AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
314 642 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

ode a minha mulher por culpa do seu não aniversário

rosas serão muitas
as que nunca porei
na tua nuca
 
rosas serão tantas

as que engolirei em ti

nas artimanhas da lembrança
 
flores serão todas

de tudo que eu plantar em mim
no jardim de tua boca
85

Ode eclesial

I
 
na nave

deus

é barco

de tanger a vida.
 
o homem

em ondas

é mar que não se teve

e que apenas transita

entre um rasgo de esperança
e aquilo que nem se cogita.
 
deus e homem

apenas se contemplam
um esculpido em perdas
o outro em paciência
 
II
 
em oração

impune e mansamente

o homem constrói andaimes
pela alma das gentes
 
deus em si

constrói-se e se constata
como um verbo intransitivo
de estranha matemática
 
e deixa-se mínimo

nessa íntima sintaxe

que lhe conjuga tão incerto
em verbos que nem prolata.
 
III
 
na nave

a salvação é uma bandeira
de espalhar pretextos

pela noite brasileira
conforma-se à norma
decretada a priori
de que a paz é apenas um susto
que se reteve na memória.
 
homem,

deus é tanto

que teima em ser altar
imune à confiança.
 
na nave, entretanto,

deus e o homem escondem de si
qualquer desesperança.   
 
 
 
 
 
84

ode desenfreada de amor ao povo

coletiva a mente

constata a exatidão

de que não há por povo

o que se queira não

todo povo é resultado

de uma razão diferente

que não se encontra nos genes
nem nos corpos das gentes
mas transita quase sempre

na simples compleição

do espaço pouco amestrado
das fibras do coração
 
porque senti-lo no peito

é quase rebelião

por compreendê-lo a jeito
de cada revolução
que se amanha nos gestos
palavras do coração

e nem importa que o ritmo
de suas mágoas viceje
como uma flauta invertida
em música que nunca teve
a não ser o som avaro
de sua tanta alegria

que ri do peso das horas
e das curvas da agonia
 
povo se sabe a povo

em cada um comprimido
e mesmo que seja uno

é um pequeno infinito
que a duras penas se vive
com a força de um grito
 
 
povo grita no sangue

como uma mansa corredeira
que sobe o caminho das horas 
inventando um tempo à meias
e que deságua de repente
como uma nave inconseqüente
na imensidão das estrelas
 
povo grita na carne

como uma onda guerrilheira
que emboscasse no peito
a razão porque se queira
navegar nos mares tantos
de todas as suas veias
 
povo sabe a suor
derramado impunemente
nas maravilhas do ofício

de se saber tão urgente
coisa de um quê construído
pelos andaimes da gente
 
povo sabe a alegria

um riso desordenado
que começa pelos olhos
e se espalha pela face
é como sentir a ilusão
de estar encantado
 
povo é tudo que a gente
por mais que não se diga
guarda no gesto inteiro

traz no bolso da camisa
escondido pelo peito

como bandeira da vida

povo sabe a intimidade
coisa de não se sentir baldio
nos metros de solidão
que se costura a fio

cosendo as coisas da vida
nesse imenso navio

que trafega em mares não ditos
como um grande desafio

povo sabe a usina

de construir novos tempos

e de viver pelas horas
consumindo o momento

como uma grande bolandeira
dos destinos da gente

povo enfim é tanto

que nem se diga a razão

de não ser por muito pouco
todo nosso coração

trançado à força da hora

que não se vive em vão.    
93

Odes psicológicas

I
 
o desejo
instaura
artifícios
pela alma
 
flui,

e, farpa,
rasgadamente
sobressalta
 
material

nem se consente
andaime do pensar
impunemente
 
o desejo

exara

certidões do tempo
e da carne
 
intui

adredemente

aquilo que nem se tem
e cala
 
o desejo

me repõe em atas
que nem escrevo
nas palavras
 
urde

uma vontade

com a mesma compleição
da liberdade
 trai um gesto

que nem se cabe

na finitude das mãos
porque há de
 
II
 
do desejo

tem-se a impressão
que arde
 
do desejo
tem-se a ilusão
de um alarde
 
do desejo

tenho a compreensão

de que sou sempre tarde
 
III
 
desejo

quando singro a razão
do que não digo
 
desejo

quando pareço
ser um tanto eu
do meu avesso
 
desejo, enfim
quando desejo
ser diverso nas curvas
em que transcendo.
 
 
143

Ode de infância em passo

A pipa que eu soltava

era um sonho encabrestado

tudo que era de mim

voava tanto

que meus olhos projetavam

os futuros todos da vida
embrulhados num jeito de passado.
 
Eu voava tanto
que meu tempo
criou asas.
 
 
160

Pequena Balada Jungiana

dentro de mim
vivem todos
desde sempre
e tudo de novo se inventa
 
o que penso

nunca é apenas

a manhã é que por tanta
ainda orienta

um dia de sentidos
e dilemas
 
dentro de mim

vige a multidão

como um deposito

de todos meus senões
e arrumá-los todos
é um ofîcio imanente
de quem traz a vida
no meio dos dentes
 
dentro de mim

caminham muitos passos
em pés que nem adivinho
como inventar outro de mim
pelos caminhos?
 
dentro de mim

todas as soluções

e uma leve compreensão

de que eu sou um

pelo rumo de minhas mãos
trançadas todas as vias

traçadas as rebeliões

em que eu me invento quase todos
em plena revolução
147

pequena alusão ao meu País

lavro a esperança

com a mesma magnitude

com que a chuva cria

os mares que não pude

e se não me estranho

é que me permito

ser um impatriota

com todas as nações em riste.
 
é muito pouco

ser brasileiro

quando vai pela alma
o mundo inteiro.
 
122

ode à amada em vésperas de eclipse

embora lua

nenhum sol será tanto

que desvencilhe teus olhos
de tudo que em mim assiste
 
e se mesmo triste

ousar a terra ser constante
muito mais será meu canto
por tudo que você é tanta.
 
71

Ode adverbial ao orgulho

a visão

me insta

a ver meu filho como nauta
navegador de mares que não posso
consumidor de ares
 que me faltam.
 
e a emoção, de resto,

é um grande porre de adrenalina
pelo cérebro.
110

pequena consciência

primeiro era tanto

de se dizer que possa

um animal inconseqüente
transcender a norma

de parecer-se singular
como eventual resposta
 
primeiro era tanto
de se dizer monera
vínculo de tudo

que a vida era

sobra de outro tanto
indizível primavera
 
primeiro era tanto

de se dizer latência

do fluídico fato

da consciência

embora ainda indisposto
às razões da desavença
 
primeiro era tanto

de se dizer inteira
mesmo denominador
de frações urgentes
que menos lhe queriam
como só número
de qualidades tão presentes
 
primeiro era tanto

de parodiar-se outra

como substância imanente
e de feição avara

que teima em ser de um
mesmo quando vária
primeiro era tanto

de se dizer de tudo

que nada fosse verbo
quando não fosse o mundo
 subtraído das entranhas
dos planos e dos tudos
 
primeiro era tanto
de se dizer adaga  
alçada à palma da mão

com a mesma lavra

com que a boca diz um beijo
sem dizer qualquer palavra
 
primeira era tanto

de não se parecer verbo

que funcionasse como química
de tudo que é eterno

e que apenas se joga no mundo
com a suposta imanência do ego
 
primeiro era tanto

de não conter variedade

mas que permanecesse inconsútil
nessa singularidade

que trava os desvãos do homem
num vão que nem lhe cabe
 
e dito assim presente

nas quadras de tal matéria
fez-se o homem subjacente
a tudo que não lhe dera

o feitio mais urgente

da mais ingente primavera
 
era-lhe o siso mais assente
a um equilíbrio inverso

que quanto menos lhe sabia
mais fluía seu interno
nas coisas que não vivia
e que na vida eram verbo
 
era-lhe o amor mais ausente
tanto mais se considere

que o sentimento é uma ponte
de prumo urgente e adrede
que se joga sobre o rio
de tudo que se percebe

e que não se tem a custo

de químicas mais trabalhadas
que devam ser construídas
num singular em que não caiba
a multiplicidade urgente

de todas as nossas almas
 
amor que não seja tanto
que destempere a medida
de confluir nossos risos
no sentido da vida
que se abre em todo peito

em cada veia, em muitas vias
mas que seja controlado

na medida do infinito

que cabe quase sem jeito

nas bordas do nosso umbigo

e que teimamos em mantê-lo

do tamanho apenas dos sentidos
 
primeiro seja o homem
de tudo e tanto assemelhado

a tudo que não seja único

mas que também não seja vário
por pertencer a uma noção
que se mantém incendiária
de que o homem é bandeira
de tremulação planetária
que sabe a revolução
no seu íntimo mais preciso
como os cheiros de sua infância
que lhe sobram nos sorrisos
 
e tanto assim finalmente

se diga o homem construído
com a mesma urdidura

com que vigem os edifícios
nos andaimes todos da gente
na precisão dos ofícios

que antes de se dizer ave

de indizível equilíbrio

seja um bólide que inverta
os rumos de seus sentidos   
78

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado