A noite era densa. As estrelas choravam Suas lágrimas de prata sobre o mar E eu pendurava os peixes Nos degraus da Lua.
A noite era densa... Mais do que isso, era imensa, Dentro dela os corações se congelavam Enquanto eu regava pequenas esperanças Que conduzo pela mão
A noite era densa Os postes rezavam em silêncio Todos os caminhos convergiam Para as janelas dos apartamentos. E eu te falava Sobre a graça indizível De ser infeliz
362
MADRIGAL III
O teu sorriso é lindo como a aurora Que fende a noite qual dourada espada, Como a esperança que eu tivera outrora Mas que deixei nalgum lugar da estrada.
O teu sorriso é lindo como o Sol Quando dispersa as sombras de manhã E espalha as rubras luzes do arrebol Iluminando a minha vida vã.
O teu sorriso é lindo como a rosa Que, na clara manhã de primavera Desata as rubras pétalas, viçosa, Enchendo de beleza a atmosfera.
O teu sorriso é como a primavera Cobrindo o mundo de perfume e cores E por teu riso assim se prolifera Todas as ânsias de sutis amores.
Quisera eu ser razão de tal sorriso. Tudo faria por esse troféu. Eu poderia, sem pesar nem siso, Descer ao inferno ou escalar o céu.
462
O TEU AMOR
Para Jociane Macedo
De tantas coisas quantas há no mundo Ou que sonharam antigos visionários, De tantos entes quantos há no Empíreo Ou substantivos que há nos dicionários,
De tantas coisas que, no tédio infindo De Deus tiveram sua criação, De tantas coisas que, nos seus esforços Alcançar possa a imaginação,
De tantas coisas que em mistérios dormem E as palavras não podem nomear Somente o teu amor é meu anseio E em teu abraço posso descansar.
Se tudo isso a mim fosse ofertado E eu não tivesse o teu amor comigo De nada serviriam tais agrados Seria como eu me tornar mendigo
Mas mesmo que eu não tenha nada disso Se eu tiver ao meu lado o teu amor Nenhum estoico é mais feliz que eu E nenhum rei mais rico do que eu sou.
456
ESPELHO FALSO
Meu olhar é uma vela no escuro Um tiro no muro Que me faz dizer não.
É um espelho que mente Como flores de sangue Espalhadas no chão.
Mas a farsa sincera Desta falsa mentira Na verdade é um véu.
Meu olhar é sem igual - toupeira transcendental Cavando buracos no céu.
381
TRISTEZA
Ando ferido de mortal tristeza. De uma tristeza funda e sem sentido Como se no meu peito dolorido Um punhal se cravasse com frieza.
A tua mão é bálsamo e alento Para a minha alma triste e angustiada, Quando, sozinha, ela sonha o Nada, Querendo as lajes ao sabor do vento.
Minha tristeza é noite que se esfuma E dilacera as fibras, uma a uma, De um coração que vive insatisfeito.
Mas teu amor é luz imaculada, É faca que degola a madrugada, Alvorada que explode no meu peito.
394
A UM SUICIDA
'Ele apenas acordou do sonho da existência'
(Shelley)
'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'
(Dylan Thomas)
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste encarar
A infinita imensidão do Nada.
Eu poderia
Chamar-te fraco
Mas o que sei sobre a força
Quando mal consigo
Suportar o peso das lágrimas?
Só tu conheces tua dor
E ela ficou cerrada em teu esquife
Muda como uma esfinge
Misteriosa como um bruxo
Cortaste as veias
Como a navalha da aurora
Corta a madrugada
O que pensaste nesse instante?
Se a esperança te levou
Ou se por ela foste abandonado
Nunca saberemos
Sei que me abandonaste
Neste mundo cruel e sem sentido
Sendo refém do tempo
Que dissolve todas as alegrias
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste engrossar
As fileiras dos suicidas
Não apertaste contra as têmporas
O estampido rouco de um gatilho
Nem como Sócrates
Ingeriste veneno
Mas te rendeste
À magnética atração do Nada.
413
QUANDO OS CORVOS CHORAM
Quando ele estende A negra envergadura Sobre a face do abismo E o gosto das alturas Definha no seu peito, É hora de dizer adeus.
Quando a noite não traz Na fria face de breu A recôndita ausência Dos males do mundo. É hora de dizer adeus.
Quando ele vê brotar No coração afeito à luta Uma dor maior que o suportável E vê rolar na face A lágrima de ferro, É hora de dizer adeus...
Quando até mesmo o céu Lhe nega o refrigério Que, malogrado, desistiu De procurar na terra, É hora de dizer adeus...
Mas não! É cedo! Inda nem desmaiou a luz do dia... Mas quando até mesmo os corvos choram, Querida, é hora de dizer adeus.
438
A NOITE
Sinto a noite crespar-se no meu peito E alongar seus dedos dolorosos Por meus cabelos já esbranquiçados E por meus ossos, trêmulos, de vidro. Sinto a noite, seu ósculo gelado Selando a clara e morna tarde de estio E atrás de si, seus cavaleiros Virem, a tropel, em seus cavalos negros Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão Da velha casa abandonada do meu coração, Roendo as paredes cobertas de lodo, Os velhos retratos que o tempo Teve o devido cuidado De deixar somente as lembranças, As duras linhas onde eu escrevi Os primeiros poemas, Meus livros - a porta sempre aberta Para o refúgio de ideias e palavras, Sinto a noite roer meus paradigmas, Minha infância, meu primeiro beijo, Tímido e amedrontado, Meus sonhos, minhas crenças E tudo que não possa ser vendido Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos, A longa trilha dos meus devaneios, Sinto a noite apagar a minha história Enquanto multiplica meus aniversários, E como consequência de tal sequestro Já não me reconheço para além desta angústia. Sinto a noite apagar meus anseios, Meu amor, minha vontade de viver. Somente essa saudade não se apaga, Essa saudade de tudo que não foi.
408
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina. Amo o pássaro que abandona o bando para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos. Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada. Amo os barcos que partem na escuridão, antes que as casas despertem do seu sono. Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta, tendo por companheira somente a própria sombra. Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim. Amo o lobo que se afasta da matilha para se embriagar com as luzes do luar. Amo a estrela que mantem-se acesa Antes de ser despedaçada pela escuridão. Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda. Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço Sua torrente de cores e movimentações. Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento E amo a vela temerária que desafia a tempestade. Amo o silêncio da enorme noite cósmica Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos. Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia. Amo o vulto silente que passa nos campos desolados e que se alegra e ri consigo mesmo. Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta, o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada, o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza. Só amo a estrela que se reconhece estrela e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar. Só amo aqueles que amam a própria solidão.