Lista de Poemas

Cosmogonia

Mãe, parteira e filho,
quem me deu a luz
me pariu a gritos,
Tupã arramiou do céu,
mais um filho vivo.
Raios rebolando ao chão,
eu choro pra me alimentar,
me abraça forte, mamãe,
que eu vou chorar;
dá colo, vovó, pra eu
dormir e sonhar.
Me lava na água e sal,
me enxuga na luz solar,
quando eu crescer,
mamãe, eu vou cantar.
Sou feito do rio, de lama,
de sol e de ar.
253

Ausência

Me deitei cedo e
jurei que dormiria,
estou ao relento,
debaixo de um teto,
abaixo do trovão,
metade do edredom
eu deixei para você
na sua ausência.
341

Obituário de Jonathan Briley

A liberdade é uma coisa difícil de comprar, requer um preço alto que não é pago com poeira, palavras ou promessas vazias, a liberdade é comprada com o Eu dos ossos, da carne, do espírito e uma vez que você entendeu, você aprende a gostar, nós temos que nos libertar, ou morrer tentando.
198

Ladainha

Existe uma ablação
dilacerada em meu peito,
presto-me a me rasgar
para que me entenda,
pois não há verbo
que me explique.
Pelo sangue escorrido,
leia-me por dentro
para saber o porquê
do que há fora de mim.
282

Diabo pródigo

Sobre curta noção de algoz
largo-me no precipício de precipitações,
sem estar e sem ser, à mercê das compaixões.
Onde poderei dormitar minha cabeça cansada,
lugar onde o lumiar não seja de oblíqua demanda.
Consorte meu coração de retrancas
alcança a solução líquida e a derrama.
Com sorte o corte desinflama,
pequeno para o céu, grande para a lama,
dos vermes da terra faço uma cama,
Deus não me engana, não sou mais o que clama.
306

Baque do amante

Cerrei pálpebras e me vi chacoalhar meu crânio com as mãos,
pra ver o cérebro desprender e incorporar a minha interna confusão.
Ele sabe que reguei todos os sentimentos
por um único enxame de células rústicas,
a obra prima de Gaia, ninguém além do Você.
Nesse transtorno, aparto de mim os sentidos
e me despetalo pra ver teu riso de osso,
sem saber se é pra mim ou de mim.
251

Samsara

Respirou como quem grita
puxando a vida para dentro,
estufando o peito para cima,
eletrizando os seus sentidos.
Estava vivo.
 
Antepôs balas ao peito,
recolocando-as no lugar
para o sangue não vazar.
Gemendo a dor da vida,
das balas criou um lar
e chamou de Samsara.

Expirou como um bocejo,
soprando a vida para fora,
afundou pra baixo, o peito,
afongando o seu sentido.
Ele morreu.

Respirou como quem grita
e expirou como um bocejo,
vida a fora e vida a dentro,
estufa e afunda o peito,
morrendo ainda vivo,
dança a Samsara e
lindo é o movimento,
vida fora e vida dentro,
expira como um bocejo
e respira como um grito.
390

Inquisição

Confusão que me transtorna,
como a bússula entorpecida
por terem lhe tirado o norte.
Pagão que aceita catequese,
devoro a hóstia da tua mão
e nesse culto sou a bruxa
grunhindo à tua inquisição:
me degole com bondade
e mate-me em desilusão,
no terror da infelicidade,
na flor da infeliz idade,
despida para a solidão.
406

Negação

Eu, que tranquei minhas portas
para lhe ouvir entrar pelas janelas,
sonho o amor ladino: santo como a cruz
e mortal como os pregos do perigo.

Rastejo em tijolos frios, caçando ar para inalar,
trêmulo de frio, sem garganta para gritar,
não ouço o rio que hei de afundar.
mas eu, pelo bem do coração, nego meus sentidos.
268

Patafisismo anímico

Você ronda os fins de tempo,
parasita desse balé tântrico,
porta falsa é animismo físico,
peça velha de xadrez quântico.
Chave mestra abre brechas
nesse vendaval xamânico,
incidência, coincidência ou
despertamento indômito?
Od cresce, ferve e aquece
o corpo humano destenaz.
Reivindico tuas guerras
entre deus e satanás.
O silêncio fala mais
que a explicação.
187

Comentários (1)

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thaisftnl

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!