o gesto repete o sonho em tirar do bolso o encontro
nas cabeças restam chapéus voando, borbulhando no pincel
do ato resta a vontade de pintar a cor da liberdade
69
Dúvidas em crescente jornada
lírica e enorme jaz a pergunta nas dobras do saber ou da desculpa
finge-se cristal indeflorável virgem racional e formidável
lira cognoscível presta-se à conquista um indagar-se recorrente de encontro à vida
113
Cantar do Brasil pela América infinda
cantar o brasil eis o ofício afogar-me nas palavras e repetir o indício da paz por que se luta em cada palmo do grito
cantar o brasil eis o emprego e mais que cantar compor as curvas do seu enredo e lavrar a vida com o povo e lavar o peito do medo
cantar o brasil na tarefa mais urgente de abraçar o povo na praça e vivê-lo assim latente no rumo claro e preciso de levar a vida nos dentes
e tange-lo pela américa com a força dos sentidos até que a Pátria Grande prescinda do seu ofício
73
Cordel camponês da Pátria Grande
e dos campos regados com o suor de seus homens cresce uma nesga de fartura pelos ombros da fome
dos frutos que engravida compare-se à tristeza das coisas que não se dão tão conformes à natureza
e se um dia cansa de gerar tanta abundância a morte tem mais de tática de protelar a esperança
não trai o jeito do arado que lhe sulca todo o peito e isenta-se das amarguras nos leirões em que é desfeito
e quando mesmo brasil um roçado compulsório sustenta a força da terra em cada palmo de ócio
e escancara para o mundo lambida por esses mares que lhe roem as entranhas apesar dos seus pesares
de sua geografia pensada em seus botões sente-se mais uma américa sem nenhuma divisão
e as linhas das fronteiras nos caminhos do seu corpo as tem como grilhões levados com muito esforço
e não cansa de achar uma insensatez exata que se divida seu corpo quando permanece intacta
se por acaso lhe ferem na ânsia de consumi-la mais transita combatente nas encostas desta lida
e molha-se no suor caído de suas trilhas transpirando essas matas em recorrente vigília
e da-se por contente quando no fundo da alma arranca um riso camponês que se espalha pela cara
e vê o futuro geral em que escreve sua fala assim meio escondida nas palavras que guarda
101
Rabiscos em torno da mudança
quero a morte em seu lugar e medida pela mesma razão porque a vida
quero não morrer assim infinitado mas apenas partir numa forma de salto
e não que a vida pese ou que a morte nutra mas porque, ainda humano, eu dependa desta luta
35
Cordel da impaciência
Quelé, Clementino, onde vais nesta hora? Vou com João, com Severino, vou com Penha, vou com Dora forjar um novo destino no espinhaço da história
levo a faca levo a fome levo a morte e o talvez trançados na minha sorte que, por sorte, rebelei cansei de ser tão escravo e, agora, ponho-me lei
nos caminhos desta vida bati muita continência hoje levo a paciência pendida no meu facão e tanto mais me digam sim eu repetirei o não que venha sempre comigo esse desejo desse chão
97
humanas razões das humanas gestas
até enquanto meu coração não possa bater mais do que é preciso e que só reste uma nesga da verdade que se preste, assim, a estar comigo esteja no seu posto sempre a liberdade rasgando o vão dos meus sentidos
até enquanto meu coração não possa viver impunemente coletivo na harmonia desse intenso abraço que aos homens deve-se como ofício nunca eu possa discursar as vias da solidez humana do que digo
76
Das lágrimas em diversas sendas
minhas lágrimas são os mares que posso e naufragá-las pelos dias é ofício dos olhos
minhas lágrimas, assim à outrance, são um riso liquído nos descaminhos da face
prenhe de dores e de risos lágrimas são apenas rios que riem, que choram e desembocam nos sentidos.
101
Do beijo em gramatical enlace
o beijo é um verbo mudo sua gramática displicente é conjugar o tudo e entorná-lo grávido nas encostas do mundo
119
Poema de amor flagrante
é preciso afogar a noite na simplicidade do ato em que me visto de amor dentro do teu abraço
é preciso arrastar a madrugada das entranhas urgentes deste cama e tecer no infinito um novo abraço e viver o flagrante desse drama
e beber o dia eventualmente aparecido como uma noite cintilante de todos os sentidos
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.