Lista de Poemas

ACIDENTES DE LEITURA

À margem de si,
à custa de minha presença,

assustada,
ela abre o contorno
da lâmina.

Diante do gesto
despedaçado, oculta,

entre as coxas,
a ignorância,
o poço escuro
onde me perco.

Faltarão olhos para negar
o que sempre a despiu?

A mesma sede,
a mesma fome,
o espaço confuso das mãos?
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SACRIFÍCIO

Os dedos das mãos feridos.

Nada de encenação,
apenas a dor como
forma de anestésico,

ou (por que a ingenuidade?)

antídoto
para os venenos misturados
às palavras
que ela me obrigava gentilmente
a aceitar, quando tocava
em meus lábios e dizia:

“não, a vida já não basta,

é necessário me ater
àquilo que é dado,
teus ossos, tuas vísceras

e o futuro que elas escondem”.
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AUTO-RETRATO NO FIM DE UMA CORRIDA

ele armara
a câmera,
acionara o tempo,
o único
tempo
que lhe foi
permitido,
tinha calculado
tudo: no fim
daquilo que ele
entendia
como pista,
ela o esperaria,
a foto,
mas algo
rompera o trajeto
de onde seu olhar
partiu,
como fugir
de um acontecimento
que lhe nasce
às costas,
vencer o que se
extinguiria tão
inexoravelmente
diante dele?
teve que repetir,
várias vezes,
a derrota,
a violência
do lugar
que ocupava,
até salvar-se
nas bordas
do quadro, até
encontrar o vazio
no qual, de tanto
correr,
acabaria por cair,
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O CORPO SEM SÍLABAS

Acariciavam a cabeça
do cavalo morto,

cobriam de farelos
a noite.

Com o rosto aberto,
os olhos atravessados

por espelhos,

a paisagem se escondia
atrás do corpo,

do corpo sem sílabas,

agarrado pelos dentes.
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OS LAMENTOS DE DR. MANHATTAN

nada é mais previsível
do que se salvarem
frente a mim,
evitando, de todas as formas,
caírem em contradição,
atingem-me com a estranheza
do obstáculo,
o limite da história,
a identidade que nunca
foi minha,

como agir sem me consumir,
praticar um gesto que não
se inscreva no meu passado,
não me ultrapasse a vida?

um nome se perdeu
e, por um instante,
as mãos se refletiram na água,
tudo ondulou,
curvou-se
em incerteza e ambigüidade,
como corpos sem extensões,
pausas que nunca acabam,
árvores
jamais tocadas pela noite,
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ELA ENTRE OS DESAPARECIDOS

Nada impede
de se cortar
com o que a forçaram
a ser:

perseguidora, vingadora,
puta.

Ó meu anjo cruel
com um olho apenas.
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LONGA JORNADA NOITE ADENTRO

Cercada pelo
que desconhece,
devora
a própria língua,

aconchega-se
na pele da filha
morta,
na lembrança do dia
dentro da noite,
da noite
apenas noite.

Seus passos
são desproporcionais,
tremores do corpo
em colapso,
quase esquecido.

À medida que
anda, abriga em si,
sem tempo e remorso,
todas as memórias,

recolhe pedaços
de espelhos cravados
na carne,

os quais coloca,
cuidadosamente,
um a um,
sobre a mesa,
ao lado da comida.
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LA NOCHE DEL TERROR CIEGO

No súbito abandono, o lugar se manteve coeso
e todos os campos se incendiaram.
Não havia mais paisagens lógicas
ou vulnerabilidade escondida em lamento.
Sabíamos que um gesto seria o suficiente
para todas as coisas imperfeitas se afirmarem.

Aceitávamos, tranquilamente,
o movimento obsceno da boca, o choro atrás da parede,
as sombras que um dia seriam nossas.

Os nomes estavam nos mesmos lugares de antes
e o desprezo ainda cobria tudo,
inclusive o corpo esquecido na varanda,
o vidro trincado da janela.

É possível ver através da pele sem se guiar pela noite?
Sempre há o temor de se perder
em meio ao frio da madrugada, de aceitar a água
como a única ferida que as bocas talharam.

Víamos nossos reflexos na tv
e não nos incomodávamos.
Os olhos eram apenas imagens
e o mar nunca nos ensinou o quanto devíamos
nos afastar dos espelhos
ou como enterrar os mortos na areia.

As coisas continuam por serem feitas
e as mãos queimadas, reluzindo sobre o concreto,
não dizem em qual teste erraram.
Estão distantes, diferentes de nós,
desatadas de nossos corpos,
apontando para considerações desnecessárias.
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LÂMINA 2

O mesmo olhar,

no mesmo lugar,
porém em sentido inverso.

Ela nos alcança,
coberta de sombra
e silêncio, mas, esquiva,
perde-se

nos espaços que cavamos
na areia.

“Comoções das coisas

pouco firmes da terra”,
diz, de forma irônica,
mergulhando
as mãos no mar.
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LÂMINA 6

Já não há explicação que lhe sirva.

Se ainda está ali, é porque sempre
algo lhe escapa
e se mantém escondido,

a ponto de abrir cada vez mais
as suas feridas.

O mar, não saberia dizer o motivo,
incomoda-lhe.

Tudo se torna insustentável,
como alguém prestes a cair,

morto, sobre a própria sombra.
Mas seus métodos eram precisos
e cuidadosos, suficientes

para se construírem com erros.
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Comentários (1)

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Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!

Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).