Lista de Poemas

Onírico trâmite

no vão do mundo
o sonho é trejeito
do homem navegar-se
como sujeito
jogando-se futuro
nas costas do tempo
como se fora um mar
o pensamento
alinhava-lo pela vida
demanda a sanha
de terça-lo matéria
em todas as instâncias
9

Maracatu

o maracatu aos gritos
dançando o pensamento
tece urgente os ancestrais
nos braços do tempo
o tambor balbucia
o ritmo íngreme da vida
como fora um coração
derramado na avenida
o matéria pulsa seu jeito
construtora de si impunemente
como se fora batalha alegre
no peito dos viventes
6

discurso afrevado

assim que a orquestra berra
nos compassos da avenida
o frevo ferve a terra
no espinhaço de Olinda

o povo desenha na rua
os passos claros do mundo
como se fosse procissão
dos movimentos de tudo

e quando o vão da madrugada
vem chegando mansamente
Olinda sacode as calçadas
e inventa um nó no tempo
7

Dos usos da palavra

o poema
lavra a palavra
no presente em uso
como se fora passado
cheio de futuros
o poema
dá-se ao talante
de instalar o verbo
como itinerante
o poema é um disfarce
do poeta e seus rompantes
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Mergulho vital

o raso da vida
é pouco mergulho
nesse nadar constante
as veias do futuro
rusgas do tempo
no trânsito fático
rebeliões urgentes
de quem se constata
as funduras tantas da vida
são as razões de quem as nada
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Do fazimento da vida

a matéria
aos solavancos
inventa-se plena
como humano
múltipla intenção
cognitiva trança
dá-se a conhecer-se
como substância
nas entrelinhas de si
forja todas as letras
como um auto discurso
de quem se inventa
5

Carta XII

meu caro Neruda
ainda hoje
uma pedra voou do Chile
e na sua rota inanimada
mascarou de flores
a miséria do teu povo
como extensão do grito
que drapeja nas gargantas
ressoou no peito dessa América
sua palavra de sangue

embora latentemente ausente
teu ombro de poeta e povo
aconchegou-se à multidão
num poema violento
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vias do ato

o bar
é um sindicato de almas
na etérea confluência
que o álcool instala
consome a noite
como um instintivo ato
de quem consome a vida
como um voo exato
desde as asas do tempo
até as crises da fala

7

Gaza em material resenha

a história
em suas falas
jogará Gaza
na cara dos canalhas
o mundo
navegando o tempo
discursará o futuro
impunemente
a vontade humana
é a matéria indormida
em sua inteira consciência
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Frevança consumida

o frevo
coça pela alma
todos os bemóis
em que se lavra
é assim um rompante
do jeito do infinito
de construir levantes
no peito dos passistas
é como se fosse manhã
que nunca anoitece
e abraça o tempo na gente
enquanto a vida acontece
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.