A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
Hoje eu recebi uma mensagem tua. Toda vez que seu nome aparece como remetente, meu coração oscila. Toda vez que te quero como destinatário, minha mente hesita. Não vou mentir para as linhas do meu diário, penso sempre em ser alvo da tua atenção. Penso sobre o timbre da tua voz e nos teus maneirismos. Acho engraçado o seu linguajar cheio de vícios. Repito todos sem perceber e acho graça de mim mesma quando impeço-me de corrigi-los. Não há um só cenário em que uma conversa nossa não me cause arritmia. Por isso, preciso dizer-te que meu coração já é meio calejado. Meu cardiologista não é seu maior fã. Explicou-me que tomar desse meio-amor inventado é altamente desaconselhável. Minha cabeça já convive com um punhado de fracassos. Minha terapeuta observa com cuidado. Sei que, no geral, sou muito chata e não faço questão de esconder. Mas sem frase pronta, lugar comum ou clichê: quando estou perto de você, esforço-me para não ser desagradável. Fato é que eu te tolero mais do que qualquer um. Mais do que a mim mesma. Talvez chegue o dia em que vou transformar tudo isso em poema. Até lá, finjo que te quero tanto como quero qualquer um, sem declaração ou dilema.
448
Anonimato
No mundo, há milhares de poetas mudos Escrevem versos em cadernos sujos Que morrem com os autores, ruídos surdos Sem conhecer os prazeres e as dores De revelar seus absurdos
Esses feiticeiros do cotidiano Que seguem na vida pública, silenciosos Às vezes esbarram-se pelos bares, ociosos E terminam em quartos revelando, escondidos A verdade entre gemidos
Mas quando chega a segunda-feira O despertador toca da mesma maneira E são obrigados a levantar para o trabalho São comerciantes, cozinheiros e advogados Que fingem se preocupar com a inflação e com o mercado
No mundo, há milhares de poetas mudos Ler o que têm a dizer, é minha maior vontade Tirar seus poemas da gaveta, descobrir sua identidade Assim o faria se não fosse eu mesma um ruído surdo Sem rosto nem poder Ainda esperando meu vir-a-ser
Não quero imitar Fernando Pessoa Nem ser pretensiosa ao ponto de Acreditar que posso escrever como Fernando Pessoa Ou como qualquer outro poeta Que se preze
Não quero passar a minha vida Escrevendo neste caderno empoeirado Ou em tantos outros cardernos empoeirados Que moram nas minhas estantes Espalhadas pela casa
Não quero chegar aos 30 anos Lançar-me ao mar violento Extravasando toda impulsividade que reservei [por 30 anos Para ser resgatada e precisar fingir Que não queria morrer na praia
Não quero viver de frames da vida alheia Nem ser enfadonha ao ponto de Falar que não é tão importante assim a vida [dos outros Que se atirem de pontes e me comovam para Que eu possa sentir algo profundo
Não quero imitar Fernando Pessoa Nem Goethe, Nietzsche ou Sylvia Plath Mas meu Desassossego é tão evidente (Que para não imitar alguém) Chamarei esta minha Redoma de Vidro de Inquietude
492
Pensamento circular
De tempos em tempos eu volto aqui E que gostoso voltar Às vezes eu acho que minha vida É andar em voltas É de tempos em tempos voltar E voltar a gostar de alguma coisa Que eu já não gostava E voltar a não gostar de mim Apesar de eu já ter aprendido a gostar
A minha vida é dar voltas Os seios de uma mulher São duas grandes voltas Os olhos de um homem velho São duas grandes voltas O miado de um gato É uma grande volta Assim como é também O teu desprezo pelo meu amor Esse sim, uma grandessíssima volta
De tempos em tempos eu volto a pensar E que estranho pensar Às vezes eu acho que minha vida É pensar mais um pouco É de tempos em tempos parir um pensamento E pensar de novo algo esquecido Que eu já não lembrava E pensar que talvez eu não seja tão boa assim Apesar de eu já ter provado ser
A minha vida é pensar O orgasmo É um pensamento que eu não tive O sofrimento É um pensamento que eu não consegui impedir A morte É um pensamento que eu ainda não conheço
E o meu problema É que de tempos em tempos Eu finjo que sei Mas ainda não descobri
463
Reflexões de uma jovem poetisa
O primeiro poema é Uma expressão ingênua De uma cabeça Que pensa E acha que Pensa alguma coisa importante Ao ponto de ser escrita
O segundo poema é Uma expressão fabricada De um coração Que tem medo De não sentir algo Tão genuíno assim
O segundo poema é Por regra geral Ou acaso Ou destino Um poema pudico Contido Comprimido pela noção De que o primeiro poema Talvez não seja Tão bom assim
E o primeiro poema Segue inabalável Sabendo que Pode ser bom Ou ruim Mas tranquilo porque Não existirá Outro como ele
481
Zumbido
Há dias que este zumbido Fala incessantemente Ao pé do meu ouvido
Me acompanha pelas esquinas e bares Em casa ou na rua A todo momento, em todos os lugares
Não é qualquer zumbido Porque zumbidos não têm voz E este meu camarada fala destemido Sem rédeas nem pudor, com um som atroz
Me fala palavras perturbadoras Acorda e grita durante a noite Já fez sua morada nas minhas têmporas Quando menos espero, me leva ao açoite
Temo que já não posso viver sem este inconveniente Mato-o para que eu possa viver em paz com minha mente Sujo, mal-amado, incansável zumbido Vive para me fazer morrer, íntimo inimigo
577
Beijo de chegada
Sonho com teu semblante sorridente Vivo esperando nosso encontro ardente Vem e me traz um beijo de chegada Faz desse desejo chama consumada
Traz de presente a melodia mais doce Quero descobrir que gosto tem esta paixão Chega de mansinho, na calada da noite Me convence, domina meu coração
Faz meu corpo vibrar nesta tua batida Toma-me num abraço apertado E quando estiver nua, vencida Me ama num amor desesperado
Dança comigo no escuro do quarto Percorre as esquinas do meu corpo E quando cansar, me diz, que eu parto Com o coração em lágrimas, te levo ao porto.
1 021
À espera do Carnaval
Derramo meu coração Em amores inventados À espera de beijos, carícias, abraços Que não têm data ou horário marcado
Derramo meu coração Sobre poças, piscinas cristalinas É dessa mistura molhada, líquida Que nasce minha paixão, tão de menina
Derramo meu coração Em mares agitados, tão imensos Em olhares azuis, tão intensos Que me percorrem o corpo e a alma, sedentos
Derramo meu coração Sobre a mesa posta na sala de jantar É nessa tragédia anunciada, refeição bagunçada Que encontro a poesia do sentir, razão de ser amada
Derramo meu coração Em teus contornos, desenhos, curvas Em tuas íris, reservas tão profundas Que guardam as minhas próprias, de águas turvas
Derramo meu coração Sobre teu corpo, meu querer inteiro Porque ele não cabe mais em si, tamanho desejo Que sonha em se fazer real, num eterno Fevereiro.
Bianca Lopes
1 072
Confissão
Quero me jogar nos teus braços Fazer nó contigo Viver uma vida nesse quarto Entre amassos Escondidos
Quero respirar ofegante teu perfume Experimentar meu gosto na tua boca Te beber inteiro Gota a gota
Quero a mais pura poesia O amor dos bares A boemia
Quero a saudade que não cabe no peito Um crime confesso Dois suspeitos