A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
Teu timbre de voz é parecido com muitos outros Teus cabelos grisalhos não te deixam mentir a idade Tuas pernas miúdas não inspiram austeridade Ainda assim, deixo-me levar pelos teus olhos mornos
Quem não te olha de perto, talvez não perceba Que tu carregas um coração pesado, com leveza E nas tuas mãos, conserta o mundo inteiro, tamanha destreza
Quem não te escuta falando baixinho Não sabe como é bom entregar-se completamente (devagarzinho) Ainda mais com um perfume bom (ou um pouco de vinho)
Mas não me leve a mal, não quero nada além Notando esta minha descoberta, paixão por certo alguém Permaneço em silêncio, sinto-me completa Só eu e tu nas esquinas, brincando de poeta.
206
Reticência
Encontraram-se mudos Os olhos arregalados A coragem acontece num milissegundo Faz esquecer-se do presente ou passado
Aproximaram-se quase sem querer O ar denso pairava Respirar sem sucumbir ou temer Era tarefa arriscada
Sabiam das alegrias frívolas E dos desastres possíveis Por isso, tinham urgência tímida Em devorarem-se, invisíveis
O resto do mundo corria lá fora Girava reticente, sem demora A penumbra engolia as casas, os lares Era testemunha de desejos intermináveis
Cores e sons, meros personagens secundários Não comunicavam coisa alguma aos sentidos, ordinários O calor e o toque, autores da consciência inebriada Olhavam perplexos a chama consumada
No minuto seguinte, o coração calou-se Batia agora pesado, correndo ao açoite Ritmo errático, deflagrado pela culpa Sem drama nem conserto, verdade nua e crua
Acontece que os delizes são passageiros Mas o desejo é pulsante e insaciável Descompasso que acompanha os devaneios De amantes comprometidos com o inalcançável.
162
Súplica
Encontre-me em um desses bares De beira de estrada Sem aviso prévio ou desculpas salutares Fuja da família, deixe a amada Beba meu silêncio e minhas meias-palavras
Misture meu hálito quente ao ar úmido, que paira à sua volta Sem cortejos ou fantasia Sem casamento ou revolta Regue-me com uma porção de versos soltos, sem demagogia Convide teus fantasmas para o quarto Faça figa, mas faça valer o pecado
E amanhã, quando nosso segredo onírico Quiser bater à porta, na solidão ou no meio da tarde Forje inocência, aperte os olhos e ria do eu-lírico Somos velhos conhecidos, não precisamos de disfarces ou alarde Não precisamos de mistério, tampouco da verdade.
194
Seguinte
A próxima página está totalmente em branco. Intocada. Inacabada pela sua própria natureza. Reluz o anseio da transformação. Poderia, quem sabe, guardar um segredo. Ou muitos. Ser testemunho de um amor proibido. Ou filha de um adultério. Poderia tornar-se cúmplice de um pecado. Ou traição. Poderia converter-se em carta apaixonada. Ou balanço das contas do mês. Pode ser ainda, algum dia, o desenho colorido de uma criança (que sonha). Pode ser enxaguada por lágrimas (ainda desconhecidas). Pode levar um nome comum no seu canto inferior. A próxima página pode ser abençoada ou amaldiçoada, sem nunca experimentar a liberdade de escolher o que será. É alheia ao mundo inteiro. Unicamente fruto do desejo pulsante de terceiros. Desconhece o que poderia ser. Mas insiste para não permanecer em branco. Esperneia aos olhos do poeta. Suplica frente às mãos úmidas de uma dona de casa. Implora para tornar-se alguma coisa. Qualquer coisa.
208
História natural de uma paixão
No início, um entrelaçar sutil de olhares Dedos que às vezes queriam tocar Sem saber exatamente como ou porquê Um abraço singelo Um sorriso tímido Um sopro inocente De amor juvenil Que foi crescendo E de criança magricela Tornou-se mulher Uma mulher que observava maneirismos E sorrisos de canto de boca Olhos que se demoravam sobre o corpo E que queriam, com volúpia, devorar a alma Olhos que pousavam sobre o anel de grosso ouro (no quarto dedo) E que escolhiam passar por cima Inebriando a consciência que outrora falava E fantasiava Sem perceber, passou a decorar cada passo Em cada pedaço Sabia cada compasso do desejo Desejo com forma de gente Planejava a data e hora do pecado E de saber de cor Cada cabelo grisalho Passou a ter o andar mais pesado As mãos mais soltas Os mesmos gostos O pensamento acelerado E veja que engraçado Tornou-se homem Objeto do desejo Já que desejava e não podia realizar Gozava em se fazer notar Pela semelhança nos maneirismos Nas sutilezas da inteligência E, mesmo na fala, a cadência Dizia que era inspiração Pelo outro, admiração Que nada É paixão disfarçada Que toca e traz ao coração A vontade de fazer-se amada
247
Arritmia
Dentro do meu peito Existe um compasso de tamborim Que insiste em me assustar Acelerado Quando te vê Sorrindo para mim
Dentro dos teus olhos Meu compasso Quer se perder Em amassos E no batuque sem fim Desse desmanchar De cabelos Desse enrolar De lábios Desse farfalhar De pelos Encontro e me perco Será que um dia me acho?
Tenho Por acaso Um sorriso Largo Uma mente Que sonha Um coração Pintado Que bate Des-com-pas-sado
Tenho por escolha Teu úmido Balançar A nadar À deriva No meu mar Uma volúpia Que se disfarça Sem graça Maior que o mundo inteiro Feliz Por não guardar segredo
Deita e dorme Que mais tarde Os versos escorrem Pelas minhas pernas Bambas Um balé Com notas De samba Um corpo Que devora O sangue A vida O fim O compasso De quem se ama.
217
Quase quarta-feira de cinzas
Tuas palavras derramam-se pelo chão Tento calar-te, meus esforços são em vão São doces e perversas, quase-promessas Atravessam-me, viajam por dentro de mim Deslizo nelas mesmo assim
Tuas palavras rasgam-me por inteiro São filhas de um meio-amor de fevereiro Desmontam-me, reconstroem-me a cada vacilo Diante delas, finjo-me de surda (só para morrer de amor) De nada adianta, poesia não queres compor
Queria o silêncio e beijar-te a boca Chorar no teu colo, agarrar-te a nuca Queria a insensatez, brincar de louca Olhar-te nos olhos e ficar maluca
Queria que não morresse nunca a paixão Mas tuas palavras são assassinas Perseguem meu sonho de menina E riem das minhas angústias, sem razão
407
Conjunção do adeus
Eu viajei pelo mundo e Colei meu rosto em outros rostos e Cantei mil canções em palcos e bares imundos
Eu fui à caça junto às estrelas, logo Abri as janelas e portas da minha casa, logo Percorri mil corpos e copos, sobremaneira
Eu me apaixonei uma vez para Gozar com desconhecidos e afins para Desejar mil encontros nossos por mês
Eu me atirei da ponte no centro da cidade, mas Não encontrei alívio, mas Esperei mil dias pela tua caridade
Eu visitei o Céu e o Inferno, portanto Afirmo com certeza que nem o passar dos anos É capaz de me amenizar o quanto te amo.
247
Anseio
Quero me afogar num corpo de mulher Beber suas curvas Aspirar suas linhas Perder meu fôlego nas suas esquinas
Quero me fundir a um corpo de mulher Ler sua pele em braille Desvendar os mistérios da sua respiração Tentar me apossar de seus cabelos, em vão
Quero me enganar num corpo de mulher Morrer de amor por uma noite Ajoelhar-me no chão e pedir misericórdia Forjar em seus olhos discórdia
Quero me encontrar num corpo de mulher Entender por que me valho de meios amores Desvendar a razão das minhas dores Só para então morrer novamente E me perder mais ainda em outra mulher Num beijo ardente
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Tempestade n0 2
A chuva que cai lá fora É exatamente igual à do dia anterior Quando eu era criança e brincava na escola A chuva que caía causava temor
A chuva é semelhante a que caiu um mês atrás Suponho que parecida com a que cairá amanhã Um dia fui criança e me escondi, sem pensar jamais Que eram inocentes os raios de Tupã
A chuva sempre caiu molhada A chuva sempre escorreu pela janela A chuva sempre escorregou como navalha Na carne dos poetas de alma amarela
A chuva nunca foi minha amiga A chuva nunca me fez esquecer a saudade A chuva nunca tornou colorida A lembrança desta velha cidade