asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
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Poemas

48

Totem

Dentro dos meus ossos esponjosos
reside uma selva eterna,
que se conecta comigo
através de cada fluido corporal.
Parar para meditar é prestar atenção
na sorrateira conversa entre os órgãos,
suas fofocas milenares,
seus sussurros dissonantes.
Quando confiei meus pés na terra,
estatelei todos os sentidos para dentro,
ouvi uma serpente se enrolar
pela minha espinha dorsal,
misteriosamente natural.
251

Patafisismo anímico

Você ronda os fins de tempo,
parasita desse balé tântrico,
porta falsa é animismo físico,
peça velha de xadrez quântico.
Chave mestra abre brechas
nesse vendaval xamânico,
incidência, coincidência ou
despertamento indômito?
Od cresce, ferve e aquece
o corpo humano destenaz.
Reivindico tuas guerras
entre deus e satanás.
O silêncio fala mais
que a explicação.
201

Desabafo do escritor fadado à mudança

Todos os dias, uma rotina invisível permeia minha cabeça e me faz mudar, em toda essa inconstância. Quando saio, é como se eu me deixasse em casa e alguém parecido comigo fizesse a festa lá fora.
Uma pele amortecida na queda dos sentimentos, os mesmos que desabam todas as noites quando chego em casa e me reencontro da mesma forma que saí, diferente. O caminho pra casa é solitário, preciso fazer isso sozinhe, até porque, eu conheço bem o meu caminho.
333

Baque do amante

Cerrei pálpebras e me vi chacoalhar meu crânio com as mãos,
pra ver o cérebro desprender e incorporar a minha interna confusão.
Ele sabe que reguei todos os sentimentos
por um único enxame de células rústicas,
a obra prima de Gaia, ninguém além do Você.
Nesse transtorno, aparto de mim os sentidos
e me despetalo pra ver teu riso de osso,
sem saber se é pra mim ou de mim.
264

Caduceus

Corpo amálgamo em aliteração,
do ultraemotivo e a precognição,
o alcaeste é solvente universal,
salve meu decantado coração.
Chordata arterial e caduceus.

Fundidos no crisol,
da teurgia à dissolução,
do vinho, transforma amor,
transvia mônada em grãos.
Estou vivo e sou, respiro e vou,
para além desse Aeon.
321

Gato preto


Ronronar do peito,
sexta-feira é o nome
do precioso gato preto.
Jaz em 13 de setembro,
apunhalado pelo vento,
sem aspirar o ar direito,
narinas cheias de pelo,
na orla da minha cama,
me assistindo fenecendo
frio por fora e por dentro,
o dia se acabando
e eu morrendo.
475

Reconforto do consolo

Ao turbilhão de invazios caóticos
recitei um monólogo teu,
e logo o silêncio florido gritou e teceu
uma teia entre meu mundo e o seu.
Pensando em você, matei o invazio,
apesar do rejeito, me tirou do fraquejo,
ainda sensível, na ponta dos dedos.
Mãos de fada aveludando o meu peito,
lumiar anil dos olhos em renascimento.
Lhe quis trazer comigo nesse multiverso
virado do avesso, então de você
eu guardei um lampejo,
o desejo do teu doce beijo
e um falso "eu te amo"
como adeus.
214

Paradoxo da mentira

Arde goela e flama boca,
rasga lábio e logo exclama:
Minha língua sempre mente.
211

Diabo pródigo

Sobre curta noção de algoz
largo-me no precipício de precipitações,
sem estar e sem ser, à mercê das compaixões.
Onde poderei dormitar minha cabeça cansada,
lugar onde o lumiar não seja de oblíqua demanda.
Consorte meu coração de retrancas
alcança a solução líquida e a derrama.
Com sorte o corte desinflama,
pequeno para o céu, grande para a lama,
dos vermes da terra faço uma cama,
Deus não me engana, não sou mais o que clama.
318

Paradoxo do legado

Vivência regrada à funérea existência,
onde minha nascença inda não assolou a terra.
Célere data cujo rasga-se a linha,
o fio vermelho corta e retorno
antes mesmo da minha ida.
Perecendo ao putrefato,
perpetuei como oxigênio constantemente aspirado.
Bagagem dessa mentira absurda,
vivo sem sobreviver, planando no relevo
do ciclo infindo, afirmando com afinco
que nunca irei morrer,
pois minha eternidade
será o meu legado.
196

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!