AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
309 368 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3478

Cordel da vida inteira

é de ter como a vida
um jeito assim coerente
que não viaje pelo tempo
como razão diferente
que nunca dissesse a tanto
a como e quanto se pertence
 
porque dizê-la maior
que uma vida insurgente
seria tê-la em custos
que não se dá a viventes
porquanto merecê-la
fosse tarefa inconsequente
 
e se fosse distribuida
avulsa como se sente
melhor seria contê-la
trincada assim pelos dentes
do que fazê-la material
adrede e talvez urgente
é que de urgências se exclua
pela razão desmedida
de não ter as consequências
do que se tem pela vida
é que falta-lhe a certeza
e talvez a simetria
das esquinas que a natureza
constrói pelo vão do dia
 
é de ter só por ser vida
a vazão e a geometria
de recipiente dispostos
numa mesa tão baldia
que não lhe sabe a vivente
o que viventes presenciam
é que é dado ao sujeito
um quê de predicado
e nunca sobra no seu jeito
a contrição substantiva
que lhe permite ser essência
dos adjetivos da vida
 
e nessa lida entornado
pelos tonéis da memória
nunca lhe chega à lembrança
o viés de sua história
onde esteve tão vário
apesar de transitório
 
é que lhe cabe a desmedida
de uma vã matemática
que faz sobrar pela vida
um certo quê de imaginário
que nunca constrói frações
nos inteiros em que cabe
 
e nesse tão desalinho
em que se permite arranjado
flui uma vida inversa
a tudo aquilo que sabe
e nunca constroi o sonho
do tamanho do que lhe invade
 
o sonho é sempre constrito
numa lembrança adversa
que trai um jeito de morte
mesmo inventando a gesta
de quem permite que a manhã
seja uma noite sem festa
 
é que para ser tanto
era preciso a modéstia
de ser, mesmo um,
um milhão de et ceteras
jungido a todos os rios
de correntezas modernas
que não se dissessem águas
mas memórias que se internam
 
é que no vão do juízo
existe sempre a reticência
de não se ter da liberdade
a compleição tão exata
de sempre se inventar livre
apesar de ser escravo
 
pois é esse artifício
que constrói a urdidura
de uma liberdade úbiqua
que se retrata na luta
de quem sendo escravo
sempre abole a escravatura
seja pelas vias do interno
seja pela via das ruas
 
é que ao homem descabe
tudo que lhe construa
como mecanismo automático
de máquinas avulsas
que teimam em fazê-lo inóquo
na pauta do seu susto
 
é de tê-la assim absurda
apesar de tão querida
como se fora razão
de adentrar nessa liça
que teima em ser da paz
apesar de tal notícia
 
não tinge a pele do peito
nem sempre com a vontade
de declarar-se rural
no coração da cidade
e de construir assim agrária
um cenário em que nem cabe
 
é de se ter pelos caminhos
em descompasso frequente
como se fora um passo
que não coubesse na gente
pelo dorso dos calcanhares
tenazes de nossa urgência
 
e se rompe encruzilhadas
com a textura indigente
de quem escolhe o melhor
como se fora urgente
é que lhe falta a parcimônia
de dizer frequente
 
é de tê-la amiúde
em um tempo inconsequente
em que as horas nem contam
como produto da gente
antes se tem como lapsos
algo assim tão pingente
que cai pelos minutos
em que o homem nem sente
 
mas é por desenha-la inversa
a tudo aquilo que procura
que ao homem é dada a controvérsia
de ser em sendo criatura
coisa urdida nos seus poros
e na imensidão das luas
não lhe cabe a fixidez
da intransição dessas culpas
que teimam em ser caminhos
por onde o homem flutua
como uma marcha desordenada
que entorna assim pelas ruas
 
mas é de vê-la inteiriça
nessa descompostura
que lhe faz saber a astronauta
mesmo ancorado em amarguras
que lhe moem o peito nos dias
dessa humana aventura
 
mas é de vê-la coerente
nos vieses mais exatos
que lhe põem em armaduras
de guerras que nem desata
como se terçasse as manhãs
com as noites que constata
 
é que ao homem exalta
aquilo que individido
soma ao peso dos passos
como se fora preciso
levar o mundo nas costas
de todos os seus indícios
 
mas é de vê-la maior
em leitos constrangidos
que nem sempre lhe dizem
tudo que é preciso
pois palavras sempre são
apenas verbos intransitivos
que batem no peito da gente
e se desfazem no infinito.
125

Da onírica vertente do combate

É que no transverso da vida
assim como um arremate
o sonho virou a divisa
de se enfrentar o combate
e avaliar as medidas
de todos nossos impasses

pois no transcurso do sonho
assim como uma verdade
a gente enfeita a vida
para lutar por liberdade.
158

Coplas narcísicas

no meio do desejo
finjo que é medo
a vontade de brincar
com meu segredo
 
no meio do medo
finjo que é segredo
a clara escuridão
do meu espelho
 
no meio do segredo
finjo que é enredo
a vontade de inventar
um outro espelho
 
no meio do espelho
meu segredo é em vão
um desejo de ter medo
de outros eus que já nem são
 
e cuspo esse tempo
pelos vãos dos dedos
como um retrato de mim
em que me desabito e me perco
129

Balada ao menino da Etiópia

assim como um soluço cárneo
de textura tão substantiva
medes o pranto pelo teu crânio
do tamanho de toda tua vida
 tens na palavra um verbo intransferível
e a solução mais lógica do corpo
é entornar os palmos de tristeza
na cachoeira dos sentidos
 trazes nos olhos
maravilhas mortiças
aposentados quase da vida
que não veem, apenas fingem
 fogem do corpo
poses dilaceradas
um negativo absoluto
dos que te guardam na alma
 
teu valor de uso
é um tanto inadequado
antes te fizeram gente
hoje te consentem gado
 
tua cabeça pesa um tanto
dessa fome que esquadrinha o corpo
e que te tem quase em condição
de te aprovarem morto
 
mas por sobre tua fronte
apontado no teu sonho
há um desconforto enorme
e almas sem tamanho.
112

Clandestinidade

Ao redor da mesa
as palavras tombam
como virus razoáveis
que se querem tantos
 
lavram o juízo
numa certeza tanta
que criam engenhos fartos
nos meandros da garganta
 
fustigam a consciência
numa imensidão disforme
e jogam-se pela alma
numa exata forma
 
o segredo inunda
um verbo intransponível
que aconchega o discurso
a todos os possíveis
 
e a revolução
como um adstringente
coloca o coração do povo
no peito da gente.
173

Da africanidade, das imanências e das transcendências

a noite, amiúde,
traz dentro de mim
todos os dias
que eu pude
africano
a vida me completa
nas léguas todas da história
do sonho que me resta
e tenho-me à terra
como astronauta
e navego um cosmos
que me falta
ancestral
me desconvoco
das atualidades
do que posso
e subo aos céus
do que acredito
com a certeza exata
do infinito.
116

Canto a Camilo Torres

Camilo morto
é um acinte
nada do que é a paz
está em riste
apenas repousa na Colombia
uma manhã baldia,
ainda ensolarada e triste
 
no peito,
ainda incólume,
Camilo inventa colombias
paciência e revólveres
 
o combate
é uma hóstia diferente
distribuída pela América
que a gente traz entre dentes
que se assemelha a um grito
que se inventa na garganta
e que enche toda manhã
com nesgas de esperança
 
sacerdote do tempo
não lhe falta a serventia
de viver, mesmo morto,
no peito da ventania.
148

Da conveniência e outros paradigmas

a vida

nos convém

como medida

de tudo

que à contracorrente

é desmedida

e que lhe permite

um viés mais pertinente
correndo em veias de todos
assim tão impunemente
como se fora tração

dos jeitos todos de gente
 
 
a vida

nos convém

como ultimato

dos infinitos que anotamos
em cada fato

e que demonstram o cerne
desse anonimato

que nos faz ser indivíduos
tão singulares

que nos perdemos nos outros
em todos os compassos.
 
a vida

me convém

como contrato

entre tudo de mim

e o inexato

guardadas as consequências
de todas as outras vidas

em que me acho

é que às vezes

me prolato

não como uma sentença
que se diga fato

mas uma feição mais tênue
e inexata

que se escapa pela vida

no meio dos meus atos

a vida

me convém

como um tempo inato
que me despeja inteiro
nos meus gastos

uns aqueles que exerço
nos meus passos

outros os que não mereço
na prontidão
dos meus achaques

e que me gasta um pouco antes
de que eu me baste
 
a vida

me convém

mesmo a desoras

quando insisto

em tornar-me sujeito

do infinito

e descambo pela aventura
de viver o que não disse

é que descabe a pretensão
de ser mais

do que aquilo

em que se insiste
 
a vida

nos convém

mesmo rasurada

e que não pretenda

os rumos

de qualquer estrada

há sempre a possibilidade
de se criar do nada

e inventar um tempo

de caminhadas
 
a vida

nos convém

em todas as pautas

e em todas as disputas
mas que invente música
em todos os bemóis

a que se ajusta

vividos nós em dança
na aventura íngreme

de construir a luta.
 
a vida

nos convém

pelas montanhas

guardadas as planícies todas
em que a história

nos apanha

porque tê-la assim

nessa grave geografia

é exercício de quem

inventa o dia
 
a vida

nos convém
impunemente
basta viver

para subverter a ordem
do que se sente.
168

Como ter coração?

Como ter coração
se 800 milhões não são?
Como ser pacífico
se a paz
é apenas um indício?
Como não ser infinito
se a paz inteira
ainda não cabe em nosso grito?
148

dos restos de mim pelos caminhos

as doses de mim
que não consumo
transitam frequentes
em todos os rumos

minha direção 
é sempre
aquilo que me lança 
na certeza de gente

viver é só um entalhe
ao esculpir o presente.
72

Comentários (10)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !