Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
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UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
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Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber

Poemas

283

VOCÊ EM MIM

Fecho os olhos e vejo
num instante
você num eu
em mim constante


ANO: 1995
274

GUSTAVO?!

"Oi Gustavo, lembra de mim?"
         Ele a olhou por trás das lentes embaçadas dos óculos.Examinou minuciosamente a figura daquela linda moça:
         "Puxa, não sei...acho que...não, não...não pode..."
         "Há exatos 6 anos?"
         "Não acredito!Carla, você está linda! Como tem passado? Quanto tempo!"
         Ela abriu um amplo sorriso.
          "Bem!"
          Meio encabulado, puxou uma cadeira para que ela se sentasse.
          "Quanto tempo! Como me encontrou?"
          " A Cris foi quem me contou que você havia voltado."
          "E então, gostou do restaurante? Faz um mês que abri. Ainda está no começo, mas já tem um pouco de movimento. Espere um pouco, vou buscar bebiba para a gente. Você ainda gosta de dry martini?"
          Ela corou e acenou com a cabeça.
          Minutos depois ele voltou com duas taças.
          "Sabe, sinto sua falta."
          Carla sentiu um arrepio ao ouvir aquilo.
           "Bom, Gu, me conte sobre a Inglaterra. Como foi ficar tanto tempo longe?"
          "É estranho. No começo fiquei perdido, mas logo me acostumei. Na verdade, sempre senti falta do Brasil...(um suspiro)...Lembra das festas que costumávamos ir?"
           Ela riu.
           "E aquele seu amigo? O Edgar? Você morria de ciúme quando ele aparecia..."
           "É verdade" - ele riu também - "Aliás, foi no dia em que vocês brigaram que eu me apaixonei."
           Ela ficou sem graça.
           Ele a olhou fixamente.
           "Sabe, você foi a mulher da minha vida. Nunca amei tanto alguém quanto amei você."
           Ela desviou os olhos. Suas mãos estavam trêmulas.
            "E agora, tem alguém, algum homem que...?"
            "Não, Gu! Não, não. Quando você foi embora, me fechei para qualquer tipo de romance. Nunca mais tive ninguém."
            Ele apertou as mãos de Carla com força.
            "Por que fui tão estúpido em deixar você sozinha?"
            "Porque tinha que ser assim. Você precisava ir. Era a sua vida."
            Enquanto se olhavam, um menino de óculos, entrou correndo:
             "Mãe, mãe!!!! Posso ir ao parquinho?"
            Ele olhou espantado.
             "Não sabia que...não sabi..."
            Ficou paralisado.
            A criança insistiu:
            "Mãe, mamãe..."
            "Não, Gustavo, não pode não. Vá lá fora com a tia Cris e espere porque já vamos embora."
             O garoto saiu pulando e o rapaz, assustado, repetiu:
             "Gustavo?!"
             "É, é o nome do pai dele."
              Então tudo ficou claro.
              "Carla, eu não sabia...não queria...quer dizer, não queria te deixar sozinha e..."
              "Está tudo bem. Eu não sabia que tinha acontecido. Você partiu e sofri muito com sua ausência. Quando descobri, bem, não tinha como te encontrar...enfim, fiquei feliz. Quer falar com ele?"
              Foi aí que Gustavo pai e Gustavo filho finalmente se conheceram.


ANO: 1999
307

IO

Ia, Io, sossegadamente
por entre árvores e pastos
quando Zeus a viu cantando
em doce voz a canção dos castos

Seus olhos, sua boca, seus cabelos
perfeição que a natureza fez ingenuamente
quando o deus, no mais alto dos cargos,
apaixonado, lhe quis ardentemente

Então o poderoso desceu à Terra
deixando sua mulher a desconfiar
que,por ser traída tantas vezes
lhe seguiu sem hesitar

Aproximou-se, Zeus, da linda moça
e sua esposa, atenta, viu a cena
sentiu-se humilhada e irada
e Zeus transformou Io em vaca

Foi quando o animal, após tantos pedidos
foi doado à deusa imortal
e a Agros foi dada a missão
de levá-la a pastar
vigiando, sem cessar

Após tanto sofrimento
Io voltou a ser mulher
e nas águas do rio Nilo
de Zeus pariu um filho

O povo da região a adoraram
e com seu filho Épafo
por muito tempo
naquele local governaram


ANO:1995
305

LEVE

Voa tão suave
Quanto teu peito
Colore o mundo
Por onde passa
Essa missão
É tão vasta
Borboleta, qual teu segredo?
Vou te contar:
Para voar
Basta ser livre de preconceitos

E ela voa
Contra o vento,
Contra o frio
Borboleta, onde pousaste
Naquela flor 
ou beira-rio?

E então saiu
batendo as asas
colorindo o mundo


ANO: 1998
334

DESPEDIDA

Olhando essa janela embaçada
Penso no que já aconteceu
Vivemos um romance de cinema
Mas vi você chegar e dar adeus
Hoje, solitário nesse quarto
Fumo um cigarro pra esquecer
Entregue nessa dor dessas feridas
Me perco em lembranças de viver
Ao seu lado
Tudo é um paraíso
Mas fecho os olhos,
Tranco os sonhos
De um mundo esquecido
Fácil é chegar
Difícil é dar adeus
Escrevo cartas 
Sem destino certo
E escuto o que o silêncio quer dizer
Mas passo horas nesse mar deserto
Só pra tentar te rever
E ao seu lado
Tudo é um paraíso
Mas fecho os olhos,
Tranco os sonhos
De um mundo esquecido
Fácil de chegar
Difícil de despedir
Entreguei a minha vida
Doei os meus sonhos
E quis estar ao seu lado
Mas não consegui


ANO: 2005
358

LÍRIOS NA PRIMAVERA - DE LÍRIOS

Começa o dia
Como há muito tempo havia
a magia da alegria
do dom de aprender a amar
Sentir na pele seu toque
seus beijos, seus sonhos, tão forte
tão cheios de sorte
e querer neles me enrolar
e vivenciar a cada amanhecer
sua voz ao meu lado, me esquecer
envolvendo até me enlouquecer
e te acariciar
tudo isso e mais
até mergulhar
no gosto saudável do prazer
e sentir sua respiração alterar
seus ais de loucura
que me procura
seu suor tão quente
tão fervente
tua cara depravada
tarada
seu jeito ofegante
tão marcante
e enfim o êxtase
o ápice da magia
todo aquele misto
de delícia e agonia
chegamos, finalmente, ao auge
e te vejo homem ao meu lado
tão feliz, realizado
e então me realizo também
me sentindo mulher
só sua e de mais ninguém


ANO: 1998
298

ELA, ELE, TU - DESFECHO DE UM POLIAMOR COMUM

Ela foi sincera quando o beijou
Ele foi sincero quando a olhou
Ela foi sincera quando lhe falou
Que amava muito e de tanto muito
Todosn eram o seu amor

Ele foi sincero quando te olhou
Ela foi sincera quando te beijou
Ele foi  sincero quando te tocou
Impulso além do mágico
Lhe pegou nos braços
Lhe fez amor

Eles foram sinceros quando se tocaram
Vira que tinham tudo e não tinham nada
Entregaram-se aos teus braços tão calmamente
E adormeceram embebidos na libido ardente

Ele está mentindo quando diz "amor"
Ela está mentindo quando acreditou
Ele está mentindo se não lhe falou
Ela está mentindo se só lhe calou
(com um beijo de filme pornô)

Estão mentindo
e por isso estão felizes
e felizes vão viver
até o tédio os enlouquecer


ANO: 2002
327

E ELE?

"E ele?"
"Não se preocupe!...Viveu o suficiente para viver o necessário"



ANO: 1998
325

TORMENTA

Quem sou eu
além de um louco
a procura do temporal
pra içar velas 
e navegar
na insensatez
da sanidade?
...será vaidade?...


ANO: 2002
305

MEMÓRIAS

Sã Paulo, 7 de maio de 1980

                                             Querido Rodrigo,
       A viagem foi bem. Um pouco cansativa, mas bem.
       Essa primeira semana foi empolgante. Após tantos anos, mudei a rotina. Nem acredito que passei tanto tempo de minha vida fazendo a mesma coisa.
       Você foi um amor em me mandar para cá.
       Embora sinta saudade de todos, estou muito bem aqui.
       Minha rotina ainda não está definida. Estou um pouco perdida, mas espero logo me acostumar.
       A única coisa que me incomoda é a falta do meu filho. Diga-lhe que o amo muito e logo irei revê-lo.
       Mando-lhe um abraço e agradeço mais uma vez.
          

                                                             Carinhosamente,
                                                                        Luísa

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São Paulo, 10 de abril de 1981.

                                           Querido Rodrigo,
          Faz quase um ano que aqui estou e sinto falta de você.
          À noite, quando a insônia vem, fico me lembrando de quando o conheci. Você veio se sentar à minha mesa e deixou meu ex-noivo exasperado! Queria tanto conversar mais com você naquele momento! Mas, enfim, tive que partir.
           No dia seguinte você me ligou e saimos: fomos ver borboletas. Deixei o Roberto imediatamente!
           Éramos tão felizes!
           Lembra-se do nosso primeiro beijo? Eu estava morrendo de medo. Foi tão engraçado!
           Um ano depois estávamos casados e dois anos após nascia nosso filho. Ele era tão lindo! Parecia tanto você!
           À propósito, como ele está? Sinto sua falta.
           Você foi muito generoso em me mandar para cá. Sei que precisava descansar e eu ando tão esquecida!
           Cuide bem do nosso garoto

                                                                    Carinhosamente,
                                                                               Luísa

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São Paulo, 28 de junho de 1981.

                                         Querido Rodrigo,
            A rotina está cada vez mais difícil e vazia. Faz mais de um ano que estou aqui e ainda sonho com você. Quando você e nosso menino virão me visitar?
            É difícil conter as lágrimas enquanto escrevo. Ando tão esquecida ultimamente! Cuidam de mim, mas ninguém me responde quando peço para te chamarem.
            Espero que também sinta saudade e que esteja cuidando do nosso anjinho.


                                                                  Carinhosamente,
                                                                               Luísa

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São Paulo, 12 de agosto de 1981.

                                          Querido Rodrigo,
         Que falta você me faz!
          Não vejo a hora de encontrá-lo.
         Semana que vem será dia de visitas e, finalmente, vou te encontrar.
         Estou ansiosa. Tão ansiosa como aquelas tardes em que corríamos até o riacho para molharmos os pés e falarmos sobre banalidades. Ah, meu querido!
         Até lá.


                                                                     Carinhosamente,
                                                                               Luísa

PS: diga ao nosso filho que o amo.


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               Aquele dia ela acordou cedo, tomou banho e se perfumou. Olhou no espelho e arrumou seus cabelos grisalhos tentando aparentar mais jovem. Vestiu-se. Estava usando seu melhor vestido. Calçou seus sapatinhos de crochê e juntou-se ao grupo, enquanto assoviava uma canção de Carlos Galhardo: "Eu sonhei que tu estavas tão linda..." Então, sentou-se para esperar.
               O dia estava começando e, aos poucos, o pátio ficou cheio de visitas.
               Ela estava lá, quieta e pensativa. Onde estaria ele? Por que o atraso? E seu filho?
               A tarde já chegava e ela ainda estava lá, parada, observando as crianças brincarem. Como lhe traziam lembranças do filho!
                Já estava escurecendo quando as pessoas começaram a se retirar. Ia fazer frio aquela noite. Estavam no outono.
                 A noite já estava alta quando uma enfermeira se aproximou daquela pobre e mirrada senhora:
                 "Vamos entrar, dona Luísa? Está muito frio aqui fora!"
                 Foi quando ela tirou de dentro do bolso do vestido as cartas que nunca foram enviadas e, entre elas, uma foto em branco e preto de uma jovem bonita, grávida, sorridente, ao lado de um rapaz.
                 Ficou olhando e lembrando de um tempo de imensa felicidade. Rodrigo era o marido que toda mulher deveria ter. Estavam tão felizes e apaixonados.
                 Um enfermeiro se aproximou:
                 "Está na hora de dormir."
                 Então ela foi, tristonha e quieta, deitar-se.
                 Do corredor vazio e comprido, ouvia-se conversa entre funcionários:
                 "Dona Luísa espera o marido e o filho todos anos. É triste. Ambos morreram em um acidente de carro."
                  "Nossa!"
                  Nisso, outro paciente chamou por elas. Então voltaaram à rotina e mais um dia se passou sem anormalidades naquela casa de repouso.


ANO: 1999



326

Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.