Quando eu vejo
Quando eu vejo a imensidão do mar,
Quando eu vejo as suas ondas se erguerem soberanas,
Eu posso sentir a alegria pulsar no meu coração
Como uma criança entusiasmada
Pela surpresa de uma novidade.
Nas suas águas infinitas, no seu sussurro voluptuoso,
Eu então renovo a minh'alma
Na certeza de uma paz interior significativa.
Quando eu vejo o azul do céu
E os raios solares resplandecendo
O verde das árvores, dos outeiros e das campinas,
Bem como toda a natureza circundante,
Eu consigo sentir uma esperança renascendo
Em meio a exuberância de um dia
Límpido e repleto de luminosidade,
De um dia reservado para toda alma onírica.
Quando eu vejo o amor verdadeiro
No coração dos homens íntegros e valentes,
Eu me liberto na contemplação
Da presença da vida ainda tremular...
E então nutro a certeza de que ainda
Vale a pena viver para apreciar com todos os sentidos
O azul do céu, a luz solar, as águas infinitas do mar
E o perfume de toda a natureza ao meu redor.
As nuances da tristeza
Vejo tristeza na alma de uma inocente criança
Deserdada de amor, sonhos e perspectivas.
Vejo tristeza no semblante de quem nunca alcança
O verdadeiro sentido entre tantas tentativas.
Vejo tristeza por trás dos teus belos olhares;
Vejo tristeza nas entrelinhas do teu sorriso refulgente,
Espargindo uma fragrância de ternuras salutares,
Ao mesmo tempo irradiando uma luz tênue e reticente.
A minha tristeza é ver que o espectro da tristeza
É ainda mais intenso nos corações sensíveis,
Nos corações inebriados por sua brutal aspereza.
Sinto tristeza ao contemplar as canções mais incríveis,
Aquelas canções que me edifica com a sua beleza,
Fundindo melodias de tons melancólicos e aprazíveis.
Para sempre
É possível que quase tudo pode se acabar,
Mas esse amor ainda estará guardado
Como uma força que nunca irá se findar
Até a consumação do meu ser sincero e enamorado.
Para sempre permanecerão as suas memórias,
Reinando num lugarzinho secreto do meu coração...
Para sempre os nossos momentos de glórias
Fecundarão a minh'alma com a sua reverberação.
E as suas fragrâncias para sempre ficarão
Descansando em algum recanto do meu ser
Grato pelas alegrias sentidas que se perpetuarão.
É possível que tudo aqui pode envelhecer,
Mas esse amor eu lutarei para a sua preservação
Mesmo quando, como o dia, eu vier a desvanecer.
No meu silêncio
No meu silêncio, eu vejo que sou singular
Na minha estranheza e no que mais amo e aprecio.
Eis que uma nova aspiração tem feito parte do meu viver,
Sem mais precisar olhar com amargor
Para minhas reminiscências lancinantes
E para o que não integra mais o meu mundo.
No meu silêncio, eu aprendo a cada dia
Descansar enquanto oro ao meu Criador.
Eu, quando estou taciturno, me consolo
Na alegria de saber que minha vida é o bem mais precioso
E que nessa minha momentânea solidão eu sou livre
Para os sublimes atos de criar, de sonhar e de meditar.
No meu silêncio, eu descubro
O prazer inocente da poesia ardendo no meu coração
E a lucidez afiada que me abre para a busca
Da verdade que me leva a um grande despertar.
No meu silêncio, eu aprendo a saber quem eu sou
E a jamais abrir mão do que eu acredito para obter aceitação.
Sonhar novamente
Nos momentos de uma inesquecível solitude,
Faço florescer a rosa dos meus sonhos
Enquanto clamo por uma luz de plenitude
Na escuridão dos meus dias mais tristonhos.
No curso de uma vida de angustias lancinantes,
Luto para que os sonhos possam reviver
Esperanças de alvoradas marcantes
Por onde a minh' alma consiga se fortalecer.
As saudades são revividas no reencontro sincero
De duas almas que se amam profundamente;
Assim também são os sonhos em que persevero
Para concretizá-los enquanto bebo na sua nascente.
Como um triste vale de ossos ressequidos
Passíveis de reviverem pelo amor de Deus,
Os mais belos sonhos um dia perdidos
Renascerão como a fé excelsa dos profetas judeus.
Flores da inocência
Nesse mundo caótico e decaído,
As flores da pureza e da inocência fenecem;
Mas ainda assim há um manancial renascido
No íntimo dos que pela fé em Deus se fortalecem.
Nessa era sombria, anuviada pelo engano,
As flores escassas da inocência
Sempre brilham como jóias no triste quotidiano
A fim de irradiarem uma doce cadência.
Quanta pureza e inocência há no brincar
De um gatinho serenamente despreocupado,
Sempre impulsionado pela ânsia de durar!
Quão francamente singelo é o homem habitado
Pela pureza de uma criança com o seu imaginar
Ao ser sempre guiado pela inspiração do elevado!
Ser sábio ante o inevitável
Eu aprendi a encarar com certa ousadia
A face ameaçadora do abismo do inevitável,
Vivendo sobre a aridez de um deserto inexorável
Que me fortaleceu numa angustiante travessia.
Eu aprendi a amar a solidão num dia cinzento
Sem nutrir anseios tão inacessíveis
E nem me desesperar por pessoas incompreensíveis.
É a certeza da morte o meu estranho alento...
Hoje não me atormentam as doces lembranças,
Pois aprendi nesses dias chuvosos a não me lamentar
Ante um passado florido de ilusórias esperanças.
Hoje certamente aprendi a não me abalar
Com as incertezas nesse mundo envolto por mudanças,
Só aprecio a crua verdade que sempre há de me libertar!
A inexorável certeza da morte
A morte desfaz nossas ilusões mais evidentes
E diante dela todas as inseguranças evanescem;
Vivemos, enquanto os sinais do tempo aparecem,
Em despedidas irreversíveis e frequentes.
A vida é uma chama tremulante e incerta,
Enquanto a morte: inevitável é a sua aparição!
E ao olharmos lacrimosos à imensa constelação,
Ínfimos nos sentimos com a nossa alma desperta.
Amar é o objetivo mais elevado da existência,
E a maneira de sermos guiados pela luz da eternidade
É enfrentando a morte com esperança e sapiência.
Sem a consciência plena de nossa mortalidade
E sem o sonho de uma vida em perene permanência,
Quão absurda é uma vida resignada na fatalidade!
Ser sonhador
Ser um perfeito sonhador é, mesmo no exílio, cruzar
As fronteiras do inimaginável
Em busca de um oásis para alimentar
A Sua vida de uma esperança inigualável.
Ser um incansável sonhador é viver de infinda gratidão,
Mesmo numa situação hostil, cheia de insegurança;
E também nunca deixar morrer no coração
O sentido mais elevado para uma vida de perseverança.
Viver como josé no Egito, em terra estranha,
É manter os sonhos e a paz ainda vivos,
Assim como a confiança em Deus manter ganha.
Assim como José em meio aos cativos,
O sonhador crê que vive uma façanha:
Viver na busca de desígnios não esquecidos.
Livremente
Livremente sonhei com o refrigério do amor
Descortinado em dias tristes e nublados;
Mas houve dias em que senti uma lancinante dor
Enquanto livremente bebia no cálice dos enlutados.
Submergindo na lírica dos poetas apaixonados,
Nutri esperança em dissolver o fel do amargor;
Então, livremente sonhei com o refrigério do amor
Descortinado em dias tristes e nublados.
Livremente, plantei sementes de alento com primor,
A fim de fazê-las crescer na alma dos desamparados;
Nas trevas prolongadas sob as ameaças do temor
E nos dias de sonhos e desejos lacerados,
Livremente sonhei com o refrigério do amor.