asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
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Poemas

48

Cosmogonia

Mãe, parteira e filho,
quem me deu a luz
me pariu a gritos,
Tupã arramiou do céu,
mais um filho vivo.
Raios rebolando ao chão,
eu choro pra me alimentar,
me abraça forte, mamãe,
que eu vou chorar;
dá colo, vovó, pra eu
dormir e sonhar.
Me lava na água e sal,
me enxuga na luz solar,
quando eu crescer,
mamãe, eu vou cantar.
Sou feito do rio, de lama,
de sol e de ar.
274

Ausência

Me deitei cedo e
jurei que dormiria,
estou ao relento,
debaixo de um teto,
abaixo do trovão,
metade do edredom
eu deixei para você
na sua ausência.
357

Paradoxo da mentira

Arde goela e flama boca,
rasga lábio e logo exclama:
Minha língua sempre mente.
212

Paradoxo do legado

Vivência regrada à funérea existência,
onde minha nascença inda não assolou a terra.
Célere data cujo rasga-se a linha,
o fio vermelho corta e retorno
antes mesmo da minha ida.
Perecendo ao putrefato,
perpetuei como oxigênio constantemente aspirado.
Bagagem dessa mentira absurda,
vivo sem sobreviver, planando no relevo
do ciclo infindo, afirmando com afinco
que nunca irei morrer,
pois minha eternidade
será o meu legado.
198

Baque do amante

Cerrei pálpebras e me vi chacoalhar meu crânio com as mãos,
pra ver o cérebro desprender e incorporar a minha interna confusão.
Ele sabe que reguei todos os sentimentos
por um único enxame de células rústicas,
a obra prima de Gaia, ninguém além do Você.
Nesse transtorno, aparto de mim os sentidos
e me despetalo pra ver teu riso de osso,
sem saber se é pra mim ou de mim.
267

Ladainha

Existe uma ablação
dilacerada em meu peito,
presto-me a me rasgar
para que me entenda,
pois não há verbo
que me explique.
Pelo sangue escorrido,
leia-me por dentro
para saber o porquê
do que há fora de mim.
297

Diga adeus que fico

Encontre-me agora no
juízo dos seus fardos.
Nos intravivenciamos,
o pecado amou o anjo,
teu céu loiro e violento
me esconde da tua paz.
Desvesti meu plenilúnio
pra achar que não me viu
e abracei-me ao despedir.
Caso me peça pra ficar,
eu irei lhe ouvir.
Diga a deus,
que fico.
447

Reconforto do consolo

Ao turbilhão de invazios caóticos
recitei um monólogo teu,
e logo o silêncio florido gritou e teceu
uma teia entre meu mundo e o seu.
Pensando em você, matei o invazio,
apesar do rejeito, me tirou do fraquejo,
ainda sensível, na ponta dos dedos.
Mãos de fada aveludando o meu peito,
lumiar anil dos olhos em renascimento.
Lhe quis trazer comigo nesse multiverso
virado do avesso, então de você
eu guardei um lampejo,
o desejo do teu doce beijo
e um falso "eu te amo"
como adeus.
215

Lilith

Estive aqui, tu me escondeu
do templo que era pra ser meu.
Em desonra fui anhandeci,
na sombra dormi e sonhei
conosco na criação.

Copulação de ionização,
plasmados em comunhão.
A criação nasce da morte,
libertação traz o desnorte,
assombra a cocriação,
movimenta a voz e
desse som, houve luz.

Serpente em Terra moribunda,
não rastejou em terra alguma.
211

Nosso dia acaba assim

Abraços frouxos descolam os corpos
que nunca haviam em vida, se tocado.
Perto para vê-lo e longe para sentí-lo.
Ví-me nos olhos da tua esperança,
que antes de tua, era minha também.
Igualmente temeroso, bravamente nu,
rasgando de mim, os tecidos do corpo.
Desvestido me exponho para que vejas.
Perto para ver-me, longe para sentir-me.
Nosso dia acaba assim.
411

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!