AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
312 621 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3560

Dizeres em torno do amor

ao amor é dada a vazão

de ser assim tão de repente
que não lhe sobra a feição

de matéria inconseqüente
pois por mais desavisado

nos verbos em que se assente
diga-se de tal constância

que palavras lhe acrescentem
apenas o invólucro

de parecer diferente
 
ao amor é dada a concisão
de parecer-se infinito

mesmo que se tenha à meias
nalgum desvão dos sentidos
é que lhe atesta a distância
a temperança do rito

quando descamba pelas mãos
num gesto mais irrestrito.
 
ao amor é dada a confluência
dos rios em que se navega

e mesmo sendo líquido

é tão parente à pedra
que resta quase montanha
no peito de quem lhe perde
 
ao amor é dada a economia
de parecer-se adimplemento
de tudo que se agregue

no peito da consciência
é que lhe falta a razão
de ser assim comedido

e bastar-se em medidas
em que se tenha contrito
 
ao amor é dado o desplante
de ser um carnaval invertido
onde nada do seu avesso
habita simples indício
de que é uma festa renhida
da plenitude do siso

nada do que lhe é próprio

é propriamente sentido
pois sempre escapa à razão
de ser quase um grito
 
ao amor é dada a diversidade
de ser um um divisível

por todas as abscissas

de qualquer algarismo
pois sua matemática

é de escorreita decisão
nunca se tem em números
mas em unívoca contração
que trama a franja do peito
nos traços de qualquer não
 
ao amor é dada

a estranha similitude

de parecer-se a si mesmo
embora tanto se cuide

de mostrar-se diverso
numa mesma latitude

em que o coração transita
do tamanho de sua luta
 
ao amor é dada, enfim,

em todas as medidas

a plena concepção do trânsito
que sempre acelera a vida  
112

Distrato da fome

a fome não prescreve.
como rasurar a vida
se nem tanto e pouco
é o que se deve?
a fome é intacta

nada que não seja tanto

lhe desarma.

a fome é avara,

tudo que lhe seja nada escancara

a vergonha de ser humana

na cara de quem cala.

a fome presta-se ao poema

como um quê intransitivo

que nem transige, nem constrange

o que se dera por arte sendo sangue.
É que a palavra

sempre se permite

a dizer-se esperança

mesmo quando em riste

é que os homens anoitecem

quando a manhã é pouca

e não se tenha do pão

como amanhar a desculpa

função que nem seja quanta

de quantas inda há

pra se inventar a luta.
 
a fome é invólucro

de uma carne inóqua e transitória

que tanto mais exista

tanto menos importa

a fome é uma instância

de um tempo inumano

de consumir os homens e a esperança

a fome não se contrata

seu projeto nem de longe se arquiteta
como um vão exeqüível de curvas e retas
antes é um aviso urgente

de quanto tudo não houve

a fome é bandeira

de escancarar o homem pela vida

e nunca é só desejo

apesar da desmedida  
101

Do caminhar murado do futuro

os muros da pátria
fogem da alvenaria
nos gritos insones
que lançam nos dias
assim como um discurso
das pedras que alinha

a pátria murada
na sanha fascista
regurgita o povo
pelas avenidas
até que o futuro entorne
suas léguas de vida.
122

ditos da paisagem

                     A Lane Pordeus 
 
 
ao te dares infinita

alonjas a eternidade

como quem se inventa com o ilimite
de consumir-se tarde
 
é que te cabe um espaço

de um tempo inconsumido
em que brincas com a vida
na proporção exata de todos teus sentidos
94

discurso da morte

o morto

navega quase impunemente
na balsa dos olhos

de quem sente
 
e trai um tempo

com jeito de arma
molhados passos e prantos
que se amontoam na alma
 
a carne

de dureza tanta
rasga o vão da vida
como uma lâmina
 
as mãos

dormem lânguidas
como pássaros inúteis
e sem dramas
 
o morto navega

ainda impunemente

a balsa do seu corpo
nos olhos dos presentes
 
rasga objetivo

a íris mais urgente

num rio de saudade

que se comprime nos dentes
 
sem vau

o morto bóia

os quilos de passado
nos ombros da memória
 
e do transeunte
portador da vida

salta um cheiro de dó
informalmente reprimido
 
a morte sempre esquece
de esquecer a vida
125

Dissertação adjetiva do Sanhauá

nem por essa lassidão

que lhe devora o jeito e a forma

possa o Sanhauá desmerecer-se

de eventuais revoltas

que por ser assim pacato

enlaçando em vão a Felipéia

penda do seu ombro o gosto exato

das maravilhas de que pode a terra 
nem por essa lama avara

que lhe rega o dorso impunemente 
percam seus habitantes mais chegados 
a condição informe de presentes

que por ser assim anônimo

na revolução de suas águas

seja um sintoma tão premente

de mascarar de paz a mágoa

nem por ser regaço de Felipéia

no gesto inato de serpente 
encontre-se o mais rápido relance

de figura incompetente

que por ser assim tão plácido

no seu ofício dormente

não saiba dizer em suas águas

o gosto de sangue tão latente

nem por ter da terra a intimidade

e a consistência incauta de um grito 
saiba engolir as contradições

sem a justeza efêmera dos dissídios 
nem por ser tal condutor

de homens quase líquidos

deixe de reconhecer a lágrima

que escorre do vão do seu umbigo
 
que sabendo-se estrada 
de tanger a solidão 
invente pela memória 
um punhado de razão
 
porque rio, saiba constante 
que o baldio homem que leva

é muito mais uma distância 
que trafegar ninguém se atreve
 
nem por estar pejado 
do mais fundo sacrifício
possa não cogitar da fartura 
em que às vezes se acredita 
 
nem por ser das estrelas 
um espelho avariado

não saiba trazer nas rugas 
toda sua intimidade 
pois de tão material

lhe venha a ser conteúdo 
a estrela mais fugaz

que desabita seu futuro 
 
nem por ser do universo

uma corrente sem volta

não saiba descabelar-se a tempo 
nas lembranças que lhe tocam
 
correndo de si próprio

em maratona tão já gasta

o Sanhauá bebe a miséria

dos homens que lhe acatam 
desce no frêmito mais lânguido 
ordenhado em mãos tão avaras 
que esquece que às vezes é rio 
onde deságuam várias almas

e se nunca rompe o equilíbrio 
entre a geografia e a sua calma 
quem lhe cavalgará o dorso 
com a presteza de astronauta? 
nem por escorrer freqüente 
não tenha lapsos de memória 
quem distribuiu Felipéia

no peso de suas costas? 
 
da maciez da lama

se tire a paciência

nos caranguejos enrolados

nos cachos da consciência

e da assembléia das águas

que filtram toda manhã

o sol nunca desconfie

de que trava uma luta vã

pois por mais vapor que construa 
nas suas lanhadas costas

ele sempre volta rio

em águas que ninguém nota

e quando se alça bruto

no estômago das nuvens

ele leva além de vapor

os sonhos de quem se urge 
 
da condição humana

o Sanhauá não cogita

por que levar tanto sangue 
num feixe magro de tripas? 
antes rio gordo dessa lama 
queira-se mais comedido

pois por ser rio não lhe cobram 
sonhar mais do que é preciso. 
 
ao beber o Sanhauá

em geral não se pressente 
o gosto rico dos homens

e a dúvida de seus viventes
 
no suicídio reconhece 
uma lúdica insistência

de deixar de ser homem 
de matéria incompetente 
pra travestir-se de rio

nos sonhos-lama da gente 
não tem a filosofia 
dos suicídios mais compostos 
pois a pose é sempre a lama 
e como rio não lhe importa

a pouquidão dessas vidas 
e a certidão de qualquer norma
 
de ser cúmplice da fome

o Sanhauá se redime

nos quilos magros de peixe 
que os homens lhe retirem

e não tem a desfaçatez

das promessas mais nervosas 
pois tem de si a compreensão 
de um rio sem tantas forças
 
nem por ser interlocutor 
das fomes mais atrevidas 
deixe de engordurar-se

dos caranguejos da vida 
que em sendo forasteiros 
das águas que lhe socorrem 
possam ditar o exercício 
da crueza da revolta.

 
o Sanhauá e a inquirição da vida 
 
que tal Martim Leitão 
senhor assim da matéria 
ousou limitar o rio

na corda de muitas regras?
 quem supôs o artifício 
de decretar Felipéia

e trazer pras suas costas
o peso de muitas guerras? 
quem compôs tal partitura 
que na cabeça do futuro 
faria o Sanhauá ter homens 
pendidos de tantos muros? 
que tão Martim Leitão
forasteiro da competência 
ousou distribuir nestas terras 
os palmos de sua crença? 
quem forjou a brutalidade

de romper teu equilíbrio

e navegar tuas águas 
com a intimidade do cio?

quem ausentou do teu corpo

a carne de Piragibe

e que nunca mais a carne

no teu ofício reteve?

quem lançou sobre ti

essa algema virtual

como se não tivesses da ponte

a desnecessidade de tal?

quem comprimiu o leito

de propriedade indisfarçável

e quis esmagar teu peito

com a selvageria das traves?

quem duvidou da conseqüência

do teu ofício informe

de levar a água pro mar

misturada aos sonhos de quem não pode? 
 
que tal Martim Leitão
 amigo já de Piragibe 
matriculou Felipéia

no dorso de tua crise? 
quem te pôs acorrentado 
entre cimento e miséria 
pra iludir tuas águas 
na mágoa intensa da guerra? 
quem te forjou novo ofício 
de amarga competência

de engolir tantos homens 
esquecidos da consciência? 
quem te pôs assim restrito 
numa forma tão imensa 
e atravessou o infinito

nos palmos de tua ausência? 
quem te fez tão urbano

num foro tão agrário

quem nem soletras nas águas

a parcimônia do cansaço?

quem te fez transeunte

de uma vida regulada

em que poucos tem muito

e quase todos quase nem alma? 
quem te fez tão concreto

nessa pátria movediça

e te engravidou dessa lama
de eficácia tão triste?

quem te usou como rio 
explorando teus viventes

pra navegar no teu lombo

um magote de presenças? 
quem te pôs sem vela

num mar tão incontido

e acorrentou tuas águas

aos pés desses edifícios?

quem te ousou sadio

nessa sala tão doente

que não perceba que o sonho

é quase sempre da gente? 
quem te armou as costelas

de pedras e penas e gritos
e construiu na tua boca
palavras sem sentifo?
 
 
De Piragibe tirante a mágoa
 
corre o ano 85

de 1500 - vasta espera 
escondendo agosto na barriga 
cinco dias e outras léguas
 
quem é esse ouvidor

que Martim Leitão se engalana

como se o nome fosse patente

que pusesse medo em quem chama?
 
quem é esse ouvidor

que assim fustiga a consciência 
e que se crê marido da terra

e quer lhe por em moenda?
 
quem é esse ouvidor

que de Olinda assim desfeito 
trunca uma vontade inteira 
na franja inata do peito?
 
quem é esse ouvidor

que dos passos não se afasta 
e que palmilha sua distância 
numa parca matemática? 
 
corre o ano 85

de 1500 - quanta guerra 
cinco dias de um tão agosto 
muito chão e et ceteras 
 
quem são esses indivíduos 
parentes em vão da terra 
que espelham suas rugas 
nas rugas que já não levam? 
 
quem são esses forasteiros
que revéis da cidadania
cosem a vida com o barro 
sem lhe cobrar serventia?
 
quem são esses tabajaras
que nus da própria existência 
teimam em deitar com a vida 
nos cabides da paciência?
 
quem são esses tabajaras 
que tecem com todo alinho 
uma vida que mais medra 
com a insistência do espinho?
 
quem são esses tabajaras 
que mercê do seu aprumo 
deitam com a liberdade
na cama quase sem rumo?
 
 corre o ano 85

de 1500 - magra era 
engolido agosto já tanto 
cinco dias, muitas trevas
 
quem é esse Piragibe

que sentado no seu sorriso 
inventa a simplicidade

com a mesma força do rio?
 
quem é esse Piragibe 
que presidente das horas 
decreta o fim do dia

pela espinha da história?
 
quem é esse Piragibe

que à paz se tem afeito

e que arquiva guerras no tempo 
como as tristezas no peito?
corre o ano 85

de 1500 - nave exausta 
construído assim agosto 
em 5 dias de pauta
 
quem é essa Felipéia

das neves de tal senhora 
que cresta ao sol desse rio 
como um infante tão breve?
 
quem é essa Felipéia 
tão íntima da natureza

e que se forja com barro 
de tão estranha certeza?
 
quem é essa Felipéia

que tão dolente nem nota 
que já pertence a senhorio 
de quem nunca foi devota?
 
quem é essa Felipéia

que rebento assim de repente 
como aceiro de si mesma

se quer coisa de gente?
 
quem é essa Felipéia

que do futuro nem sabe 
dos quilos de tanta fome 
que vão encher sua face?
 
quem é essa Felipéia

que alheia a seu batismo 
perdeu-se de boca em boca 
e nas voltas do seu umbigo?
 
quem é essa Felipéia 
que da postura se cante
como uma rede ancorada 
nas paredes do horizonte? 
há de essa criança

de gente e barro urdida 
abraçar-se com o presente 
com o futuro na barriga
 
há de essa demarche

ser mais longa e prometida

que os anéis que pendem do dedo 
do ouvidor de Olinda

há de essa cidade

que agora se amamenta

criar com leite das pedras

as maltrapilhas presenças
 
há de essa estrada

ser feita em grave ofício

e que o destino lhe cubra os anos 
com a displicência de um íntimo 
 
há de essa morada 
trazer para o leito do rio

a tez macia do açúcar

e um gosto de pau-brasil 
 
 corre o ano 85

de 1500 restrito

agosto amanhã sem jeito 
5 dias comprimidos
 
em que cartório e recinto

sua posse foi lavrada

pra que dispusessem de si 
como as carnes de uma vaca?
 
quem foi tal tabelião

que em exercício truncado 
registrou que sua pele 
podia fazer-se mercado?
 
quem foi que dilacerou

a sua estada de virgem

e que a querem tão mundana 
nas carnes que ainda exibe?
 
quem foi que desabrochou 
numa tarefa fugaz

seu ventre de muitas coisas 
pra coisas que vendem mais? 
 
diz que em 85

de 1500 o tempo

agosto quis por inteiro

há cinco dias no ventre 
desfazer-se de um terreiro 
que lhe jazia urgente

e inventou Felipéia

na vida desses viventes
e assentaram como assim 
no cartório dessa gente 
que a cinco de agosto 
Felipéia era presente
 
do braço do Sanhauá

como um músculo saltimbanco 
Felipéia saltou na vida

com a presteza de um pranto
 
e desse abraço infinito 
que o rio sempre lhe dá 
molhou-se seu lábio verde 
da incoerência do mar
 
que por ser só atlântico 
não se acha tão disposto 
a abraçar Felipéia

na proporção do seu gosto
 
antes se quisesse mais rio
 de compleição menos lata
 pra abraçar Felipéia

com a prontidão de um gato
 
mas mesmo com parcimônia 
nesse exercício de andante 
esquece um gosto de África 
no ombro grave do mangue
 
e o Sanhauá com ciúmes

no leme já de si mesmo 
ostenta um ranço da história 
pelo desvão de seus dedos
 
quem foi esse ouvidor

que não previu tal desatino 
romper o verdor da terra 
com o equilíbrio do rio?
 
quem foi esse tal Martim 
que se inventou do nada 
e fez xixi nessa praça

no meio dos tabajaras?
 
esse xixi de ouvidor

tem utilidade bastante

pra te construir novo corte 
te dar um novo horizonte
 
e Felipéia alastrou
-se 
como canavial conseqüente

que mastigasse a moenda

na verdura de seus dentes

e pronto veio o costume

de ter retrato mais conforme

aos tijolos mais impingidos

que a mão do homem lhe adorna
 
e de ser mais urbana
lhe veio a vã teimosia

de lutar contra os viventes 
que no seu peito se aninham
 
veio-lhe a solicitude

da concreta solidão

de tijolos alinhados

à custa de exploração

assim cresceu a ganância 
de ser tão decomposta 
lavrada num suor mais forte 
que o rio que lhe comporta
 
e aprendeu nessa lida

que na vida a que se apresta 
é preciso ser menos um

e ser muitos et ceteras.

88

do amor como avença e norma

o amor

é avença desregrada 
tudo do que é tudo

é quase nada

e é boiar-se no sólido 
como se fora bólide 
de atingir as luas

de quem ame

e de faltar às tardes 
de quem tarde
 
o amor

é avença desregrada

é um consumir-se sobrando

é um expandir-se na falta

é como se fora um oceano

que coubesse em todas as almas 
e que restasse pelos dias

nas noites em que se declara
 
o amor

é uma avença incauta 
nada do que é cautela 
o desata

antes é imprevisto

como um intenso salto 
que se dá às pernas 
com ganas de astronauta 
 
o amor

é uma avença sutil 
como a felicidade 
nada do que lhe tange 
inventa-se pública

ou como concessão 
de quem lhe invade
 
o amor

é uma avença avulsa 
de veias e de vias

é convergência inata 
de cada alegria

e um desandar de ruas 
nas desoras do dia
 
o amor

é uma avença cogente 
tudo que tange os olhos 
atiça a alma tão sempre 
que nada do que é humano 
se desencarna da gente
 
o amor

é uma avença tardia

tudo que lhe chega a cedo

é de um tempo tão difuso 
que chega até a ser noite 
nas serventias do uso
 
o amor

é uma avença plástica 
tudo que seja forma 
o declara

na urdidura das normas 
na ditadura da prática
 
o amor

é uma avença drástica 
guardada a desproporção 
de todas as almas

nada do que não seja todos 
poderá sê-lo na prática.

70

do desenrolar das horas

o futuro

não é só um jeito

que o passado teima em dar
no pensamento

antes é viagem
descompassada

entre o que já foi

de tudos e de nadas
 
e mesmo futuro

ainda é passado

um presente grávido

de todos os passos

pois nunca é apenas um
é sempre vários
 
futuro

não lhe serve a carapuça
de retratar-se vazio

de qualquer luta
 
e mesmo tempo

é uma hora avessa
que vige apenas lúdica
no vão da cabeça
 
e no entanto

é razão inteira

de quem tem a vida
como certeza.
106

discurso em andante compasso

haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu, jogando à vida,
inventarei as tardes

em que ele esteja
 
haverá manhãs

em que me faltarei

e caminharei pelas noites
como um falido vagalume
 
haverá manhãs

em que as manhãs faltarão

e os homens caminharão sem tempo
pelos sovacos do mundo
 
haverá espaços

em que as noites faltarão

e a estrela da manhã
adormecerá encoberta

nas dobras do teu vestido de tule
 
haverá corações
engordurados

e a estranha sensação
de vãos pecados
 
haverá razões
desencontradas

e a urgente razão
dos astronautas
 
haverá senões

em cada face

e haverá um verbo
que me baste
 
haverá um caos

em cada esforço

e o exato ângulo do peito
em que me morro
 
haverá vontades

que não se aprestem
a remoer os fatos
através dos séculos
 
haverá soluções

de problemas não postos

e uma leve fímbria de tarde
em cada nesga de remorso
 
haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu amolgarei os tempos
em que ele estivesse
 
haverá desusos
frequentemente

e a leve compreensão
do que se sente
 
haverá multidões

que se farão sozinhas

e canções de mil invernos
nas esquinas dos dias
100

Dissertação pronominal à liberdade

não vá de hoje a liberdade

como pássara em vão do desatino
construir andaimes pela alma
como se fora posta em desalinho
 
mas é de tê-la assim constante
nessa latência de fato do destino
que nunca se arvora em substância
sem que para tanto flua o raciocínio
 
pois de engenho tal é tanto feita

que pulsa escondida em cada veia

e nunca está à mão quando se apresta
em ser fibra de cada descaminho
 
é preciso pois compreendê-la
na latitude exata da manhã

e resumi-la à fração do peito
adequado à pulso em cada vão
 
que se mais não tem que vê-la

é cometê-la assim impunemente
e consumi-la quase tanta

como se fora quase uma razão
consumida em adrede esperança
 
e é querê-la vasta
quando mínima

e é querê-la justa
quando indigna
 
e é de querê-la aos sábados
quando em terças

e é querê-la manhã

quando adormeça
 
que se mais não tem que havê-la
é esperança-la nas esquinas

e construir-lhe andaime vasto
que lhe caiba em todo desatino
e que se queira assim tão franca

com esse jeito infante de estrada

por onde caminham todos os homens
construindo a infinita madrugada.
 
143

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado