Lista de Poemas
Domingo (de versos soltos)
Escorre lá fora uma chuva fina
E molhada
No lado de dentro, me vejo sem saídas
Encurralada
Entre a cruz e a espada
A boca cala, a mente grita
No sofá da sala
Sem pretensões, com as pernas para cima
Andando de um lado para o outro
Fingindo que a casa é infinita
Sinto dor de cabeça, mas não tomo remédios
Prefiro lançar meus olhos sobre os prédios
Vejo uma menina fazendo manha
Chora para não comer brócolis
Acho engraçada a reclamação barulhenta
De algo feito especialmente para ela: a birrenta
Uma vez tive um amor
Que não foi feito para ser meu
Esperneava porque queria engoli-lo mesmo assim
Daí a minha diferença para a criança do choro-sem-fim
Já fui também uma mosca
Que pousava nas sopas alheias
Bebia um pouquinho de cada prato
Voava incomodando por aí, nunca satisfeita
Me convenço de que a chuva diminuiu
E que posso comprar meus cigarros (de filtro vermelho)
Fumar faz mal para a saúde
E eu só faço mal para a imagem refletida no espelho.
E molhada
No lado de dentro, me vejo sem saídas
Encurralada
Entre a cruz e a espada
A boca cala, a mente grita
No sofá da sala
Sem pretensões, com as pernas para cima
Andando de um lado para o outro
Fingindo que a casa é infinita
Sinto dor de cabeça, mas não tomo remédios
Prefiro lançar meus olhos sobre os prédios
Vejo uma menina fazendo manha
Chora para não comer brócolis
Acho engraçada a reclamação barulhenta
De algo feito especialmente para ela: a birrenta
Uma vez tive um amor
Que não foi feito para ser meu
Esperneava porque queria engoli-lo mesmo assim
Daí a minha diferença para a criança do choro-sem-fim
Já fui também uma mosca
Que pousava nas sopas alheias
Bebia um pouquinho de cada prato
Voava incomodando por aí, nunca satisfeita
Me convenço de que a chuva diminuiu
E que posso comprar meus cigarros (de filtro vermelho)
Fumar faz mal para a saúde
E eu só faço mal para a imagem refletida no espelho.
212
Reticência
Encontraram-se mudos
Os olhos arregalados
A coragem acontece num milissegundo
Faz esquecer-se do presente ou passado
Aproximaram-se quase sem querer
O ar denso pairava
Respirar sem sucumbir ou temer
Era tarefa arriscada
Sabiam das alegrias frívolas
E dos desastres possíveis
Por isso, tinham urgência tímida
Em devorarem-se, invisíveis
O resto do mundo corria lá fora
Girava reticente, sem demora
A penumbra engolia as casas, os lares
Era testemunha de desejos intermináveis
Cores e sons, meros personagens secundários
Não comunicavam coisa alguma aos sentidos, ordinários
O calor e o toque, autores da consciência inebriada
Olhavam perplexos a chama consumada
No minuto seguinte, o coração calou-se
Batia agora pesado, correndo ao açoite
Ritmo errático, deflagrado pela culpa
Sem drama nem conserto, verdade nua e crua
Acontece que os delizes são passageiros
Mas o desejo é pulsante e insaciável
Descompasso que acompanha os devaneios
De amantes comprometidos com o inalcançável.
Os olhos arregalados
A coragem acontece num milissegundo
Faz esquecer-se do presente ou passado
Aproximaram-se quase sem querer
O ar denso pairava
Respirar sem sucumbir ou temer
Era tarefa arriscada
Sabiam das alegrias frívolas
E dos desastres possíveis
Por isso, tinham urgência tímida
Em devorarem-se, invisíveis
O resto do mundo corria lá fora
Girava reticente, sem demora
A penumbra engolia as casas, os lares
Era testemunha de desejos intermináveis
Cores e sons, meros personagens secundários
Não comunicavam coisa alguma aos sentidos, ordinários
O calor e o toque, autores da consciência inebriada
Olhavam perplexos a chama consumada
No minuto seguinte, o coração calou-se
Batia agora pesado, correndo ao açoite
Ritmo errático, deflagrado pela culpa
Sem drama nem conserto, verdade nua e crua
Acontece que os delizes são passageiros
Mas o desejo é pulsante e insaciável
Descompasso que acompanha os devaneios
De amantes comprometidos com o inalcançável.
151
Súplica
Encontre-me em um desses bares
De beira de estrada
Sem aviso prévio ou desculpas salutares
Fuja da família, deixe a amada
Beba meu silêncio e minhas meias-palavras
Misture meu hálito quente ao ar úmido, que paira à sua volta
Sem cortejos ou fantasia
Sem casamento ou revolta
Regue-me com uma porção de versos soltos, sem demagogia
Convide teus fantasmas para o quarto
Faça figa, mas faça valer o pecado
E amanhã, quando nosso segredo onírico
Quiser bater à porta, na solidão ou no meio da tarde
Forje inocência, aperte os olhos e ria do eu-lírico
Somos velhos conhecidos, não precisamos de disfarces ou alarde
Não precisamos de mistério, tampouco da verdade.
De beira de estrada
Sem aviso prévio ou desculpas salutares
Fuja da família, deixe a amada
Beba meu silêncio e minhas meias-palavras
Misture meu hálito quente ao ar úmido, que paira à sua volta
Sem cortejos ou fantasia
Sem casamento ou revolta
Regue-me com uma porção de versos soltos, sem demagogia
Convide teus fantasmas para o quarto
Faça figa, mas faça valer o pecado
E amanhã, quando nosso segredo onírico
Quiser bater à porta, na solidão ou no meio da tarde
Forje inocência, aperte os olhos e ria do eu-lírico
Somos velhos conhecidos, não precisamos de disfarces ou alarde
Não precisamos de mistério, tampouco da verdade.
184
Seguinte
A próxima página está totalmente em branco. Intocada. Inacabada pela sua própria natureza. Reluz o anseio da transformação. Poderia, quem sabe, guardar um segredo. Ou muitos. Ser testemunho de um amor proibido. Ou filha de um adultério. Poderia tornar-se cúmplice de um pecado. Ou traição. Poderia converter-se em carta apaixonada. Ou balanço das contas do mês. Pode ser ainda, algum dia, o desenho colorido de uma criança (que sonha). Pode ser enxaguada por lágrimas (ainda desconhecidas). Pode levar um nome comum no seu canto inferior. A próxima página pode ser abençoada ou amaldiçoada, sem nunca experimentar a liberdade de escolher o que será. É alheia ao mundo inteiro. Unicamente fruto do desejo pulsante de terceiros. Desconhece o que poderia ser. Mas insiste para não permanecer em branco. Esperneia aos olhos do poeta. Suplica frente às mãos úmidas de uma dona de casa. Implora para tornar-se alguma coisa. Qualquer coisa.
199
História natural de uma paixão
No início, um entrelaçar sutil de olhares
Dedos que às vezes queriam tocar
Sem saber exatamente como ou porquê
Um abraço singelo
Um sorriso tímido
Um sopro inocente
De amor juvenil
Que foi crescendo
E de criança magricela
Tornou-se mulher
Uma mulher que observava maneirismos
E sorrisos de canto de boca
Olhos que se demoravam sobre o corpo
E que queriam, com volúpia, devorar a alma
Olhos que pousavam sobre o anel de grosso ouro
(no quarto dedo)
E que escolhiam passar por cima
Inebriando a consciência que outrora falava
E fantasiava
Sem perceber, passou a decorar cada passo
Em cada pedaço
Sabia cada compasso do desejo
Desejo com forma de gente
Planejava a data e hora do pecado
E de saber de cor
Cada cabelo grisalho
Passou a ter o andar mais pesado
As mãos mais soltas
Os mesmos gostos
O pensamento acelerado
E veja que engraçado
Tornou-se homem
Objeto do desejo
Já que desejava e não podia realizar
Gozava em se fazer notar
Pela semelhança nos maneirismos
Nas sutilezas da inteligência
E, mesmo na fala, a cadência
Dizia que era inspiração
Pelo outro, admiração
Que nada
É paixão disfarçada
Que toca e traz ao coração
A vontade de fazer-se amada
Dedos que às vezes queriam tocar
Sem saber exatamente como ou porquê
Um abraço singelo
Um sorriso tímido
Um sopro inocente
De amor juvenil
Que foi crescendo
E de criança magricela
Tornou-se mulher
Uma mulher que observava maneirismos
E sorrisos de canto de boca
Olhos que se demoravam sobre o corpo
E que queriam, com volúpia, devorar a alma
Olhos que pousavam sobre o anel de grosso ouro
(no quarto dedo)
E que escolhiam passar por cima
Inebriando a consciência que outrora falava
E fantasiava
Sem perceber, passou a decorar cada passo
Em cada pedaço
Sabia cada compasso do desejo
Desejo com forma de gente
Planejava a data e hora do pecado
E de saber de cor
Cada cabelo grisalho
Passou a ter o andar mais pesado
As mãos mais soltas
Os mesmos gostos
O pensamento acelerado
E veja que engraçado
Tornou-se homem
Objeto do desejo
Já que desejava e não podia realizar
Gozava em se fazer notar
Pela semelhança nos maneirismos
Nas sutilezas da inteligência
E, mesmo na fala, a cadência
Dizia que era inspiração
Pelo outro, admiração
Que nada
É paixão disfarçada
Que toca e traz ao coração
A vontade de fazer-se amada
236
Arritmia
Dentro do meu peito
Existe um compasso de tamborim
Que insiste em me assustar
Acelerado
Quando te vê
Sorrindo para mim
Dentro dos teus olhos
Meu compasso
Quer se perder
Em amassos
E no batuque sem fim
Desse desmanchar
De cabelos
Desse enrolar
De lábios
Desse farfalhar
De pelos
Encontro e me perco
Será que um dia me acho?
Tenho
Por acaso
Um sorriso
Largo
Uma mente
Que sonha
Um coração
Pintado
Que bate
Des-com-pas-sado
Tenho por escolha
Teu úmido
Balançar
A nadar
À deriva
No meu mar
Uma volúpia
Que se disfarça
Sem graça
Maior que o mundo inteiro
Feliz
Por não guardar segredo
Deita e dorme
Que mais tarde
Os versos escorrem
Pelas minhas pernas
Bambas
Um balé
Com notas
De samba
Um corpo
Que devora
O sangue
A vida
O fim
O compasso
De quem se ama.
Existe um compasso de tamborim
Que insiste em me assustar
Acelerado
Quando te vê
Sorrindo para mim
Dentro dos teus olhos
Meu compasso
Quer se perder
Em amassos
E no batuque sem fim
Desse desmanchar
De cabelos
Desse enrolar
De lábios
Desse farfalhar
De pelos
Encontro e me perco
Será que um dia me acho?
Tenho
Por acaso
Um sorriso
Largo
Uma mente
Que sonha
Um coração
Pintado
Que bate
Des-com-pas-sado
Tenho por escolha
Teu úmido
Balançar
A nadar
À deriva
No meu mar
Uma volúpia
Que se disfarça
Sem graça
Maior que o mundo inteiro
Feliz
Por não guardar segredo
Deita e dorme
Que mais tarde
Os versos escorrem
Pelas minhas pernas
Bambas
Um balé
Com notas
De samba
Um corpo
Que devora
O sangue
A vida
O fim
O compasso
De quem se ama.
206
Quase quarta-feira de cinzas
Tuas palavras derramam-se pelo chão
Tento calar-te, meus esforços são em vão
São doces e perversas, quase-promessas
Atravessam-me, viajam por dentro de mim
Deslizo nelas mesmo assim
Tuas palavras rasgam-me por inteiro
São filhas de um meio-amor de fevereiro
Desmontam-me, reconstroem-me a cada vacilo
Diante delas, finjo-me de surda (só para morrer de amor)
De nada adianta, poesia não queres compor
Queria o silêncio e beijar-te a boca
Chorar no teu colo, agarrar-te a nuca
Queria a insensatez, brincar de louca
Olhar-te nos olhos e ficar maluca
Queria que não morresse nunca a paixão
Mas tuas palavras são assassinas
Perseguem meu sonho de menina
E riem das minhas angústias, sem razão
395
Conjunção do adeus
Eu viajei pelo mundo e
Colei meu rosto em outros rostos e
Cantei mil canções em palcos e bares imundos
Eu fui à caça junto às estrelas, logo
Abri as janelas e portas da minha casa, logo
Percorri mil corpos e copos, sobremaneira
Eu me apaixonei uma vez para
Gozar com desconhecidos e afins para
Desejar mil encontros nossos por mês
Eu me atirei da ponte no centro da cidade, mas
Não encontrei alívio, mas
Esperei mil dias pela tua caridade
Eu visitei o Céu e o Inferno, portanto
Afirmo com certeza que nem o passar dos anos
É capaz de me amenizar o quanto te amo.
Colei meu rosto em outros rostos e
Cantei mil canções em palcos e bares imundos
Eu fui à caça junto às estrelas, logo
Abri as janelas e portas da minha casa, logo
Percorri mil corpos e copos, sobremaneira
Eu me apaixonei uma vez para
Gozar com desconhecidos e afins para
Desejar mil encontros nossos por mês
Eu me atirei da ponte no centro da cidade, mas
Não encontrei alívio, mas
Esperei mil dias pela tua caridade
Eu visitei o Céu e o Inferno, portanto
Afirmo com certeza que nem o passar dos anos
É capaz de me amenizar o quanto te amo.
235
Linhas de um diário qualquer
Hoje eu recebi uma mensagem tua. Toda vez que seu nome aparece como remetente, meu coração oscila. Toda vez que te quero como destinatário, minha mente hesita. Não vou mentir para as linhas do meu diário, penso sempre em ser alvo da tua atenção. Penso sobre o timbre da tua voz e nos teus maneirismos. Acho engraçado o seu linguajar cheio de vícios. Repito todos sem perceber e acho graça de mim mesma quando impeço-me de corrigi-los. Não há um só cenário em que uma conversa nossa não me cause arritmia. Por isso, preciso dizer-te que meu coração já é meio calejado. Meu cardiologista não é seu maior fã. Explicou-me que tomar desse meio-amor inventado é altamente desaconselhável. Minha cabeça já convive com um punhado de fracassos. Minha terapeuta observa com cuidado. Sei que, no geral, sou muito chata e não faço questão de esconder. Mas sem frase pronta, lugar comum ou clichê: quando estou perto de você, esforço-me para não ser desagradável. Fato é que eu te tolero mais do que qualquer um. Mais do que a mim mesma. Talvez chegue o dia em que vou transformar tudo isso em poema. Até lá, finjo que te quero tanto como quero qualquer um, sem declaração ou dilema.
436
Comentários (2)
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Flaquiote
Que bom, gostei galera
Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!