Paisagem
a cachoeira,
debruçada no tempo,
tangia, gritando, o rio
nas correrias do vento
a vida,
escorrendo pelos olhos,
pintava de alegria
a alma farta do povo
a cachoeira rugia na mata
um jeito manso de alvoroço
Pensante natureza
o homem,
consciência da natureza,
joga em si
liberdade alheia
tudo que o liberta
é a capacidade de se-la
e trazer-se solto
apesar de preso
o pensamento é mais um produto
dos rompantes da natureza
Declaração
a poesia
não pode dar-se à vaidade
de ser apenas bálsamo
da realidade
construir-se avara
sem o suor das cidades
afastar-se da vida
montando verbais disfarces
a poesia é sentimento
da humana liberdade
em postar-se em palavras
ou derramar-se em fatos
Temporais submissōes
o tempo gasta as horas
como um rio em cachoeira
o homem precisa nada-lo
com uma certa certeza
para poder arquiva-las
nas saudades que queira
o tempo é só um espaço
de guardar lutas construídas
as que se façam sozinho
as que se tenha como coletivo
dos arquivos em humano firmamento
nas nuvens
o arquivo agita
todos os bites
no vão da vida
a lógica
trânsito incauto
deixa no peito
um céu descampado
o dispositivo humano
jaz interditado
tudo que lhe move
é um mouse quebrado
Das avenças coletivas do caminho
deixo-me em mim
quando parto
e o destino no outro
é meu compasso
a vida é esse trafegar
na correnteza dos passos
o coração molhado na razão
é só um jeito do recado
em dar-se, assim coletivo,
às recorrências humanas do fato
Das vias mundanas da pátria
as veias da pátria
são vias avessas
o rumo que as leva
ressoam no peito
como uma fala privada
num coletivo estreito
as veias do mundo
são vias do futuro
na pátria geral dos povos
no discurso de tudo
Humana logística
eis a logística:
dar-se ao tempo
e trazer-se espaço
nos ombros da vida
nada que seja breve
deixe de dar-se longo
e flutue no pensamento
como um bumerangue
a idéia tange os atos
pelas esquinas do sangue
como um derramar-se exato
de quem sempre se tange
indígena menção da vergonha
o yanomami, em ossos,
discursa a pele
como uma navalha magra
no punho da terra
carne
na pouquidão de ainda vida
escreve no tempo
uma vergonha infinita
da ação dos homens ruge
a suja condição de parasitas
Faminta exação das horas
rasa,
a manhã suporta
um pouco de carne
ao redor dos ossos
como se fora um grito
grávido de revolta
o homem, apartado de si,
como uma gaivota,
voa sua fome
em todas suas portas
a cidade nem pressente
as ruas que choram
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.