Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

SONETO 666

Anjo caído da suprema altura,
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.

Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.

Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,

Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
467

TRISTEZA

Ando ferido de mortal tristeza.
De uma tristeza funda e sem sentido
Como se no meu peito dolorido
Um punhal se cravasse com frieza.

A tua mão é bálsamo e alento
Para a minha alma triste e angustiada,
Quando, sozinha, ela sonha o Nada,
Querendo as lajes ao sabor do vento.

Minha tristeza é noite que se esfuma
E dilacera as fibras, uma a uma,
De um coração que vive insatisfeito.

Mas teu amor é luz imaculada,
É faca que degola a madrugada,
Alvorada que explode no meu peito.
393

SONETO DO AMOR VAGABUNDO

'Meu coração vagabundo

Quer guardar o mundo em mim'

(Caetano Veloso)


Tão grande é o meu amor para entregá-lo

A uma pessoa só no vasto mundo.

Não pode do luar o branco halo

Esgotar a si próprio num segundo,


Nem pode o grande Sol iluminar

Na Terra inteira um único vivente,

Tampouco poderia ser o mar

De apenas uma nau benemerente.


Não chame o meu amor de falsidade

Pois nunca ouvirá maior verdade

De alguma outra pessoa neste mundo.


Por isso que esta noite eu te dedico,

Nos versos de um soneto impudico,

Meu coração, embora vagabundo.

605

MOÇA DOS OLHOS DE CHUVA

Para Amanda Santos


Moça dos olhos de chuva,
Pra onde levas, assim, meu coração?
Fardo cruel que trago no peito
E que carrego por caminhos onde a luz jamais pisou.
Para onde o levas? Que obscuros mistérios
Movem de tal forma tua mão involuntária?

Moça dos olhos de chuva, do rosto de neve,
Por mil noites vaguei na sombra silenciosa do tempo
E ouvi a voz austera do vento de Março
Soprando pelos corredores da mansão do medo
Para onde me arrastas. Rumino, a um canto, a conclusão:
Minha alma não paga esse sequestro...

Moça dos olhos de chuva e do sorriso de Sol,
O mundo inteiro jaz no simples gesto
De derramar nos meus ouvidos lassos
A doce canção da tua voz. No entanto
A paz é fuzilada. Caminha, tropeça, morre
Nos campos onde sempre é dia de finados.

Moça dos olhos de chuva, dos olhos imensos,
Profundos como o céu e repletos de perigo
Como as entranhas dos vastos oceanos.
Quero por eles lançar minhas velas em chamas
Mesmo que o naufrágio seja a única promessa.
O mundo inteiro jaz no teu sorriso...

Moça dos olhos de chuva, a tempestade anuncia
A completa ruína das muralhas de outrora.
A tristeza das horas fica gravada pelo gesto frio
De entalhar teu nome nas pedras do tempo
Enquanto observo teu vulto se distanciando
Como uma ave que se dissolve em pleno voo.

Moça dos olhos de chuva, derrame sobre o campo
Onde plantei a semente da minha ternura
Esses raios de luz do teu olhar
Que atravessam meu peito como flechas de saudade.
373

MADRIGAL III

O teu sorriso é lindo como a aurora
Que fende a noite qual dourada espada,
Como a esperança que eu tivera outrora
Mas que deixei nalgum lugar da estrada.

O teu sorriso é lindo como o Sol
Quando dispersa as sombras de manhã
E espalha as rubras luzes do arrebol
Iluminando a minha vida vã.

O teu sorriso é lindo como a rosa
Que, na clara manhã de primavera
Desata as rubras pétalas, viçosa,
Enchendo de beleza a atmosfera.

O teu sorriso é como a primavera
Cobrindo o mundo de perfume e cores
E por teu riso assim se prolifera
Todas as ânsias de sutis amores.

Quisera eu ser razão de tal sorriso.
Tudo faria por esse troféu.
Eu poderia, sem pesar nem siso,
Descer ao inferno ou escalar o céu.

460

A NOITE MAIS DENSA

A noite era densa.
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.

A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão

A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
360

SILÊNCIO

As estrelas
São gotas de tristeza
No céu

Os versos
São marcas de silêncio
No papel.
357

ESPELHO FALSO

Meu olhar é uma vela no escuro
Um tiro no muro
Que me faz dizer não.

É um espelho que mente
Como flores de sangue
Espalhadas no chão.

Mas a farsa sincera
Desta falsa mentira
Na verdade é um véu.

Meu olhar é sem igual
- toupeira transcendental
Cavando buracos no céu.


380

BALADA PÓS-ROMÂNTICA

Para Rafaela Duccini


Ela chegou de repente
Onde há tempos estava
Expulsando a sujeira
E o vazio da casa

Só vivia escondida
Nesses cantos da vida
E sofrendo calada
E chorando sozinha

A menina era bela
E estes olhos sabiam
Mas não olhavam pra ela
Como deveriam

E ela andava na noite
E cantava e sorria
Sua rara alegria
Qual se fosse madura

Como tudo era breve
Mais que a brisa mais leve
Seu amor tão escasso
Era breve também.

Não sei como eu sabia
Que da força do dia
Vinha um raio mais claro
Me fazendo ir além

Da distância tão grande,
Das florestas, dos montes
E de mil horizontes
Que zombavam de mim.

Ela era tão linda
E estes olhos sabiam
Que era assas perigoso
Encara-la nos olhos.

Como a chuva que chega
Numa tarde de sol,
Como um barco que avista
De repente um farol,

Assim foi que ela veio
Onde há tempos estava,
Libertando minha alma
De tristezas escrava.

Mas uma coisa ficou
Nos seus olhos sombrios:
Seu coração é um porto alegre
Onde só cabem dois navios.

Mas ela era tão linda
E meu coração sabia
Quem sem ela por perto
Eu não mais viveria.

Mesmo estando tão triste
Como um rio sem leito
A lembrança no peito
Concedeu-me o perdão.

Ela foi se aninhando
Onde nada restava,
Anulando a tristeza
E o vazio da alma.

Ela é um receio
Que me torna mais forte.
Ela é minha vida
E também minha morte.

Ela é minhas asas
Quando pairo no ar...
Ela é, ela foi,
Ela sempre será.

Mas uma coisa ficou
Em mim sem ela saber:
Seu abraço é a terra
Onde eu hei de morrer...
468

O MARTELO DAS BRUXAS

Não hei de ser um boi
Perdido no campo
Do antes e agora

Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento

Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso

Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...

Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?

Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas

Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
327

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