Lista de Poemas

CAIXA DE PANDORA

Dentro desse vale
tem um álibi do sol
que escorre pelos dedos
calejados de amar
Tantas coisas já vividas
e histórias envolvidas
numa colcha de Arácne
e um novo contra-ataque
baseado numa erva
que te leva pelo céu
de ondas e "ondes"
reis, príncipes e condes
magos que escondem
o futuro.
No ollho de um verme
que um dia foi um homem
Na mente de Shakespeare
Camus, Bacon, Berkeley
De encontros e distâncias
homens, deuses e crianças
um presente p´ra você:
Uma caixa geometricamente encaixada
num espaço diagonal
de uma eclipse poética,
uma flor especial


ANO: 2003
717

PERDIDA, ADORMECIDA: A CIDA -TODAS TECIDAS NO ENORME TEAR DAS MOIRAS, OU SERÁ O MANTO DE PENÉLOPE?

Pobre Cida
adormecida!
Matou seu sangue,
enfurecida,
naquela noite
escurecida
pelo perfume,
uma perdida
no véu bordado
com brilhantina
Nossa Senhora Aparecida

Pobre Cida,
Aparecida!
Foi ao inferno,
a cafetina
e retornou
enrubescida
pelas pegadas,
teia tecida
dessa migalha
chamada vida

Ah, Cida,
entristecida!
Até quando
vive esquecida
nesse inferno
zodiacal?

Cida, Cida,
enlouquecida,
o seu batom
que me fascina
nesse hospício
bilateral

Que Bela Cida,
Adormecida,
uma mulher,
uma menina,
sem sapatinho
de cristal


ANO: 2003
305

MÁ DONA (QUANDO UMA ROSA DEVORA UMA FLOR, COM ARDOR)

Já beijei essa mulher,
e quem nunca a beijou?
Peitos duros e empinados,
bicos rijos e eriçados
uma dama, um estupor
apetitosa
e fogosa
quero tê-la
com cuidado
tantos beijos e tesão
sua vagina
imagina!
uma flor açucarada
úmida e delicada
enlouquece mil mortais
mas...
sou mulher
sou a rosa que come flor,
amiga do beija-flor,
sou a outra flor
e já fui e serei "flor"...
nada importa,
quero sexo,
quero amor


ANO: 2003
516

ANJO SUICIDA

Pedaços caem do céu
despencam a beleza
que a distância dos olhos revelam
Uma gota doce
do pecado concretizado,
uma lágrima amarga
demonstra a dor,
ou cortes profundos
jorrando a vida
mostrando a carcaça da fúria,
um uivo rasga o silêncio
que se evapora com o eco
distante do paraíso,
longe do inferno,
vagando na angústia,
no desespero de entender
que nada é além de nada 
e as figuras se misturam
transformando-se em monstros
que o irão assombrar
pela eternidade
A náusea sufocante
é engolida no desespero
da dúvida que o cerca,
a cicatriz eterna 
que o acompanhará
por todo o sempre
será angustiante,
aterrorizante,
e as últimas gotas
desse sonho vermelho
estão se esgotando
o ar, já rarefeito,
termina,
insuficiente
para sustentar suas alucinações
nada é como já foi
Um anjo caiu 
no vácuo da dor
de entender o mundo
esquecido
naquele banheiro
ensanguentado e apodrecido


ANO: 1999
625

DEVOLUÇÃO

     Bateram à porta de madrugada. Quem seria? E a chuva que não parava!
     Eram quase duas horas da manhã. Descabelada e com cara de sono, foi atender à campanhia. Com medo, olhou pelo olho de vidro . A figura que viu era bem conhecida. Então, abriu a passagem para a pessoa entrar.
     Roberto, seu ex-marido, estava angustido. Chorava como criança.
     Como os homens são volúveis! Alice já tinha amado esse indivíduo. Moraram juntos vários anos e um dia, sem explicação, ele fez as malas e se mudou para o apartamento da Claudinha. Quanta mágoa e tristeza deixou em sua casa! Quantas horas em terapia ela gastou!
     Mas, o destino é irônico. Quase dois anos após, ele bateu à sua porta para chorar porque a namorada o abandonou.
     Roberto abraçou Alice. Alice o acolheu. A chuva aumentava e na rua a temperatura caÍa. Dentro da casa o calor era enorme. Os dois se beijaram. Rooupas voaram pela janela. A cama se agitou e o quarto flutuou a noite toda.
     De manhã, ela olhou para ele e perguntou se já estava melhor. Ele assentiu. Um carinho enorme por ela brotou em seu peito. Confessou, entre tímidas e curtas frases, que sempre amou Alice.
     Ela sorriu e, faminta, foi tomar café.
     Durante um mês inteiro namoraram. Alugaram uma casa e voltaram a morar juntos. Estavam, aparentemente, com pressa em ser feliz.
     Ela se mostrava apaixonada e ele, confuso, estava amando.
     Os dias passavam e o romance dominava o momento.
     Certa manhã, sozinha em casa, Alice fez as malas e foi embora, deixando um bilhete em cima da mesa.
     Roberto encontrou o recado, sentiu uma pontada no peito, sentou no chão e, desconsolado, chorou. Chorou o choro mais amargo e dolorido já sentido. O mundo ruiu a seus pés. Sentiu, finalmente, que ela lhe devolvia toda a mágoa e a tristeza que um dia ele lhe dera.
     Em um balcão de um bar do outro lado da cidade, Alice acendia um cigarro e comemorava. Tinha curado seu orgulho ferido anos atrás. Como era doce o sabor da vingança!


ANO: 1999
581

BUSCA

Quem sou eu
além de ninguém
sozinha na vida
esperando o trem
sem vintém?
Vinte horas ao dia
de incompreensão
na eterna existência
na dor e solidão
Quem sou eu
além de ninguém
a espera de alguém
que nunca mais vem?
Sei andar pelas ruas
de descaso
com ideias tão nuas
e com imenso acaso
Quem sou eu
além de mim mesma
na hipocrisia,
melodia,
de uma tristeza?
Sou um nada
camuflado
num tudo 
embriagado


ANO: 2003
702

PACIÊNCIA (ASSIM É O MUNDO)

Jogo paciência
na ciência
do destino
Fui forçada,
na manhã,
brincadeira de menino
Me sangrou até morrer
me comeu, me devorou,
fugi para onde pode-se viver
e nas lembranças me marcou
...morri no mesmo dia,
no mesmo olhar que acaricia
é meu segredo de escola, 
do nunca mais e do agora
Estou caíndo no mesmo abismo
das tuas mãos, adeus preciso
jogar paciência...


ANO: 2003
342

INTRANSIGÊNCIAS

Os sonhos ficam
a vida passa
e o sangue pulsa
As aves cantam
o mundo gira
e o sangue pulsa
A mentira vem
a verdade vai
e o sangue pulsa
Lembranças
Saudade, medos
e o sangue pulsa
Ideias mudadas
atitudes novas
e o sangue pulsa
Será?
Talvez?
Importância?
Não somos nada
e o sangue pulsa...


ANO: 1995
299

ESTRANHO

Estranho 
é saber
que tudo
na vida é
Estranho
é saber
que tudo
na vida é
Estranho
é saber
que tudo
na vida é
Estranho
é saber
que tudo
na vida é
Estranho
é saber


ANO: 2000
494

BULIMIA

Não é ironia
a vida de bulimia?
Desejamos harmonia
e só encontramos confusão
caos, dificuldade 
e antro de escuridão!

Não é ironia
a vida de bulimia?
Devoramos anseios
e devolvemos medos
de existir no vazio,
no ser sombrio,
humano e insano!

Escravas de compulsão
adoramos nossos excrementos
e partimos nessa viagem
na pastagem
de nossos sentimentos

Escravas da confusão
de conhecer seu próprio eu
o seu adeus à divisão
de desejo, de mulher
de prazer e de "me quer"
do suicídio tentado
e da angústia calada
na vaga insensatez 
no medo da ilusão

Não é ironia
a vida de bulimia?
Vive a vida tão vazia
de querer e temer
a desilusão
nessa fétida massa
de humanização!


ANO: 2003
799

Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber