Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

O POETA-ESCULTOR

A pedra é nobre
mas a mente é pobre...
Cinzel na mão vazia,
martelo de chumbo.
Triste de ti, Pigmalião.
Olha pra dentro
buscando inspiração...
Eureca!
A tua Galatéia
tem cara de escrementos!
386

SONETO

Tem palavras que são tão carinhosas
Que quase as sinto me tocando a face
Com dedos tímidos e adolescentes
Percorrendo, medrosas, minha tez.

Tem palavras que o vento não carrega
Mas mesmo impressas tem o mesmo efeito
De um lânguido sussurro ao pé do ouvido
Ou de um olhar sincero e imaculado

Tem palavras tão ternas quanto o afago
Da mão, que sequiosa de desejos,
Tem que conter-se em escrever poemas.

Quando pousares teu olhar nas minhas
Quero que as leia como fosse um abraço
Quero que as sinta como fosse um beijo.
496

A MENINA DOS PÁSSAROS

Quem sabe o que existe além
Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar?
Talvez o tesouro de algum deus incauto
Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.

Aonde hão de nos levar esses carinhos
Que a mão etérea ensaia em pensamentos?
Alguns sonhos são como flores espinhosas,
Forjados no coração de fogo das estrelas,
Crescendo no peito inebriado de dor.

Eu gostaria de dizer que vou seguindo
Mas os meus olhos estão abertos
E o meu amor é triste como a onda
Que inutilmente se atira nos rochedos
Ou como os portos sombrios onde os barcos
Sempre partem cobertos de silêncio.

No entanto uma menina emerge da neblina
E há nos seus olhos a dor do entardecer:
A esperança é uma explosão de negros pássaros
Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
481

O TEU AMOR

Para Jociane Macedo

De tantas coisas quantas há no mundo
Ou que sonharam antigos visionários,
De tantos entes quantos há no Empíreo
Ou substantivos que há nos dicionários,

De tantas coisas que, no tédio infindo
De Deus tiveram sua criação,
De tantas coisas que, nos seus esforços
Alcançar possa a imaginação,

De tantas coisas que em mistérios dormem
E as palavras não podem nomear
Somente o teu amor é meu anseio
E em teu abraço posso descansar.

Se tudo isso a mim fosse ofertado
E eu não tivesse o teu amor comigo
De nada serviriam tais agrados
Seria como eu me tornar mendigo

Mas mesmo que eu não tenha nada disso
Se eu tiver ao meu lado o teu amor
Nenhum estoico é mais feliz que eu
E nenhum rei mais rico do que eu sou.
456

A NOITE MAIS DENSA

A noite era densa.
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.

A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão

A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
362

EU NUNCA DISSE QUE TE AMO

Eu nunca disse que te amo
Mas muita força as prende aqui
Domá-las como um bicho
Prendê-las antes que desaguem
No intervalo de um beijo
Rumo ao mar amargo do remorso.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O preço que se paga pelo apego
Substantivamente as mãos procuram
No escuro, a doce fantasia
Do afago proibido

Este é o caminho sem volta
E nunca a mesma chuva
Lava o solo queimado de sol
E nunca o mesmo nunca
Pousa no ouvido sempre virgem.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O nome desse pulso febril que me enfraquece
Sinto apenas no ardor desta manhã
Uma tristeza e uma dor crepuscular
Como quem segue viagem logo cedo
Com saudade e sem pressa de chegar.
394

SONETO 666

Anjo caído da suprema altura,
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.

Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.

Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,

Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
468

ENTARDECER

Nada de novo canta a voz
do vento
Uma velha canção
Que já encontrou seu tema

Nada é tão duro
quanto o tempo
- Um bicho que vem
Da profundeza das eras
Rumando em trilhos obscuros

De que me nasce esta saudade?
Pássaro de ferro
que não conhece nada
a não ser a cor do mar
se dissolvendo em pedras.

Quisera não ser fraco,
não ter o chão de vidro
quisera ter a força
das árvores
que desfalecem em pé

E os dias seguem ruminando tudo
pintando as minhas têmporas
com o gris das mágoas
As minhas têmporas...
querem sentir o sabor
de uma pistola.
376

DON JUAN

Permita apresentar-me, bela senhorita.
Eu venho de outros tempos, de terras inauditas.
Sou filho da chama mais quente que existe.
A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.

Trago na boca o gosto dos mares onde vivo,
As vagas escalando, deles sou cativo
Como um fantasma vagando pelos portos,
Mas trago em mim uma porção de dias mortos.

Quando o pulso febril no corpo arde
E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde,
Espalhando no mundo a solidão e o frio,
Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.

Nessas horas cruéis o que minh’alma quer
É apenas tua forma linda de mulher.
Quando a angústia crescer minh’alma sente
Meu coração deseja a tua boca ardente.

Tal como o beija-flor do néctar suculento
Da tua beleza vivo e dela me alimento
E como fosse o fôlego da vida humana
Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.

Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor.
Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
439

AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS

Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina.
Amo o pássaro que abandona o bando
para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos.
Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada.
Amo os barcos que partem na escuridão,
antes que as casas despertem do seu sono.
Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta,
tendo por companheira somente a própria sombra.
Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim.
Amo o lobo que se afasta da matilha
para se embriagar com as luzes do luar.
Amo a estrela que mantem-se acesa
Antes de ser despedaçada pela escuridão.
Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo
Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda.
Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa
E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço
Sua torrente de cores e movimentações.
Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento
E amo a vela temerária que desafia a tempestade.
Amo o silêncio da enorme noite cósmica
Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos.
Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos
e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia.
Amo o vulto silente que passa nos campos desolados
e que se alegra e ri consigo mesmo.
Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta,
o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada,
o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza.
Só amo a estrela que se reconhece estrela
e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar.
Só amo aqueles que amam a própria solidão.
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