Lista de Poemas
A UM SUICIDA
'Ele apenas acordou do sonho da existência'
(Shelley)
'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'
(Dylan Thomas)
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste encarar
A infinita imensidão do Nada.
Eu poderia
Chamar-te fraco
Mas o que sei sobre a força
Quando mal consigo
Suportar o peso das lágrimas?
Só tu conheces tua dor
E ela ficou cerrada em teu esquife
Muda como uma esfinge
Misteriosa como um bruxo
Cortaste as veias
Como a navalha da aurora
Corta a madrugada
O que pensaste nesse instante?
Se a esperança te levou
Ou se por ela foste abandonado
Nunca saberemos
Sei que me abandonaste
Neste mundo cruel e sem sentido
Sendo refém do tempo
Que dissolve todas as alegrias
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste engrossar
As fileiras dos suicidas
Não apertaste contra as têmporas
O estampido rouco de um gatilho
Nem como Sócrates
Ingeriste veneno
Mas te rendeste
À magnética atração do Nada.
TRISTEZA
De uma tristeza funda e sem sentido
Como se no meu peito dolorido
Um punhal se cravasse com frieza.
A tua mão é bálsamo e alento
Para a minha alma triste e angustiada,
Quando, sozinha, ela sonha o Nada,
Querendo as lajes ao sabor do vento.
Minha tristeza é noite que se esfuma
E dilacera as fibras, uma a uma,
De um coração que vive insatisfeito.
Mas teu amor é luz imaculada,
É faca que degola a madrugada,
Alvorada que explode no meu peito.
A NOITE
E alongar seus dedos dolorosos
Por meus cabelos já esbranquiçados
E por meus ossos, trêmulos, de vidro.
Sinto a noite, seu ósculo gelado
Selando a clara e morna tarde de estio
E atrás de si, seus cavaleiros
Virem, a tropel, em seus cavalos negros
Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão
Da velha casa abandonada do meu coração,
Roendo as paredes cobertas de lodo,
Os velhos retratos que o tempo
Teve o devido cuidado
De deixar somente as lembranças,
As duras linhas onde eu escrevi
Os primeiros poemas,
Meus livros - a porta sempre aberta
Para o refúgio de ideias e palavras,
Sinto a noite roer meus paradigmas,
Minha infância, meu primeiro beijo,
Tímido e amedrontado,
Meus sonhos, minhas crenças
E tudo que não possa ser vendido
Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos,
A longa trilha dos meus devaneios,
Sinto a noite apagar a minha história
Enquanto multiplica meus aniversários,
E como consequência de tal sequestro
Já não me reconheço para além desta angústia.
Sinto a noite apagar meus anseios,
Meu amor, minha vontade de viver.
Somente essa saudade não se apaga,
Essa saudade de tudo que não foi.
ESPELHO FALSO
Meu olhar é uma vela no escuro
Um tiro no muro
Que me faz dizer não.
É um espelho que mente
Como flores de sangue
Espalhadas no chão.
Mas a farsa sincera
Desta falsa mentira
Na verdade é um véu.
Meu olhar é sem igual
- toupeira transcendental
Cavando buracos no céu.
NÃO FAÇO VERSO EM VÃO
O poema é um pássaro preso numa folha em branco.
Eu fendo a folha, o verso se liberta
E beije a luz.
É preciso escutá-lo e saber se quer sair.
A vida é dura, o amor é pouco e a alegria
Raramente tem me visitado.
Isso é deveras desesperador,
Mas não é motivo para versejar.
Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos,
O beijo dos amores fugidios.
Existe a noite e existe a chuva
Onde consigo esconder meus prantos.
Fazer versos pra que?
Os poemas não nascem quando quero.
Ele fica aqui dentro em silêncio
Germinado quando estou a cismar.
A dor que sinto a cada instante
É a dor de suas asas crescendo.
Eu escuto... ele chora.
Bate com as asas de ferro
Nas paredes do meu peito.
Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode.
Ele se livra e me liberta.
DUELO
Armados somente
Com a espada do olhar
Em nosso diálogo
Envolto em silêncio
Travamos duelo
Clarões de relâmpagos
Na escuridão
Quem perde, quem ganha,
Jamais saberemos
Olhares são armas
Que ferem por dentro
E fica o soldado
Sorriso no rosto
Sentindo sua alma
Esquartejada
MOÇA DOS OLHOS DE CHUVA
Para Amanda Santos
Pra onde levas, assim, meu coração?
Fardo cruel que trago no peito
E que carrego por caminhos onde a luz jamais pisou.
Para onde o levas? Que obscuros mistérios
Movem de tal forma tua mão involuntária?
Moça dos olhos de chuva, do rosto de neve,
Por mil noites vaguei na sombra silenciosa do tempo
E ouvi a voz austera do vento de Março
Soprando pelos corredores da mansão do medo
Para onde me arrastas. Rumino, a um canto, a conclusão:
Minha alma não paga esse sequestro...
Moça dos olhos de chuva e do sorriso de Sol,
O mundo inteiro jaz no simples gesto
De derramar nos meus ouvidos lassos
A doce canção da tua voz. No entanto
A paz é fuzilada. Caminha, tropeça, morre
Nos campos onde sempre é dia de finados.
Moça dos olhos de chuva, dos olhos imensos,
Profundos como o céu e repletos de perigo
Como as entranhas dos vastos oceanos.
Quero por eles lançar minhas velas em chamas
Mesmo que o naufrágio seja a única promessa.
O mundo inteiro jaz no teu sorriso...
Moça dos olhos de chuva, a tempestade anuncia
A completa ruína das muralhas de outrora.
A tristeza das horas fica gravada pelo gesto frio
De entalhar teu nome nas pedras do tempo
Enquanto observo teu vulto se distanciando
Como uma ave que se dissolve em pleno voo.
Moça dos olhos de chuva, derrame sobre o campo
Onde plantei a semente da minha ternura
Esses raios de luz do teu olhar
Que atravessam meu peito como flechas de saudade.
SONETO
Que quase as sinto me tocando a face
Com dedos tímidos e adolescentes
Percorrendo, medrosas, minha tez.
Tem palavras que o vento não carrega
Mas mesmo impressas tem o mesmo efeito
De um lânguido sussurro ao pé do ouvido
Ou de um olhar sincero e imaculado
Tem palavras tão ternas quanto o afago
Da mão, que sequiosa de desejos,
Tem que conter-se em escrever poemas.
Quando pousares teu olhar nas minhas
Quero que as leia como fosse um abraço
Quero que as sinta como fosse um beijo.
MADRIGAL III
O teu sorriso é lindo como a aurora
Que fende a noite qual dourada espada,
Como a esperança que eu tivera outrora
Mas que deixei nalgum lugar da estrada.
O teu sorriso é lindo como o Sol
Quando dispersa as sombras de manhã
E espalha as rubras luzes do arrebol
Iluminando a minha vida vã.
O teu sorriso é lindo como a rosa
Que, na clara manhã de primavera
Desata as rubras pétalas, viçosa,
Enchendo de beleza a atmosfera.
O teu sorriso é como a primavera
Cobrindo o mundo de perfume e cores
E por teu riso assim se prolifera
Todas as ânsias de sutis amores.
Quisera eu ser razão de tal sorriso.
Tudo faria por esse troféu.
Eu poderia, sem pesar nem siso,
Descer ao inferno ou escalar o céu.
Comentários (0)
NoComments