UM ADEUS
Sonhei-te mais real do que a verdade
tirada do armário das memórias
e sombra a traço tudo desenhei
como quem vai ilustrando histórias.
Anos a fio, enquanto a vida passa
em turbilhões de nada afogada,
o teu retrato imenso ia surgindo.
Lembrança ténue embalada em nada.
Risquei vivendo e pintei o mundo.
Com pinceladas fortes cor de tudo,
somei saudade, juventude e esperança
como se fosse sempre uma criança.
Não guardei o papel seco e já gasto
onde inscrevi essa memória ausente
que exposto ao pó permanentemente
aguarda o dia em que o leve o vento.
Sonhei-te mais, mas nunca acordei.
Fiz por fazer um muro intransponível
que pedra a pedra a vida foi erguendo
tornando o horizonte imperceptível.
Sei onde estás. Sei bem onde tu estás,
não o que és ou não neste momento.
Sigo-te sombra como corpo ausente.
Vejo-te ainda como sou capaz.
Foi naquele pátio, sob uma latada
de uvas (ou não); seria do que fosse.
Dissemos adeus, talvez um dia destes
voltássemos ali, num outro verão.
Voltei, mas já passados muitos anos.
Só vi saudade, tempo, nada mais.
E tem sido assim ou sempre assim.
Sussurros de pinheiros, de brincadeiras,
voltando em cada dia, sem descanso.
O tempo passa, a vida escoa lenta,
mas de repente perde as estribeiras
precipitando-se em torrente imensa
e rasgará então sem quaisquer peias
a grossa folha do papel que foi
história sem enredo e escrita a sonho
memória sem ideias. Tudo, apenas.
SARAVA!
Um dia, num século passado,
aí pelo ano de quinhentos,
um português maluco,
porque só assim podia ser,
em viagem que fazia para a índia
resolveu, aproveitando os ventos,
ir para oeste, ocaso ou poente,
como era costume então dizer-se.
Tanto alargou a rota
que foi dar a uma terra além,
povoada por gente que vivia
de lutar uns com os outros
e que, por não haver carne bovina
(o Rio Grande do Sul não existia),
quando prisioneiros faziam,
os punham todos juntos num redil
e lhes davam papas para os engordar.
Depois, para ingerirem proteínas,
comiam os que estivessem mais gordinhos.
E foi com esta gente estranha
que não tinha favelas e muito menos samba
que Pedro álvares Cabral, português de gema,
num dia tropical, sem cuidar deu.
Do que descobriu, melhor era calar-se,
mas não. Sem pensar que era isso
que devia ter feito em seu juízo,
mandou tudo contar ao Rei por uma carta,
bem escrita por sinal, pelo Caminha.
E foi grã pena que o fizesse assim,
sem mais nem menos.
Porque se tivesse ido de avião,
que era coisa que não havia então,
tinha chegado à índia mais depressa
e evitado fazer a grossa asneira
de ir a descobrir tão de madrugada
um povo que tem samba, cuíca e forró
e de que alguns pensam - vejam bem! -
que a língua portuguesa
foi por eles inventada.
REGRA SIMPLES
A regra é simples.
Composta ou descomposta.
Equação com uma
ou meia incógnita.
Nada mais certo
que um mais um ser três.
E a gravidade
que é força de expressão
daquilo que se diz?
E o electrão,
senhor do seu nariz,
que rapa pé a um protão
enquanto o neutrão
anda por aí, feliz?
Buracos negros,
matéria, antimatéria,
pedras de mó
a fazer farinha
com o tempo abstracção
que muda conforme se caminha?
E tranças loiras
e olhos violeta
e bocas de romã
e sei lá mais o quê
que oiço dizer
enquanto o universo
se expande e se contrai.
Vai ou não vai?
A regra é simples.
Pensar não custa nada
e pode ser que sirva
para a um quadrado
dar um formato
de certo modo
arredondado.
A MALA DE UMA MULHER
A mala de uma mulher
é um abismo sem fundo.
Tem lencinhos de papel,
pó de arroz, chaves, canetas,
porta-moedas, agenda
e talões de multibanco.
Tem amostras de perfumes,
livro de cheques e escova
para ajeitar o cabelo,
tem telemóvel que toca
e que nunca encontra a tempo.
Tem cartão do sindicato,
baton e a chave do carro
e o boletim de vacinas,
isqueiro, cigarros e tudo
com pacotinhos de açúcar,
fotografias dos filhos,
caixa dos óculos de sol,
talão da lavandaria.
E tem receitas de bolos
e a conta da mercearia.
A mala de uma mulher
é um abismo tremendo.
Contado, não se percebe.
Para acreditar, só vendo.
NADA
Secou no solitário a flor,
sem água que lhe desse
vida.
Secou na escrivaninha a pena,
Sem nada que escrever,
Sozinha.
Secou na face, a meio da queda,
a lágrima que há pouco foi
sentida.
Secou o pensamento
entre a razão e a boca
muda.
Secou depressa a esperança
de voltar a trilhar a estrada
antiga.
Secou em pó de nada
disperso pela
ventania.
IDADE
Havia pés de galinha
Naquelas faces estucadas
De cremes e pós de arroz
E de magenta coradas.
Permanentes semanais,
Meias de vidro com risca
Na costura em perna magra
Assente num salto alto
Que já cambava de gasto.
Casacos de peles vetustos,
Glórias de tempos passados
Que iam sendo preservados
Em bolas de naftalina.
Óculos finos graduados
Na carteira de outros tempos
Não ajudavam a ver
Os olhos cerrados, tensos,
Como a vislumbrar certezas
De fulgores de juventude
De que só restam memórias.
E vão-se contando histórias
De quando eram meninas
E iam para o jardim.
Pode ser triste de ver
Como a saudade é teimosa.
Mas chega a enternecer
Ver a força de querer,
Mesmo seca, a fenecer,
Ser uma rosa viçosa.
PERFUME
Negra é a noite. Perfume de jasmim.
A água corre no jardim tão mansamente.
Frescura que me abraça e me consola
no fim do dia, como esmola, vagamente.
Embala o meu sono ainda claro,
como voando ao lado de falcões.
Leve e certeiro, como flecha lançada
por mão firme e treinada de ilusões.
Laranja e açafrão, perfumes tais
que me inebriam até perder sentido
de tudo o que penso ou do que digo.
Descanso curto. Noite sem estrelas.
Apenas regatos de águas prateadas.
Envolve-me depressa, sono amigo.
Em breve romperá a madrugada.
O PATO
Mesmo à beira do charco
onde não estava
nenhum pato
estava um pato
e o pato era marreco
e grasnava coisas
que ninguém entendia.
Meteu uma pata na água
mas a pata não queria
e saltou da água
e assentou as duas patas
na pata esquerda
do pato marreco
que estava à beira
do charco.
O pato grasnou
e a pata, assustada,
levantou a pata
e o pato, dando um impulso
com as duas patas,
saltou e arrastou a pata
para a água
onde passaram a estar
quatro patas, um pato
e uma pata.
ANO NOVO
Olha! Já soa a badalada
contagem decrescente
para toda a malta!
...dois... um... zero!
Fffshshsht... pum!
Pum! Pum!
Olhei lá para fora
e o nevoeiro, nada!
Impávido e sereno
não levantou sequer um metro.
Tudo na mesma, pá!
Ontem (dez segundos atrás)
a coisa era diferente:
andava eu e tu
e toda esta gente
a desejar bom ano e isto e aquilo,
por vezes a sentirmos mesmo
o que dizíamos.
Agora, Ano Novo nevoento,
não sei como me aguento.
É que não vejo nada de diferente!
Ainda isto agora começou
e eu já ando impaciente?
Vou dar uns dias para ver se muda.
Lá para Dezembro,
quando chegar o último segundo
do derradeiro minuto,
espremido a champanhe
da sua hora extrema,
vou à janela
e olho lá para fora.
Será que a noite vai ser
de nevoeiro?
Bom Ano!
Pum!
BE A BIRD
Be a bird
be a wave
be the wind over the field.
Be a flower in a hill
be the love
be a kiss
be the sun warming the world.
Be the cloud
be the shadow
be a letter to a friend.
Be a boat over the ocean
in a trip whitout an end.
Be the happy summertime
be a beach of golden sand.
Be the tide upping around
be the fish
be the life
be all what you love to be.
Be my friend and confident
be my lover for a moment
be the light bringing coulors
to the darkness of the souls.
Be yourself
be the others
be the cosmos in a second.
Be the question
be the answer.
Be a star glowing so far
that we can't measure the distance
we need to travel to.
Shine brighter than the sun
look around and understand
that you are the only one
because you are
just you.