apenas a cova e a felina saudade restaram na esquina do muro como uma planta que miasse ao infinito e parisse vaginas e fosse antes de gato um homem primitivo
em Zeca existiu a solução de toda a dialética entranhada nos seus olhos
Zeca, como homem, via o sono e a morte como uma forma de fugir do desencontro
e hoje faz-se consciência daquilo que ficou gatamente como ausência
144
palavras ao boi no ano da graça de 1988
assim em tua semelhança eu possa pastar adredemente os quilos de razão que nunca pude e me restar tranquilo e tão somente que sozinho, ás vezes, me desfaça em ruminar a vida a tão confronto que a luta me seja tão ardente como se fora avessa ao desencontro
e não me iluda nas virginais pastagens que as aparências iluminam vastas mas me tenha atento e controlado ao conteúdo de tudo que se pasta pois rarefeito, ás vezes, em vontade me suba do peito a sofreguidão extrema das prontidões que alinho tão a custo nas pastagens gerais que já me tenham
quero-me assim em cada músculo refletir a fibra de tua indolência que mais parece uma ação fortuita daquilo que te tem como presença pois se te afirmas inválido no teu pulo mais me tenha afeito à consciência de que meu pulo é muito mais que tanto na solidez dos gados que convenham
quero atravessar tua calma com a brandura e a competência com que te alias á vitória exausta das refregas gerais de tua ausência pois as noites que se arquivam no teu lombo já pela manhã se dizem madrugadas arrancada à pulso dos teus ombros na lavratura informal da minha fala
quero beber teu tempo em cálice coerente que não me faça doer em cada esquina mas que tenha da dor o rasgo em trânsito com que as coisas sempre se alinham quero traçar as retas que me curvem sob o peso dos valores desse dia e merecer a luta em que me acho na estreiteza do leito em que me guio
quero enfrentar todo vermelho com a solidão fugaz de tua pata e me abraçar ao mundo como rubro de toda a eficiência que me invada pois do choque agudo dos contrários me suba à face uma rosa esquálida que signifique toda a vermelhidão que se pinta fatal na minha alma
quero esmagar meus passos como passeias molemente o mundo e resgatar a profunda contundência com que caminhas apesar do rumo pois distribuir os pés pela estrada tem muito mais de sólida tecitura que os teares das fábricas que alinhavam os suores dos homens em sua escravatura
quero compreender teus olhos com a languidez com que me olhas e refletir no olhar a imensa calma com que a vida o nosso olhar deflora pois que me tenha atento a cada espanto e que me tenha pronto a cada hora a fazer do meu olho uma bandeira que me tenha escrito em minha história.
70
Palavras a Osagyian
o pilão anuncia que o mundo em vão tem duas vias pois outras há e vidas tantas que é como não tê-las em todas as gargantas quando osagyian inventa o dia
o pilão nem há quando o inhame é outro altar que se espalha no dia ao deus-dará como se fora contradição entre a razão e o orisá
osagyian por sobre a vida é uma razão inteira de se dizer da fé e da fala como uma estranha bandeira de inventar um pilão que pilasse a alma brasileira.
61
Palavras a Nínive
o míssil arquiteta por sobre Nínive uma reta ângulo tenaz e reticente como se fora esquina do coração da gente e lança-se fulvo em eletrônica voragem e nem se pergunta da vida como há de
Nínive assim deitada é no deserto de si uma paisagem rouca arquitetura de ingente norma Nínive não comenta apenas informa
e na cabeça do míssil se afoga como uma rosa que explodisse súbita nas mesopotâmias da história.
169
Palavras a Haidée Santamaria
que meu coração seja uma ilha de receber todas as naus de Haidée Santamaria
que teu coração tenha em Cuba todos os sonhos de tua luta
que teu coração seja na prática qualquer tua razão de camarada
77
Ode aos 38 anos
apesar do tempo já me tenho usineiro de mim e me convenho na franja civil em que já posto gerencio alegremente as curvas do meu rosto
sou em todas as minhas causas a convicção do que me falta habito meu músculo com o mesmo sonho que grassa em meu discurso e amanho meus efeitos nas avenidas que abro no fundo do peito
apesar do tempo me convenho humano trançadas as minhas esperanças fugitivo, às vezes, dos meus planos minha estratégia rói meu coração com a intimidade que lhe cabe de saber renhida a emoção de fazer vivida a liberdade
sou quase o horizonte da minha palavra e cavaleiro andante do que acho guardadas as rebeliões do meu abraço
apesar do tempo ainda morro e ainda nasço e ainda assim ainda sou ainda humano ainda largo.
146
Odes psicológicas
I
o desejo instaura artifícios pela alma
flui, e, farpa, rasgadamente sobressalta
material nem se consente andaime do pensar impunemente
o desejo exara certidões do tempo e da carne
intui adredemente aquilo que nem se tem e cala
o desejo me repõe em atas que nem escrevo nas palavras
urde uma vontade com a mesma compleição da liberdade trai um gesto que nem se cabe na finitude das mãos porque há de
II
do desejo tem-se a impressão que arde
do desejo tem-se a ilusão de um alarde
do desejo tenho a compreensão de que sou sempre tarde
III
desejo quando singro a razão do que não digo
desejo quando pareço ser um tanto eu do meu avesso
desejo, enfim quando desejo ser diverso nas curvas em que transcendo.
137
Odes humanas
o amor que se pretenda seja mais vário do que entenda as razões por que se quer tudo aquilo que convenha e que por ser tamanho em restrição se tenha de não contar-se tal coisa de coração jeito de moenda
o amor que se pretenda caminhe na proporção em que seja a pura compreensão de que se ama e a exata compleição de quem deseja e se tenha claro na escuridão dos medos e que se tenha pagão na religião de seus segredos
o amor que se pretenda seja às vezes joão apesar do anonimato e que se tenha sempre à mão no cartório geral de quem se abraça.
111
Ode às ovelhas da pátria
Vazia a ovelha se anuncia e quase humana bebe a mídia é que lhe falta pensar no meio da notícia.
Adrede a mídia espalha aquilo que a ovelha diz navalha e corta seu coração numa pretensa batalha.
sem saber que não sabe a ovelha raciocina com o neurônio alheio de sua sina.
111
odes filosóficas e ditirambos desconexos
I
o princípio não inicia apenas esquece em si o que havia e é não sendo como se permitia construindo a descontrução do dia.
e não é por sê-lo assim avesso que trai o jeito de ser começo mas por ter-se a prumo em desafio ao eximir-se dos fins por que se cria.
II
o princípio é um fim em vão resta-lhe no tempo um inteiro não mas dá-se a futuros com a mesma simetria com que a noite inventa de ser dia.
III
o princípio não é resposta antes se tem como pergunta de todas as portas indaga quando é o que não sendo na alma e resta no espaço como adaga que nem se dissesse lâmina de cortar a fala o princípio medra como uma ilusão da pedra um rastro manso da matéria
IV
o princípio tem-se a custo como desrazão do discurso posto em palavras não transita uma verdade que se quer absoluta é-lhe íntimo o curso dos melhores rios do uso e acostuma-se à corrente como barco definitivo que aparenta singrar com jeito o peito do infinito.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.