asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
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Poemas

48

Patafisismo anímico

Você ronda os fins de tempo,
parasita desse balé tântrico,
porta falsa é animismo físico,
peça velha de xadrez quântico.
Chave mestra abre brechas
nesse vendaval xamânico,
incidência, coincidência ou
despertamento indômito?
Od cresce, ferve e aquece
o corpo humano destenaz.
Reivindico tuas guerras
entre deus e satanás.
O silêncio fala mais
que a explicação.
199

Catarse

Pandora deu-me o caos para a catarse que matou de Sige, o seu silêncio,
engavetando cadáveres na infinidade da caixa preta dos desenganos,
foi numa dessas gavetas, que esqueci
a sensibilidade ultraromântica de dois semânticos: o Eu falou Te para o Amo
e toda a divina comédia gargalhou,
a água inundou melhor nos sonhos.
Me doeu como dói um parto, deixar em teus braços, a luz do sentimento frágil
que é aprender a desaprender
da maneira que aprendi a te amar.
Lhe tornei para mim, o carcereiro dos meus monstros, mas para ti,
fui o abominável cerberus que na cela do próprio inferno, quis lhe aprisionar.
Prefiro-te livre como o pássaro cósmico, que tem o espaço-tempo para voar.
483

Inquisição

Confusão que me transtorna,
como a bússula entorpecida
por terem lhe tirado o norte.
Pagão que aceita catequese,
devoro a hóstia da tua mão
e nesse culto sou a bruxa
grunhindo à tua inquisição:
me degole com bondade
e mate-me em desilusão,
no terror da infelicidade,
na flor da infeliz idade,
despida para a solidão.
418

Obituário de Jonathan Briley

A liberdade é uma coisa difícil de comprar, requer um preço alto que não é pago com poeira, palavras ou promessas vazias, a liberdade é comprada com o Eu dos ossos, da carne, do espírito e uma vez que você entendeu, você aprende a gostar, nós temos que nos libertar, ou morrer tentando.
209

Diga adeus que fico

Encontre-me agora no
juízo dos seus fardos.
Nos intravivenciamos,
o pecado amou o anjo,
teu céu loiro e violento
me esconde da tua paz.
Desvesti meu plenilúnio
pra achar que não me viu
e abracei-me ao despedir.
Caso me peça pra ficar,
eu irei lhe ouvir.
Diga a deus,
que fico.
445

Paradoxo do legado

Vivência regrada à funérea existência,
onde minha nascença inda não assolou a terra.
Célere data cujo rasga-se a linha,
o fio vermelho corta e retorno
antes mesmo da minha ida.
Perecendo ao putrefato,
perpetuei como oxigênio constantemente aspirado.
Bagagem dessa mentira absurda,
vivo sem sobreviver, planando no relevo
do ciclo infindo, afirmando com afinco
que nunca irei morrer,
pois minha eternidade
será o meu legado.
195

Suspiro-dos-jardins

Cronos interferiu minha
compreensão do teu fenômeno,
William James mentiu para mim,
nossa síntese não há fim.
A priori da aparência,
dispensei de perceber,
pois de uma eternidade a outra,
meu ego engendrara você.
Processo senil me doía o peito,
por amor à vida, deixo o viver.
Estava aqui, a coisa-de-si
que Immanuel queria entender.
De eternidade a eternidade,
nada existe fora de mim,
salvo a minha vontade,
que contra a razão,
insiste em lhe ver.
403

Eterna confissão

Quão vulneráveis nos permitiríamos estar
se soubéssemos que o adeus viria breve?
Quanto amor daríamos ao adeus,
se soubéssemos que ele o seria?
Deixo a história esquecer meu nome, para manter vivos meus costumes.
O anonimato será minha legação?
Quando odiar, odeie em vida, para que teu furor não interrompa teu descanso
e o mesmo sentimento sistematiza o amor, defuntos insatisfeitos sofrem
na eternidade do próprio saudosismo.
O dialeto de quem fenece o corpo soa diferente aos ouvidos de quem resta
e estes, libam suas memórias em taças
afogadas em saudades alcoólicas,
pela falta de ouvir a voz amorosa dos faltosos que não fizeram da vida,
uma eterna confissão.
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Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!