Lista de Poemas

À MESA DO CAFÉ

À mesa do café,
óculos na testa,
hesita o poeta
sobre o que escrever.

Rimas, não há.
Assunto, é o que falta.
Falar de quê?
Da malta que passeia no
jardim?
Das flores que crescem
em canteiro regado
assim, assim?

De guerras e desastres?
De sonhos, de quimeras?
Do sol que já se pôs?
Da noite bela?

De que falar?,
pensa o poeta,
enquanto ali ao lado
uma bica arrefece.

Se a mesa do café
ao menos desse
alguma inspiração...

Mas não!

Bruta e quadrada,
a mesa não diz nada.

E a cadeira?

De pernas empenadas,
balança cá e lá
de cada vez
que o poeta
cruza a perna.

À mesa do café,
o melhor, mesmo,
é estar-se na conversa.

E até pode ser que,
de repente,
a poesia
apareça.
578

REGRA SIMPLES

A regra é simples.
Composta ou descomposta.
Equação com uma
ou meia incógnita.
Nada mais certo
que um mais um ser três.
E a gravidade
que é força de expressão
daquilo que se diz?
E o electrão,
senhor do seu nariz,
que rapa pé a um protão
enquanto o neutrão
anda por aí, feliz?
Buracos negros,
matéria, antimatéria,
pedras de mó
a fazer farinha
com o tempo abstracção
que muda conforme se caminha?
E tranças loiras
e olhos violeta
e bocas de romã
e sei lá mais o quê
que oiço dizer
enquanto o universo
se expande e se contrai.

Vai ou não vai?

A regra é simples.
Pensar não custa nada
e pode ser que sirva
para a um quadrado
dar um formato
de certo modo
arredondado.
630

BEIJO-TE

Beijo-te os olhos e a boca.
Beijo-te a cara laroca.
Beijo-te as mãos e as pernas.
Beijo-te as costas tão ternas.
Beijo-te a nuca, o cabelo,
nos meneios do teu andar.
Beijo-te bem, mesmo ao longe,
porque a partir de agora
tenho estes óculos nobos
que me bieram trazer
há pouco mais de uma hora.
620

NADA

Secou no solitário a flor,
sem água que lhe desse
vida.

Secou na escrivaninha a pena,
Sem nada que escrever,
Sozinha.

Secou na face, a meio da queda,
a lágrima que há pouco foi
sentida.

Secou o pensamento
entre a razão e a boca
muda.

Secou depressa a esperança
de voltar a trilhar a estrada
antiga.

Secou em pó de nada
disperso pela
ventania.
641

INTENÇÃO

E se um dia,
um só dia,
parasse o rio que corre
pelas margens dos desejos
não declarados
e ficasse a encharcar
a raiva, o desespero,
o ódio e a inveja
e a traição e o medo,
fazendo-os inchar,
inchar, inchar,
inchar tanto
que rebentassem
em milhares de fanicos
e fossem levados
pelo vento da tarde
para jamais voltarem?
523

I FEEL QUE ESTOY CONFUSO

Ora, ora, raisin d'or,
dèsire de vin caliente
Y lleno of emotions
that makes me feel no céu.

Dices que la nuit c'est belle,
mas não te lembras de me dar
un beso quando despierto
por la madrugada.

Do you know como me sinto
quand tu dors à mon coté
et je suspiro por mais um dia
at your side, un jour plus
que seja, ni uno más?

C'est la cause de cette
confusão em que me escrevo,
and I can't say why.

Quedate comigo un poco más,
et je te jure que mesmo que te vás
y jamás te vea en la life,
I love you, raisin, razão
do meu viver.

Look throught the window,
please, une fois plus:
Já está a amanhecer.
Goodbye, adiós.
Até mais ver.
623

PERFUME

Negra é a noite. Perfume de jasmim.
A água corre no jardim tão mansamente.
Frescura que me abraça e me consola
no fim do dia, como esmola, vagamente.

Embala o meu sono ainda claro,
como voando ao lado de falcões.
Leve e certeiro, como flecha lançada
por mão firme e treinada de ilusões.

Laranja e açafrão, perfumes tais
que me inebriam até perder sentido
de tudo o que penso ou do que digo.

Descanso curto. Noite sem estrelas.
Apenas regatos de águas prateadas.

Envolve-me depressa, sono amigo.
Em breve romperá a madrugada.
564

BE A BIRD

Be a bird
be a wave
be the wind over the field.
Be a flower in a hill
be the love
be a kiss
be the sun warming the world.
Be the cloud
be the shadow
be a letter to a friend.
Be a boat over the ocean
in a trip whitout an end.
Be the happy summertime
be a beach of golden sand.
Be the tide upping around
be the fish
be the life
be all what you love to be.
Be my friend and confident
be my lover for a moment
be the light bringing coulors
to the darkness of the souls.
Be yourself
be the others
be the cosmos in a second.
Be the question
be the answer.
Be a star glowing so far
that we can't measure the distance
we need to travel to.
Shine brighter than the sun
look around and understand
that you are the only one
because you are
just you.
581

ANO NOVO

Olha! Já soa a badalada
contagem decrescente
para toda a malta!
...dois... um... zero!
Fffshshsht... pum!
Pum! Pum!
Olhei lá para fora
e o nevoeiro, nada!
Impávido e sereno
não levantou sequer um metro.
Tudo na mesma, pá!
Ontem (dez segundos atrás)
a coisa era diferente:
andava eu e tu
e toda esta gente
a desejar bom ano e isto e aquilo,
por vezes a sentirmos mesmo
o que dizíamos.
Agora, Ano Novo nevoento,
não sei como me aguento.
É que não vejo nada de diferente!
Ainda isto agora começou
e eu já ando impaciente?
Vou dar uns dias para ver se muda.
Lá para Dezembro,
quando chegar o último segundo
do derradeiro minuto,
espremido a champanhe
da sua hora extrema,
vou à janela
e olho lá para fora.
Será que a noite vai ser
de nevoeiro?

Bom Ano!
Pum!
585

NATAL

Está frio, aqui!
Olha a água que entra pela frincha do telhado...
Tira daí a cama, senão daqui a pouco
está tudo encharcado.

Está mesmo frio, aqui!
Dá cá o candeeiro e baixa-lhe a torcida
para poupar petróleo.
Põe-o para cá, juntinho a nós.

Não, rapaz, não comes mais filhós;
os teus irmãos só comeram uma
e sobram estas duas párós avós.

Gostaste do brinquedo, António?
Estava ali na rua, junto ao contentor.
Acho que quem lá o pôs foi um senhor
de sobretudo e luvas de pelica
que mora naquela casa grande e rica
ao pé da fonte velha.

Essa camisola serve bem...
Parece que foi feita por medida.
É muito bondosa a tal senhora
que às vezes nos dá alguma coisa
quando percebe que estou mais aflita.

Não, já não há mais sopa.

Cheguem-se mais p'ró pé do candeeiro.
Se Deus quiser, no próximo Natal
talvez haja bolo-rei.
590

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Nasceu em Lisboa, onde viveu a maior parte da sua vida. Estudou em liceus e no Colégio Militar. Desde cedo que se interessou pela poesia, tendo feito as primeiras rimas com cerca de doze anos. Ao longo do tempo tem cultivado os seus conhecimentos em vária áreas relacionadas com artes. É arquitecto e presentemente insere-se num Grupo de Teatro Experimental a funcionar em Alcoutim. É casado há quase quarenta anos, tem dois filhos e três netos, brevemente quatro. É feliz e espera fazer ainda mais coisas. Gosta de História, utilizando-a para tentar compreender as pessoas e o mundo. É monárquico. Gosta de uma boa polémica e de discussões inteligentes. Gosta de criticar e de ser criticado por quem sabe mais do que ele, pois entende que isso faz crescer, partir a redoma em que, por vezes, se tende a ficar encerrado.