asliddell

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traíra da matrix. morrer é passear.

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Milagre

No quarto da frente
mora um milagre,
que em toda noite
bate em minha porta.
Visto as vestes mais belas,
mas o que estou esperando,
se sempre que atendo
me viram as costas?

Então rebolo os sapatos ao vento,
me rendo como um trigal;
Deusa, se isso é um teste
e estás me ouvindo,
eu aguento.

Trinta mil gotas caindo
pela minha cavidade ocular,
carne, osso e nervo exaurido
vão te ouvir me chamar,
mas não vão te amparar.
Mesmo que eu chore
meus próprios cacos,
eu aguento.
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Poemas

48

Inquisição

Confusão que me transtorna,
como a bússula entorpecida
por terem lhe tirado o norte.
Pagão que aceita catequese,
devoro a hóstia da tua mão
e nesse culto sou a bruxa
grunhindo à tua inquisição:
me degole com bondade
e mate-me em desilusão,
no terror da infelicidade,
na flor da infeliz idade,
despida para a solidão.
420

Samsara

Respirou como quem grita
puxando a vida para dentro,
estufando o peito para cima,
eletrizando os seus sentidos.
Estava vivo.
 
Antepôs balas ao peito,
recolocando-as no lugar
para o sangue não vazar.
Gemendo a dor da vida,
das balas criou um lar
e chamou de Samsara.

Expirou como um bocejo,
soprando a vida para fora,
afundou pra baixo, o peito,
afongando o seu sentido.
Ele morreu.

Respirou como quem grita
e expirou como um bocejo,
vida a fora e vida a dentro,
estufa e afunda o peito,
morrendo ainda vivo,
dança a Samsara e
lindo é o movimento,
vida fora e vida dentro,
expira como um bocejo
e respira como um grito.
404

Desabafo do escritor fadado à mudança

Todos os dias, uma rotina invisível permeia minha cabeça e me faz mudar, em toda essa inconstância. Quando saio, é como se eu me deixasse em casa e alguém parecido comigo fizesse a festa lá fora.
Uma pele amortecida na queda dos sentimentos, os mesmos que desabam todas as noites quando chego em casa e me reencontro da mesma forma que saí, diferente. O caminho pra casa é solitário, preciso fazer isso sozinhe, até porque, eu conheço bem o meu caminho.
333

Caduceus

Corpo amálgamo em aliteração,
do ultraemotivo e a precognição,
o alcaeste é solvente universal,
salve meu decantado coração.
Chordata arterial e caduceus.

Fundidos no crisol,
da teurgia à dissolução,
do vinho, transforma amor,
transvia mônada em grãos.
Estou vivo e sou, respiro e vou,
para além desse Aeon.
321

Reconforto do consolo

Ao turbilhão de invazios caóticos
recitei um monólogo teu,
e logo o silêncio florido gritou e teceu
uma teia entre meu mundo e o seu.
Pensando em você, matei o invazio,
apesar do rejeito, me tirou do fraquejo,
ainda sensível, na ponta dos dedos.
Mãos de fada aveludando o meu peito,
lumiar anil dos olhos em renascimento.
Lhe quis trazer comigo nesse multiverso
virado do avesso, então de você
eu guardei um lampejo,
o desejo do teu doce beijo
e um falso "eu te amo"
como adeus.
215

Diabo pródigo

Sobre curta noção de algoz
largo-me no precipício de precipitações,
sem estar e sem ser, à mercê das compaixões.
Onde poderei dormitar minha cabeça cansada,
lugar onde o lumiar não seja de oblíqua demanda.
Consorte meu coração de retrancas
alcança a solução líquida e a derrama.
Com sorte o corte desinflama,
pequeno para o céu, grande para a lama,
dos vermes da terra faço uma cama,
Deus não me engana, não sou mais o que clama.
321

Catarse

Pandora deu-me o caos para a catarse que matou de Sige, o seu silêncio,
engavetando cadáveres na infinidade da caixa preta dos desenganos,
foi numa dessas gavetas, que esqueci
a sensibilidade ultraromântica de dois semânticos: o Eu falou Te para o Amo
e toda a divina comédia gargalhou,
a água inundou melhor nos sonhos.
Me doeu como dói um parto, deixar em teus braços, a luz do sentimento frágil
que é aprender a desaprender
da maneira que aprendi a te amar.
Lhe tornei para mim, o carcereiro dos meus monstros, mas para ti,
fui o abominável cerberus que na cela do próprio inferno, quis lhe aprisionar.
Prefiro-te livre como o pássaro cósmico, que tem o espaço-tempo para voar.
486

Negação

Eu, que tranquei minhas portas
para lhe ouvir entrar pelas janelas,
sonho o amor ladino: santo como a cruz
e mortal como os pregos do perigo.

Rastejo em tijolos frios, caçando ar para inalar,
trêmulo de frio, sem garganta para gritar,
não ouço o rio que hei de afundar.
mas eu, pelo bem do coração, nego meus sentidos.
281

Lilith

Estive aqui, tu me escondeu
do templo que era pra ser meu.
Em desonra fui anhandeci,
na sombra dormi e sonhei
conosco na criação.

Copulação de ionização,
plasmados em comunhão.
A criação nasce da morte,
libertação traz o desnorte,
assombra a cocriação,
movimenta a voz e
desse som, houve luz.

Serpente em Terra moribunda,
não rastejou em terra alguma.
211

Confidências de Scipio e Laelius

Quando o amor inaudível toma as batidas do peito,
o que se escuta é um gemido dialético esquisito,
água fria em ferro quente, o corpo febril,
o choque das nuvens vigentes que o anjo vidente previu.
Meu peito rasgado e lavado no vinho,
gosto doce, emocional, vermelho e sutil.
Agora que tudo escorreu, tudo volta para dentro,
se arrastando por debaixo da tectonia mirabolante das placas,
como a poeira é varrida das solas dos tapetes
e meu corpo Laelius, recolhido em teus lençóis de Scipio.
436

Comentários (1)

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Thaís Fontenele

Belíssimas poesias, parabéns pelas obras!