Lista de Poemas

Credos, noites e filiação - retaliação

Com um pé atrás
eu não ando direito,
tropeço mentiras,
te jogo no avesso,
o mar no céu,
o céu na terra
e a terra à mercê.
Pra dormir no teu colo
sem desconfiar de você,
me reprimo, me renego,
te encanto para me crer.
Envergonho de ser insincero,
mas se preciso,
rompo meu credo
para viver.
265

O versalhes cósmico

O azul fosco bordeando o sol
não pôde conter o frio arrepio
na espinha desse agonizante atraso,
redigindo ao vazio eterno
o cósmico tratado de versalhes.
Deixamos de replantar
a crina verde nas terras relvas,
para embelezar marte
com pomares.
226

Tetraedro de fogo

Estenderam sobre o fogo
as mão doloridas de calor,
roupagens de ossos fortes
ligadas ao cérebro disjuntor.
Graus exatos de caótico fulgor,
reorganizaram-se os átomos,
os pixels sagrados do ardor
que em combustão ígnea,
por convecção, as arrebatou.
Irradiou por todos os ventos
as cinzas do vil sonhador,
que por condução atômica,
solveu e não coagulou.
Seja lá quem fossem as mãos,
estavam vivas noutras poesias
que o próprio dono criou.
216

Damiana

Caminha no véu, com medo do céu
fechar os portões antes de entrar.
Seu interceder luta pra esperar,
o seu dedo verde me plantou
pra prosperar.

Lutou pra viver, tentou respirar.
Faz sobreviver a história pra contar.
Eu te machuquei, tu me machucou,
mas lhe perdoei, você me perdoou?
Quando estiver sem teu corpo aqui,
suba para o céu, não esqueça de mim.
Confesse pra deus que tentou mudar,
aceito as desculpas se tu as aceitar.
Eu lutei pra viver, eu tentei respirar,
vou sobreviver com vida pra cantar;
tenha esperança, Damiana,
continue andando
antes do céu fechar.
267

Sirenas da areia

Me divirto nos movimentos
dos grãos na ampulheta,
deixo a gravidade me juntar
com outros grãos de areia.
No vem e no vai, o tempo não esvai
e o que se perde encontra o que apraz;
sou um grão vivo de terra,
uma pedra da pedreira,
sou o sopro nas ondas,
sou um teco de areia.
213

Traquéia queimada - e sem rima

Minha mente fulminou a noite toda em tua imagem;
quando te caroei, abri a boca e fumacei,
pois contigo eu entrava em combustão espontânea,
me grelhavas da traquéia até as dermes.
O odor de peito queimado te sufocou à morte
e fui eu, teu assassino, quem depois de tua mãezinha,
mais lhe amou.

Estive amigo, homicida e por fim, teu coveiro;
a morte é idosa, arrasta a sete palmos
aquilo cujo molde não cabe o peso da Terra.
Descansa a tua paz quando a vida não aguentar mais
e te esperarei noutra.
236

Vislumbres do toque - imagens proféticas

Aconcheguei minhas mãos nos teus mil rostos,
fui longe demais para enxergar teu eu
e ao final, lhe atravessei,
temente à expulsão das tuas terras.
Nunca esquecerei do que vi:
toda aquela carapaça jovem
guardava meus temores -
seu vazio quase me levou
sem me ceder sequer um epitáfio.
Eu enxerguei mais do que te vi,
você não quis ficar para me ver também,
vai se lembrar de mim como um mofo velho
em seu apartamento semi-novo.
Mexi na artéria errada,
esse é o karma do meu todo.
Me resta sangrar o inframundo pelos poros,
com a difícil lembrança de que toquei
o ladro de dentro dos teus muros -
e não tinha ninguém.
212

Orquestra de um megaton

Esse vozerio,
coro das vozes assuadas,
imaginadas, ecos das auroras,
lapsos das memórias,
me canta o tímpano
como orquestra desafinada,
hino dos palavrões,
prosas desprezadas
desprezíveis, corruptíveis,
descabíveis deste momento.
Mesmo assim canta grave
o vocal do trovão,
oração, petição,
salvação, mas abandono.
Que mazela, vida minha.
209

Ossos e respiração - ensaio sobre morrer

O abraço frio da terra há de lhe esfolar a carne,
arrancar teus nervos com a fome dos vermes
e amarelar eles, teus ossos.
Você estará maior do que jamais foi,
uno com a telúrica da Terra.

A morte é vista com olhos desesperados,
inda que em vida, não lembrem-na.
Quando se morre, torna-se aquele que era antes do nascer;
a vida não é uma assassina, sê o espelho circunstancial
dos nossos processos (al)químicos.

Estou em paz com a verdade que, onde quer que eu esteja,
hei de cair morto em solo de minha terra para adubá-lo.
Em vida ainda, estarão minhas partículas,
na boca roída dos ratos, no corpo esguio dos lacaios,
para sempre nos brônquios, de respiração em respiração.
224

Dos Anjos

E sempre que, com uma pá,
eu desenterrar os ossos
da minha sombra
e revirar a tumba
do vivo passado,
vou tropeçar e cair
no defunto putrefato
de Augusto dos Anjos.
Queria que os anjos
dissessem para Augusto
que a existência é vasta,
que a mente é a semi-deusa
e que o tempo não é linear.
259

Comentários (1)

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Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!