dê-se ao tempo a contradição de parecer-se um sim, mesmo não
dê-se à vida a compreensão de parecer avante, mesmo em vão
dê-se ao homem a condição de inventar-se humano na razão
88
De amores em circunlóquio
meu amor é público como as ruas de leningrado e nem é tão pouco que não se diga largo por cabe-lo tanto en tudo que eu ajo
meu amor é geométrico em progressão incauta e tanto lhe faz ser bicho como astronauta
meu amor é louco pelo que lhe arma e mais anda quando se infinita com o que me sobra pela alma.
103
Auto de ano novo em resumo e amplidão
O tempo pode ser espaço de viver-se em vão quando não se entende que apesar de todo não a vida é um sim cronometrado do tamanho do coração que corre pelos ponteiros sem alguma conclusão e que só se resume nas dobras de cada mão que constrói seu próprio tempo inventando a amplidão
o tempo é sempre espaço de se traçar sem compasso pois seu ângulo é quase sempre da largura do nosso abraço
127
Arquitetura e drama
Desarquiteto o voo na vontade de consumir em vão todos os meus ares
e, pássaro, nem me sinto nos sonhos que não me consinto
e, por vezes, quando, à noite, tardo rasgo as manhãs da minha face.
188
Aos moldes de cordel, com entrelinhas
Era assim de parecer-se a uma vida que se quisesse tanta que não pudesse se engasgar quando dita em verbo na garganta e que transitasse pelos poros com a mesma contradita com que transitam as verdades nos desvãos de quem as diga
era assim de parecer-se a uma faca carente já de corte que se desfizesse como arma na placidez de quem a porte porque resto de uma guerra desusada que tramitasse em vão em cada grito e que permeasse uma paz inteira nas melhores dobras do infinito
era de parecer-se quase um contrário desmedido em vão na sua teia cerzido a toda liberdade construído em todas as centelhas como se fora um desalinho que subisse de cada desapego e que permitisse uma feição humana aos erros que decreta como medo
era de parecer-se inconcluso em sua mais carnal postura porquanto fosse homem em desuso de alma transparente e algo pura que não coubesse no discurso que às vezes se constrói ausente mas que contivesse um povo inteiro na compleição exata do que sente
era de parecer-se astronauta de cosmos de tão diversa trama que estrela não houvesse na alma senão daquelas que são chama e que brilham no rosto dos homens com a mesma similitude com que o fogo queima as fogueiras em que ardem todas as virtudes
era de parecer-se adrede da mais suspeita constatação de que a alma dói muito menos que as ausências da razão é como se fora um humano trasladado a outro rumo que não lhe permitisse o tempo de quem cumprisse seu mundo
era de parecer-se um mar de placidez tão avara que todas as ondas que pudesse fossem apenas a da calma e que não pudesse lutar contra as marés do seu jeito e construísse jangadas que navegassem seu peito
era de parecer-se frugal e ao mesmo tempo tão diverso que se permitisse como prosa no meio de cada verso como se fora um verbo de tão intestinal textura que contivesse todas as almas de quem anda pelas ruas
era de parecer-se informal como uma tarde estrangeira que teima em fingir-se de noite num tempo de tal certeza que envolvendo o coração com horas de vaidades constrói uma vida avulsa pelo meio das cidades
era de parecer-se praça de todas as latitudes que permitisse às estrelas os cosmos que nem pude e que brilhassem à sombra todos os seus caminhos e que homens assim fartos andassem todos sozinhos
era de parecer-se estrada de todas as direções que conduzissem a tudo e a todos os senões como se fora um rio que contivesse nos passos a certeza dos destinos a vontade dos abraços
era de parecer-se imberbe na sua senilidade e que dispusesse da vida com tal celeridade que chegasse a montar o sonho com a certeza das tardes
era de parecer-se homem nas praças de sua luta com a intimidade do tempo e a parcimônia das disputas na inadimplência maior de todas as suas culpas era enfim de parecer-se tanto no roldão da humanidade como se fora um marco de sua própria liberdade construindo todos os poros no coração das cidades.
115
Ao povo
o povo não contém a lua mas há vários sóis no meio da rua
o povo não se individua apenas se divide entre o que está posto e o que não atua
o povo diz-se em cordas nós que desatam todas as horas
não lhe cabe a desculpa de ser apenas um no meio da luta pois agregado numa compleição infinda nada lhe resta da culpa indivídua e restrita
o povo não se conjuga verbo subversivo não lhe cabe o modo antes se explicita como se fora uma verdade que precisa ser dita
não trai no seu gesto qualquer melodrama o povo é um amor que nem se ama pois para cabe-lo numa proporção restrita era preciso desfazê-lo de sua força infinita e trança-lo em peitos avulsos por sobre os descaminhos e encontrar todos os passos do seu desalinho
o povo nunca cogita do que não disse apenas todas as palavras estão em riste e por contê-las tantas no vão da vida sobra-lhe o infinito como medida
o povo deve ser apenas a régua da vida.
151
Ode à garçonete do Hotel Sputnik
No ventre do teu olhar existe o mesmo desatino com que se lança o Rio Neva na esteira do destino
tem a preguiça teu olhar de um dia estatizado e a nervura dos confortos com que a vida, às vezes, há de
tem do mar as ondas do báltico e a desfaçatez do que nem digo e se cabe, assim, em palavras descabe das coisas que nem sinto
tem a exata compostura de uma dízima infinda que nunca começa nos teus olhos e que nunca em nós termina.
3 400
Do pincel e do artista em resumida prosa
O pincel nem sabe que a cor é um verbo em que desaba e inventa desenhos e discursos no colo das palavras não as das letras mas as da alma
o pincel é só um transeunte das encruzilhadas do artista aquelas que ele inventa e as que estão na sua vida
é que o pincel é microfone dos comícios tonais de sua lida.
123
Do poeta
O poeta nunca é tanto quando não seja em versos de outros tantos que não se têm unos pelo espanto de não se virem vários e perdulários de seus cantos
todos os poemas são um indizíveis a pouco curso e que se têm fracionados na aparência do muito
que se espalhem em verbos vaidosos vocábulos que aparentam uma vazão em que não cabem pois antes são usina de todo engenho humano que constroem a individualidade palavras de pretensos planos
e nem por isso deixam de ser do poeta e registrado aos solavancos que a emoção., adredemente, joga no peito dos humanos
todos os poemas são um e apenas apontam nas algibeiras dos poetas uma nesga do que contam
todos os poemas são o trânsito de estradas que não palmilham os pés de uns tantos que, transeuntes da vida, apenas se contentam em escrever seus versos nas dobras da paciência por tê-los guardados no baú coletivo em que os homens esquecem a razão dos sentidos
todo poeta é igual nada lhe sobra da alma em versos que possa armar que consiga trazer no dorso qualquer vestígio singular
porque plural não se conjuga aos borbotões como um verbo intransitivo que contivesse ilusões de acabar-se em si e continuar em milhões
todo poema é uma rinha dos verbos tantos da gente brigando pela vida
e nem parece mansidão embora tão pacato o poema é solução do que vai na alma
todo poeta é impatriota nenhum verbo é pátria que lhe comporte
porque de avulso parecido a um só esconda o quanto de muitos convive nestes nós
descamba pela vida como um marinheiro à deriva que perdeu a esperança de um sol que lhe demita do mar e da lida
todo poeta é guerrilheiro que pretende emboscadas pelo mundo inteiro não o mundo limitado dos tempos e dos espaços mas um tempo de nem onde e um campo de nem quando que nem sempre há de
todo poeta, enfim, é otimista e megalômano pensa sempre que a palavra é capaz de tanto.
121
Rondó dos Orixás
I – de onde é possível Exu e sua encruzilhada
a energia incide naquilo que é possível em cada lide arma e desarma o simples carma de fazer impossíveis pela alma Exú é um exército de todos os eus e de todos os outros em que se arma
a encruzilhada é só um jeito de lançar a liberdade dentro do peito Exú estendido à contraluz e só um desejo de mim que me conduz
II – Ogun exército de todos
A energia agride todos os caminhos que permite
e dos passos alavancados na força de uma paz amordaçada Ogun constrói insone todas as estradas as que dão em mim as que dão em nada porque vivê-lo é sempre deixar-se na batalha
III – Oxossi flecha num futuro pleno
a energia engravida na fartura de Oxossi pela vida a mata é apenas bandeira de tremular a paz na noite brasileira e dançando em todos os seus trilhos o mundo se esconde de seus esconderijos
IV – Ossain inventa a folha e borbulha
A energia explica o verde da terra de sua notícia
da manhã das folhas assim declaradas invente-se a sassanha do mundo e das madrugadas
é que o tempo é só esconderijo das naturezas que inventas pelo meu juízo
V – Oxumaré inventa o infinito
A energia expande a grandeza dos mundos que tange arco-íris nem te poupas em desfazer as manhãs com que me ocupas
Oxumaré guarda em si os passos do infinito de que me vesti
VI – Omolu planta a terra no seu grito
A energia atesta a profundidade da terra em sua gesta tudo que lhe saiba é só um texto com palavras que inventa pelo meu silêncio meus pés te pisam nos sonhos que comento e sentem teu abraço telúrico nos ombros dos tempos.
VII – Obá luta seu destempo
A energia avança obá luta em tudo sua esperança
perdida no vão de sua dor inventa-se guerreira de todo desamor
VIII – Ewá ilude a tarde
A energia espreita nos ombros da tarde os mistérios da deusa lúdica e sempre dançarina Ewá transgride sua própria sina: a de parecer-se noite com jeito de menina
IX – Xangô explode no tempo
A energia incendeia todas as vias todas as veias
Xangô caminha trovoando a vida e inventa-se no tempo de suas desmedidas e laça a razão dos homens pelas avenidas
X – Iansan navega o vento
a energia explode todas as manhãs de quem se move o vento despenteia a vida e Iansan passeia todas as medidas
XI – Logunedé enlaça a vida
A energia espelha toda a natureza com o jeito da beleza
Logunedé passeia todas as manhãs em suas teias enquanto seus encantos as ruas incendeiam
XII – Oxum penteia o tempo
A energia clareia todos os rios da alma em que se penteia Oxum, em seu abebé, espreita todos os metros da vida em que se enfeita
é que se dá a uma razão que a todos incendeia
XIII – Iemanjá laça os mares
A energia nada todos os mares e filhos que prolata Iemanjá nem suspeita as áfricas todas que leva em suas tetas é que rio sempre desagua no mar absoluto de sua calma
XIV – Nanã na paz da origem
A energia é lama tudo que da paz Nanã inflama onda de danças origem de tempos o orixá é jeito de conter o pensamento
XV – Oxalá, construtor de horizontes
A energia aplaca todos os mares da alma Oxalá sorrindo só constata a exata rebelião da calma
jangada de tudo inventa horizontes como se tivesse hoje todos os ontens.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.