asliddell

asliddell

traíra da matrix. morrer é passear.

Perfil
15 166 Visualizações

Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
Ler poema completo

Poemas

48

O versalhes cósmico

O azul fosco bordeando o sol
não pôde conter o frio arrepio
na espinha desse agonizante atraso,
redigindo ao vazio eterno
o cósmico tratado de versalhes.
Deixamos de replantar
a crina verde nas terras relvas,
para embelezar marte
com pomares.
241

Paradoxo do legado

Vivência regrada à funérea existência,
onde minha nascença inda não assolou a terra.
Célere data cujo rasga-se a linha,
o fio vermelho corta e retorno
antes mesmo da minha ida.
Perecendo ao putrefato,
perpetuei como oxigênio constantemente aspirado.
Bagagem dessa mentira absurda,
vivo sem sobreviver, planando no relevo
do ciclo infindo, afirmando com afinco
que nunca irei morrer,
pois minha eternidade
será o meu legado.
198

Nosso dia acaba assim

Abraços frouxos descolam os corpos
que nunca haviam em vida, se tocado.
Perto para vê-lo e longe para sentí-lo.
Ví-me nos olhos da tua esperança,
que antes de tua, era minha também.
Igualmente temeroso, bravamente nu,
rasgando de mim, os tecidos do corpo.
Desvestido me exponho para que vejas.
Perto para ver-me, longe para sentir-me.
Nosso dia acaba assim.
410

Gato preto


Ronronar do peito,
sexta-feira é o nome
do precioso gato preto.
Jaz em 13 de setembro,
apunhalado pelo vento,
sem aspirar o ar direito,
narinas cheias de pelo,
na orla da minha cama,
me assistindo fenecendo
frio por fora e por dentro,
o dia se acabando
e eu morrendo.
477

Diga adeus que fico

Encontre-me agora no
juízo dos seus fardos.
Nos intravivenciamos,
o pecado amou o anjo,
teu céu loiro e violento
me esconde da tua paz.
Desvesti meu plenilúnio
pra achar que não me viu
e abracei-me ao despedir.
Caso me peça pra ficar,
eu irei lhe ouvir.
Diga a deus,
que fico.
447

Ladainha

Existe uma ablação
dilacerada em meu peito,
presto-me a me rasgar
para que me entenda,
pois não há verbo
que me explique.
Pelo sangue escorrido,
leia-me por dentro
para saber o porquê
do que há fora de mim.
295

Ausência

Me deitei cedo e
jurei que dormiria,
estou ao relento,
debaixo de um teto,
abaixo do trovão,
metade do edredom
eu deixei para você
na sua ausência.
355

Funeral ao contrário

Abri um portão para o inferno em meu antebraço,
esborrou da artéria a vida, florescendo a flora morta da flor de lis,
velório mais perfumado que já vivi.
Quem viu não entendeu, quem entendeu sorriu para a candura,
aquela que deu asa para a força que tanto rezou a alquimia.
Foi na roda da mesma ladainha do enterro, que me exumaram,
intacto como um filho parido da Terra.
Tribal, cigana, nativa americana, aceito às cegas as vidas passadas,
em nome do amor que não deixou o corpo fenecer,
da lembrança que o desamor me fez fazer, nunca mais me enterrarão.
454

Castidade e amargura

Verto valor a troco do ouro,
pois de nada serviu o amor,
que distante do teu apalpe,
ao celibato me apregoou.
És antônimo de saudade,
meu reverso da verdade
e no berço do teu escuro,
solto a mão da claridade.
Esfaqueio o teu espectro
na babilônia da realidade,
falou-me o que não queria,
isento da minha maldade
por aqueles que dado dia
me afogaram à iniquidade.
Puro sangue desgraçado
das plêiades sorgiñak,
respeite meu peito sofrido,
respeite a minha coragem,
cada passo é dolorido,
cada erro é a castidade,
casto rente ao teu sorriso:
motriz da minha calamidade.
465

Cena do crime

Líquido em corpo morto,
carne em torno do osso,
crânio por trás do corvo,
silhueta esboça o corpo
do jovem casulo velho
gestante da borboleta.
Pele que a chuva beija,
água que olho despeja,
sangue ilhando a bela
estrela da boulevard.
445

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!