Lista de Poemas

MANHÃ

O cheiro de fezes
invade o quarto.

Lá fora,
os cães latem,
rosnam.

Brindariam com sua urina
a dor do orgasmo,

as poses instáveis,

o silêncio
dos reflexos?
174

PEQUENAS EXTENSÕES

O núcleo frio
e denso
do ar vibrante,

ao abrigo dos corpos
como sombras

– os quartos vazios
permanecem
iluminados –

um gesto incompleto
no lugar da noite.
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SEDE

A água no vidro anuncia medo
e um simples movimento dos olhos
cobre nuvens entrecortadas de ambiguidade
e desconforto.
Fingimos que há um rosto para olhar
com a avidez de quem encontra
um sentimento sem solução.
O tempo nos detém,
se faz com o que não faz,
refazendo-se, porém, a cada passo,
por obra de sua própria carência.

De novo, a mesma chuva,
as monótonas linhas
da chuva que consomem o corpo
e criam uma mancha na parede.
Até quando a dor te dará calma?
A mão entre duas faces
como corte que não sangra,
sem a exatidão das formas
na ausência esquecida;
o ar mais frio, o veneno mais
brando ou esta sede através da noite.
256

ANTIMATÉRIA

Talvez seja impossível explicar ao cego
qual o sentido de “to boldly
go where no man has gone before”,
se a legenda antecede todos os movimentos
e não deixa que, clara,
a imagem
se traduza.

Em vão tentaremos descrever a geometria do espaço,
a cor, a forma e a medida das coisas
que se perdem no feixe
de luz. É sempre abstrato
transmitir a sensação de ver
a matéria desintegrando-se, sem lamento,
e impalpável aparecer em outro lugar.

Poderíamos assustá-lo com alguma dor.
Mas o universo não cessa. As imperfeições ultrapassam
os efeitos
e as passagens estreitas mostram que, quando um objeto
envelhece, por dentro
o silêncio supera
o medo.

Isso não quer dizer que expomos nossos corpos ao sol.
206

ASSIM COMO ESTÁ

Não se veem os objetos
que ocupam o quarto.

Barcos e reflexos,

até quando os corpos
ao longo da praia,
distantes das cordas presas
à água?

Sal nas feridas,
margens cortadas
ainda visíveis,

(ninguém diz quanto
de espaço se perdeu).
212

RÉQUIEM PARA DIANE ARBUS

I

A relevância do tema pouco importa?

Não sabe, não
pode dizer. Diante dos fatos,
evita se aproximar
de nós.

Poderíamos
chegar até ela, de forma
indireta,
provocar falsos silêncios,

até conseguir ver seu rosto
congelado numa última expressão.

Talvez alguém suponha
que somos indiferentes a ela,
porque fotografa,
sem se deixar ver, o que não existe,

de preferência,
paisagens projetadas na luz
que não é dela.

Mas não nos importamos.
Enquanto ela ignorar
o que revela,
evitaremos perguntar se os objetos
nesse espelho
podem estar mais
próximos do que parecem.


II

Há o excesso, paisagens mortas,
simuladas na presença de quem
não responde,

enfim, o tema prestes a revelar
o momento em que aqueles rostos
parecem imagens de si mesmos.

Confiante nos gestos que não
podia alcançar,
avessa ao que os espelhos trazem,

quando não se olha para eles,

talvez quisesse provar
que isso tudo era
apenas ameaça.

Ainda que alguém possa ser
imune à própria dor,

fotografava o que não permitia
manter distância
e se ajustava
ao equívoco, à existência ignorada
do que a encarava através do medo,
das coisas doentes demais,

estáveis demais.

“O importante é não piscar”,
dizia algumas vezes,
sem saber se há algo que nunca
aparece,
quando aprendemos a fazer isso.
209

A MÍMICA INVERTIDA DOS DESAPARECIDOS

Todos dormem à nossa volta.
Somos impacientes. Sabemos que algo vai acontecer;
hoje, amanhã, quem sabe agora mesmo,
do nosso lado, logo à frente,
ou dentro de nós,
como se as carnes mutiladas tivessem olhos e vida.

Ter o peso da gravidade é o que basta.
Desenhos, às vezes, esquemáticos,
desprovidos de representação,
onde procuramos a ilusão
de um espaço que se dilata
para além da dor,
como prova de que tudo está perdido.

Algo está sendo lacerado e romperá nossos corpos.
A sensibilidade nos envergonha,
nós cujos olhos abertos não conseguem apreender
essas imperfeições da forma.

A marca espontânea e a mancha que se espalha,
sombras se movendo como num jogo de cartas.
Nunca saberemos onde estão aqueles que nos ouvem,
excluímos as distâncias, na expectativa
de conseguir o que os olhos não oferecem.

Alguns riem e não se perguntam
como mortos sem olhos podem chorar.
Dizem apenas que o horizonte é definido por um muro
e os incêndios da noite jamais nos tocarão.

Mas há coisas que não se mencionam
quando palavras tão importantes
são esquecidas com facilidade. Um exemplo:
os contornos de todas essas imagens que se oferecem
à incerteza do olhar,
como se, entre respirações que impedem de ouvir
o que há muito se disse,
a única opção fosse ser vítima de um engano inocente,
linguagem nascida de uma fraqueza momentânea.

Em que pensam, mergulhados na escuridão?

É um fenômeno notável e de certo modo científico.
Não pode ser a culpa que os faz belos.
Não pode ser também o castigo justo
que desde já os embeleza.
Nenhuma dessas criaturas tem um lugar fixo,
um contorno fixo e próprio,
não há nenhuma que esteja contando quantas vezes
seus olhos piscam,
nenhuma que seja digna de um vizinho ou um inimigo
e tenha consumido o tempo à sua disposição.

Impossível falar aqui de ordens e hierarquias.
Está excluído que eles sejam o que representam.

Mas esses simples gestos não são gestos de animal?
Indecisos, oscilamos de uma preocupação a outra,
saboreamos o medo e temos a inconstância do desespero.
O que se resgata do abrigo dos corpos?
Não vemos os olhos e o que eles seguem.
De uma extremidade a outra apenas o silêncio.
E, à mesa, uma sensação de melancolia é marcada
pelo vasto espaço
entre a comida e as mãos.
Onde a comida existe para além da austeridade dos corpos.

As mãos há muito não conseguem
manter afastado aquilo que as incomodam.
Cada movimento dos dedos expõe a grande reunião
dos animais mortos.
Conversamos sem que nos entendam
e inutilmente copiamos o mar que deixa de se mover.

Se não estivéssemos perto demais para nos enganarmos.
Devoramos nossas mãos
e enxergamos como nunca as superfícies evitadas,
os barcos que buscam ser olhados
para depois afundarem tranquilos.

Ninguém sabe quantas vezes os corpos
devem se repetir na noite.
Nosso cansaço aceita o que se desenha nas paredes.
Fazemos do medo o lugar onde moramos
e a partir daí temos sido benevolentes:
fechamos os olhos e o mundo não desaparece.

Não desaparece.
Olhamos uns para os outros, mudos,
à espera do que não conhecemos.
Será possível estar aqui, algum dia,
podendo também ver isto tudo, ver
e dizer, de um minuto a outro,
que mudos como eles
olhávamos o mundo? Que aceitamos olhares trocados,
apenas para nos darmos consolo?
Carregaremos a culpa
de nos tocarmos no escuro e não nos reconhecermos.

Falamos e nossas vozes soam estranhas.
Hoje, nos dizem o que não somos,
o que não queremos. E, no silêncio, abandonam
nossos corpos até nos trairmos em segredo.
Demoramos a aceitar nossos nomes
e fugimos ao menor sinal de arrependimento.
258

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA PERDIDO

Afirmações obscuras.

Não, nada a ver com o pianista cego
que despreza a surdez
de Beethoven,
enquanto tece armadilhas
para os dedos.

É de lá, daquele lado,
dizem, de onde vêm
os gritos dos mortos,

às vezes, o silêncio
de uma ordem,

o que tanto a assusta,
quando, sentada à mesa,
sabe que não pode
se comunicar com as mãos.
195

ÁREAS DE INTERESSE

Como se somente ela
pudesse ficar surpreendida
com o que havia obtido,
afastava-se de perguntas.

Hesitei em lhe dizer
que de nada adiantava
marcar no vidro
o que nunca veria,

mas encontrava-se
perdida, inseparável
dos objetos que colocava
sobre a mesa.
212

OUTRO NOME

Alguém arremessa
pedras na água.
Há muito o passado
pede, sem existir,

o que não basta pela
metade de um nome.

Na areia, crianças
enterram espelhos,

sustentam,
para além da vista,
o lado do objeto
com que se cortam.
194

Comentários (1)

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Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!

Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).