Poeminha em descabida norma
o poema
não é um passeio
nas egóicas curvas
nem nos medos
a gramática e as regras
são apenas meios
de transitar a alma
em qualquer freio
os defeitos da forma
às vezes, adredemente,
apenas revelam os termos
daquilo que se sente
o poema é só um discurso
nos microfones da gente
Telemático firmamento
a nuvem
tramita um tempo
como um arquivo inexato
de dados e pensamento
o mouse, submisso,
aponta incólume
as variantes fartas
de telemáticos bólides
a vida caminha
a estrada insone
até que reinvente
a prevalência dos homens
Pequena paisagem noturna com nesgas da manhã
a noite tecia a madrugada
na varanda intensa do mundo
os homens dormiam a vida
abraçados aos sonhos de tudo
e, assim, alinhavando o dia
a natureza espalhava-se no tempo
deitada no colo do si mesma
como se abraçasse o firmamento
os ares revoltos pelas brisas
os galos, jornalistas da aurora,
adivinhando as luzes nascentes
cantavam as árias das horas
e eu, perdido em mim mesmo,
sonhando adredemente o futuro
deixava-me andante das estradas
nas costas dos sonhos em que durmo
Verbal semeadura
o poema
afaga a palavra
nos conchavos que faz
no vão das almas
o poema
alinha palavras
como um roçado semeado
nos fatos que arma
o poema nem bem nasce
e no poeta desaba
há novas semeaduras
nos verbos em que se lavra
Do povo construtor em atos
o povo inventa o tempo
alinhando o espaço
da história que tramita
a vida com seus laços
tudo que lhe reclama
é o ajuste do compasso
entre a parcimônia da luta
e a abrangência dos fatos
tudo que lhe declama
é um poema exato
urdido em vivos verbos
com o suor de seus braços
Voo manifesto
o beija-flor,
em bailarino gesto,
preenche-se do palco
dá-se ao universo
e, infinito em suas asas,
escreve um manifesto
nesse segundo
em que, astronauta, tramita
inventa recorrente o mundo
em que se bebe a vida
Vital permanência da vontade
a vida
dói aos poucos
quase um martelo
na bigorna do corpo
o sonho,
viés anestésico,
entorna endorfina
da cachoeira do cérebro
o tempo é só um engano
nas oficinas do medo
na construção de seu modo
a vida sempre caminha um enredo
Todas as veias vivas
toda via
traz a vida,
todavia,
o combate anuncia
as léguas de si
que pronuncia
no rompante contraditório
que a luta prenuncia
toda via,
gera toda vida,
todavia,
há que construir o povo
nas veias do dia
Poema em desoras
o poema a desoras
arranha os neurônios
assanha a memória
e concede-se palavra
em cadeira gestatória
tangendo o poeta
como simples moratória
das dívidas de si
dos débitos da história
repousa então no verbo
as vias inexatas da forma
e pula semântico o tempo
como um inventário das horas
Fluvial comento
o rio,
veia do mundo,
inventa seu ritmo
nas margens de tudo
dá-se aos oceanos,
no afã de viajante,
transeunte largo
de estuários e pontes
o rio transcorre íntimo
da natureza e seus planos
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.