Parto em visão nascente
às portas do mundo
na materna guarita
o tempo pinça a vontade
de abraçar-se à vida
o ser, ainda encoberto,
deixa-se em transe
a ouvir os gritos imensos
de quem lhe tange
exausto,
engole a vida com espanto
e procura instalar-se pela história
no discurso do seu pranto
Temporais atitudes
não importa
que a manhã não venha
trago a tarde na algibeira
e as noites que convenham
o tempo, assim relativo,
nas velocidades em que tombe
sempre deixará o perto
nas vontades do longe
caminha-lo é só um desfrute
nos passos em que se tange
Da tristeza em privada posse
esse modo transverso
de fugir da mágoa
trai um simples gesto
em manifesto da alma
como se fora sujeito
urdido em sua fala:
a tristeza enfim
é propriedade avara
dá-se apenas por mim
quando o peito declara
deixa-la nadando em sorrisos
é trejeito de afoga-la
Frevo em trânsito corrente
o frevo
dá-se assim como vício
de escrever pelas pernas
o retrato do infinito
tangendo o povo na rua
nos bemóis que explicita
escreve um tempo de riso
no peito largo da vida
e nessa humana corrente
apressa o jeito de Olinda
Lia de Itamaracá ciranda o tempo
Lia de Itamaracá
em seu alvoroço
espalha todas as Áfricas
nos passos do povo
preta, em sua luz,
nos gestos esconde
todos os faróis
que vigem nos homens
a ciranda inventa a paz
nos bemóis que instala
e enche o canto de todos
com os passos da alma
Solitária construção da vida
a solidão
é uma lei avara
tudo que não lhe sente
é a palavra
posta assim como verbo
nos gestos que declara
dá-se farta a indícios
das engenharias solitárias
dizer-se em gesto no outro
em todas as suas falas
é construir as pontes de si
pelos andaimes da alma
imagens
o espelho
é só um retrato
do que a mente vê
em seus recatos
esconde-se da vida
como um eremita
das imagens que inventa
nos olhos que habita
o espelho é uma vontade
posta nos reflexos da vida
Neves do sertão em sol disposto
a neve,
gelando a escuridão,
tangia a noite de Kurkino
em grave imensidão
os olhos
tangidos pelo vento
jogavam a memória
ao encontro do tempo
no meio da Rússia, p(r)ensado,
um sertão rangia o pensamento
Vital permanência da vontade
a vida
dói aos poucos
quase um martelo
na bigorna do corpo
o sonho,
viés anestésico,
entorna endorfina
da cachoeira do cérebro
o tempo é só um engano
nas oficinas do medo
na construção de seu modo
a vida sempre caminha um enredo
Telemático firmamento
a nuvem
tramita um tempo
como um arquivo inexato
de dados e pensamento
o mouse, submisso,
aponta incólume
as variantes fartas
de telemáticos bólides
a vida caminha
a estrada insone
até que reinvente
a prevalência dos homens
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.