asliddell

asliddell

traíra da matrix. morrer é passear.

Perfil
15 166 Visualizações

Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
Ler poema completo

Poemas

48

Casa de areia

Freud nos chamou pela casa que somos,
minhas paredes deixam cair os rebocos,
mais uma vez a casa da areia
perde para a casa de tijolos, a briga é contra o vizinho ou contra o vento?
Este corpo mal me guarda,
tão imenso que esfrangalho,
tanta treva que a arcada amarela brilha
na boca aberta de espanto,
desespero de estar novamente, desmoronando.
Seria a luz do inconsciente, aquele sorriso que ri constrangido?
Conscientemente padecendo,
pois os vizinhos a nada se obrigam
e como nenhuma outra novidade, cai prematuro,
novamente solitário, mais uma vez sozinho.
479

Patafisismo anímico

Você ronda os fins de tempo,
parasita desse balé tântrico,
porta falsa é animismo físico,
peça velha de xadrez quântico.
Chave mestra abre brechas
nesse vendaval xamânico,
incidência, coincidência ou
despertamento indômito?
Od cresce, ferve e aquece
o corpo humano destenaz.
Reivindico tuas guerras
entre deus e satanás.
O silêncio fala mais
que a explicação.
202

Eterna confissão

Quão vulneráveis nos permitiríamos estar
se soubéssemos que o adeus viria breve?
Quanto amor daríamos ao adeus,
se soubéssemos que ele o seria?
Deixo a história esquecer meu nome, para manter vivos meus costumes.
O anonimato será minha legação?
Quando odiar, odeie em vida, para que teu furor não interrompa teu descanso
e o mesmo sentimento sistematiza o amor, defuntos insatisfeitos sofrem
na eternidade do próprio saudosismo.
O dialeto de quem fenece o corpo soa diferente aos ouvidos de quem resta
e estes, libam suas memórias em taças
afogadas em saudades alcoólicas,
pela falta de ouvir a voz amorosa dos faltosos que não fizeram da vida,
uma eterna confissão.
460

Baque do amante

Cerrei pálpebras e me vi chacoalhar meu crânio com as mãos,
pra ver o cérebro desprender e incorporar a minha interna confusão.
Ele sabe que reguei todos os sentimentos
por um único enxame de células rústicas,
a obra prima de Gaia, ninguém além do Você.
Nesse transtorno, aparto de mim os sentidos
e me despetalo pra ver teu riso de osso,
sem saber se é pra mim ou de mim.
266

Cantiga do amor doente

oh, amor
sou carne profana
que queima no templo
onde oras ao dobrar
seus joelhos

oh amor, parta
sem que me olhe
desse jeito
isso não é justo
e justiça eu mereço
336

Obituário de Jonathan Briley

A liberdade é uma coisa difícil de comprar, requer um preço alto que não é pago com poeira, palavras ou promessas vazias, a liberdade é comprada com o Eu dos ossos, da carne, do espírito e uma vez que você entendeu, você aprende a gostar, nós temos que nos libertar, ou morrer tentando.
210

Suspiro-dos-jardins

Cronos interferiu minha
compreensão do teu fenômeno,
William James mentiu para mim,
nossa síntese não há fim.
A priori da aparência,
dispensei de perceber,
pois de uma eternidade a outra,
meu ego engendrara você.
Processo senil me doía o peito,
por amor à vida, deixo o viver.
Estava aqui, a coisa-de-si
que Immanuel queria entender.
De eternidade a eternidade,
nada existe fora de mim,
salvo a minha vontade,
que contra a razão,
insiste em lhe ver.
404

Paradoxo da mentira

Arde goela e flama boca,
rasga lábio e logo exclama:
Minha língua sempre mente.
212

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!