Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
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UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
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Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber

Poemas

283

POETA

Sou sonhadora, disso eu sei
não me interessa o passado
onde um dia eu pisei
ser totalmente hoje
com todos os minutos
o passado me levou
até lembranças de Netuno
estamos quase na lua
aproveite a energia pura
nos meus sentimentos estou nua
sou poeta...eu acho


ANO: 1994
334

IO

Ia, Io, sossegadamente
por entre árvores e pastos
quando Zeus a viu cantando
em doce voz a canção dos castos

Seus olhos, sua boca, seus cabelos
perfeição que a natureza fez ingenuamente
quando o deus, no mais alto dos cargos,
apaixonado, lhe quis ardentemente

Então o poderoso desceu à Terra
deixando sua mulher a desconfiar
que,por ser traída tantas vezes
lhe seguiu sem hesitar

Aproximou-se, Zeus, da linda moça
e sua esposa, atenta, viu a cena
sentiu-se humilhada e irada
e Zeus transformou Io em vaca

Foi quando o animal, após tantos pedidos
foi doado à deusa imortal
e a Agros foi dada a missão
de levá-la a pastar
vigiando, sem cessar

Após tanto sofrimento
Io voltou a ser mulher
e nas águas do rio Nilo
de Zeus pariu um filho

O povo da região a adoraram
e com seu filho Épafo
por muito tempo
naquele local governaram


ANO:1995
304

E A CRISE NO PAÍS DAS MARAVILHAS CONTINUA

E quem diria
que outra poesia
era a verdade que se mostrou,
se enganou...

...Chapeuzinho Vermelho, depois de assaltada
virou trombadinha, morando na calçada
e a polícia, não querendo saber
prendeu a Chapeuzinho pra dinheiro receber

E com essa onda de espiritismo
pra você ver
o caçador que havia morrido
apareceu na TV

A vovó que estava no asilo
teve que morar na rua
com essa falta de verbas
a entidade estava dura

E como a moda passa
o casaco de lobo, antes uma sensação,
acabou ficando velho
e virou pano de chão

Esse seria o triste fim 
se não fosse a eleição
um candidato melhor que outro
propôs uma condição:
"se eu for eleito,
o mundo será perfeito"

E, então, como eu dizia
esse candidato bom
empregou a Chapeuzinho
numa fábrica de bombom

Pro pessoal da TV
que estava assustado
mandou rezar missa
pro caçador seguir seu lado

Pra vovó que ficou na rua
foi feita uma proposta
"te dou uma dentadura
se eu ganhar essa aposta"

E o casaco-pano de chão
foi reciclado, que emoção!
e pra ganhar votos de um alpinista
mostrou-se ser ecologista

E pra você que está lendo
o melhor estou fazendo
te dou uma fazenda e uma moto
se me der um mísero voto


ANO: 1994
285

CRISE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Chapeuzinho Vermelho na floresta estava
e os doces na cesta à vovó entregava
e o lobo, guloso, os doces roubava
e o caçador esperto, com sua espingarva atirava

Ah, como a vida era feliz!
Enquanto a crise não abalava o país
até as historinhas econômicas ficaram
e a imaginação está custando caro

Chapeuzinho Vermelho n cidade andava
e a cesta da vovó vazia estava
e o lobo, coitado, no zoológico ficara
e o caçador, infeliz, vendera a espingarda

Ah, como pode?
Como isso aconteceu?
Chapeuzinho é infeliz
E o lobo enlouqueceu

Chapeuzinho, coitada, foi à Praça da Sé
Assaltaram a infeliz
Levaram seu chapéu
E deixaram a menina
Sozinha e a pé

E a vovó, que tristeza!
Sem a cesta ficou
Ignorada pela sua  idade
Num asilo se internou

O lobo que no zoológico
permanecera alguns meses
acabou virando pele
de casaco de burgueses

O caçador vendeu a arma
e precisou trabalhar
acabou se matando
pois tinha contas a pagar

Ah, como a vida muda!
No país das maravilhas
a realidade já é madura!


ANO: 1993
385

LÍRIOS NA PRIMAVERA - DE LÍRIOS

Começa o dia
Como há muito tempo havia
a magia da alegria
do dom de aprender a amar
Sentir na pele seu toque
seus beijos, seus sonhos, tão forte
tão cheios de sorte
e querer neles me enrolar
e vivenciar a cada amanhecer
sua voz ao meu lado, me esquecer
envolvendo até me enlouquecer
e te acariciar
tudo isso e mais
até mergulhar
no gosto saudável do prazer
e sentir sua respiração alterar
seus ais de loucura
que me procura
seu suor tão quente
tão fervente
tua cara depravada
tarada
seu jeito ofegante
tão marcante
e enfim o êxtase
o ápice da magia
todo aquele misto
de delícia e agonia
chegamos, finalmente, ao auge
e te vejo homem ao meu lado
tão feliz, realizado
e então me realizo também
me sentindo mulher
só sua e de mais ninguém


ANO: 1998
297

MEMÓRIAS

Sã Paulo, 7 de maio de 1980

                                             Querido Rodrigo,
       A viagem foi bem. Um pouco cansativa, mas bem.
       Essa primeira semana foi empolgante. Após tantos anos, mudei a rotina. Nem acredito que passei tanto tempo de minha vida fazendo a mesma coisa.
       Você foi um amor em me mandar para cá.
       Embora sinta saudade de todos, estou muito bem aqui.
       Minha rotina ainda não está definida. Estou um pouco perdida, mas espero logo me acostumar.
       A única coisa que me incomoda é a falta do meu filho. Diga-lhe que o amo muito e logo irei revê-lo.
       Mando-lhe um abraço e agradeço mais uma vez.
          

                                                             Carinhosamente,
                                                                        Luísa

_______________________________________________________________________________________________
São Paulo, 10 de abril de 1981.

                                           Querido Rodrigo,
          Faz quase um ano que aqui estou e sinto falta de você.
          À noite, quando a insônia vem, fico me lembrando de quando o conheci. Você veio se sentar à minha mesa e deixou meu ex-noivo exasperado! Queria tanto conversar mais com você naquele momento! Mas, enfim, tive que partir.
           No dia seguinte você me ligou e saimos: fomos ver borboletas. Deixei o Roberto imediatamente!
           Éramos tão felizes!
           Lembra-se do nosso primeiro beijo? Eu estava morrendo de medo. Foi tão engraçado!
           Um ano depois estávamos casados e dois anos após nascia nosso filho. Ele era tão lindo! Parecia tanto você!
           À propósito, como ele está? Sinto sua falta.
           Você foi muito generoso em me mandar para cá. Sei que precisava descansar e eu ando tão esquecida!
           Cuide bem do nosso garoto

                                                                    Carinhosamente,
                                                                               Luísa

_________________________________________________________________________________________________
São Paulo, 28 de junho de 1981.

                                         Querido Rodrigo,
            A rotina está cada vez mais difícil e vazia. Faz mais de um ano que estou aqui e ainda sonho com você. Quando você e nosso menino virão me visitar?
            É difícil conter as lágrimas enquanto escrevo. Ando tão esquecida ultimamente! Cuidam de mim, mas ninguém me responde quando peço para te chamarem.
            Espero que também sinta saudade e que esteja cuidando do nosso anjinho.


                                                                  Carinhosamente,
                                                                               Luísa

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São Paulo, 12 de agosto de 1981.

                                          Querido Rodrigo,
         Que falta você me faz!
          Não vejo a hora de encontrá-lo.
         Semana que vem será dia de visitas e, finalmente, vou te encontrar.
         Estou ansiosa. Tão ansiosa como aquelas tardes em que corríamos até o riacho para molharmos os pés e falarmos sobre banalidades. Ah, meu querido!
         Até lá.


                                                                     Carinhosamente,
                                                                               Luísa

PS: diga ao nosso filho que o amo.


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               Aquele dia ela acordou cedo, tomou banho e se perfumou. Olhou no espelho e arrumou seus cabelos grisalhos tentando aparentar mais jovem. Vestiu-se. Estava usando seu melhor vestido. Calçou seus sapatinhos de crochê e juntou-se ao grupo, enquanto assoviava uma canção de Carlos Galhardo: "Eu sonhei que tu estavas tão linda..." Então, sentou-se para esperar.
               O dia estava começando e, aos poucos, o pátio ficou cheio de visitas.
               Ela estava lá, quieta e pensativa. Onde estaria ele? Por que o atraso? E seu filho?
               A tarde já chegava e ela ainda estava lá, parada, observando as crianças brincarem. Como lhe traziam lembranças do filho!
                Já estava escurecendo quando as pessoas começaram a se retirar. Ia fazer frio aquela noite. Estavam no outono.
                 A noite já estava alta quando uma enfermeira se aproximou daquela pobre e mirrada senhora:
                 "Vamos entrar, dona Luísa? Está muito frio aqui fora!"
                 Foi quando ela tirou de dentro do bolso do vestido as cartas que nunca foram enviadas e, entre elas, uma foto em branco e preto de uma jovem bonita, grávida, sorridente, ao lado de um rapaz.
                 Ficou olhando e lembrando de um tempo de imensa felicidade. Rodrigo era o marido que toda mulher deveria ter. Estavam tão felizes e apaixonados.
                 Um enfermeiro se aproximou:
                 "Está na hora de dormir."
                 Então ela foi, tristonha e quieta, deitar-se.
                 Do corredor vazio e comprido, ouvia-se conversa entre funcionários:
                 "Dona Luísa espera o marido e o filho todos anos. É triste. Ambos morreram em um acidente de carro."
                  "Nossa!"
                  Nisso, outro paciente chamou por elas. Então voltaaram à rotina e mais um dia se passou sem anormalidades naquela casa de repouso.


ANO: 1999



325

TORMENTA

Quem sou eu
além de um louco
a procura do temporal
pra içar velas 
e navegar
na insensatez
da sanidade?
...será vaidade?...


ANO: 2002
305

DESPEDIDA

Olhando essa janela embaçada
Penso no que já aconteceu
Vivemos um romance de cinema
Mas vi você chegar e dar adeus
Hoje, solitário nesse quarto
Fumo um cigarro pra esquecer
Entregue nessa dor dessas feridas
Me perco em lembranças de viver
Ao seu lado
Tudo é um paraíso
Mas fecho os olhos,
Tranco os sonhos
De um mundo esquecido
Fácil é chegar
Difícil é dar adeus
Escrevo cartas 
Sem destino certo
E escuto o que o silêncio quer dizer
Mas passo horas nesse mar deserto
Só pra tentar te rever
E ao seu lado
Tudo é um paraíso
Mas fecho os olhos,
Tranco os sonhos
De um mundo esquecido
Fácil de chegar
Difícil de despedir
Entreguei a minha vida
Doei os meus sonhos
E quis estar ao seu lado
Mas não consegui


ANO: 2005
358

E ELE?

"E ele?"
"Não se preocupe!...Viveu o suficiente para viver o necessário"



ANO: 1998
324

LEVE

Voa tão suave
Quanto teu peito
Colore o mundo
Por onde passa
Essa missão
É tão vasta
Borboleta, qual teu segredo?
Vou te contar:
Para voar
Basta ser livre de preconceitos

E ela voa
Contra o vento,
Contra o frio
Borboleta, onde pousaste
Naquela flor 
ou beira-rio?

E então saiu
batendo as asas
colorindo o mundo


ANO: 1998
334

Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.