o sonho é um veredito que se dá ao futuro como indício de que a vontade é só uma demora em montar as peças da história
o sonho nada no presente os rios e mares que o sonhador consente
o fato é só um detalhe do sono que se sente
122
Srebrenica em plástica hecatombe
em Srebrenica tudo agita a condição humana de quem fica
em Srebrenica velhos não existem mas a esperança jovem de quem ainda é triste
em Srebrenica ninguém admite que a vida esteja posta em cabides
em Srebrenica não existe a mágoa mas a grande compreensão de que se tarda
em Srebrenica a lógica resiste a parecer fundamento de quem vive
em Srebrenica nada é da vida
78
Paisagem lunar e circunstância
a lua justa no céu corta a noite como se fora uma exata foice e nova, desmaia nos ombros de um infinito em que naufraga todos os navios de mim que das pupilas saltam, viajantes dos portos gerais das cidades da alma.
127
a bailarina em razões urgentes
o peito sonha a pauta como um dó de lata que cortasse a carne e a máquina como mágoa e que se dissesse engenheira de todo palco e de toda brincadeira
o pé sonha o palco como nuvem e graça que pulsasse o salto como lágrima e que remisse os pecados de quem passa
a bailarina nem ensina o palco que carrega nas pupilas apenas enseja um certo destemor pelo vão da vida
150
das intifadas do pensamento em vazão profana
há em tudo uma razão frequente que constata a vã e tal medida que joga os sonhos pelas gentes como retratos de anseios indormidos
e é de tê-los assim impunemente nos cachos de sono em que se agitam e transeuntes da vida que não queiram e passageiros das mortes que não lidam
e é de armá-los como fogueiras em peitos e coxas, em sorrisos e é de truncá-los pela vida numa vasta desmedida
e é de vivê-los pelos cantos em desculpas embrulhados vergonhas que se queiram vias de aparentar algum recato
e é de arrumá-los na cabeça em compleição de cada intento e morrê-los em gritos e chorá-los em medos
há em tudo uma razão frequente amordaçado o vão de quem se via como parte de um sonho em simetria com as medidas que não se pressente
e é de tê-los invernosos nos sóis a pino e senti-los quentes como o frio
e é de desarmá-los pelas salas em verbos que não se delatem embrulhados em palavras que não sejam a exata compreensão do que é tarde
e é de aturá-los navegantes marinheiros de mares consentidos grandes como as confissões que deixamos postas em cabides
há uma razão de lavrar os sonhos de uma saída de tudo que a gente sente e que não consente como a vida
e é de tê-los amanhecidos quando noturnos ainda em nosso jeito na estranha dialética que decide a inexata franja do peito
e é de tê-los nus no pensamento lua destemperada do que eu sinto
e é de tê-los useiros e vezeiros da emoção intifada que se prega no meio do coração
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quase soneto em raro desacordo
rosa que assim me faça destemido em tê-la como flor tão fortemente e que me seja tanto e mais sentida que a dor de viver apenasmente
flor que me lembra incontrolado nos obstáculos que tranço pela vida e que me pulsam avulso pelo mundo como trama de tudo que eu não digo
e que me conte assim pelas esquinas navegante de mares e de rimas como notícia de todo sentimento
e que me ponha no verso como n'alma deslavado de tudo e tanta calma inconstruído ainda em meu lamento
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Teatro
meus olhos diluíram-se na tarde como reticências absurdas que completavam em vão os aparatos da noite e mastigando os palcos do planeta o tempo arquitetava rugas na face indormida dos homens meus passos quilometricamente derramados bebiam o tato da areia com a displicência dos andares anônimos da luz aconchegada aos poros subia o hálito e o verbo dos discursos não ditos e pela minha cara passeavam gestos e a profunda compreensão da aspereza da tarde
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dominical
eu guardei o domingo nos teus olhos para mirar impunemente a transcendência do dia e assim carnal o tempo arquivou-se e do meu peito brotaram manhãs com o gosto de tuas atitudes
e nem me importa que teus olhos se limitem pois cabem exatos no instante dos infinitos em que sempre me contive
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Das vestimentas e suas vertentes
nas dobras do teu vestido de tule meus olhos boiavam imensos em tudo aquilo que eu pude
e neste mister avaro de ser-me ávido e manso recolhi-me em meus sorrisos a cada esgar de tua semelhança
em cada esquina do teu vestido de tule eu me catei inteiro e me desfiz contente e me contive a custo quando não em mim estive já presente
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balada a minha terceira mulher em caso de urgência
nem a minha saudade por ter-se tão vasta preencha o quanto de tua ausência em que se diga ávida ou que fora pouca ou que se faça marca
meu coração é uma bandeira exata de tremular em ti na tua falta
nem a minha vontade tenha-se controlada em distribuir tua voz no vão dessa cidade
meu coração é um motor inato de sempre ter sido tão em ti voraz e automático
não dessas energias que se filtram aos pedaços mas que em cada novo gesto descubram assim tão de repente que a vida sempre bóia nos teus olhos comigo apenas navegante do teu peito
nem os infinitos que se contam comumente ousem desembaraçar em ti aquilo que, em mim, é de te ter tão vasta e condição de ter-me vivente
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.