Do poema em larga estrada
e se o poema
der-se à razão
de transitar palavras
à contramão?
e se o mundo
deitado em suas curvas
der-se ao pessimismo
de suas contraturas?
talvez o verbo
em sumular postura
dê-se à condição
de vestir-se da disputa
e embrenhar-se inteiro
na verdade literária da luta
Gaia em peleja desatada
Gaia, devastada,
dói em si
pelas estradas
treme, exausta,
nos rumores que solta
em suas falas:
os gritos dos ventos;
os arrepios das matas
Gaia constrói as manhãs
como um tempo exato
que entorna o futuro e os homens
no vão de seus braços
do rumo do destino
a estrada,
veia do futuro,
aponta o destino
em seu curso
tece-lo nos passos
como construção
é passea-lo contrito
em sua amplidão
deixa-lo soltar-se
em sua vontade
é distrato do rumo
da liberdade
Carnaval em pugna judicante
o carnaval
habita o juízo,
vara mental e judicial
de todos os desígnios
o habeas corpus
é rápido e preventivo
gestor da farta liberdade
da fruição dos sentidos
ao homem cabe viver
em calendário restrito
as absolviçōes terrenas
do peso dos conflitos
eis que em largas datas
não se alcança armistícios
Póstuma perspectiva
a morte
não é uma desculpa
que o tempo dá
em suas lutas
vige apenas
como limite
entre a contradição
e suas lides
a morte
é só um passo
do que vive
melhor deixa-la suspensa
em qualquer cabide
Das convulsōes matemáticas em aula posta
o número
envolto na lógica
tecia equações
à minha volta
a mente
esquadrinhando o tempo
revia na razão
seus contratempos
o caderno
inóspito
jazia deserto
no seu ócio
a matemática franzia o cenho
à espera de alguma porta
Dos enredos da noite
a noite, imitando a vida,
subitamente declara
esse jeito manso da África
pelo vão da praça
o céu pinta todas as sombras
em construído aparato
como se fora o continente
jogado em seus traços
a noite teima em não deixar-se manhã
dormindo essa africana paisagem
e joga no peito dos homens
uma intensa ânsia de liberdade
do samba em passos e medidas
o sambista
pisando suas mágoas
enche o ritmo dos olhos
que inventa pelo asfalto
tece tambores oníricos
na marcação das batidas
e marca todos os agogos
das correntezas da vida
o sambista é só um transeunte
engravidando de rumo a avenida
Frevo em larga simetria
o frevo, assim espalhado,
é um passo recorrente
tudo que os pés escrevem
nas ruas do que se sente
desembrulha o coração
como um pacote urgente
que inventa todos os risos
pelos bemóis insurgentes
é assim como um infinito
que coubesse na gente
rurais avisos das palavras
a traça ataca
o cerne da palavra
o poema lavra
o roçado do nada
gesto de verbo
como enxada
o poeta
camponês de si,
semeia a palavra
e sobe os leirōes
em que se basta
o poema em urbana coerência
deixa-se plantio em rural gramática
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.