A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
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Amor de domingo
Depois do almoço, deitados na rede Comendo queijo com goiabada Sentindo a brisa na cara Descansam Romeu e Julieta
A vida passa devagar O sol quente os abraça A paixão ardente se disfarça E se contenta com um doce selar de lábios
Esse beijo rápido e jovem Esse encontro virgem, quase casto Combina com a paisagem, verde pasto Que namora o céu azul, natural emplasto
A tarde corre inabalável O amor continua sorrindo As folhas das árvores flutuam, caindo A Primavera chegou, que belo domingo!
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Às escondidas
Antes mesmo do cair da noite Um abraço proibido, açoite Longe de tudo, fora de vista Acontece numa atmosfera quente, às escondidas
Quando já as últimas chamas solares Colorem a cidade, as cabeças, os lares Um toque explode em surda melodia E cresce e sacode, enquanto se despede o dia
Sob o até logo das diurnas luzes Espetáculo tão belo quanto cotidiano Um entrelaçar de pernas, sem engano Balança a carne, foge das cruzes
Sob a obviedade incontestável do anoitecer Evento tão estarrecedor quanto tedioso Um toque de lábios, encontro fabuloso Se conhece e se experimenta, sem surpreender.
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Voo noturno
Hoje enquanto passeava entre as nuvens Logo antes do amanhecer Observei uma estrela solitária
Seu brilho provavelmente vinha de muito longe E encantei-me pela estrela Era a última testemunha da noite
Olhamo-nos por alguns instantes Observei como era pequena aos meus olhos E, no entanto, como era grande a distância que percorria
Indaguei-me: "Como terá me achado tal estrela?" A que deveria eu o prazer de sua visita? Perguntei à estrela se havia gostado de mim A estrela riu baixinho e nada disse
À medida que fui caminhando em direção ao dia A estrela foi ficando mais e mais tímida Fiquei chateada e achei que ela não me quisesse ali A estrela me consolou
Contou-me uma história para eu dormir Antes que ao dia eu chegasse Disse que já era tarde E por isso precisava partir Disse que toda manhã cedo faz este Espetáculo para se despedir
Cantou-me canções de ninar Até que sua voz se calou Soprou seu encanto pela Terra Que acordava Sobre a cabeça de uma menina Que sonhava
Hoje enquanto passeava pelas nuvens Logo antes do amanhecer Namorei uma estrela solitária E observei-a desaparecer
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Rotação
Rodei o mundo e conheci muitas pessoas Diversas histórias inquietantes, nem sempre boas Ouvi piadas e músicas de todos os tipos Descansei a cabeça e as pernas em lares desconhecidos
Viajei por corpos e copos e colecionei amores Muitas promessas entre suspiros, nem sempre dores Ouvi lamentações e declarações de todas as sortes Pousei meus lábios entre pernas para atingir pequenas mortes
Ao final dessa jornada, não sei bem o que aprendi Homens, mulheres, jovens e velhos dementes Cada um me disse algo importante (que sinceramente esqueci) Talvez seja hora de fazer tudo novamente E refazer-me mais uma vez, num lugar diferente.
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Imbecilidade
Odeio poemas pretensiosos São apenas coleções de palavras bonitas São lembranças de sonhos horrorosos Que não fazem jus às almas aflitas
Odeio pessoas que forjam simpatia São apenas reprodutores das boas maneiras São burgueses que despertam antes do raiar do dia Para fingir que são úteis às quartas-feiras
Odeio que me digam o que fazer Sou teimosa e insubordinada Sou retrato de uma tentativa fracassada De alguém que se asfixia, sem morrer
Odeio uma infinidade de coisas imbecis Sou, na verdade, um recorte histérico Daquilo que detesto, no presente ou pretérito
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Hoje à noite
Quando a gente se encontrar Quando o olhar bater Quando o coração falhar Quando a taça de vinho terminar Quando não houve mais o que beber Quando a boca secar Quando a porta do quarto fechar Quando os vizinhos quiserem adormecer Quando a gente se enrolar
Quero tudo que não me puderes dar.
Quero a lágrima, o gozo, o riso Quero nosso enlace definitivo Quero o beijo molhado, o paraíso Quero ouvir mil versos proibidos Quero a sede, a fome, a vontade Quero te ter inteiro, sem metades Quero a luxúria, a culpa, a castidade Quero não sentir medo, me precipitar Quero no teu âmago mergulhar
Quero a mais pura forma de amar.
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O Tempo
Paro e penso: o Tempo não consegue mais se decidir se passa rápido ou devagar. Também não sabe mais dizer o que é hoje, o que foi ontem, o que será amanhã. O Tempo é agora esse espectro confuso, mistura difusa, suspenso no ambiente como uma névoa espessa. Há tempos que o Tempo parou de contar. Sentada aqui, olhando o Tempo nesse seu novo caminhar, resolvo ajudá-lo a quantificar os segundos, minutos, horas. Não tenho sucesso na minha empreitada. O Tempo olha para mim e ri. Com a testa franzida e os olhos apertados, o Tempo me diz:
— Esta tua reflexão é ridícula e mentirosa. Não sou eu quem está confuso. Quem precisa de norte é tu, que forjou em mim o transcorrer da vida, sem saber que a vida não foi feita para ser contada nos intervalos do meu tic-tac. Quem precisa de ajuda é tu, que agora vaga sem saber para onde porque te tiraram os horários marcados. A culpa desta desordem é tua. É sim, toda tua . Porque vives a correr pela hora de início e término do expediente, mas não sabes dizer a que horas nasce e se põe o Sol.
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Domingo (de versos soltos)
Escorre lá fora uma chuva fina E molhada No lado de dentro, me vejo sem saídas Encurralada
Entre a cruz e a espada A boca cala, a mente grita No sofá da sala Sem pretensões, com as pernas para cima
Andando de um lado para o outro Fingindo que a casa é infinita Sinto dor de cabeça, mas não tomo remédios Prefiro lançar meus olhos sobre os prédios
Vejo uma menina fazendo manha Chora para não comer brócolis Acho engraçada a reclamação barulhenta De algo feito especialmente para ela: a birrenta
Uma vez tive um amor Que não foi feito para ser meu Esperneava porque queria engoli-lo mesmo assim Daí a minha diferença para a criança do choro-sem-fim
Já fui também uma mosca Que pousava nas sopas alheias Bebia um pouquinho de cada prato Voava incomodando por aí, nunca satisfeita
Me convenço de que a chuva diminuiu E que posso comprar meus cigarros (de filtro vermelho) Fumar faz mal para a saúde E eu só faço mal para a imagem refletida no espelho.
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Pequenos retratos (imaginários) de nós
Lanço meu olhar através da pequena janela ovalada. Ao meu lado acaba de pousar o avião que vai te trazer para casa. Sou atravessada por um pensamento infame, que desmancha meu corpo por inteiro. Sua casa não é a minha. A nossa casa não existe. Eu queria te ter sem metades, num beijo molhado ou num fim de tarde. Lá fora, no céu, um lampejo de saudade. Há algum tempo, resolvi dizer adeus ao pudor e à ciência. Com lágrimas nos olhos, te escrevo um poema. Sem juízo na cabeça. No coração, culpa. Nas mãos, somente a verdade. E eu, que nunca fui de me abrir por completo, sinto a urgência avassaladora de me entregar (de coração aberto). Se eu pudesse te ter (assim como queria), viveria em festa. A semana inteira, inventaria novos rituais (que pudessem ser só nossos). Agradeceria à vida soltando pipa no jardim aos domingos. Jogando confetes na sala de estar às segundas. Dançando forró dentro do quarto às terças. Fazendo carnaval toda quarta-feira. Nas quintas, me derramaria sobre poemas de amor e taças de vinho tinto. E quanto a sexta-feira chegasse, aqueceria meu corpo junto ao teu, celebrando na carne os mistérios da alma. O final de semana seria nosso refúgio. E poderíamos fazer o que bem entendêssemos. De tempos em tempos, abriríamos a nossa casa àqueles que também nos amam. Espalharíamos fotos de viagens pelas paredes. E quando as paredes estivessem cheias, inventaríamos algo inédito para barrar o tédio de nos possuirmos. Talvez pudéssemos escolher entre uma casa maior ou uma vida nova. Poderíamos nos render aos desejos nobres e caretas que envolvem fazer um filho. Aí seríamos nós, meus seios fartos e uma criança curiosa (e gorducha). Iríamos ao teatro e morreríamos de rir das nossas palhaçadas e piadas sem graça. Olharíamos o mundo através de lentes coloridas e tudo seria melhor, maior, mais bonito. As noites de sono seriam bem dormidas e as refeições sempre fartas (mesmo que houvesse poucas coisas postas à mesa). A vida seria enfim, boa. Feliz, simplesmente por ser vivida lado a lado. Plena, porque seria contigo.