asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
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Poemas

48

Reflexões sobre o pessimismo das vontades - sob a óptica de schopenhauer

A inteligência se subordina à vontade, pois parte dela é a elevação do que há de primitivo em nós; pode-se fazer um paralelo conveniente sobre isso utilizando as noções de pontos energéticos como os sete chakras principais de todos os seres, destacando para essa analogia o chakra básicos - como a vontade primordial - e o chakra umbilical - como a expressão crua do que há na base; como forma de inteligência, os chakras do plexo solar, cardíaco e laríngeo são ótimas correlações, levando em conta que esses pontos refinam as vontades, expressam e viabilizam as realizações dentro dos padrões morais de sociedade em sociedade. O ser racional espelha em suas ações, aquilo que, ciclóide, abraça as vontades internas.
Schopenhauer leva a alcunha de psicólogo das vontades, por essa causa o vêem por um espectro pessimsita: as vontades brutais serão suprimidas por outras vontades, contextos históricos e racionalizações - não estamos vivendo sozinhos no mundo, ainda que haja solidão no ato de resistir. Quando, por ventura, encontra-se um caminho passível de unir vontades parentes (afins) sob um mesmo teto de vida, existir torna-se um ato mágico, orgástico, prazeroso, transcendente; arma-se um comparativo da "coisa-de-si exposta em praça pública", tal ainda como um fenômeno variante aos olhos da platéia, porém, a essência expressa para quem a vive.
Nossos melhores dias são aqueles pareados ao âmago, quando tudo o que há fora é o que há dentro - a nossa inteligência, em prol da nossa vontade. Ignorantes também podem desejar.
239

Traquéia queimada - e sem rima

Minha mente fulminou a noite toda em tua imagem;
quando te caroei, abri a boca e fumacei,
pois contigo eu entrava em combustão espontânea,
me grelhavas da traquéia até as dermes.
O odor de peito queimado te sufocou à morte
e fui eu, teu assassino, quem depois de tua mãezinha,
mais lhe amou.

Estive amigo, homicida e por fim, teu coveiro;
a morte é idosa, arrasta a sete palmos
aquilo cujo molde não cabe o peso da Terra.
Descansa a tua paz quando a vida não aguentar mais
e te esperarei noutra.
254

Cosmogonia

Mãe, parteira e filho,
quem me deu a luz
me pariu a gritos,
Tupã arramiou do céu,
mais um filho vivo.
Raios rebolando ao chão,
eu choro pra me alimentar,
me abraça forte, mamãe,
que eu vou chorar;
dá colo, vovó, pra eu
dormir e sonhar.
Me lava na água e sal,
me enxuga na luz solar,
quando eu crescer,
mamãe, eu vou cantar.
Sou feito do rio, de lama,
de sol e de ar.
272

Tetraedro de fogo

Estenderam sobre o fogo
as mão doloridas de calor,
roupagens de ossos fortes
ligadas ao cérebro disjuntor.
Graus exatos de caótico fulgor,
reorganizaram-se os átomos,
os pixels sagrados do ardor
que em combustão ígnea,
por convecção, as arrebatou.
Irradiou por todos os ventos
as cinzas do vil sonhador,
que por condução atômica,
solveu e não coagulou.
Seja lá quem fossem as mãos,
estavam vivas noutras poesias
que o próprio dono criou.
231

Credos, noites e filiação - retaliação

Com um pé atrás
eu não ando direito,
tropeço mentiras,
te jogo no avesso,
o mar no céu,
o céu na terra
e a terra à mercê.
Pra dormir no teu colo
sem desconfiar de você,
me reprimo, me renego,
te encanto para me crer.
Envergonho de ser insincero,
mas se preciso,
rompo meu credo
para viver.
279

Damiana

Caminha no véu, com medo do céu
fechar os portões antes de entrar.
Seu interceder luta pra esperar,
o seu dedo verde me plantou
pra prosperar.

Lutou pra viver, tentou respirar.
Faz sobreviver a história pra contar.
Eu te machuquei, tu me machucou,
mas lhe perdoei, você me perdoou?
Quando estiver sem teu corpo aqui,
suba para o céu, não esqueça de mim.
Confesse pra deus que tentou mudar,
aceito as desculpas se tu as aceitar.
Eu lutei pra viver, eu tentei respirar,
vou sobreviver com vida pra cantar;
tenha esperança, Damiana,
continue andando
antes do céu fechar.
282

Sirenas da areia

Me divirto nos movimentos
dos grãos na ampulheta,
deixo a gravidade me juntar
com outros grãos de areia.
No vem e no vai, o tempo não esvai
e o que se perde encontra o que apraz;
sou um grão vivo de terra,
uma pedra da pedreira,
sou o sopro nas ondas,
sou um teco de areia.
230

Vislumbres do toque - imagens proféticas

Aconcheguei minhas mãos nos teus mil rostos,
fui longe demais para enxergar teu eu
e ao final, lhe atravessei,
temente à expulsão das tuas terras.
Nunca esquecerei do que vi:
toda aquela carapaça jovem
guardava meus temores -
seu vazio quase me levou
sem me ceder sequer um epitáfio.
Eu enxerguei mais do que te vi,
você não quis ficar para me ver também,
vai se lembrar de mim como um mofo velho
em seu apartamento semi-novo.
Mexi na artéria errada,
esse é o karma do meu todo.
Me resta sangrar o inframundo pelos poros,
com a difícil lembrança de que toquei
o ladro de dentro dos teus muros -
e não tinha ninguém.
227

Ossos e respiração - ensaio sobre morrer

O abraço frio da terra há de lhe esfolar a carne,
arrancar teus nervos com a fome dos vermes
e amarelar eles, teus ossos.
Você estará maior do que jamais foi,
uno com a telúrica da Terra.

A morte é vista com olhos desesperados,
inda que em vida, não lembrem-na.
Quando se morre, torna-se aquele que era antes do nascer;
a vida não é uma assassina, sê o espelho circunstancial
dos nossos processos (al)químicos.

Estou em paz com a verdade que, onde quer que eu esteja,
hei de cair morto em solo de minha terra para adubá-lo.
Em vida ainda, estarão minhas partículas,
na boca roída dos ratos, no corpo esguio dos lacaios,
para sempre nos brônquios, de respiração em respiração.
240

Dos Anjos

E sempre que, com uma pá,
eu desenterrar os ossos
da minha sombra
e revirar a tumba
do vivo passado,
vou tropeçar e cair
no defunto putrefato
de Augusto dos Anjos.
Queria que os anjos
dissessem para Augusto
que a existência é vasta,
que a mente é a semi-deusa
e que o tempo não é linear.
275

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!