Lista de Poemas

Anseio

Quero me afogar num corpo de mulher
Beber suas curvas
Aspirar suas linhas
Perder meu fôlego nas suas esquinas

Quero me fundir a um corpo de mulher
Ler sua pele em braille 
Desvendar os mistérios da sua respiração 
Tentar me apossar de seus cabelos, em vão

Quero me enganar num corpo de mulher
Morrer de amor por uma noite
Ajoelhar-me no chão e pedir misericórdia
Forjar em seus olhos discórdia

Quero me encontrar num corpo de mulher
Entender por que me valho de meios amores
Desvendar a razão das minhas dores
Só para então morrer novamente
E me perder mais ainda em outra mulher
Num beijo ardente
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Anonimato

No mundo, há milhares de poetas mudos
Escrevem versos em cadernos sujos
Que morrem com os autores, ruídos surdos
Sem conhecer os prazeres e as dores
De revelar seus absurdos

Esses feiticeiros do cotidiano
Que seguem na vida pública, silenciosos 
Às vezes esbarram-se pelos bares, ociosos
E terminam em quartos revelando, escondidos
A verdade entre gemidos

Mas quando chega a segunda-feira
O despertador toca da mesma maneira
E são obrigados a levantar para o trabalho
São comerciantes, cozinheiros e advogados
Que fingem se preocupar com a inflação e com o mercado

No mundo, há milhares de poetas mudos
Ler o que têm a dizer, é minha maior vontade
Tirar seus poemas da gaveta, descobrir sua identidade
Assim o faria se não fosse eu mesma um ruído surdo
Sem rosto nem poder
Ainda esperando meu vir-a-ser
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Tempestade n0 2

A chuva que cai lá fora
É exatamente igual à do dia anterior
Quando eu era criança e brincava na escola
A chuva que caía causava temor

A chuva é semelhante a que caiu um mês atrás
Suponho que parecida com a que cairá amanhã
Um dia fui criança e me escondi, sem pensar jamais
Que eram inocentes os raios de Tupã

A chuva sempre caiu molhada
A chuva sempre escorreu pela janela
A chuva sempre escorregou como navalha
Na carne dos poetas de alma amarela

A chuva nunca foi minha amiga
A chuva nunca me fez esquecer a saudade
A chuva nunca tornou colorida
A lembrança desta velha cidade
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Pensamento circular

De tempos em tempos eu volto aqui
E que gostoso voltar
Às vezes eu acho que minha vida
É andar em voltas
É de tempos em tempos voltar
E voltar a gostar de alguma coisa
Que eu já não gostava
E voltar a não gostar de mim
Apesar de eu já ter aprendido a gostar

A minha vida é dar voltas
Os seios de uma mulher
São duas grandes voltas
Os olhos de um homem velho
São duas grandes voltas
O miado de um gato
É uma grande volta
Assim como é também 
O teu desprezo pelo meu amor
Esse sim, uma grandessíssima volta

De tempos em tempos eu volto a pensar
E que estranho pensar
Às vezes eu acho que minha vida
É pensar mais um pouco 
É de tempos em tempos parir um pensamento
E pensar de novo algo esquecido
Que eu já não lembrava
E pensar que talvez eu não seja tão boa assim
Apesar de eu já ter provado ser

A minha vida é pensar
O orgasmo
É um pensamento que eu não tive
O sofrimento
É um pensamento que eu não consegui impedir
A morte
É um pensamento que eu ainda não conheço

E o meu problema
É que de tempos em tempos
Eu finjo que sei
Mas ainda não descobri
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Reflexões de uma jovem poetisa

O primeiro poema é
Uma expressão ingênua
De uma cabeça
Que pensa
E acha que
Pensa alguma coisa importante
Ao ponto de ser escrita

O segundo poema é
Uma expressão fabricada
De um coração
Que tem medo
De não sentir algo
Tão genuíno assim

O segundo poema é 
Por regra geral
Ou acaso
Ou destino
Um poema pudico
Contido
Comprimido pela noção
De que o primeiro poema
Talvez não seja
Tão bom assim

E o primeiro poema
Segue inabalável
Sabendo que
Pode ser bom
Ou ruim
Mas tranquilo porque
Não existirá 
Outro como ele
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Inquietude

Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem ser pretensiosa ao ponto de
Acreditar que posso escrever como Fernando Pessoa
Ou como qualquer outro poeta
Que se preze

Não quero passar a minha vida
Escrevendo neste caderno empoeirado
Ou em tantos outros cardernos empoeirados
Que moram nas minhas estantes 
Espalhadas pela casa

Não quero chegar aos 30 anos 
Lançar-me ao mar violento
Extravasando toda impulsividade que reservei
                                                       [por 30 anos
Para ser resgatada e precisar fingir
Que não queria morrer na praia

Não quero viver de frames da vida alheia
Nem ser enfadonha ao ponto de
Falar que não é tão importante assim a vida
                                                     [dos outros
Que se atirem de pontes e me comovam para
Que eu possa sentir algo profundo

Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem Goethe, Nietzsche ou Sylvia Plath
Mas meu Desassossego é tão evidente
(Que para não imitar alguém)
Chamarei esta minha Redoma de Vidro de
Inquietude
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Zumbido

Há dias que este zumbido
Fala incessantemente
Ao pé do meu ouvido

Me acompanha pelas esquinas e bares
Em casa ou na rua
A todo momento, em todos os lugares

Não é qualquer zumbido
Porque zumbidos não têm voz
E este meu camarada fala destemido
Sem rédeas nem pudor, com um som atroz

Me fala palavras perturbadoras
Acorda e grita durante a noite
Já fez sua morada nas minhas têmporas
Quando menos espero, me leva ao açoite

Temo que já não posso viver sem este inconveniente
Mato-o para que eu possa viver em paz com minha mente
Sujo, mal-amado, incansável zumbido
Vive para me fazer morrer, íntimo inimigo
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Beijo de chegada

Sonho com teu semblante sorridente
Vivo esperando nosso encontro ardente
Vem e me traz um beijo de chegada
Faz desse desejo chama consumada

Traz de presente a melodia mais doce
Quero descobrir que gosto tem esta paixão
Chega de mansinho, na calada da noite
Me convence, domina meu coração

Faz meu corpo vibrar nesta tua batida
Toma-me num abraço apertado
E quando estiver nua, vencida
Me ama num amor desesperado

Dança comigo no escuro do quarto
Percorre as esquinas do meu corpo
E quando cansar, me diz, que eu parto
Com o coração em lágrimas, te levo ao porto.
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À espera do Carnaval

Derramo meu coração
Em amores inventados
À espera de beijos, carícias, abraços
Que não têm data ou horário marcado

Derramo meu coração
Sobre poças, piscinas cristalinas
É dessa mistura molhada, líquida
Que nasce minha paixão, tão de menina

Derramo meu coração
Em mares agitados, tão imensos
Em olhares azuis, tão intensos
Que me percorrem o corpo e a alma, sedentos

Derramo meu coração 
Sobre a mesa posta na sala de jantar
É nessa tragédia anunciada, refeição bagunçada
Que encontro a poesia do sentir, razão de ser amada

Derramo meu coração 
Em teus contornos, desenhos, curvas
Em tuas íris, reservas tão profundas
Que guardam as minhas próprias, de águas turvas

Derramo meu coração
Sobre teu corpo, meu querer inteiro
Porque ele não cabe mais em si, tamanho desejo
Que sonha em se fazer real, num eterno Fevereiro.

                            Bianca Lopes
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Confissão

Quero me jogar nos teus braços
Fazer nó contigo
Viver uma vida nesse quarto
Entre amassos
Escondidos

Quero respirar ofegante teu perfume
Experimentar meu gosto na tua boca
Te beber inteiro
Gota a gota

Quero a mais pura poesia
O amor dos bares
A boemia

Quero a saudade que não cabe no peito
Um crime confesso
Dois suspeitos
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Comentários (2)

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Flaquiote
Flaquiote

Que bom, gostei galera

bianopes

Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!