Lista de Poemas
EU NUNCA DISSE QUE TE AMO
Mas muita força as prende aqui
Domá-las como um bicho
Prendê-las antes que desaguem
No intervalo de um beijo
Rumo ao mar amargo do remorso.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O preço que se paga pelo apego
Substantivamente as mãos procuram
No escuro, a doce fantasia
Do afago proibido
Este é o caminho sem volta
E nunca a mesma chuva
Lava o solo queimado de sol
E nunca o mesmo nunca
Pousa no ouvido sempre virgem.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O nome desse pulso febril que me enfraquece
Sinto apenas no ardor desta manhã
Uma tristeza e uma dor crepuscular
Como quem segue viagem logo cedo
Com saudade e sem pressa de chegar.
SONETO 666
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.
Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.
Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,
Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
A NOITE MAIS DENSA
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.
A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão
A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
O POETA-ESCULTOR
mas a mente é pobre...
Cinzel na mão vazia,
martelo de chumbo.
Triste de ti, Pigmalião.
Olha pra dentro
buscando inspiração...
Eureca!
A tua Galatéia
tem cara de escrementos!
A MENINA DOS PÁSSAROS
Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar?
Talvez o tesouro de algum deus incauto
Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.
Aonde hão de nos levar esses carinhos
Que a mão etérea ensaia em pensamentos?
Alguns sonhos são como flores espinhosas,
Forjados no coração de fogo das estrelas,
Crescendo no peito inebriado de dor.
Eu gostaria de dizer que vou seguindo
Mas os meus olhos estão abertos
E o meu amor é triste como a onda
Que inutilmente se atira nos rochedos
Ou como os portos sombrios onde os barcos
Sempre partem cobertos de silêncio.
No entanto uma menina emerge da neblina
E há nos seus olhos a dor do entardecer:
A esperança é uma explosão de negros pássaros
Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
O TEU LUGAR
Para Kalinina Sampaio
Na violenta agitação do mar.
Encontrei-te impressa nessas pedras
Que onda nenhuma consegue perfurar.
Escuto a tua voz, mas não consigo
Achá-la nesses campos tortuosos
Onde as cores desvanecem com um aceno
E se desmontam com os primeiros raios da alvorada.
Tu não estás no vendaval
Que sai decapitando as roseiras, nem tampouco
Na corrente do rio que tudo afoga.
Em vão rasgaria o tecido do espaço
E inclinaria o olhar para a casa dos deuses:
Veria berços vazios e covas lotadas,
Um relógio vomitado pelo acaso,
Astros que seguem caminhando sem guia...
Tu não estás lá.
Não te encontras no rol das estrelas de gelo
Nem das flores de fogo, que são filhas do tempo.
Não estás neste solo que piso
Como fosse de vidro, ou de nuvens, talvez.
Teu lugar é ali, onde os números reinam.
Na dimensão dos átomos sem massa,
Nas margens do curso do tempo,
Entre a página onze e doze da Odisseia.
Teu nome está escrito com uma tinta indelével
Na parte mais profunda do meu coração
NECROFILIA
Leitores vasculham cemitérios,
Livros são lápides eloqüentes,
levam resíduos de poeta nos dentes.
Leitores vasculham bibliotecas,
comem defuntos com os olhos,
vomitam versos de outrora.
Poetas amam a vida, bebem a vida.
Tem olhos voltados para frente,
abrem caminho no escuro.
Poetas amam a vida, bebem a vida.
Comem defuntos
ocasionalmente.
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo o pássaro que abandona o bando
para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos.
Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada.
Amo os barcos que partem na escuridão,
antes que as casas despertem do seu sono.
Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta,
tendo por companheira somente a própria sombra.
Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim.
Amo o lobo que se afasta da matilha
para se embriagar com as luzes do luar.
Amo a estrela que mantem-se acesa
Antes de ser despedaçada pela escuridão.
Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo
Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda.
Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa
E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço
Sua torrente de cores e movimentações.
Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento
E amo a vela temerária que desafia a tempestade.
Amo o silêncio da enorme noite cósmica
Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos.
Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos
e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia.
Amo o vulto silente que passa nos campos desolados
e que se alegra e ri consigo mesmo.
Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta,
o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada,
o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza.
Só amo a estrela que se reconhece estrela
e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar.
Só amo aqueles que amam a própria solidão.
EU NÃO TE AMO!
A presença real do ser amado.
Se é sentir no afago derradeiro
O seio para sempre magoado.
Se é dar suspiros tristes ao luar
Pela flor morta a estremecer num ramo.
Se é uma outra alma escravizar
Então, sinceramente, eu não te amo!
Porque o que sinto é muito mais que isso.
Não é manter teu coração submisso
E nem gravar em mim esta ferida.
Se é desejar felicidade plena,
Mesmo que a minha seja tão pequena,
Outra pessoa nunca amei na vida.
SONETO DO AMOR VAGABUNDO
'Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim'
(Caetano Veloso)
Tão grande é o meu amor para entregá-lo
A uma pessoa só no vasto mundo.
Não pode do luar o branco halo
Esgotar a si próprio num segundo,
Nem pode o grande Sol iluminar
Na Terra inteira um único vivente,
Tampouco poderia ser o mar
De apenas uma nau benemerente.
Não chame o meu amor de falsidade
Pois nunca ouvirá maior verdade
De alguma outra pessoa neste mundo.
Por isso que esta noite eu te dedico,
Nos versos de um soneto impudico,
Meu coração, embora vagabundo.
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