Das medidas em larga dispersão
debruçado no tempo
o espaço gravita
entre os minutos de si
e as léguas da vida
o homem dado aos dois
deixa o infinito p'ra depois
Fluvial comento
o rio,
veia do mundo,
inventa seu ritmo
nas margens de tudo
dá-se aos oceanos,
no afã de viajante,
transeunte largo
de estuários e pontes
o rio transcorre íntimo
da natureza e seus planos
Verbal semeadura
o poema
afaga a palavra
nos conchavos que faz
no vão das almas
o poema
alinha palavras
como um roçado semeado
nos fatos que arma
o poema nem bem nasce
e no poeta desaba
há novas semeaduras
nos verbos em que se lavra
Marítima alusão da vida
no convés de mim
singro minhas águas
as que fluem do riso
as que nadam as lágrimas
quase todas resumidas
nas correntezas que lavro
atravessar-me,
nos mares que componho,
é navegar em mim
os barcos do que sonho
Relógio vital em gradativa senda
o ponteiro
andarilho displicente
nem se apercebe
das horas da gente
pulsa, delinquente,
matando minutos
dos muitos segundos
em que estamos de repente
e a vida, em ondas,
inventa o tempo
como uma corrente
que permite os futuros
que a vontade consente
Poeminha em descabida norma
o poema
não é um passeio
nas egóicas curvas
nem nos medos
a gramática e as regras
são apenas meios
de transitar a alma
em qualquer freio
os defeitos da forma
às vezes, adredemente,
apenas revelam os termos
daquilo que se sente
o poema é só um discurso
nos microfones da gente
Mandamentos de mim
minha lei,
autocraticamente consentida,
determina todos os artigos
como criadores da vida
nos parágrafos
a vontade explicita
o transitar no tempo
em todas as léguas que consiga
nas alíneas,
sub-reptícias,
a tristeza é só um estopim
das alegrias que insistam
Ode a La Paz
La Paz, sob meus pés,
como um Andes derramado
era um indígena contando
todos os meus passos
a montanha,
lúdica e urbana,
bebia meus olhos
em latina trama
La Paz, distante, ainda habita
todas as minhas chamas
Voo manifesto
o beija-flor,
em bailarino gesto,
preenche-se do palco
dá-se ao universo
e, infinito em suas asas,
escreve um manifesto
nesse segundo
em que, astronauta, tramita
inventa recorrente o mundo
em que se bebe a vida
Pequena paisagem noturna com nesgas da manhã
a noite tecia a madrugada
na varanda intensa do mundo
os homens dormiam a vida
abraçados aos sonhos de tudo
e, assim, alinhavando o dia
a natureza espalhava-se no tempo
deitada no colo do si mesma
como se abraçasse o firmamento
os ares revoltos pelas brisas
os galos, jornalistas da aurora,
adivinhando as luzes nascentes
cantavam as árias das horas
e eu, perdido em mim mesmo,
sonhando adredemente o futuro
deixava-me andante das estradas
nas costas dos sonhos em que durmo
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.