AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

191

modernidade

como moderno

o aparelho móvel

é o tamanho exato

do homem e seu interno

o verbo que transmite

é claro e desconexo

nada do que ele é

está interno

antes se transmite

alheio a seu ego

nos programas em que a telefônica
lhe externa
 
avançado

o homem vira acessório
do nada

cada celular

é um trânsito infecundo
das palavras perdidas
pelo mundo
 
cai-lhe a vida

em programas

que tecem um sonho

e estabelecem o drama:

o homem é sempre menor
que aquele que o chama

a iniciativa da chamada

é o aval da dominância
 
apenso ao aparelho

o homem alinha

passos que nem são seus
pelos caminhos

falta-lhe pensar uma razão
por que caminha

guardada a desproporção
da inumana companhia
 
de resto

pela cidade

o homem acompanha a solidão
em direção a nada  
 
 
133

Menção a Frederika

assim como Frederika
cerzida ao coração holandes
Filipéia quase se estanca
com seu destino de rês
 
nem porque Frederika

se ousasse menos urbana
mas que se quisesse alegre
no exercício do drama
 
porque galões encestados
no seu ombro mais rural l
he ditassem um ritmo lento
qual vento em canavial
 
e Filipéia quer-se rápida

na sua viagem sagaz

que empreende como bolandeira
nos engenhos do nunca mais.
 
pois mesmo sendo cidades
em contrafortes definidos
Filipéia nunca é Frederika
apesar de todos os indícios
 
assim partida Filipéia

em Frederika amordaçada
nunca que uma palavra
pesasse mais que um fardo
 
já quase Filipéia

ainda tão Frederika

o tempo lhe dita ordens
como chefe de polícia
 
revolvida sua terra

por pés tão passageiros

onde os índios que amanhavam
seu jeito de verdadeira?
 
é que lhes sobram os suores
dos homens que lhes atiçam
construindo uma história
envoltos em seus ofícios
142

memória

A memória

não preside

apenas auxilia

as dores que não tive
é que vivê-la
pode ser um jeito

de trazer o fato

pra dentro do peito

e tê-la como assente
no cartório da vida
coisa de ser quase falsa
mesmo objetiva
pois tange a franja da alma
como uma tristeza

que apenas deixou de ser alegre
por desnatureza.
 
A memória

não existe

é apenas um navio

que teima em trafegar no fato
dos mares que nem vivo.

É que em suas ondas

não navegam propriamente
antes inventam águas

em que nem se está presente.
 
A memória

é um cabide

em que toda a paciência
está em riste

cabe apenas trazê-la
muito amiúde

e consumi-la adredemente
naquilo tudo que eu pude.

A memória

não se anuncia

antes é propaganda

do que não vigia

e esse seu jeito de fato
é apenas alegoria

que as sinapses jogam
pelo vão dos dias.
 
A memória

é sempre intacta
basta não tê-la
como matemática
é preciso cabê-la
sempre avulsa

e em números
em que se caiba.
 
A memória

é uma gestão pacata

nada lhe gerencia

mais que a alma

porque é de tê-la própria

assim aos borbotões

que se distingue quando em paz
que se atinge quando não

é maneira de viver morrendo
inventando vivas as razões.
 
A memória enfim

é quase um não

que nem chega a ser exata
quando próxima da razão.
62

Memorando da consolação

eu boiei no teu corpo

como uma fragata constrangida
e habitei várias guerras
perdido no rumo com que lidas
 
eu me tangi na noite

com a descompostura dos prazeres
e nunca me tive como tanto
tiveste de mim nos teus haveres
 
e me amanheci noturno

sob as pálpebras do mundo

por tão apenas te sentir sem fim
e eu, concluso, tão sem prumo
 
eu mergulhei no dia

como um peixe descabido
naufragado impunemente

nas desfaçatez dos teus sentidos
 
e me rememorei em ti

em cada franja das calçadas

e tão sem peito, o coração em punho
discursando o verbo em toneladas
 
e rascunhei poemas

em cada ruga da estrada
perdidas as rebeliões

no leito avulso das palavras
 
e quase sem fôlego

tropecei nos advérbios

que teimas em derramar assim

na esteira cadente do meu cérebro
135

memento

Nem mais uma excelência
entre no paraíso

sem antes que provar se tenha
que haja combatido
 
nem mais uma excelência
entre no paraíso

sem antes que provar se tenha
que exerça os sentidos
 
nem mais uma excelência
se preste ao exercício

de fabricar da pele alheia
as premissas do seu riso
 
e que assim seja

pela noite resumida

por todos os dias que o povo perca
do vão de suas vidas.
 
108

madrugada a tempo solto

os galos

noticiam o dia

com a postura indefinida
de jornalistas da rotina
 
e construindo as horas

no fundo dessa América Latina
eu ouço o jornalismo inato

das aves de minha pátria.
 
85

itinerário avante

ao riso

dê-se a fala

de quem habita inteiro
sua alma
 
ao povo

dê-se a palavra
de quem cogita
todas as praças
 
ao mundo

dê-se a vontade
de habitar impune
a liberdade
 
 
154

Inversão

inverto.

sou aquilo

que nem me conheço.
 
invento.

sou o contrário
do meu medo.
 
intento.

ouso amar-me
como invento.
58

Interlóquio matinal

súbita

a manhã nem é tanta
que me cubra o peito
de esperança
 
súbita

a manhã nem é humana

que esconda o ranger de dentes
e a inconstância
 
sórdida

a manhã nem se levanta
no estandarte do peito
de quem desama
 
sólida

a manhã se inflama
se se constrói a razão
por que se ama
 
115

Insinuações impatrióticas e alguns senões

frequentemente

desalinhavo o destino nas manhãs

e destravo a vida tão impunemente

que o futuro é como se fora um edredon
por onde cabem todos os viventes.

e nesses alinhavos

desvencilho- me da nação em desalinho
o universo sempre é a pátria

de todos os meus caminhos.
122

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado