Lista de Poemas

LÂMINA VII

A partir de seu lado de fora,

na ausência desse objeto
do qual fugimos,

ali, nada mais da imagem existe.

Onde a noite, também ela,
à sua maneira, circula,

as bordas estão desfocadas,
indistintas, móveis.

Para além de suas superfícies,

somos obrigados a permanecer
em silêncio, a olhar reflexos

na água e ela, de costas para nós,

voltada para o mar,
desaparece atrás do que imita.
147

NOTAS SOBRE AS DISTÂNCIAS DA MIOPIA

O olho pode não estar ao avesso,

mas sobre ele se espalha
uma ou outra mosca

a nos dizer que o espaço
é insuficiente e lidar com rostos

não é a mesma coisa
que afugentar fantasmas.

Basta quebrar com os dentes o gelo,
para inserir entre eles

o lado de fora, que se faz dentro,
quando menos se espera,

e dá ordens enquanto
permanece em silêncio.

Nada tão imprevisível
quanto as raízes

que a luz alcança,
ao se despedaçar sobre a retina.
223

A TORTURA DO MEDO

Fazia com que elas
assistissem às suas próprias
mortes.

Armara o espelho
sobre a câmera,
encaixara
a navalha no obturador.

A partir daí,
jamais se renderia ao medo,
pelo contrário,
o ofereceria
como gratidão por todas
as imagens
que recebera,

e, no momento oportuno,
não seria diferente
de nenhuma de suas vítimas,

se entregaria ao seu reflexo,
correria
até ele,
de forma a encontrar
o que nunca tivera.
248

PONTO DE FUGA

A expressão de um impulso,
vestígios que ligam,

desprezam,
fazem colidir e oscilar os corpos
e os movimentos.

Menos sutis
que inquietos, pés imersos no mar
completamente silenciado

como se o esquecimento de ir
os acolhesse sob a perda da proporção,
do definitivo.

Não muito distante
das ondas,

velhos
e crianças guardam
segredos em baldes de areia.

Que idade tinhas
quando o medo chegou?
260

SEM A SUTILEZA DOS CONTORNOS

falta o erro,
se quiser, tem que ser
movimento impreciso

bem no fundo dos olhos,

retorno ao comensurável
sem palpites
acerca do destino,

habitações em penhascos,

pontas de cinismo numa excursão
cênica, paisagem deslocada
com a retina,
222

HAMLET E SEUS PROBLEMAS

Embora depressa se encontre
no seu primeiro esforço

o sentido de resistência
a qualquer forma de aridez,

nenhum de seus gestos
pode interromper a órbita contrária,

o cálculo da lâmina.

Ele sabe: o que serve de suporte
aqui não prevalece,

ver não significa redimir-se.

E ignora: apenas figurantes
cegos garantem que à ação

se imponha outro limite.
269

FALSIFICADORES

O olho não vê
que outro olho, desconcertante,
não justifica a farsa
e, ao menor sinal de arrependimento,
toda evidência precisará ser removida.

Alguns afirmariam que,

nesse caso, o falsificador falhou, ao prover
a realidade com obras desnecessárias
e que existe uma hora
na qual as mãos não devem ser mais rápidas
do que os olhos.

Outros diriam que, entre o oculto
e o quase revelado, o que falta são súbitas faíscas,
sombras na parede,

movimentos inesperados
em plena escuridão,
voláteis a qualquer superfície,
entregues
à surpresa de mãos úmidas
e ainda vazias.
227

MAIS UM DIA EM MINAS

                                                 25/01/2019
Não há mais casas,
distâncias a nos impedir
de precipitarmos
no fundo da terra.

Os olhos correm rio
abaixo. Em breve,
serão memórias
de paredes falsas.

Como a lama
nos tornará mais gentis?
Teremos sede e fome
à nossa disposição?

Ficaremos perdidos
até que as mãos
sejam partes de nada,

os corpos devorem
as ruínas onde se escondem
outras faces, outras
pedras do sol?

Presos, olhamos onde não
podemos ficar,
reflexos sem espelhos,
sob a porta e atravessados por ela.
235

NUA EM SEU VESTIDO DE SEDA

não sabemos o que
ela olha,

sempre de costas
para nós
como se o medo
a permitisse viver
sem escrúpulos,

sem se trair
com objetos
silenciosos,
quase
insignificantes,

ela nos retém
no exato momento
em que tentamos
fugir de toda
sinceridade,
237

NATUREZA-MORTA

eles puxam o gatilho,
mas não há bala nenhuma,
morte
nenhuma, contentam-se,
então, em fazer nada,
não querem ir além da medida
de seus corpos,
não é mais
do que precisam,
embora, por instantes, coincidam
com a própria gravidade
e hesitem em se voltar
para nós
sob pena de perderem
a indiferença,
de se incomodarem com o fato,
por exemplo, de haver lâmpadas
acesas em pleno dia,
como se pudesse fazer a luz
ser mais
do que ela é
contra o vazio de uma mesa,
228

Comentários (1)

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Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!

Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).