asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
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Poemas

48

Tetraedro de fogo

Estenderam sobre o fogo
as mão doloridas de calor,
roupagens de ossos fortes
ligadas ao cérebro disjuntor.
Graus exatos de caótico fulgor,
reorganizaram-se os átomos,
os pixels sagrados do ardor
que em combustão ígnea,
por convecção, as arrebatou.
Irradiou por todos os ventos
as cinzas do vil sonhador,
que por condução atômica,
solveu e não coagulou.
Seja lá quem fossem as mãos,
estavam vivas noutras poesias
que o próprio dono criou.
228

Orpheu

Do meu tato, a distância te recolheu,
noutros braços além dos teus;
da tua imagem esculpi uma harpa,
para tocar coisas que queria te dizer:
me chamo Orpheu, prazer.
Estou gigante demais para essa ilha
cuja única direção que resta é o mar,
mas depois que a maré me afogou,
nunca mais voltei a nadar.
Se és um navio e estás vindo a mim,
lhe direi que não espero ninguém,
esconderei de ti o meu tato,
cantarei para ti as mágoas,
levarei-te ao teu amor,
esperando você ficar.
256

Vislumbres do toque - imagens proféticas

Aconcheguei minhas mãos nos teus mil rostos,
fui longe demais para enxergar teu eu
e ao final, lhe atravessei,
temente à expulsão das tuas terras.
Nunca esquecerei do que vi:
toda aquela carapaça jovem
guardava meus temores -
seu vazio quase me levou
sem me ceder sequer um epitáfio.
Eu enxerguei mais do que te vi,
você não quis ficar para me ver também,
vai se lembrar de mim como um mofo velho
em seu apartamento semi-novo.
Mexi na artéria errada,
esse é o karma do meu todo.
Me resta sangrar o inframundo pelos poros,
com a difícil lembrança de que toquei
o ladro de dentro dos teus muros -
e não tinha ninguém.
224

Orquestra de um megaton

Esse vozerio,
coro das vozes assuadas,
imaginadas, ecos das auroras,
lapsos das memórias,
me canta o tímpano
como orquestra desafinada,
hino dos palavrões,
prosas desprezadas
desprezíveis, corruptíveis,
descabíveis deste momento.
Mesmo assim canta grave
o vocal do trovão,
oração, petição,
salvação, mas abandono.
Que mazela, vida minha.
221

Damiana

Caminha no véu, com medo do céu
fechar os portões antes de entrar.
Seu interceder luta pra esperar,
o seu dedo verde me plantou
pra prosperar.

Lutou pra viver, tentou respirar.
Faz sobreviver a história pra contar.
Eu te machuquei, tu me machucou,
mas lhe perdoei, você me perdoou?
Quando estiver sem teu corpo aqui,
suba para o céu, não esqueça de mim.
Confesse pra deus que tentou mudar,
aceito as desculpas se tu as aceitar.
Eu lutei pra viver, eu tentei respirar,
vou sobreviver com vida pra cantar;
tenha esperança, Damiana,
continue andando
antes do céu fechar.
279

Matrioska dos 70's

Dentro da anciã chora uma órfã,
incumbiu paternidade a deus
para não morrer sozinha,
mas antes dele já havia
uma cosmogonia de mulheres fortes.
A mãe da anciã nasceu de uma jovem,
se emaranhou nesse puerpério perpétuo
e virou estatística na mão dos patriarcas;
a jovem no ventre da mãe
será avó de si mesma um dia,
sem mais imposições
ou copulações impositivas.
O filho é um, as avós são várias.
247

Sirenas da areia

Me divirto nos movimentos
dos grãos na ampulheta,
deixo a gravidade me juntar
com outros grãos de areia.
No vem e no vai, o tempo não esvai
e o que se perde encontra o que apraz;
sou um grão vivo de terra,
uma pedra da pedreira,
sou o sopro nas ondas,
sou um teco de areia.
228

O versalhes cósmico

O azul fosco bordeando o sol
não pôde conter o frio arrepio
na espinha desse agonizante atraso,
redigindo ao vazio eterno
o cósmico tratado de versalhes.
Deixamos de replantar
a crina verde nas terras relvas,
para embelezar marte
com pomares.
240

Cosmogonia

Mãe, parteira e filho,
quem me deu a luz
me pariu a gritos,
Tupã arramiou do céu,
mais um filho vivo.
Raios rebolando ao chão,
eu choro pra me alimentar,
me abraça forte, mamãe,
que eu vou chorar;
dá colo, vovó, pra eu
dormir e sonhar.
Me lava na água e sal,
me enxuga na luz solar,
quando eu crescer,
mamãe, eu vou cantar.
Sou feito do rio, de lama,
de sol e de ar.
267

Ossos e respiração - ensaio sobre morrer

O abraço frio da terra há de lhe esfolar a carne,
arrancar teus nervos com a fome dos vermes
e amarelar eles, teus ossos.
Você estará maior do que jamais foi,
uno com a telúrica da Terra.

A morte é vista com olhos desesperados,
inda que em vida, não lembrem-na.
Quando se morre, torna-se aquele que era antes do nascer;
a vida não é uma assassina, sê o espelho circunstancial
dos nossos processos (al)químicos.

Estou em paz com a verdade que, onde quer que eu esteja,
hei de cair morto em solo de minha terra para adubá-lo.
Em vida ainda, estarão minhas partículas,
na boca roída dos ratos, no corpo esguio dos lacaios,
para sempre nos brônquios, de respiração em respiração.
235

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!