Lista de Poemas

ONDE FICA?

Não é negócio
de puro ócio,
é mais profundo,
um "estar no mundo"
que aconteceu 
de ilusão,
insatisfação
e tensão
Como?

Ei, seu moço
me diga
onde fica
a minha querida
existência na vida?

Não sei se é lá,
aqui, acolá
só sei que preciso
dizer o que digo
pra quem quer ouvir
sentir meu cansaço,
meu medo, meu asco
mas não estar aí
portanto não sei
que porta irei
se vou escolher
falar, eu calei
todas as rimas

...palavras nos levam à ira
do nicho das vozes
que consomem o âmago
de um homem só...


ANO: 2020

317

DÉBORA

          -Débora, não mexa nisso!
          Débora se virou para a voz e, com seus passos curtos, continuou explorando o jardim.
          -Débora, tire isso da boca!
         Que nojo! Ela sentiu o goto ruim daquele pedaço de tijole e cuspiu a terra longe. Curiosa, continuou andando.
          -Débora, cuidado! Vai cair se continuar assim.
          E de fato levou um tombo. Não deveria ter corrido. Ainda bem, só esfolou o joelho.
          -Débora, pare de chorar! Não foi nada. Logo sara.
           Seu choro era inútil. Não era o suficiente para passar a dor. Parou de chorar.
           -Enxugue essas lágrimas. Que coisa feia!
           Ela se levantou. Estava com medo de parecer feia.
           -Débora, o que você está fazendo?
            Dessa vez estava quieta, brincando com uma formiga.
            -Tire o dedo daí! Tem bichinhos que podem te machucar.
            Com susto, parou de tentar colocar a mão no formigueiro.
             -Venha, Débora, vamos entrar para tomar banho. Hoje é seu aniversário.
         O que era aniversário mesmo? Já tinha ouvido essa palavra mas não conseguia lembrar exatamente.
             -Cuidado, não espirre muita água. Está molhando todo o banheiro.
             Como era gostoso brincar na hora do banho!
              -Tire o sabonete da boca, isso não é para comer.
               Argh, que horrível! Era amargo. Jogou de volta à água.
               -Agora vou lavar seu cabelo. Feche os olhinhos para não entrar sabão.
               Que choradeira! Seus olhos queimavam.
                -Pronto, já passou.
                Ela estava impecável. Cheirosa, com roupas novas e bem penteada. Alguém bateu à porta:
                -Rosa, pode trazer a Débora que já arrumamos a mesa, os balões e os convidados.
                Fecharam a porta e deixaram as duas sozinhas.
                -Vamos lá, meu amor. A tia Rossa vai te levar para cantar parabéns.
            Então, um nó na garganta a sufocou. Olhou em volta. Todas aquelas camas alinhadas, aqueles desenhos pendurados na parede lhe traziam lembranças de quando ali chegou. Antes, era apenas mais uma enfermeira, mas naquele lugar aprendeu a ser humana, a rir e chorar com cada uma daquelas pessoas especiais, que para muitos não passavam de deficientes mentais. Para Rosa, eles eram sua família! Enxugou as lágrimas e levou débora até a cozinha, onde todos os enfermeiros, médicos, internos e convidados a aguardavam.
                -Parabéns pra você...
                Débora pediu bolo e alguém se aproximou:
                -Rosa, quanto tempo Débora está aqui?
                -Desde que nasceu.
                -Dezesseis anos?! 
                -É, dezesseis anos... - e calou-se com um pedaço de doce.


ANO: 1999
310

JOGADOS DE LADO

Eram todos os sonhos
jogados de lado,
até que um dia
um jeito diferente
tornou-se padrão
e o que estava largado
fez-se normal
na mesma proporção
317

A CAMA

Foi ali que tudo se fez:
os maiores amores de uma vida,
escondidos sob lençóis
desgastados,
desbotados,
de anos de existência

Minha primeira dor,
meu grande amor,
tudo ali registrado,
com o tempo amarelado
e na sua estrutura
solidamente eternizado

Quando nasci,
fui naquela cama parido
Entre lágrimas, angústia e dores
o primeiro contato com o amor:
minha mãe me segurou,
apesar de tanta dor

Minha primeira grande febre
fiquei noites tossindo e acordado
mas estava feliz
tinha mamãe ao meu lado
A madrugada veio
e com ela o desespero:
no meio do sono profundo
molhei o lençol inteiro
Não acreditei que fiz xixi
justo na cama em que nasci!

Cinco anos se passaram
e para o interior mudei,
a cama foi conosco
e ali que me curei
Na tempestade tive medo,
trovões gritantes e pesadelo
A cidade apavorante
despertou meu desespero
Minha mãe me abraçou,
pediu calma e me confortou
Desde então nunca temi
as tempestades
pelas quais vivi

Já adolescente, a primeira namorada
que, digo verdade, até hoje,
por tanto tempo é por mim amada
Naquela tarde de verão,
minha mãe e meus irmãos
foram para cidade viajar
eu fiquei sozinho
para minha musa encontrar
Entre travesseiros e curiosidades
de dois adolescentes
de quase a mesma idade, 
tudo foi acontecendo,
e nosso amor crescendo
Testemunha foi a cama
daquela louca chama
Naquele inesquecível bê-a-bá
eu aprendi a amar

Entre dias e correrias,
de namorada passou a esposa
e já adulto e maduro,
naquela noite infeliz,
no meio do escuro
atendi ao telefone
A voz rouca me dizia
que àquela cama eu voltaria

Cheguei com esposa e filhos
embaixo do temporal
Aos prantos olhei no quarto,
pois não tinha hospital
Soluçando, segurei suas mãos,
com um aperto no coração,
trêmulas, diziam adeus
falei de amor e beijei os lábios seus
Naquela hora meu peito doeu,
mas tive que aceitar: minha mãe morreu

A partir daquele dia
toda a nossa grande família
como mágica se separou
mas eu fiquei com a cama
que sempre me acompanhou

Meus filhos dormiram lá
e minha esposa também
Hoje, porém, é um triste dia
que, apesar da alegria,
minha neta ali deitada
talvez nunca irá saber
que a cama tão antiga,
tão cansada e tão vivida
foi abrigo de minhas histórias,
meus amores e minhas glórias
Hoje a cama vai ser queimada
e na memória guardada
Sob seu lençol amarelo,
toda a história de um velho
Vou apagar o que ocorreu 
destruindo a cama
que, destino, o cupim comeu

O amor de uma vida toda
se perdendo entre cupins
Talvez seja uma tola história
mas é o conto que a vida quis


ANO: 2004
737

MENINO

Menino da flanela
A fome que se vela
Une todos à mesma panela
Um garoto magricela
Ouvindo Hino com voz rouca
Suas ilusões são poucas


ANO: 1993
303

ROSTOS APAGADOS

Roberto,
Fernando,
Edson, 
Eduardo,
são tantos nomes
que minha agenda
não guardou
Nessa imensidão
desse cômodo apertado
onde ecoa o vazio,
cheio de pessoas risonhas,
espero você, Giovane,
ou talvez seja Maurício
Então apague a luz
e venha me sentir, 
me tocar, me cheirar,
me beijar,
só não ligue, Daniel,
se eu, por algum motivo,
lhe chamar de Adriano,
é que são meros nomes
sem importância alguma
para mero desejo vulgar


ANO: 1998
276

PAUSA

Oi,
lembra de mim?
Espero que não,
porque vou te assombrar,
te sugar,
te chicotear,
te maltratar e
te fazer
PARAR

...

Entra e sai da minha mente
e confunde o que já é confuso
CHEGA!!!

                 ... (silêncio)...


...a-ma-nhã
    vou te
   tor-tu-rar...

                  PAUSA


ANO: 1999
334

SONHOS ERÓTICOS DE PENYSZILDA

Penyszilda, a linda,
era uma menina
tão sexy, divina
Ainda criança,
são tristes as lembranças,
era contestada
constantemente
Não tinha batom,
vestido ou sapato,
futebol era imposto
princesa para sapo

Penyszilda, a linda
não entendia
porque a amiga
peitinhos já tinha
Queria sangrar
o sangue fértil de mulher
"não chore, querida, um dia qualquer"

Penyszilda, a linda
não podia namorar
era vista para orgias
era fácil de enganar
nenhum príncipe queria
levá-la a um altar

Penyszilda, não chore
o mundo não vai acabar
somos todos humanos,
vá para outro lugar!
E assim ela fez
Milão, Madrid, Barcelona
ela era a nova na passarela
fazia poses e fama
nos momentos mais quentes
de alguém na sua cama
Por dinheiro, a dor
e ela queria, seu segredo,
amor

Mas um dia, porém, 
Penyszilda em  saltos de cristal
saiu sozinha para a vida
e acabou no hospital
foi espancada,
humilhada,
enganada,
paralisada,
torta, 
morta,
enterrada em sua dor
e tudo o que ela queria
era apenas uma flor...


ANO: 2020
365

COTIDIANO

Trancou os sonhos
fechou seu livro
estava livre
mas infeliz
Calou-se no soluço
olhou a vida
e nada fez
Esperou,
esperou,
esperou...
Passava horas,
às vezes dias,
na multidão
dormia pouco
comia resto
sentia o vazio
e a certeza 
que seu trabalho
era a salvação,
a união
de dois mundos:
humano, 
sombrio
Mas, tudo bem,
mesmo que fugisse,
mesmo que gritasse,
mesmo que se escondesse,
o monstro,
terror total,
o cotidiano,
talvez o maior medo
e mais mortal
iria te achar,
te devorar
e fazer dos seus dias,
por mais cheios de alegrias,
fossem todos iguais
Então fechou os olhos
e saltou para o vazio


ANO: 2000
322

SORRIA

Sorria,
você está sendo filmado
por algum olhar marcado
pelas ruas em que passa
Sorria,
você está sendo procurado
vivo, morto ou desmembrado
desse sonho amargurado
Sorria,
você está sendo gravado
no leito, cruxificado
na cena de enlatado
Não chore por estar vivo
porque tudo não conta nada
e o sorriso é uma farsa
da estupidez de ser um mero,
não quero, um zero
Se perca na lucidez
de algo que já foi 
no passado antigo
escondido
nas sombras da imensidão
do tempo
simples evento!


ANO: 2003
342

Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber