Não pode do luar o branco halo

Esgotar a si próprio num segundo,


Nem pode o grande Sol iluminar

Na Terra inteira um único vivente,

Tampouco poderia ser o mar

De apenas uma nau benemerente.


Não chame o meu amor de falsidade

Pois nunca ouvirá maior verdade

De alguma outra pessoa neste mundo.


Por isso que esta noite eu te dedico,

Nos versos de um soneto impudico,

Meu coração, embora vagabundo.

606

NÃO HEI DE ALARDEAR O MEU AMOR

Não hei de alardear o meu amor
Nem o divulgarei pelos jornais.
Pois meu amor é meu tesouro oculto
Que eu mantenho bem longe dos chacais.

Não vou gritá-lo aos quatro ventos, não,
Não vou pichá-lo nas paredes nuas.
Só no meu peito é que ele encontra alento
E nos meus versos é que beija a glória.

O meu amor é meu, de mais ninguém.
Ostentem os seus, como se fossem adorno
De uma vida vazia e sem sentido.

O meu amor é minha estrela errante,
Ave, suspiro, vinho delirante,
Mais linda flor do meu jardim secreto.
446

AUTO-ANAMNESE

Descobri
Que não sabia escrever
Quando percebi
Que não sabia rimar
Amor com dor.

Descobri
Que não sabia viver
Quando percebi
Que não sabia sofrer
Nem sabia sonhar.

Descobri, enfim
Que não sabia amar
Quando percebi
Que não sabia rimar
Solidão com amor.
417

ENTARDECER

Nada de novo canta a voz
do vento
Uma velha canção
Que já encontrou seu tema

Nada é tão duro
quanto o tempo
- Um bicho que vem
Da profundeza das eras
Rumando em trilhos obscuros

De que me nasce esta saudade?
Pássaro de ferro
que não conhece nada
a não ser a cor do mar
se dissolvendo em pedras.

Quisera não ser fraco,
não ter o chão de vidro
quisera ter a força
das árvores
que desfalecem em pé

E os dias seguem ruminando tudo
pintando as minhas têmporas
com o gris das mágoas
As minhas têmporas...
querem sentir o sabor
de uma pistola.
376

NICOTINA

'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)



Preso em meus dedos um cigarro ameno

- Tragos de tédio e brasas de desejo,

Destilando o cilíndrico veneno,

Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.


Se adelgaça no ar o doce fumo

Como fosse uma etérea serpentina

Nada importa, se agora me consumo.

Em minhas veias corre nicotina.


'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.

'Tão triste é perder novo um grande amigo'

E eu me disperso nesse lento crime...


Nada mais justo, minha doce irmã,

Trocar uns dias de uma vida vã

Por uns minutos de prazer sublime

447

NÃO FAÇO VERSO EM VÃO

Não faço verso em vão.
O poema é um pássaro preso numa folha em branco.
Eu fendo a folha, o verso se liberta
E beije a luz.
É preciso escutá-lo e saber se quer sair.

A vida é dura, o amor é pouco e a alegria
Raramente tem me visitado.
Isso é deveras desesperador,
Mas não é motivo para versejar.

Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos,
O beijo dos amores fugidios.
Existe a noite e existe a chuva
Onde consigo esconder meus prantos.
Fazer versos pra que?

Os poemas não nascem quando quero.
Ele fica aqui dentro em silêncio
Germinado quando estou a cismar.
A dor que sinto a cada instante
É a dor de suas asas crescendo.

Eu escuto... ele chora.
Bate com as asas de ferro
Nas paredes do meu peito.
Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode.
Ele se livra e me liberta.
406

SONETO

Tem palavras que são tão carinhosas
Que quase as sinto me tocando a face
Com dedos tímidos e adolescentes
Percorrendo, medrosas, minha tez.

Tem palavras que o vento não carrega
Mas mesmo impressas tem o mesmo efeito
De um lânguido sussurro ao pé do ouvido
Ou de um olhar sincero e imaculado

Tem palavras tão ternas quanto o afago
Da mão, que sequiosa de desejos,
Tem que conter-se em escrever poemas.

Quando pousares teu olhar nas minhas
Quero que as leia como fosse um abraço
Quero que as sinta como fosse um beijo.
496

O POETA-ESCULTOR

A pedra é nobre
mas a mente é pobre...
Cinzel na mão vazia,
martelo de chumbo.
Triste de ti, Pigmalião.
Olha pra dentro
buscando inspiração...
Eureca!
A tua Galatéia
tem cara de escrementos!
386

BALADA PÓS-MODERNA

Fiquei sabendo
que você era rockeira
desejei-te a vida inteira
essa é a hora de tentar.

Eu joguei fora
meus cd's de Fábio Júnior
levo o Ozzy no meu punho
só pra te impressionar.

Só uso preto
se tornou meu pesadelo
ter que cortar o cabelo
ou usar uma outra cor.

Comprei um disco
desse tal de Sex Pistols
meu ouvido não suporta
mas meu coração gostou.

Tomei uísque
tomei pinga, tomei vinho
transformei o meu caminho
onde o vinho me conduz.

Virei ateu,
virei gnóstico, budista,
só não quis deixar na vista
que meu nome era Jesus.

Fiquei com medo
de escrever-te uma poesia
pois tão grande é a agonia
que me causa teu amor.

Roubei uns versos
de Carlos Drummond de Andrade
e disse que era na verdade
Dylan Thomas e Rimbaud.

Fiquei sabendo
que você curte cinema
e pra melhorar o esquema
muita coisa eu assisti.

Eu vi Carlitos
mesmo mudo causar riso,
vi 'Cinema Paradiso'
e Glauber Rocha eu não entendi.

Fiquei pensando
as coincidências que não temos
li 'A Era dos Extremos'
só pra gente debater.

E depois disso
tatuei todo o meu braço,
dei uns tapas no barato
mesmo sem sentir prazer...

Não fiz a barba
pra virar socialista
fiz pose de guitarrista
pra você olhar pra mim.

Pintei uns quadros
pra expor na galeria
mas você sequer os via.
Por que as coisas são assim?

Comprei uns livros
de ciências, de magia,
de história e filosofia
pra poder te emprestar.

Eu fiz uns versos,
inventei uma paranóia,
tentei dar uma de Goya,
fiz sonatas ao luar.

Eu tive amigos,
tive fãs e seguidores,
tive amores, tive dores,
mas você nunca terei.

Eu já sabia
meu destino era maldito
já dizia Raulzito:
Sou cowboy fora da lei.
444

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