Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

SILÊNCIO

As estrelas
São gotas de tristeza
No céu

Os versos
São marcas de silêncio
No papel.
358

A NOITE MAIS DENSA

A noite era densa.
As estrelas choravam
Suas lágrimas de prata sobre o mar
E eu pendurava os peixes
Nos degraus da Lua.

A noite era densa...
Mais do que isso, era imensa,
Dentro dela os corações se congelavam
Enquanto eu regava pequenas esperanças
Que conduzo pela mão

A noite era densa
Os postes rezavam em silêncio
Todos os caminhos convergiam
Para as janelas dos apartamentos.
E eu te falava
Sobre a graça indizível
De ser infeliz
362

MADRIGAL III

O teu sorriso é lindo como a aurora
Que fende a noite qual dourada espada,
Como a esperança que eu tivera outrora
Mas que deixei nalgum lugar da estrada.

O teu sorriso é lindo como o Sol
Quando dispersa as sombras de manhã
E espalha as rubras luzes do arrebol
Iluminando a minha vida vã.

O teu sorriso é lindo como a rosa
Que, na clara manhã de primavera
Desata as rubras pétalas, viçosa,
Enchendo de beleza a atmosfera.

O teu sorriso é como a primavera
Cobrindo o mundo de perfume e cores
E por teu riso assim se prolifera
Todas as ânsias de sutis amores.

Quisera eu ser razão de tal sorriso.
Tudo faria por esse troféu.
Eu poderia, sem pesar nem siso,
Descer ao inferno ou escalar o céu.

462

O TEU AMOR

Para Jociane Macedo

De tantas coisas quantas há no mundo
Ou que sonharam antigos visionários,
De tantos entes quantos há no Empíreo
Ou substantivos que há nos dicionários,

De tantas coisas que, no tédio infindo
De Deus tiveram sua criação,
De tantas coisas que, nos seus esforços
Alcançar possa a imaginação,

De tantas coisas que em mistérios dormem
E as palavras não podem nomear
Somente o teu amor é meu anseio
E em teu abraço posso descansar.

Se tudo isso a mim fosse ofertado
E eu não tivesse o teu amor comigo
De nada serviriam tais agrados
Seria como eu me tornar mendigo

Mas mesmo que eu não tenha nada disso
Se eu tiver ao meu lado o teu amor
Nenhum estoico é mais feliz que eu
E nenhum rei mais rico do que eu sou.
456

ESPELHO FALSO

Meu olhar é uma vela no escuro
Um tiro no muro
Que me faz dizer não.

É um espelho que mente
Como flores de sangue
Espalhadas no chão.

Mas a farsa sincera
Desta falsa mentira
Na verdade é um véu.

Meu olhar é sem igual
- toupeira transcendental
Cavando buracos no céu.


381

TRISTEZA

Ando ferido de mortal tristeza.
De uma tristeza funda e sem sentido
Como se no meu peito dolorido
Um punhal se cravasse com frieza.

A tua mão é bálsamo e alento
Para a minha alma triste e angustiada,
Quando, sozinha, ela sonha o Nada,
Querendo as lajes ao sabor do vento.

Minha tristeza é noite que se esfuma
E dilacera as fibras, uma a uma,
De um coração que vive insatisfeito.

Mas teu amor é luz imaculada,
É faca que degola a madrugada,
Alvorada que explode no meu peito.
394

A UM SUICIDA

'Ele apenas acordou do sonho da existência'

(Shelley)


'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'

(Dylan Thomas)


Poderias ter ficado

Mas em vez disso

Escolheste encarar

A infinita imensidão do Nada.


Eu poderia

Chamar-te fraco

Mas o que sei sobre a força

Quando mal consigo

Suportar o peso das lágrimas?


Só tu conheces tua dor

E ela ficou cerrada em teu esquife

Muda como uma esfinge

Misteriosa como um bruxo


Cortaste as veias

Como a navalha da aurora

Corta a madrugada

O que pensaste nesse instante?

Se a esperança te levou

Ou se por ela foste abandonado

Nunca saberemos


Sei que me abandonaste

Neste mundo cruel e sem sentido

Sendo refém do tempo

Que dissolve todas as alegrias


Poderias ter ficado

Mas em vez disso

Escolheste engrossar

As fileiras dos suicidas


Não apertaste contra as têmporas

O estampido rouco de um gatilho

Nem como Sócrates

Ingeriste veneno

Mas te rendeste

À magnética atração do Nada.

413

QUANDO OS CORVOS CHORAM

Quando ele estende
A negra envergadura
Sobre a face do abismo
E o gosto das alturas
Definha no seu peito,
É hora de dizer adeus.

Quando a noite não traz
Na fria face de breu
A recôndita ausência
Dos males do mundo.
É hora de dizer adeus.

Quando ele vê brotar
No coração afeito à luta
Uma dor maior que o suportável
E vê rolar na face
A lágrima de ferro,
É hora de dizer adeus...

Quando até mesmo o céu
Lhe nega o refrigério
Que, malogrado, desistiu
De procurar na terra,
É hora de dizer adeus...

Mas não! É cedo!
Inda nem desmaiou a luz do dia...
Mas quando até mesmo os corvos choram,
Querida, é hora de dizer adeus.
438

A NOITE

Sinto a noite crespar-se no meu peito
E alongar seus dedos dolorosos
Por meus cabelos já esbranquiçados
E por meus ossos, trêmulos, de vidro.
Sinto a noite, seu ósculo gelado
Selando a clara e morna tarde de estio
E atrás de si, seus cavaleiros
Virem, a tropel, em seus cavalos negros
Arrancar de mim os seus despojos.

Sinto a noite crescer na solidão
Da velha casa abandonada do meu coração,
Roendo as paredes cobertas de lodo,
Os velhos retratos que o tempo
Teve o devido cuidado
De deixar somente as lembranças,
As duras linhas onde eu escrevi
Os primeiros poemas,
Meus livros - a porta sempre aberta
Para o refúgio de ideias e palavras,
Sinto a noite roer meus paradigmas,
Minha infância, meu primeiro beijo,
Tímido e amedrontado,
Meus sonhos, minhas crenças
E tudo que não possa ser vendido
Ou sequer trocado.

Sinto a noite apagar meus pensamentos,
A longa trilha dos meus devaneios,
Sinto a noite apagar a minha história
Enquanto multiplica meus aniversários,
E como consequência de tal sequestro
Já não me reconheço para além desta angústia.
Sinto a noite apagar meus anseios,
Meu amor, minha vontade de viver.
Somente essa saudade não se apaga,
Essa saudade de tudo que não foi.
408

AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS

Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina.
Amo o pássaro que abandona o bando
para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos.
Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada.
Amo os barcos que partem na escuridão,
antes que as casas despertem do seu sono.
Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta,
tendo por companheira somente a própria sombra.
Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim.
Amo o lobo que se afasta da matilha
para se embriagar com as luzes do luar.
Amo a estrela que mantem-se acesa
Antes de ser despedaçada pela escuridão.
Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo
Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda.
Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa
E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço
Sua torrente de cores e movimentações.
Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento
E amo a vela temerária que desafia a tempestade.
Amo o silêncio da enorme noite cósmica
Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos.
Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos
e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia.
Amo o vulto silente que passa nos campos desolados
e que se alegra e ri consigo mesmo.
Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta,
o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada,
o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza.
Só amo a estrela que se reconhece estrela
e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar.
Só amo aqueles que amam a própria solidão.
464

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