AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
314 593 Visualizações

Marítima alusão da vida

no convés de mim
singro minhas águas
as que fluem do riso
as que nadam as lágrimas
quase todas resumidas
nas correntezas que lavro

atravessar-me,
nos mares que componho,
é navegar em mim
os barcos que sonho

Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

749

Dos assassinatos noturnos e dos fardos

Assassinado
por fuzis fardados
o homem explicita
a farda dos fardos
nada do sistema
eletrocutado
desencapa os fios
da elétrica cidade
todo o futuro
é um alarde
da construção que a revolta
em cada peito cabe
na morte daqueles
que trazem apenas como culpa
a noite no corpo e na face.
163

das quilometragens da vida

O tempo é apenas
um espaço enviesado
que se mede por horas
os metros do seu estado
com as fitas da memória
e as saudades no braço
 
O espaço é apenas
um tempo a desoras
que se mede nas léguas
dos enredos da história
com metros que nem cabem
nas paredes da memória
 
é que os quilometros da vida
são as estradas das horas.
90

Das razões coletivas e instrumental vigente

Privada, a propriedade
parasita as ruas da cidade
urbano acinte e açoite
a quem trabalhe
 
privado, o latifúndio
parasita a natureza
montado no mundo
 
e o trabalho do povo
é o fórceps de tudo.
119

Das úmidas lembranças

Quando a saudade
dê-se como lágrima
encha todos os rios
que se tem na alma
 
e navegue serena
as estradas da vida
inventando as emoções
nos tempos em que, avulsa,
reste pela memória, exata,
como se fora uma fábrica
das eternidades que pulsa.
122

Verso a meu pai e sua constância

Habitante agora de mim
meu pai dá-se a jardineiro
que semeia saudades
nas ruas inteiras do meu peito
 
e é de ver-lhe assim
transgredindo normas
e alinhavando poemas
nos decretos da alma
 
é que morrer nem sempre
é o que a vida informa
há  muitas léguas de todos
depois da última história.
112

Das contrafações do engenho humano

Subo ao conceito
e desço aos fatos
quando não por tê-los
assim desirmanados
desfocados do mundo
e das filigranas do lapso
 
chego aos fatos
teoricamente praticado
como se o engenho fosse lavoura
de submeter-se a arado
e a vida uma teoria
de todas as minhas práticas.
90

Das pandêmicas horas sem tempo

quando a manhã sai da noite
nos ombros da madrugada
o tempo nem se importa
que o mundo é um descampado
e joga culpa nos homens
por não tê-los acordado
 
quando a noite sai da tarde
nas costas do sol poente
o tempo corre apressado
como se fosse urgente
e desmaia no nosso colo
um tanto vazio, reticente
 
é que a pandemia se conforta
com horas que nem se sente.
110

Do exercício da paz

Há que brandir a arma
do tamanho exato da paz
como se fora instrumento
à contradita de tal
pois em ser armistício
de variada postura
dê-se sempre à vazão
de perambular pelas ruas
 
é que a paz sempre habita
uma consciência difusa
que nem precisa ser tanta
para ser clara armadura
cravada no peito dos homens
como larga escravatura
que lhe põe horizontes na face
e lhe inventa e testemunha
no rol infante da vida
na lida avante do mundo
como se fora uma flor
com sede de absolutos
como a dizer que ao homem
cabe a certeza de tudo
 
é que ao homem descabe
qualquer semelhança
ao que se faça por guerra
cerzido a qualquer lembrança
malgrado o jeito de paz
que qualquer luta barganha
 
é que ao homem se apresta
essa via larguíssima
de inventar as manhãs
a partir de sua vida
como se for a prestação
de uma compra infinita
 
há que brandir a paz
como essa arma precisa
que pulsa no peito do homem
o tamanho de sua lida
como se fora a razão
de toda sua notícia
estampada pelo mundo
à custa de muita vida.

126

Do divino e suas demarches

No divino
terça o homem
seu destino
 
o divino
como luva
cai em mãos
em que nunca coube
todos seus rezares
vigem em tempo
que não houve
 
da sua alma
se adivinha
os quilos de pecado
que a si convinha
para ter-se impávido
sem entrelinhas
 
no divino
houve o homem
como proscrito
nas léguas da razão
de todos os seus gritos
 
no divino
quase sempre
o homem é civil
militarmente
nada de suas guerras
turva  ordem de estar ausente
tudo que lhe marcha
é o absoluto exercício
de estar obediente.
88

Do coração e seus encargos

Há que se ter o coração
como bandeira
de tremular pelo mundo
a vida inteira
 
e transcrevê-lo em outros
tão adredemente
como se for a uma estrada
construída de repente
 
há que soltá-lo
pelas angústias
com a firmeza das horas
e a incerteza das culpas
 
há que tangê-lo
pelos arrabaldes
como uma nação inteira
que se cabe
 
há que exprimi-lo
na imensidão dos gestos
e cometê-lo impune
em cada verso
 
há que morrê-lo
frequentemente
com a certeza insone
dos viventes
 
há que merecê-lo
tão completamente
na proporção exata da vida
a que se consente
 
e há que dizê-lo
no dorso das palavras
nas passeatas e nas ruas
como um panfleto itinerante
de todas suas lutas.
135

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado