Reminiscências de águas infantes
em ondas, desarrumada, a cheia monta o rio como um carnaval de águas em busca de navios o menino, maravilhado, vestido das margens imagina seus açudes em todas essas águas a cheia, o menino e as águas nem percebem a tarde e a disposição da vida em se tornar saudade
Das materialidades intensas e energias
quando o tempo teima em descansar, no transverso dos fatos, o mundo é meu gongá e a vontade permite, num jeito de resistência, trazer no meio dos passos os enredos da consciência e o orixá aparece, como energia sem fim como se fosse um decreto que a paz joga em mim
Ode aos 70
aos setenta dou-me à rebeldia de armazenar as horas como dias a emoção, urgente, um pouco gasta, derrama-se incauta no vão de lágrimas o tempo nos anoitece como uma grande dádiva
Elza em jornada
Elza tinha na voz como uma revoada vinte mil pássaros navegando suas asas Elza tinha na bôca um comício itinerante no derramar-se humana em palavras e cantos Elza dormia sua negritude em futuros acalantos
Laçadas oníricas em recorrência
menino, envergonhado, eu sonhava o futuro como um grande laço nas cordas que pude, laçava o tempo e todos os desejos do pensamento esse brincar do futuro é um sonho recorrente
Negra percussão da vida
negro, o país tramita, entre o preconceito e a polícia e as áfricas dormidas, em suas costas, constroem desejos pelas portas um dia chegarão escuros nos ombros da revolta
Previsões consentidas
o destino é só um caminho que o homem, no tempo, vai consentindo
Da fome em sol, dias e calçadas
o sol, translúcida vertente, engole a noite mansamente a calçada, impunemente, já em madrugada, guarda humanos em seu leito em fomes aprazadas o dia, intensamente faminto, deixa-se fluir envergonhado
Um passo à frente, dois atrás
a vontade, posta como fato, esquece a necessidade da concretude dos atos a realidade, aceita apenas o desejo como ação explícita de todos os passos do enredo o desejo e a vontade afoitos são um descuido do medo
Andanças em mim em atalhos
quando passeio por mim nas estradas que consigo deixo-me a caminho de estar sempre comigo das encruzilhadas postas como discurso dou-me mais a vê-las grávidas do futuro e tanjo-me nos atalhos que mantenham meu rumo
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.