Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
67 977 Visualizações

UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
Ler poema completo
Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber

Poemas

283

O PIANO

Todos os dias Eugênia se sentava ao piano e ficava horas tocando, até sentir-se pronta para enfrentar o dia que viria pela frente.
          Era uma moça muito bonita e atraente, sonhadora e, às vezes, desligada. Amava conhecer e estudar sobre o movimento Romântico do século XIX. Essa época a fascinava.
          Morava, como quase todos os estudantes, com uma amiga, com quem dividia despesas. Estava no segundo ano de música e se preparava para a difícil vida de artista.
          
          Romeu era um ladrão profissional. Sua cabeça era um emaranhado de planos e movimentos, tal qual um jogo de xadrez. 
          Tinha uma rotina de aventuras e era despreendido de qualquer sentimento romântico. Romantismo era coisa de tolo! - dizia.

           Aquela tarde, os planos de Romeu diziam respeito ao pretenso ataque ao condomínio de classe média em que as meninas moravam. Ele entrou pelos portões e, já preparado para confiscar as jóias que, diziam, Eugênia guardava, foi surpreendido por uma linda melodia de Mendelssohn.
            Sentiu-se tocado, imaculado, apaixonado com toda a alma por aquela canção. Escondido, subiu as escadas e, no andar de cima, sentada ao piano, estava uma jovem de pele morena, cabelos longos e um sorriso ingênuo e encantador. Era, sem dúvida, a visão mais doce que ele já teve. Em silêncio, ficou observando e apreciando a deliciosa melodia dos deuses.
          Por mais de uma hora Eugênia tocou e, por mais de uma hora Romeu esperou. Não pretendia furtar nada, nem fazer planos sagazes sobre fortunas fáceis. Ele só queria ficar ali, se entregando aos sonhos mais secretos que ela lhe despertara.
          Então, por fim, deu conta do tempo passado e se retirou, mergulhando numa profunda solidão do anoitecer da cidade grande.
          Os dias foram passando e Romeu vegetava: não comia, não dormia, não roubava. Ficava entregue aos seus devaneios, imaginando beijos, amores, cores em seus sonhos.
          Todo final de tarde e início da noite, ele ia para perto da janela ouvir Eugênia tocar. Tudo nela o seduzia. Observava de longe suas dores, suas alegrias, suas dúvidas, seus temores. A conhecia tão bem que sabia exatamente como se sentia só pela forma como dedilhava as teclas.
          Certa noite, ao chegar, encontrou Eugênia rindo e conversando com outro rapaz. O ciúme corroeu sua alma, e com olhos cheios de lágrimas, Romeu saiu pela lateral. Entretanto, ao olhar uma última vez pela janela, ele presenciou um ataque em que o estranho investia contra a moça.
          Sem pensar, ele foi até a porta principal e a derrubou. Subiu as escadas com euforia e, instintivamente, agrediu o rapaz. A luta durou alguns minutos. Eugênia se enconlheu em um canto e, enquanto o rival fugia, Romeu a acolheu e a confortou.
          Ela agradeceu. Ele confessou amor. Ela sorriu e pediu para que ele fosse embora. Desapontado, ele agarrou uma rosa vermelha em cima do piano e saiu para encontrar a sua dor.

          -Eugênia, você soube o que acabou de acontecer? - perguntou a amiga que acabava de chegar em casa.
          -O que houve?
          -Um moço acabou de morrer atropelado na esquina de casa. A rua está um alvoroço. 
          -Não gosto de falar sobre morte. Por que você me diz isso?
          -Porque ele morreu chamando seu nome.
           Então, o desespero a invadiu. Desceu a rua correndo e, ao chegar no local, Romeu estava deitado, segurando fortemente, nas duas mãos, a rosa vermelha que ele lhe roubou.


ANO: 1993
426

SONHOS ERÓTICOS DE PENYSZILDA

Penyszilda, a linda,
era uma menina
tão sexy, divina
Ainda criança,
são tristes as lembranças,
era contestada
constantemente
Não tinha batom,
vestido ou sapato,
futebol era imposto
princesa para sapo

Penyszilda, a linda
não entendia
porque a amiga
peitinhos já tinha
Queria sangrar
o sangue fértil de mulher
"não chore, querida, um dia qualquer"

Penyszilda, a linda
não podia namorar
era vista para orgias
era fácil de enganar
nenhum príncipe queria
levá-la a um altar

Penyszilda, não chore
o mundo não vai acabar
somos todos humanos,
vá para outro lugar!
E assim ela fez
Milão, Madrid, Barcelona
ela era a nova na passarela
fazia poses e fama
nos momentos mais quentes
de alguém na sua cama
Por dinheiro, a dor
e ela queria, seu segredo,
amor

Mas um dia, porém, 
Penyszilda em  saltos de cristal
saiu sozinha para a vida
e acabou no hospital
foi espancada,
humilhada,
enganada,
paralisada,
torta, 
morta,
enterrada em sua dor
e tudo o que ela queria
era apenas uma flor...


ANO: 2020
371

A ESFERA E A ESFINGE

A esfera e a esfinge,
numa guerra nuclear,
foram vistas na imensa
poeira de sujeira solar
o amanhã, talvez,
não exista
para quem não estiver
aqui
esse mundo é confuso
todos temos que partir
Por que?

A esfera e a esfinge
num universo paralelo
brincam de serem deusas
desse nosso grande império
O que é vida?
Enigma?
Me sinta 
parida,
na ida,
menina,
divina,
contida

A esfera e a esfinge
só fingem
que são
mas não estão
aqui e agora,
portanto,
por ora,
desculpe a demora
mas você vai sorrir
insanamente
no momento de ir
embora?


ANO: 2020
511

INTER+ROGA=(A)ÇÃO

o alto estava rosa
e as cores eram doces
o céu estava longo 
e a vida tão confusa
quando os olhos da imensidão
tocou na possível forma do ser
então deram-se as mãos
e o mundo foi todo entendido
como nunca ousou entender
Foi, então, que toda a multidão
compreendeu que nascia
mais um novo sonho
e saíram só os dois
a cantar e festejar
pois se encontraram
e viveram
felizes
dia sim, dia não
como todos os mortais...
10

EGRESSO

Roupas, livros,
som, perfumes,
Tv, micro,
cremes, maquiagem
e a dor da falta da sua imagem
Fotos velhas e CDs
tem tudo em meu quarto
menos você
Desistiu da minha cama?
Faz tempo que não me chama,
não me procura, nem telefona,
nem um email, nem um olá
Somente as lembranças
espalhadas pelo chão...
Foi-se embora por essa porta
e me deixou a solidão

Ao Egresso:
eu lhe peço,
atenda ao meu apelo,
desespero
de te ver
e fazer
o homem que tanto fiz
nas noites ardentes
e insones
nas aventuras pagãs
temporãs,
na imprevisibilidade
previsível,
indivisível
de nossos gênios
nossos gêmios nascituros
desses sonhos imaturos

Ao Egresso,
eu lhe peço:
minha dor
ou seu amor,
mas volte ao começo,
ao centro do berço
imensurável prazer,
me procure nesta cama,
porque aqui estou,
sozinha,
ardendo em chamas
e é só você
pra me satisfazer

Ao Egresso,
eu lhe peço:
seu regresso...


ANO: 2003
366

UM PINGO DE LUZ NA ESCURIDÃO (descobri onde te esqueci)

Realmente foi lá, 
na mesa do bar.
A cerveja rodava,
a gente festejava
não lembro o que,
só sei que você,
sua traidora,
me abandonou
após a terceira garrafa
e a música tocava,
os rostos sorriam
e as paredes dançavam
ao som do violão,
da música, da canção
não sei o que era,
nem sei se já era,
só lembro de ti,
peste espectral,
foi ontem no bar
que te esqueci

Quem encontrar uma imaginação safada, volúvel e desajeitada,
também atende por criatividade, uma divindade,
favor entrar em contato de terceiro ou quarto grau,
não importa,
Marte é logo ali
ou será por aqui?


ANO: 2003
359

INTER-ROGA-(A)ÇÃO

O alto estava rosa
e as cores eram doces
o céu estava longo 
e a vida tão confusa
quando os olhos da imensidão
tocou na possível forma do ser
então deram-se as mãos
e o mundo foi todo entendido
como nunca ousou entender
Foi, então, que toda a multidão
compreendeu que nascia
mais um novo sonho
e saíram só os dois
a cantar e festejar
pois se encontraram
e viveram
felizes
dia sim, dia não
como todos os mortais...


ANO: 2000
266

Olha nos meus olhos
e diz mais uma vez:
onde foram parar nossas tardes
que você fazia vez?

Sente a saudade
que se espalha pelo dia?
Sente a alegria
que tão logo se distancia?
Sente o ciúme
que embreaga de perfume?
Nossas existências
mergulhadas em aparências
de coisas passadas e vulgares?
Foram tantas exigências,
foram muitas as carências
mas se fico aqui sozinha
sei que estou mentindo
como quem carece
de verdade que já foi
A mentira de um amor
tão passado, tão distante,
tão largado no caminho
Vou assim, devagarinho
acabando bem sozinho
e um cálice de vinho
traz a lágrima de espinho
Nesse quarto
fecho a porta
e choro
estou só
sem teus murmúrios


ANO: 2006
308

ENIGMA

Ego,
velho cego
já não nego
o que sou
só não fui o que nao tive
pois nem sei se aqui estou

Ego,
velho cego
da criança espectral
um suspiro e um silêncio
uma dor angelical

uma vida
embriagada
num eterno nada

Quem eu sou
além de dor,
dos espinhos,
das paisagens,
bagagens,
desses vales que andei?

Zeus, meu Deus,
peço à Eros seu ardor
e a Apolo proteção
pra viver tão longos dias
numa cela de ilusão

Como Pã e a jovem Eco
me corrompo a cada gesto
e me entrego
(num abismo de Hades)

A Eurídice de Orfeu,
a perdida e tão mennina
santa e meretriz
jovem e eterna atriz

Meu Morfeu,
em teus brandos, belos braços
que do mundo disse adeus
...A Morte foi um Forte,
um equilíbrio de emoções,
um paraíso obscuro,
um amante na Solidão
tão ambígua e dolorida,
mas companheira dessa vida
nas horas de podridão


ANO: 2003
276

INTER+ROGA=(A)ÇÃO

o alto estava rosa
e as cores eram doces
o céu estava longo 
e a vida tão confusa
quando os olhos da imensidão
tocou na possível forma do ser
então deram-se as mãos
e o mundo foi todo entendido
como nunca ousou entender
Foi, então, que toda a multidão
compreendeu que nascia
mais um novo sonho
e saíram só os dois
a cantar e festejar
pois se encontraram
e viveram
felizes
dia sim, dia não
como todos os mortais...
9

Comentários (6)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.