A pedra é nobre mas a mente é pobre... Cinzel na mão vazia, martelo de chumbo. Triste de ti, Pigmalião. Olha pra dentro buscando inspiração... Eureca! A tua Galatéia tem cara de escrementos!
386
SONETO
Tem palavras que são tão carinhosas Que quase as sinto me tocando a face Com dedos tímidos e adolescentes Percorrendo, medrosas, minha tez.
Tem palavras que o vento não carrega Mas mesmo impressas tem o mesmo efeito De um lânguido sussurro ao pé do ouvido Ou de um olhar sincero e imaculado
Tem palavras tão ternas quanto o afago Da mão, que sequiosa de desejos, Tem que conter-se em escrever poemas.
Quando pousares teu olhar nas minhas Quero que as leia como fosse um abraço Quero que as sinta como fosse um beijo.
496
A MENINA DOS PÁSSAROS
Quem sabe o que existe além Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar? Talvez o tesouro de algum deus incauto Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.
Aonde hão de nos levar esses carinhos Que a mão etérea ensaia em pensamentos? Alguns sonhos são como flores espinhosas, Forjados no coração de fogo das estrelas, Crescendo no peito inebriado de dor.
Eu gostaria de dizer que vou seguindo Mas os meus olhos estão abertos E o meu amor é triste como a onda Que inutilmente se atira nos rochedos Ou como os portos sombrios onde os barcos Sempre partem cobertos de silêncio.
No entanto uma menina emerge da neblina E há nos seus olhos a dor do entardecer: A esperança é uma explosão de negros pássaros Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
481
O TEU AMOR
Para Jociane Macedo
De tantas coisas quantas há no mundo Ou que sonharam antigos visionários, De tantos entes quantos há no Empíreo Ou substantivos que há nos dicionários,
De tantas coisas que, no tédio infindo De Deus tiveram sua criação, De tantas coisas que, nos seus esforços Alcançar possa a imaginação,
De tantas coisas que em mistérios dormem E as palavras não podem nomear Somente o teu amor é meu anseio E em teu abraço posso descansar.
Se tudo isso a mim fosse ofertado E eu não tivesse o teu amor comigo De nada serviriam tais agrados Seria como eu me tornar mendigo
Mas mesmo que eu não tenha nada disso Se eu tiver ao meu lado o teu amor Nenhum estoico é mais feliz que eu E nenhum rei mais rico do que eu sou.
456
A NOITE MAIS DENSA
A noite era densa. As estrelas choravam Suas lágrimas de prata sobre o mar E eu pendurava os peixes Nos degraus da Lua.
A noite era densa... Mais do que isso, era imensa, Dentro dela os corações se congelavam Enquanto eu regava pequenas esperanças Que conduzo pela mão
A noite era densa Os postes rezavam em silêncio Todos os caminhos convergiam Para as janelas dos apartamentos. E eu te falava Sobre a graça indizível De ser infeliz
362
EU NUNCA DISSE QUE TE AMO
Eu nunca disse que te amo Mas muita força as prende aqui Domá-las como um bicho Prendê-las antes que desaguem No intervalo de um beijo Rumo ao mar amargo do remorso.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba O preço que se paga pelo apego Substantivamente as mãos procuram No escuro, a doce fantasia Do afago proibido
Este é o caminho sem volta E nunca a mesma chuva Lava o solo queimado de sol E nunca o mesmo nunca Pousa no ouvido sempre virgem.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba O nome desse pulso febril que me enfraquece Sinto apenas no ardor desta manhã Uma tristeza e uma dor crepuscular Como quem segue viagem logo cedo Com saudade e sem pressa de chegar.
394
SONETO 666
Anjo caído da suprema altura, Gênio das artes, da Sabedoria, Invoco o esplendor da tua figura, Enchei minha caveira de Poesia.
Anjo exilado, Pai da Rebeldia, Somos iguais, Irmãos na Desventura. Eu, que oscilo entre a vida tão vazia E a solidão atroz da sepultura.
Anjo de luz e de clarões sidéreos, Conheces os mais íntimos mistérios Que encerram as fronteiras do Universo,
Mostra o caminho para eu ir além... A inspiração que só de Ti provém... Dai o toque de Midas no meu verso.
468
ENTARDECER
Nada de novo canta a voz do vento Uma velha canção Que já encontrou seu tema
Nada é tão duro quanto o tempo - Um bicho que vem Da profundeza das eras Rumando em trilhos obscuros
De que me nasce esta saudade? Pássaro de ferro que não conhece nada a não ser a cor do mar se dissolvendo em pedras.
Quisera não ser fraco, não ter o chão de vidro quisera ter a força das árvores que desfalecem em pé
E os dias seguem ruminando tudo pintando as minhas têmporas com o gris das mágoas As minhas têmporas... querem sentir o sabor de uma pistola.
376
DON JUAN
Permita apresentar-me, bela senhorita. Eu venho de outros tempos, de terras inauditas. Sou filho da chama mais quente que existe. A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.
Trago na boca o gosto dos mares onde vivo, As vagas escalando, deles sou cativo Como um fantasma vagando pelos portos, Mas trago em mim uma porção de dias mortos.
Quando o pulso febril no corpo arde E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde, Espalhando no mundo a solidão e o frio, Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.
Nessas horas cruéis o que minh’alma quer É apenas tua forma linda de mulher. Quando a angústia crescer minh’alma sente Meu coração deseja a tua boca ardente.
Tal como o beija-flor do néctar suculento Da tua beleza vivo e dela me alimento E como fosse o fôlego da vida humana Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.
Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor. Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
439
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina. Amo o pássaro que abandona o bando para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos. Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada. Amo os barcos que partem na escuridão, antes que as casas despertem do seu sono. Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta, tendo por companheira somente a própria sombra. Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim. Amo o lobo que se afasta da matilha para se embriagar com as luzes do luar. Amo a estrela que mantem-se acesa Antes de ser despedaçada pela escuridão. Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda. Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço Sua torrente de cores e movimentações. Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento E amo a vela temerária que desafia a tempestade. Amo o silêncio da enorme noite cósmica Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos. Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia. Amo o vulto silente que passa nos campos desolados e que se alegra e ri consigo mesmo. Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta, o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada, o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza. Só amo a estrela que se reconhece estrela e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar. Só amo aqueles que amam a própria solidão.