asliddell

asliddell

traíra da matrix. morrer é passear.

Perfil
15 194 Visualizações

Monólogo da interrupção

Estava para desdobrar
quando uma voz me instigou ao susto,
mais um pensamento sólido afundava
a prateleira da minha noção.
Tanto sei e pouco fiz,
ainda não amei por amar,
me apoiando nas missões atemporais
dessa minha vida,
acenando para cada motorista que buzinar,
mas negando os seus convites.
Nasci engatilhado de rebeldia,
segurando um terço:
pai nosso que está no céu, maldição!
Eu não vejo Deus, e com ver,
quero dizer sentir;
o que me segura ao corpo
é um forte fio de prata 
que ri e bebe por mim.
Mais um pensamento joga terra
na cova do meu finado silêncio:
o que sentir depois da liberdade de partir?
Soltei as mãos e muito parece
que abandonei junto meus dedos.
Agora o corpo esmorece
no esquecimento sonífero
até esquecer como respirar.
"Logo amanhece!", me grita a janela.
Estou feliz, mas não estou em paz.
Ler poema completo

Poemas

48

Inquisição

Confusão que me transtorna,
como a bússula entorpecida
por terem lhe tirado o norte.
Pagão que aceita catequese,
devoro a hóstia da tua mão
e nesse culto sou a bruxa
grunhindo à tua inquisição:
me degole com bondade
e mate-me em desilusão,
no terror da infelicidade,
na flor da infeliz idade,
despida para a solidão.
421

Negação

Eu, que tranquei minhas portas
para lhe ouvir entrar pelas janelas,
sonho o amor ladino: santo como a cruz
e mortal como os pregos do perigo.

Rastejo em tijolos frios, caçando ar para inalar,
trêmulo de frio, sem garganta para gritar,
não ouço o rio que hei de afundar.
mas eu, pelo bem do coração, nego meus sentidos.
283

Cantiga do amor doente

oh, amor
sou carne profana
que queima no templo
onde oras ao dobrar
seus joelhos

oh amor, parta
sem que me olhe
desse jeito
isso não é justo
e justiça eu mereço
338

Gato preto


Ronronar do peito,
sexta-feira é o nome
do precioso gato preto.
Jaz em 13 de setembro,
apunhalado pelo vento,
sem aspirar o ar direito,
narinas cheias de pelo,
na orla da minha cama,
me assistindo fenecendo
frio por fora e por dentro,
o dia se acabando
e eu morrendo.
478

Patafisismo anímico

Você ronda os fins de tempo,
parasita desse balé tântrico,
porta falsa é animismo físico,
peça velha de xadrez quântico.
Chave mestra abre brechas
nesse vendaval xamânico,
incidência, coincidência ou
despertamento indômito?
Od cresce, ferve e aquece
o corpo humano destenaz.
Reivindico tuas guerras
entre deus e satanás.
O silêncio fala mais
que a explicação.
204

Funeral ao contrário

Abri um portão para o inferno em meu antebraço,
esborrou da artéria a vida, florescendo a flora morta da flor de lis,
velório mais perfumado que já vivi.
Quem viu não entendeu, quem entendeu sorriu para a candura,
aquela que deu asa para a força que tanto rezou a alquimia.
Foi na roda da mesma ladainha do enterro, que me exumaram,
intacto como um filho parido da Terra.
Tribal, cigana, nativa americana, aceito às cegas as vidas passadas,
em nome do amor que não deixou o corpo fenecer,
da lembrança que o desamor me fez fazer, nunca mais me enterrarão.
454

Confidências de Scipio e Laelius

Quando o amor inaudível toma as batidas do peito,
o que se escuta é um gemido dialético esquisito,
água fria em ferro quente, o corpo febril,
o choque das nuvens vigentes que o anjo vidente previu.
Meu peito rasgado e lavado no vinho,
gosto doce, emocional, vermelho e sutil.
Agora que tudo escorreu, tudo volta para dentro,
se arrastando por debaixo da tectonia mirabolante das placas,
como a poeira é varrida das solas dos tapetes
e meu corpo Laelius, recolhido em teus lençóis de Scipio.
436

Cena do crime

Líquido em corpo morto,
carne em torno do osso,
crânio por trás do corvo,
silhueta esboça o corpo
do jovem casulo velho
gestante da borboleta.
Pele que a chuva beija,
água que olho despeja,
sangue ilhando a bela
estrela da boulevard.
445

Samsara

Respirou como quem grita
puxando a vida para dentro,
estufando o peito para cima,
eletrizando os seus sentidos.
Estava vivo.
 
Antepôs balas ao peito,
recolocando-as no lugar
para o sangue não vazar.
Gemendo a dor da vida,
das balas criou um lar
e chamou de Samsara.

Expirou como um bocejo,
soprando a vida para fora,
afundou pra baixo, o peito,
afongando o seu sentido.
Ele morreu.

Respirou como quem grita
e expirou como um bocejo,
vida a fora e vida a dentro,
estufa e afunda o peito,
morrendo ainda vivo,
dança a Samsara e
lindo é o movimento,
vida fora e vida dentro,
expira como um bocejo
e respira como um grito.
405

Diabo pródigo

Sobre curta noção de algoz
largo-me no precipício de precipitações,
sem estar e sem ser, à mercê das compaixões.
Onde poderei dormitar minha cabeça cansada,
lugar onde o lumiar não seja de oblíqua demanda.
Consorte meu coração de retrancas
alcança a solução líquida e a derrama.
Com sorte o corte desinflama,
pequeno para o céu, grande para a lama,
dos vermes da terra faço uma cama,
Deus não me engana, não sou mais o que clama.
323

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!