ar rahman burtugaliy

ar rahman burtugaliy

n. 1945 PT PT

n. 1945-03-20, ALCOUTIM

Perfil
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SARAVA!

Um dia, num século passado,
aí pelo ano de quinhentos,
um português maluco,
porque só assim podia ser,
em viagem que fazia para a índia
resolveu, aproveitando os ventos,
ir para oeste, ocaso ou poente,
como era costume então dizer-se.

Tanto alargou a rota
que foi dar a uma terra além,
povoada por gente que vivia
de lutar uns com os outros
e que, por não haver carne bovina
(o Rio Grande do Sul não existia),
quando prisioneiros faziam,
os punham todos juntos num redil
e lhes davam papas para os engordar.

Depois, para ingerirem proteínas,
comiam os que estivessem mais gordinhos.

E foi com esta gente estranha
que não tinha favelas e muito menos samba
que Pedro álvares Cabral, português de gema,
num dia tropical, sem cuidar deu.

Do que descobriu, melhor era calar-se,
mas não. Sem pensar que era isso
que devia ter feito em seu juízo,
mandou tudo contar ao Rei por uma carta,
bem escrita por sinal, pelo Caminha.

E foi grã pena que o fizesse assim,
sem mais nem menos.
Porque se tivesse ido de avião,
que era coisa que não havia então,
tinha chegado à índia mais depressa
e evitado fazer a grossa asneira
de ir a descobrir tão de madrugada
um povo que tem samba, cuíca e forró
e de que alguns pensam - vejam bem! -
que a língua portuguesa
foi por eles inventada.
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Biografia
Nasceu em Lisboa, onde viveu a maior parte da sua vida. Estudou em liceus e no Colégio Militar. Desde cedo que se interessou pela poesia, tendo feito as primeiras rimas com cerca de doze anos. Ao longo do tempo tem cultivado os seus conhecimentos em vária áreas relacionadas com artes. É arquitecto e presentemente insere-se num Grupo de Teatro Experimental a funcionar em Alcoutim. É casado há quase quarenta anos, tem dois filhos e três netos, brevemente quatro. É feliz e espera fazer ainda mais coisas. Gosta de História, utilizando-a para tentar compreender as pessoas e o mundo. É monárquico. Gosta de uma boa polémica e de discussões inteligentes. Gosta de criticar e de ser criticado por quem sabe mais do que ele, pois entende que isso faz crescer, partir a redoma em que, por vezes, se tende a ficar encerrado.

Poemas

21

I FEEL QUE ESTOY CONFUSO

Ora, ora, raisin d'or,
dèsire de vin caliente
Y lleno of emotions
that makes me feel no céu.

Dices que la nuit c'est belle,
mas não te lembras de me dar
un beso quando despierto
por la madrugada.

Do you know como me sinto
quand tu dors à mon coté
et je suspiro por mais um dia
at your side, un jour plus
que seja, ni uno más?

C'est la cause de cette
confusão em que me escrevo,
and I can't say why.

Quedate comigo un poco más,
et je te jure que mesmo que te vás
y jamás te vea en la life,
I love you, raisin, razão
do meu viver.

Look throught the window,
please, une fois plus:
Já está a amanhecer.
Goodbye, adiós.
Até mais ver.
631

INTENÇÃO

E se um dia,
um só dia,
parasse o rio que corre
pelas margens dos desejos
não declarados
e ficasse a encharcar
a raiva, o desespero,
o ódio e a inveja
e a traição e o medo,
fazendo-os inchar,
inchar, inchar,
inchar tanto
que rebentassem
em milhares de fanicos
e fossem levados
pelo vento da tarde
para jamais voltarem?
535

IDADE

Havia pés de galinha
Naquelas faces estucadas
De cremes e pós de arroz
E de magenta coradas.
Permanentes semanais,
Meias de vidro com risca
Na costura em perna magra
Assente num salto alto
Que já cambava de gasto.
Casacos de peles vetustos,
Glórias de tempos passados
Que iam sendo preservados
Em bolas de naftalina.
Óculos finos graduados
Na carteira de outros tempos
Não ajudavam a ver
Os olhos cerrados, tensos,
Como a vislumbrar certezas
De fulgores de juventude
De que só restam memórias.
E vão-se contando histórias
De quando eram meninas
E iam para o jardim.
Pode ser triste de ver
Como a saudade é teimosa.
Mas chega a enternecer
Ver a força de querer,
Mesmo seca, a fenecer,
Ser uma rosa viçosa.
611

PORTUGUÊS

Na mansidão do rio
sonho acordado
com velas, caravelas,
com pimenta.

Sonho com ouro,
especiarias
e tormentas,
sonho com povos
estranhos,
terras tantas.

Sonho com mares que
fervem,
com sereias,
ilhas de bruma esquivas,
estrelas novas,
índias, Cipangos,
Cataios, coisas vivas,
frutos azuis,
aves que beijam flores,
monstros enormes.

Sonho com rotas,
caminhos desbravados,
gentes ignotas,
rios novos,
novos cabos.

Sonho com vida,
baías de aguada,
cascos fendendo
vagas convertidas
em leitos de morte
de tantos naufrágios.

Sonho com o sonho
que uma vez tiveram
aqueles que sabiam
como é bom sonhar.
Sonho acordado
com velas, pimenta,
e com caravelas
na areia varadas.

Nesta beira-Tejo,
cheiros de maresia,
de sisal de estopa,
de pinheiros e pez
fazem-me sentir
em cada momento
um profundo orgulho
de ser português.
593

NADA

Secou no solitário a flor,
sem água que lhe desse
vida.

Secou na escrivaninha a pena,
Sem nada que escrever,
Sozinha.

Secou na face, a meio da queda,
a lágrima que há pouco foi
sentida.

Secou o pensamento
entre a razão e a boca
muda.

Secou depressa a esperança
de voltar a trilhar a estrada
antiga.

Secou em pó de nada
disperso pela
ventania.
655

COM A CORRENTE

Rio abaixo o céu e o sol
marés que o dia aquece
a cal e as pedras e a luz
que nos envolve muda
em tons de cinzento azul
na calma a cigarra garra
continuamente aguda
e a maré arrasta canas
ilhas que se movem Guadiana
entre esta margem
e a de Espanha.

Aqui ficamos a olhar esquecidos
nada nos assombra o cais
onde por vezes velas se acolhem
pausando a lenta vinda
que no mar começa
e acaba onde a maré se esbate
a norte de Alcoutim
e Mértola é o fim
que não vai vê-las.

Entre o céu e a água
espraiamos vistas
e deixamo-nos ir
com a corrente
depressa ou lentamente
nas margens de aloendros e
de canas.

Na paz do rio Guerreiros
nas ruas veias que andamos
circulação de gente sangue
entre a secura dos montes
e o frescor das águas
ficamos à espera
que o sol se ponha
e as sombras nos envolvam
em silhuetas mágicas.
644

PERFUME

Negra é a noite. Perfume de jasmim.
A água corre no jardim tão mansamente.
Frescura que me abraça e me consola
no fim do dia, como esmola, vagamente.

Embala o meu sono ainda claro,
como voando ao lado de falcões.
Leve e certeiro, como flecha lançada
por mão firme e treinada de ilusões.

Laranja e açafrão, perfumes tais
que me inebriam até perder sentido
de tudo o que penso ou do que digo.

Descanso curto. Noite sem estrelas.
Apenas regatos de águas prateadas.

Envolve-me depressa, sono amigo.
Em breve romperá a madrugada.
572

A MALA DE UMA MULHER

A mala de uma mulher
é um abismo sem fundo.
Tem lencinhos de papel,
pó de arroz, chaves, canetas,
porta-moedas, agenda
e talões de multibanco.
Tem amostras de perfumes,
livro de cheques e escova
para ajeitar o cabelo,
tem telemóvel que toca
e que nunca encontra a tempo.
Tem cartão do sindicato,
baton e a chave do carro
e o boletim de vacinas,
isqueiro, cigarros e tudo
com pacotinhos de açúcar,
fotografias dos filhos,
caixa dos óculos de sol,
talão da lavandaria.
E tem receitas de bolos
e a conta da mercearia.

A mala de uma mulher
é um abismo tremendo.
Contado, não se percebe.
Para acreditar, só vendo.
557

MEUS AMIGOS

Meus amigos.
Nesta coisa
de escrever o que se pensa
que se escreve se se pensa
que escrever é o que sai
do pensamento que cai
em letra de vem e vai
ao sabor do encantamento
do que se sente demais
reconstruindo em momentos
de solidão ou tristeza,
de alegria e de certeza,
de emoção e de carinho,
ou de horror e lassidão,
de precisa confusão
de tudo o que é a vida,
às vezes sou como o urso!
Hiberno de rima e métrica
e em atitude mimética
confundo-me com a rua
passeio, montras e árvores,
cão que passa, dobro
esquinas,
torno-me monte e riacho,
olho as águas rio abaixo
conto estrelas (faz de conta
que às vezes sou uma delas)
e passeio no infinito.
Distraio-me. Em silêncio grito
contra o que não há que ser.
E depois, quando o sol nasce
mais quente em qualquer solstício
fora de tempo e de regras,
volto a mim e estico as pernas,
espreguiço o pensamento
e enceto novo alento
para fazer mais um pouco
daquilo que me dá prazer:
sem dizer, dizer de tudo,
mascarar tirando a máscara
pintar sem tinta nem telas,
liquefazer aguarelas que,
conformo posso e sinto,
uso como um exorcismo
ou só fé de bem fazer,
mas que algo há de ser,
de bom ou mau,
ou nem isso.
Mas se nos apetecer
sermos materialistas,
decidimos que escrever
é excreção do pensamento
contendo em si algum fim,
tal como a urina tem dentro
a meditação do rim.
668

SILÊNCIO

Cai, noite de estrelas
branda, negra
misteriosa criatura
que me envolves
no aperto leve da síntese
do dia que se esgota.

Ronda por aí,
áspera certeza
do às vezes
do nem sempre
do todavia
e dos acasos
secos
depostos
em aras de granito
azul.

Flores de enxofre
rosas do deserto
geodes de intenções
quebrados
expostos ao vento
da miséria contida
em massas de cristais boémias.

Salta, mola que amola
em grês vermelho
como Silves
e trepa as muralhas
pelas raízes secas
que se contorcem
e descarnam.

Noite de chumbo
pesada farsa
que raspa e esgravata
raque-raque
a alma que me falta
e não se rende
na planície de ideias
sem ideias.

Rola e rebola e chia e grita
e cospe impropérios.

Deixa-me exausto aqui
onde se enforcam vides
sob o sol nos socalcos
da vida calçada de gigantes
onde nada se agita
e só a força do dizer
nos grita.
620

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