Bianca Lopes

Bianca Lopes

n. 2002 BR BR

Menina em rascunho. Um dia publico minha edição definitiva.

n. 2002-07-11, Rio de Janeiro

Perfil
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A voz

A voz que hoje se apresenta
Através desses versos sem métrica
É voz já um tanto cansada
Mas atenta

A voz que agora se mostra
Traz consigo alguma coisa de lágrima
Deixa tocar alguma nota de dor
É voz calejada, já sem pudor

Esta voz, que não decide
Entre ser altiva ou ser silenciosa
Transparece anseios de menina, que agride
Que traga a vida, segura e solta

Esta voz, que a duras penas sobrevive
Entre o calento e o abandono
Procura desejos de mulher, que não atingem limite
Que abrem portas e pernas, sem convite

Uso esta voz porque é a única que tenho
Não tem enfeites nem disfarces
Busca tão somente o deleite da coragem
Vive só pela esperança de não ter mais medo.
Ler poema completo

Poemas

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Linhas de um diário qualquer

Hoje eu recebi uma mensagem tua. Toda vez que seu nome aparece como remetente, meu coração oscila. Toda vez que te quero como destinatário, minha mente hesita. Não vou mentir para as linhas do meu diário, penso sempre em ser alvo da tua atenção. Penso sobre o timbre da tua voz e nos teus maneirismos. Acho engraçado o seu linguajar cheio de vícios. Repito todos sem perceber e acho graça de mim mesma quando impeço-me de corrigi-los. Não há um só cenário em que uma conversa nossa não me cause arritmia. Por isso, preciso dizer-te que meu coração já é meio calejado. Meu cardiologista não é seu maior fã. Explicou-me que tomar desse meio-amor inventado é altamente desaconselhável. Minha cabeça já convive com um punhado de fracassos. Minha terapeuta observa com cuidado. Sei que, no geral, sou muito chata e não faço questão de esconder. Mas sem frase pronta, lugar comum ou clichê: quando estou perto de você, esforço-me para não ser desagradável. Fato é que eu te tolero mais do que qualquer um. Mais do que a mim mesma. Talvez chegue o dia em que vou transformar tudo isso em poema. Até lá, finjo que te quero tanto como quero qualquer um, sem declaração ou dilema.
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Anonimato

No mundo, há milhares de poetas mudos
Escrevem versos em cadernos sujos
Que morrem com os autores, ruídos surdos
Sem conhecer os prazeres e as dores
De revelar seus absurdos

Esses feiticeiros do cotidiano
Que seguem na vida pública, silenciosos 
Às vezes esbarram-se pelos bares, ociosos
E terminam em quartos revelando, escondidos
A verdade entre gemidos

Mas quando chega a segunda-feira
O despertador toca da mesma maneira
E são obrigados a levantar para o trabalho
São comerciantes, cozinheiros e advogados
Que fingem se preocupar com a inflação e com o mercado

No mundo, há milhares de poetas mudos
Ler o que têm a dizer, é minha maior vontade
Tirar seus poemas da gaveta, descobrir sua identidade
Assim o faria se não fosse eu mesma um ruído surdo
Sem rosto nem poder
Ainda esperando meu vir-a-ser
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O amor é um bicho de muitas pernas

amoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramor.
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Inquietude

Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem ser pretensiosa ao ponto de
Acreditar que posso escrever como Fernando Pessoa
Ou como qualquer outro poeta
Que se preze

Não quero passar a minha vida
Escrevendo neste caderno empoeirado
Ou em tantos outros cardernos empoeirados
Que moram nas minhas estantes 
Espalhadas pela casa

Não quero chegar aos 30 anos 
Lançar-me ao mar violento
Extravasando toda impulsividade que reservei
                                                       [por 30 anos
Para ser resgatada e precisar fingir
Que não queria morrer na praia

Não quero viver de frames da vida alheia
Nem ser enfadonha ao ponto de
Falar que não é tão importante assim a vida
                                                     [dos outros
Que se atirem de pontes e me comovam para
Que eu possa sentir algo profundo

Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem Goethe, Nietzsche ou Sylvia Plath
Mas meu Desassossego é tão evidente
(Que para não imitar alguém)
Chamarei esta minha Redoma de Vidro de
Inquietude
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Pensamento circular

De tempos em tempos eu volto aqui
E que gostoso voltar
Às vezes eu acho que minha vida
É andar em voltas
É de tempos em tempos voltar
E voltar a gostar de alguma coisa
Que eu já não gostava
E voltar a não gostar de mim
Apesar de eu já ter aprendido a gostar

A minha vida é dar voltas
Os seios de uma mulher
São duas grandes voltas
Os olhos de um homem velho
São duas grandes voltas
O miado de um gato
É uma grande volta
Assim como é também 
O teu desprezo pelo meu amor
Esse sim, uma grandessíssima volta

De tempos em tempos eu volto a pensar
E que estranho pensar
Às vezes eu acho que minha vida
É pensar mais um pouco 
É de tempos em tempos parir um pensamento
E pensar de novo algo esquecido
Que eu já não lembrava
E pensar que talvez eu não seja tão boa assim
Apesar de eu já ter provado ser

A minha vida é pensar
O orgasmo
É um pensamento que eu não tive
O sofrimento
É um pensamento que eu não consegui impedir
A morte
É um pensamento que eu ainda não conheço

E o meu problema
É que de tempos em tempos
Eu finjo que sei
Mas ainda não descobri
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Reflexões de uma jovem poetisa

O primeiro poema é
Uma expressão ingênua
De uma cabeça
Que pensa
E acha que
Pensa alguma coisa importante
Ao ponto de ser escrita

O segundo poema é
Uma expressão fabricada
De um coração
Que tem medo
De não sentir algo
Tão genuíno assim

O segundo poema é 
Por regra geral
Ou acaso
Ou destino
Um poema pudico
Contido
Comprimido pela noção
De que o primeiro poema
Talvez não seja
Tão bom assim

E o primeiro poema
Segue inabalável
Sabendo que
Pode ser bom
Ou ruim
Mas tranquilo porque
Não existirá 
Outro como ele
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Zumbido

Há dias que este zumbido
Fala incessantemente
Ao pé do meu ouvido

Me acompanha pelas esquinas e bares
Em casa ou na rua
A todo momento, em todos os lugares

Não é qualquer zumbido
Porque zumbidos não têm voz
E este meu camarada fala destemido
Sem rédeas nem pudor, com um som atroz

Me fala palavras perturbadoras
Acorda e grita durante a noite
Já fez sua morada nas minhas têmporas
Quando menos espero, me leva ao açoite

Temo que já não posso viver sem este inconveniente
Mato-o para que eu possa viver em paz com minha mente
Sujo, mal-amado, incansável zumbido
Vive para me fazer morrer, íntimo inimigo
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Beijo de chegada

Sonho com teu semblante sorridente
Vivo esperando nosso encontro ardente
Vem e me traz um beijo de chegada
Faz desse desejo chama consumada

Traz de presente a melodia mais doce
Quero descobrir que gosto tem esta paixão
Chega de mansinho, na calada da noite
Me convence, domina meu coração

Faz meu corpo vibrar nesta tua batida
Toma-me num abraço apertado
E quando estiver nua, vencida
Me ama num amor desesperado

Dança comigo no escuro do quarto
Percorre as esquinas do meu corpo
E quando cansar, me diz, que eu parto
Com o coração em lágrimas, te levo ao porto.
1 021

À espera do Carnaval

Derramo meu coração
Em amores inventados
À espera de beijos, carícias, abraços
Que não têm data ou horário marcado

Derramo meu coração
Sobre poças, piscinas cristalinas
É dessa mistura molhada, líquida
Que nasce minha paixão, tão de menina

Derramo meu coração
Em mares agitados, tão imensos
Em olhares azuis, tão intensos
Que me percorrem o corpo e a alma, sedentos

Derramo meu coração 
Sobre a mesa posta na sala de jantar
É nessa tragédia anunciada, refeição bagunçada
Que encontro a poesia do sentir, razão de ser amada

Derramo meu coração 
Em teus contornos, desenhos, curvas
Em tuas íris, reservas tão profundas
Que guardam as minhas próprias, de águas turvas

Derramo meu coração
Sobre teu corpo, meu querer inteiro
Porque ele não cabe mais em si, tamanho desejo
Que sonha em se fazer real, num eterno Fevereiro.

                            Bianca Lopes
1 072

Confissão

Quero me jogar nos teus braços
Fazer nó contigo
Viver uma vida nesse quarto
Entre amassos
Escondidos

Quero respirar ofegante teu perfume
Experimentar meu gosto na tua boca
Te beber inteiro
Gota a gota

Quero a mais pura poesia
O amor dos bares
A boemia

Quero a saudade que não cabe no peito
Um crime confesso
Dois suspeitos
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Comentários (2)

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Flaquiote
Flaquiote

Que bom, gostei galera

Bianca Lopes

Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!