asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
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Poemas

48

Negação

Eu, que tranquei minhas portas
para lhe ouvir entrar pelas janelas,
sonho o amor ladino: santo como a cruz
e mortal como os pregos do perigo.

Rastejo em tijolos frios, caçando ar para inalar,
trêmulo de frio, sem garganta para gritar,
não ouço o rio que hei de afundar.
mas eu, pelo bem do coração, nego meus sentidos.
281

Ladainha

Existe uma ablação
dilacerada em meu peito,
presto-me a me rasgar
para que me entenda,
pois não há verbo
que me explique.
Pelo sangue escorrido,
leia-me por dentro
para saber o porquê
do que há fora de mim.
295

Cantiga do amor doente

oh, amor
sou carne profana
que queima no templo
onde oras ao dobrar
seus joelhos

oh amor, parta
sem que me olhe
desse jeito
isso não é justo
e justiça eu mereço
336

Lilith

Estive aqui, tu me escondeu
do templo que era pra ser meu.
Em desonra fui anhandeci,
na sombra dormi e sonhei
conosco na criação.

Copulação de ionização,
plasmados em comunhão.
A criação nasce da morte,
libertação traz o desnorte,
assombra a cocriação,
movimenta a voz e
desse som, houve luz.

Serpente em Terra moribunda,
não rastejou em terra alguma.
210

Obituário de Jonathan Briley

A liberdade é uma coisa difícil de comprar, requer um preço alto que não é pago com poeira, palavras ou promessas vazias, a liberdade é comprada com o Eu dos ossos, da carne, do espírito e uma vez que você entendeu, você aprende a gostar, nós temos que nos libertar, ou morrer tentando.
209

Diga adeus que fico

Encontre-me agora no
juízo dos seus fardos.
Nos intravivenciamos,
o pecado amou o anjo,
teu céu loiro e violento
me esconde da tua paz.
Desvesti meu plenilúnio
pra achar que não me viu
e abracei-me ao despedir.
Caso me peça pra ficar,
eu irei lhe ouvir.
Diga a deus,
que fico.
445

Castidade e amargura

Verto valor a troco do ouro,
pois de nada serviu o amor,
que distante do teu apalpe,
ao celibato me apregoou.
És antônimo de saudade,
meu reverso da verdade
e no berço do teu escuro,
solto a mão da claridade.
Esfaqueio o teu espectro
na babilônia da realidade,
falou-me o que não queria,
isento da minha maldade
por aqueles que dado dia
me afogaram à iniquidade.
Puro sangue desgraçado
das plêiades sorgiñak,
respeite meu peito sofrido,
respeite a minha coragem,
cada passo é dolorido,
cada erro é a castidade,
casto rente ao teu sorriso:
motriz da minha calamidade.
463

Cena do crime

Líquido em corpo morto,
carne em torno do osso,
crânio por trás do corvo,
silhueta esboça o corpo
do jovem casulo velho
gestante da borboleta.
Pele que a chuva beija,
água que olho despeja,
sangue ilhando a bela
estrela da boulevard.
445

Inquisição

Confusão que me transtorna,
como a bússula entorpecida
por terem lhe tirado o norte.
Pagão que aceita catequese,
devoro a hóstia da tua mão
e nesse culto sou a bruxa
grunhindo à tua inquisição:
me degole com bondade
e mate-me em desilusão,
no terror da infelicidade,
na flor da infeliz idade,
despida para a solidão.
418

Funeral ao contrário

Abri um portão para o inferno em meu antebraço,
esborrou da artéria a vida, florescendo a flora morta da flor de lis,
velório mais perfumado que já vivi.
Quem viu não entendeu, quem entendeu sorriu para a candura,
aquela que deu asa para a força que tanto rezou a alquimia.
Foi na roda da mesma ladainha do enterro, que me exumaram,
intacto como um filho parido da Terra.
Tribal, cigana, nativa americana, aceito às cegas as vidas passadas,
em nome do amor que não deixou o corpo fenecer,
da lembrança que o desamor me fez fazer, nunca mais me enterrarão.
454

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!