Lista de Poemas

LEVE

Voa tão suave
Quanto teu peito
Colore o mundo
Por onde passa
Essa missão
É tão vasta
Borboleta, qual teu segredo?
Vou te contar:
Para voar
Basta ser livre de preconceitos

E ela voa
Contra o vento,
Contra o frio
Borboleta, onde pousaste
Naquela flor 
ou beira-rio?

E então saiu
batendo as asas
colorindo o mundo


ANO: 1998
326

VOCABULÁRIO

Homem: retalho da colcha da sociedade
Onde anda a dignidade?


ANO: 1998
267

SALOMÉ

Boa noite, senhoras e senhores
que rufem os tambores
aqui é só alegria
saiam da rotina

Menina e dançarina
Salomé
a rainha desse cabaré
por favor,
todos em pé

Ela pode te olhar
um rebolado afinado
um decote de matar
e um beijo bem molhado

Salomé é tentação
moça quente e travessura
ela toca sua alma
a fogosa gostosura

Entre plumas e paetês
ela faz malabarismo
mexidinhas pra vocês
sua boca tem sorriso

A mulher virou de costas
sutiã ficou nos pés
ela sabe o que tu gostas
essa é a Salomé

Aquela noite estava quente
e a platéia delirava
um estranho forasteiro
fixamente à ela olhava

Jeremias era o nome
do homem sem paradeiro
ele, antes, um matador
era, agora, seu prisioneiro

Lhe pagou muita bebida
embreagou no seu sorriso
ele, cabra-macho nordestino,
por ela estava perdido

Dançaram juntos na multidão
e amaram-se na escuridão
Salomé, a dançarina
rebolava como menina

O dia amanheceu
e o matador acordou
Salomé abriu os olhos
e um grito escapou

Me discurpa, minha amada
muié boa e tão bandida
vim de longe pra essas bandas
pra colhê a tua vida

Alguém da cidade
bom dinheiro me deu
pra acabá com a muié
que traiu o nome seu

Salomé, atordoada,
lembrou-se da situação
traiu com novo menino
o Coronel de São João

Jeremias atirou
impiedoso, assegurou
estava morta Salomé
na cama rosa do cabaré

Essa é história de uma deusa
da vida noturna, soturna
aplaudam meninos e meninas
porque a vida continua


ANO:2020
280

UM ANJO MISERÁVEL

Existe um menino, com olhar parado, quieto. Às vezes procura sorrir para chamar atenção, mas acha que sorriso dói. Fica todo dia no mesmo lugar, oferecendo doces aos motoristas que, irritados, dizem não. Mais um não na sua vida de criança.
         Seu mundo é a rua, a calçada, as esquinas, os motoristas zangados. Sua música é o som dos carros, ônibus, motos e caminhões que cruzam a avenida, deixando o calor do combustível desperdiçado na correria em vão do dia a dia. Seu quadro é pintura inesquecível do céu acinzentado , sufocante e poluído da cidade. O frio que chega da noite diz que é tempo de se recolher, talvez para debaixo de algum lugar.
          As horas passam e chega o entardecer. Teve sucesso, dinheiro pra um lanche! Com os bolsos cheios de moedas, estampa um sorriso no rosto e entende que não é tão estranho sorrir.
         Prepara-se para ir embora quando avista uma mulher com um bebê. Ela está deitada com sua cria, que berra de fome em cima de trapos imundos e rasgados.
         O menino, sujo e fedorento, atravessa a rua e entra no bar mais próximo. Todos o olham com medo. Será um assalto? Será que viverão à essa catástrofe que assola o homem branco de bem, contribuínte da sociedade?
          O mesmo garoto compra um litro de leite e volta para aquele resto de ser humano abandonado com seu filhote do outro lado do paraíso. Num gesto de ternura, oferece a bebida à nova vida que, impaciente, grita pedindo a comida que a mãe não pode lhe dar.
          A mulher sorri e agradece. Deus lhe pague!
          O menino segue seu caminho mais miserável e feliz do que nunca, pois sabe que contribuiu para que uma nova pessoa sobreviva mais um dia.


ANO:1998
286

NAQUELE LUGAR

Naquele lugar
se encontrava um vão
unindo homens do nada
aos homens do tudo
então,
numa dança,
formava-se o mundo


ANO: 1995
285

DESPEDIDA

Olhando essa janela embaçada
Penso no que já aconteceu
Vivemos um romance de cinema
Mas vi você chegar e dar adeus
Hoje, solitário nesse quarto
Fumo um cigarro pra esquecer
Entregue nessa dor dessas feridas
Me perco em lembranças de viver
Ao seu lado
Tudo é um paraíso
Mas fecho os olhos,
Tranco os sonhos
De um mundo esquecido
Fácil é chegar
Difícil é dar adeus
Escrevo cartas 
Sem destino certo
E escuto o que o silêncio quer dizer
Mas passo horas nesse mar deserto
Só pra tentar te rever
E ao seu lado
Tudo é um paraíso
Mas fecho os olhos,
Tranco os sonhos
De um mundo esquecido
Fácil de chegar
Difícil de despedir
Entreguei a minha vida
Doei os meus sonhos
E quis estar ao seu lado
Mas não consegui


ANO: 2005
346

ODE À QUALQUER COISA

Rumo sem distância
ou a vida é um círculo
basta ver a sua dança
e encontrar-se num penhasco
interno, materno, um asco
quer fugir
ou fingir
que é cego
Esperar até nunca!
E ver o amanhecer


ANO: 1993
349

INFÂNCIA (INFANTICÍDIO ADULTERADO)

Promessas esquecidas
no clarão do pensamento
trás de volta a saudade
de um longo e bom tempo
onde a árvore florescia
e as nuvens coloriam
a infância complicada
de um futuro inseguro
um adulto rodeava
os pesadelos esquecidos,
apagados pelo vento,
pela dor de reviver
foi o passado o presente
foi o futuro o passado
a confusão não foi ausente
e nada mudou por completo
Minha boneca já chorou,
já sangrou, já lutou
enfim, cansou e encostou
no canto amaarelo do armário
foram poesias de ilusão
e quando cantavam para adormecer
queriam vendar uma criança
dessa longa e confusa
infância
que se fez no tempo
foi mentira?
Quem se importa
com o sentimento
de uma pessoa que
ainda não é nada?

Boi, boi, boi
boi da cara preta
pega essa criança estragada
adulterada
estrupiada 
que tem medo de careta...


ANO: 1995
312

UM GESTO NO VAZIO

As portas estão trancadas
e o beco está escuro
vejo a luz aqui de fora
mas a garagem
é sombria
noite que me persegue
Estão todos lá dentro
trancados,
mundinho particular,
ouço ecos de palavras
mal articuladas
e a solidão de existir
Temo ir em frente,
as estradas são opostas
e a confusão está ofuscando,
chamando para o além
O que é viver?
Uma dor de ilusão?
Cacos mal vividos?
Uma trégua?
Purgatório?
Me tocar,
asas angelicais,
vôo panorâmico
na cidade cimentada,
uma queda,
vertigem,
para algum lugar
no eu


ANO: 1998
325

O ENCONTRO

Foi num dia tão comum
que os olhos briharam
e os corpos se tocaram
seu sorriso era puro
e o sentimento, inseguro
foi assim que, de repente,
vendo a cena de euforia
seu destino se agarrou
no momento de alegria
e então teve certeza
que diante de seus olhos
estava o amor verdadeiro,
o seu companheiro
pro resto da vida,
era certo,
concreto
Foi num dia tão comum
que aconteceu o especial


ANO: 1996
283

Comentários (6)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber