asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
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Poemas

48

Damiana

Caminha no véu, com medo do céu
fechar os portões antes de entrar.
Seu interceder luta pra esperar,
o seu dedo verde me plantou
pra prosperar.

Lutou pra viver, tentou respirar.
Faz sobreviver a história pra contar.
Eu te machuquei, tu me machucou,
mas lhe perdoei, você me perdoou?
Quando estiver sem teu corpo aqui,
suba para o céu, não esqueça de mim.
Confesse pra deus que tentou mudar,
aceito as desculpas se tu as aceitar.
Eu lutei pra viver, eu tentei respirar,
vou sobreviver com vida pra cantar;
tenha esperança, Damiana,
continue andando
antes do céu fechar.
281

Ossos e respiração - ensaio sobre morrer

O abraço frio da terra há de lhe esfolar a carne,
arrancar teus nervos com a fome dos vermes
e amarelar eles, teus ossos.
Você estará maior do que jamais foi,
uno com a telúrica da Terra.

A morte é vista com olhos desesperados,
inda que em vida, não lembrem-na.
Quando se morre, torna-se aquele que era antes do nascer;
a vida não é uma assassina, sê o espelho circunstancial
dos nossos processos (al)químicos.

Estou em paz com a verdade que, onde quer que eu esteja,
hei de cair morto em solo de minha terra para adubá-lo.
Em vida ainda, estarão minhas partículas,
na boca roída dos ratos, no corpo esguio dos lacaios,
para sempre nos brônquios, de respiração em respiração.
236

Cosmogonia

Mãe, parteira e filho,
quem me deu a luz
me pariu a gritos,
Tupã arramiou do céu,
mais um filho vivo.
Raios rebolando ao chão,
eu choro pra me alimentar,
me abraça forte, mamãe,
que eu vou chorar;
dá colo, vovó, pra eu
dormir e sonhar.
Me lava na água e sal,
me enxuga na luz solar,
quando eu crescer,
mamãe, eu vou cantar.
Sou feito do rio, de lama,
de sol e de ar.
271

Traquéia queimada - e sem rima

Minha mente fulminou a noite toda em tua imagem;
quando te caroei, abri a boca e fumacei,
pois contigo eu entrava em combustão espontânea,
me grelhavas da traquéia até as dermes.
O odor de peito queimado te sufocou à morte
e fui eu, teu assassino, quem depois de tua mãezinha,
mais lhe amou.

Estive amigo, homicida e por fim, teu coveiro;
a morte é idosa, arrasta a sete palmos
aquilo cujo molde não cabe o peso da Terra.
Descansa a tua paz quando a vida não aguentar mais
e te esperarei noutra.
253

Reflexões sobre o pessimismo das vontades - sob a óptica de schopenhauer

A inteligência se subordina à vontade, pois parte dela é a elevação do que há de primitivo em nós; pode-se fazer um paralelo conveniente sobre isso utilizando as noções de pontos energéticos como os sete chakras principais de todos os seres, destacando para essa analogia o chakra básicos - como a vontade primordial - e o chakra umbilical - como a expressão crua do que há na base; como forma de inteligência, os chakras do plexo solar, cardíaco e laríngeo são ótimas correlações, levando em conta que esses pontos refinam as vontades, expressam e viabilizam as realizações dentro dos padrões morais de sociedade em sociedade. O ser racional espelha em suas ações, aquilo que, ciclóide, abraça as vontades internas.
Schopenhauer leva a alcunha de psicólogo das vontades, por essa causa o vêem por um espectro pessimsita: as vontades brutais serão suprimidas por outras vontades, contextos históricos e racionalizações - não estamos vivendo sozinhos no mundo, ainda que haja solidão no ato de resistir. Quando, por ventura, encontra-se um caminho passível de unir vontades parentes (afins) sob um mesmo teto de vida, existir torna-se um ato mágico, orgástico, prazeroso, transcendente; arma-se um comparativo da "coisa-de-si exposta em praça pública", tal ainda como um fenômeno variante aos olhos da platéia, porém, a essência expressa para quem a vive.
Nossos melhores dias são aqueles pareados ao âmago, quando tudo o que há fora é o que há dentro - a nossa inteligência, em prol da nossa vontade. Ignorantes também podem desejar.
237

Sirenas da areia

Me divirto nos movimentos
dos grãos na ampulheta,
deixo a gravidade me juntar
com outros grãos de areia.
No vem e no vai, o tempo não esvai
e o que se perde encontra o que apraz;
sou um grão vivo de terra,
uma pedra da pedreira,
sou o sopro nas ondas,
sou um teco de areia.
229

Orpheu

Do meu tato, a distância te recolheu,
noutros braços além dos teus;
da tua imagem esculpi uma harpa,
para tocar coisas que queria te dizer:
me chamo Orpheu, prazer.
Estou gigante demais para essa ilha
cuja única direção que resta é o mar,
mas depois que a maré me afogou,
nunca mais voltei a nadar.
Se és um navio e estás vindo a mim,
lhe direi que não espero ninguém,
esconderei de ti o meu tato,
cantarei para ti as mágoas,
levarei-te ao teu amor,
esperando você ficar.
258

O versalhes cósmico

O azul fosco bordeando o sol
não pôde conter o frio arrepio
na espinha desse agonizante atraso,
redigindo ao vazio eterno
o cósmico tratado de versalhes.
Deixamos de replantar
a crina verde nas terras relvas,
para embelezar marte
com pomares.
240

Vislumbres do toque - imagens proféticas

Aconcheguei minhas mãos nos teus mil rostos,
fui longe demais para enxergar teu eu
e ao final, lhe atravessei,
temente à expulsão das tuas terras.
Nunca esquecerei do que vi:
toda aquela carapaça jovem
guardava meus temores -
seu vazio quase me levou
sem me ceder sequer um epitáfio.
Eu enxerguei mais do que te vi,
você não quis ficar para me ver também,
vai se lembrar de mim como um mofo velho
em seu apartamento semi-novo.
Mexi na artéria errada,
esse é o karma do meu todo.
Me resta sangrar o inframundo pelos poros,
com a difícil lembrança de que toquei
o ladro de dentro dos teus muros -
e não tinha ninguém.
225

Matrioska dos 70's

Dentro da anciã chora uma órfã,
incumbiu paternidade a deus
para não morrer sozinha,
mas antes dele já havia
uma cosmogonia de mulheres fortes.
A mãe da anciã nasceu de uma jovem,
se emaranhou nesse puerpério perpétuo
e virou estatística na mão dos patriarcas;
a jovem no ventre da mãe
será avó de si mesma um dia,
sem mais imposições
ou copulações impositivas.
O filho é um, as avós são várias.
249

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!