ar rahman burtugaliy

ar rahman burtugaliy

n. 1945 PT PT

n. 1945-03-20, ALCOUTIM

Perfil
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UM ADEUS

Sonhei-te mais real do que a verdade
tirada do armário das memórias
e sombra a traço tudo desenhei
como quem vai ilustrando histórias.

Anos a fio, enquanto a vida passa
em turbilhões de nada afogada,
o teu retrato imenso ia surgindo.
Lembrança ténue embalada em nada.

Risquei vivendo e pintei o mundo.
Com pinceladas fortes cor de tudo,
somei saudade, juventude e esperança
como se fosse sempre uma criança.

Não guardei o papel seco e já gasto
onde inscrevi essa memória ausente
que exposto ao pó permanentemente
aguarda o dia em que o leve o vento.

Sonhei-te mais, mas nunca acordei.
Fiz por fazer um muro intransponível
que pedra a pedra a vida foi erguendo
tornando o horizonte imperceptível.

Sei onde estás. Sei bem onde tu estás,
não o que és ou não neste momento.
Sigo-te sombra como corpo ausente.
Vejo-te ainda como sou capaz.

Foi naquele pátio, sob uma latada
de uvas (ou não); seria do que fosse.
Dissemos adeus, talvez um dia destes
voltássemos ali, num outro verão.
Voltei, mas já passados muitos anos.
Só vi saudade, tempo, nada mais.

E tem sido assim ou sempre assim.
Sussurros de pinheiros, de brincadeiras,
voltando em cada dia, sem descanso.
O tempo passa, a vida escoa lenta,
mas de repente perde as estribeiras
precipitando-se em torrente imensa
e rasgará então sem quaisquer peias
a grossa folha do papel que foi
história sem enredo e escrita a sonho
memória sem ideias. Tudo, apenas.
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Biografia
Nasceu em Lisboa, onde viveu a maior parte da sua vida. Estudou em liceus e no Colégio Militar. Desde cedo que se interessou pela poesia, tendo feito as primeiras rimas com cerca de doze anos. Ao longo do tempo tem cultivado os seus conhecimentos em vária áreas relacionadas com artes. É arquitecto e presentemente insere-se num Grupo de Teatro Experimental a funcionar em Alcoutim. É casado há quase quarenta anos, tem dois filhos e três netos, brevemente quatro. É feliz e espera fazer ainda mais coisas. Gosta de História, utilizando-a para tentar compreender as pessoas e o mundo. É monárquico. Gosta de uma boa polémica e de discussões inteligentes. Gosta de criticar e de ser criticado por quem sabe mais do que ele, pois entende que isso faz crescer, partir a redoma em que, por vezes, se tende a ficar encerrado.

Poemas

21

PORTUGUÊS

Na mansidão do rio
sonho acordado
com velas, caravelas,
com pimenta.

Sonho com ouro,
especiarias
e tormentas,
sonho com povos
estranhos,
terras tantas.

Sonho com mares que
fervem,
com sereias,
ilhas de bruma esquivas,
estrelas novas,
índias, Cipangos,
Cataios, coisas vivas,
frutos azuis,
aves que beijam flores,
monstros enormes.

Sonho com rotas,
caminhos desbravados,
gentes ignotas,
rios novos,
novos cabos.

Sonho com vida,
baías de aguada,
cascos fendendo
vagas convertidas
em leitos de morte
de tantos naufrágios.

Sonho com o sonho
que uma vez tiveram
aqueles que sabiam
como é bom sonhar.
Sonho acordado
com velas, pimenta,
e com caravelas
na areia varadas.

Nesta beira-Tejo,
cheiros de maresia,
de sisal de estopa,
de pinheiros e pez
fazem-me sentir
em cada momento
um profundo orgulho
de ser português.
595

A RÃ

A rã coaxa e acha que saltar
da folha de nenúfar para a água
é proeza que no lago dá brado
e há-de ao mundo algumas voltas dar.

A rã coaxa e incha toda verde
e olha em redor a ver se a vêem.
E como nada há que lhe dê fama,
coaxa e, desta vez, salta p'ra lama.

A rã coaxa uma vez mais, sedenta
de um aplauso com que se orgulhar.
Ela não vê que é uma entre milhentas
que estão no mesmo lago a coaxar.
605

I FEEL QUE ESTOY CONFUSO

Ora, ora, raisin d'or,
dèsire de vin caliente
Y lleno of emotions
that makes me feel no céu.

Dices que la nuit c'est belle,
mas não te lembras de me dar
un beso quando despierto
por la madrugada.

Do you know como me sinto
quand tu dors à mon coté
et je suspiro por mais um dia
at your side, un jour plus
que seja, ni uno más?

C'est la cause de cette
confusão em que me escrevo,
and I can't say why.

Quedate comigo un poco más,
et je te jure que mesmo que te vás
y jamás te vea en la life,
I love you, raisin, razão
do meu viver.

Look throught the window,
please, une fois plus:
Já está a amanhecer.
Goodbye, adiós.
Até mais ver.
632

AS ESTRELAS

Olho as estrelas
e vejo nelas
um desejo.

Vejo,
ou quero ver,
passado que é
agora.

Vejo,
ou penso ver,
o tempo que a luz
demora.

Vejo,
ou sinto ver,
que cada estrela
pode bem ser,
contrariando o que
os cientistas dizem,
a luz que já brilhou
na terra
e se elevou
no espaço,
liberta e
feliz.

Porque só pode
ser feliz
a estrela
que alguém
amou
e continua a mar,
agora transformada
em
estrela.

É por isso
que as estrelas
brilham.

E nos iluminam.
614

À MESA DO CAFÉ

À mesa do café,
óculos na testa,
hesita o poeta
sobre o que escrever.

Rimas, não há.
Assunto, é o que falta.
Falar de quê?
Da malta que passeia no
jardim?
Das flores que crescem
em canteiro regado
assim, assim?

De guerras e desastres?
De sonhos, de quimeras?
Do sol que já se pôs?
Da noite bela?

De que falar?,
pensa o poeta,
enquanto ali ao lado
uma bica arrefece.

Se a mesa do café
ao menos desse
alguma inspiração...

Mas não!

Bruta e quadrada,
a mesa não diz nada.

E a cadeira?

De pernas empenadas,
balança cá e lá
de cada vez
que o poeta
cruza a perna.

À mesa do café,
o melhor, mesmo,
é estar-se na conversa.

E até pode ser que,
de repente,
a poesia
apareça.
591

COM A CORRENTE

Rio abaixo o céu e o sol
marés que o dia aquece
a cal e as pedras e a luz
que nos envolve muda
em tons de cinzento azul
na calma a cigarra garra
continuamente aguda
e a maré arrasta canas
ilhas que se movem Guadiana
entre esta margem
e a de Espanha.

Aqui ficamos a olhar esquecidos
nada nos assombra o cais
onde por vezes velas se acolhem
pausando a lenta vinda
que no mar começa
e acaba onde a maré se esbate
a norte de Alcoutim
e Mértola é o fim
que não vai vê-las.

Entre o céu e a água
espraiamos vistas
e deixamo-nos ir
com a corrente
depressa ou lentamente
nas margens de aloendros e
de canas.

Na paz do rio Guerreiros
nas ruas veias que andamos
circulação de gente sangue
entre a secura dos montes
e o frescor das águas
ficamos à espera
que o sol se ponha
e as sombras nos envolvam
em silhuetas mágicas.
645

INTENÇÃO

E se um dia,
um só dia,
parasse o rio que corre
pelas margens dos desejos
não declarados
e ficasse a encharcar
a raiva, o desespero,
o ódio e a inveja
e a traição e o medo,
fazendo-os inchar,
inchar, inchar,
inchar tanto
que rebentassem
em milhares de fanicos
e fossem levados
pelo vento da tarde
para jamais voltarem?
537

MEUS AMIGOS

Meus amigos.
Nesta coisa
de escrever o que se pensa
que se escreve se se pensa
que escrever é o que sai
do pensamento que cai
em letra de vem e vai
ao sabor do encantamento
do que se sente demais
reconstruindo em momentos
de solidão ou tristeza,
de alegria e de certeza,
de emoção e de carinho,
ou de horror e lassidão,
de precisa confusão
de tudo o que é a vida,
às vezes sou como o urso!
Hiberno de rima e métrica
e em atitude mimética
confundo-me com a rua
passeio, montras e árvores,
cão que passa, dobro
esquinas,
torno-me monte e riacho,
olho as águas rio abaixo
conto estrelas (faz de conta
que às vezes sou uma delas)
e passeio no infinito.
Distraio-me. Em silêncio grito
contra o que não há que ser.
E depois, quando o sol nasce
mais quente em qualquer solstício
fora de tempo e de regras,
volto a mim e estico as pernas,
espreguiço o pensamento
e enceto novo alento
para fazer mais um pouco
daquilo que me dá prazer:
sem dizer, dizer de tudo,
mascarar tirando a máscara
pintar sem tinta nem telas,
liquefazer aguarelas que,
conformo posso e sinto,
uso como um exorcismo
ou só fé de bem fazer,
mas que algo há de ser,
de bom ou mau,
ou nem isso.
Mas se nos apetecer
sermos materialistas,
decidimos que escrever
é excreção do pensamento
contendo em si algum fim,
tal como a urina tem dentro
a meditação do rim.
671

BEIJO-TE

Beijo-te os olhos e a boca.
Beijo-te a cara laroca.
Beijo-te as mãos e as pernas.
Beijo-te as costas tão ternas.
Beijo-te a nuca, o cabelo,
nos meneios do teu andar.
Beijo-te bem, mesmo ao longe,
porque a partir de agora
tenho estes óculos nobos
que me bieram trazer
há pouco mais de uma hora.
634

NATAL

Está frio, aqui!
Olha a água que entra pela frincha do telhado...
Tira daí a cama, senão daqui a pouco
está tudo encharcado.

Está mesmo frio, aqui!
Dá cá o candeeiro e baixa-lhe a torcida
para poupar petróleo.
Põe-o para cá, juntinho a nós.

Não, rapaz, não comes mais filhós;
os teus irmãos só comeram uma
e sobram estas duas párós avós.

Gostaste do brinquedo, António?
Estava ali na rua, junto ao contentor.
Acho que quem lá o pôs foi um senhor
de sobretudo e luvas de pelica
que mora naquela casa grande e rica
ao pé da fonte velha.

Essa camisola serve bem...
Parece que foi feita por medida.
É muito bondosa a tal senhora
que às vezes nos dá alguma coisa
quando percebe que estou mais aflita.

Não, já não há mais sopa.

Cheguem-se mais p'ró pé do candeeiro.
Se Deus quiser, no próximo Natal
talvez haja bolo-rei.
604

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