Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
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UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
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Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
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Poemas

283

ELA, ELE, TU - DESFECHO DE UM POLIAMOR COMUM

Ela foi sincera quando o beijou
Ele foi sincero quando a olhou
Ela foi sincera quando lhe falou
Que amava muito e de tanto muito
Todosn eram o seu amor

Ele foi sincero quando te olhou
Ela foi sincera quando te beijou
Ele foi  sincero quando te tocou
Impulso além do mágico
Lhe pegou nos braços
Lhe fez amor

Eles foram sinceros quando se tocaram
Vira que tinham tudo e não tinham nada
Entregaram-se aos teus braços tão calmamente
E adormeceram embebidos na libido ardente

Ele está mentindo quando diz "amor"
Ela está mentindo quando acreditou
Ele está mentindo se não lhe falou
Ela está mentindo se só lhe calou
(com um beijo de filme pornô)

Estão mentindo
e por isso estão felizes
e felizes vão viver
até o tédio os enlouquecer


ANO: 2002
326

VOCABULÁRIO

Homem: retalho da colcha da sociedade
Onde anda a dignidade?


ANO: 1998
276

DÉBORA

          -Débora, não mexa nisso!
          Débora se virou para a voz e, com seus passos curtos, continuou explorando o jardim.
          -Débora, tire isso da boca!
         Que nojo! Ela sentiu o goto ruim daquele pedaço de tijole e cuspiu a terra longe. Curiosa, continuou andando.
          -Débora, cuidado! Vai cair se continuar assim.
          E de fato levou um tombo. Não deveria ter corrido. Ainda bem, só esfolou o joelho.
          -Débora, pare de chorar! Não foi nada. Logo sara.
           Seu choro era inútil. Não era o suficiente para passar a dor. Parou de chorar.
           -Enxugue essas lágrimas. Que coisa feia!
           Ela se levantou. Estava com medo de parecer feia.
           -Débora, o que você está fazendo?
            Dessa vez estava quieta, brincando com uma formiga.
            -Tire o dedo daí! Tem bichinhos que podem te machucar.
            Com susto, parou de tentar colocar a mão no formigueiro.
             -Venha, Débora, vamos entrar para tomar banho. Hoje é seu aniversário.
         O que era aniversário mesmo? Já tinha ouvido essa palavra mas não conseguia lembrar exatamente.
             -Cuidado, não espirre muita água. Está molhando todo o banheiro.
             Como era gostoso brincar na hora do banho!
              -Tire o sabonete da boca, isso não é para comer.
               Argh, que horrível! Era amargo. Jogou de volta à água.
               -Agora vou lavar seu cabelo. Feche os olhinhos para não entrar sabão.
               Que choradeira! Seus olhos queimavam.
                -Pronto, já passou.
                Ela estava impecável. Cheirosa, com roupas novas e bem penteada. Alguém bateu à porta:
                -Rosa, pode trazer a Débora que já arrumamos a mesa, os balões e os convidados.
                Fecharam a porta e deixaram as duas sozinhas.
                -Vamos lá, meu amor. A tia Rossa vai te levar para cantar parabéns.
            Então, um nó na garganta a sufocou. Olhou em volta. Todas aquelas camas alinhadas, aqueles desenhos pendurados na parede lhe traziam lembranças de quando ali chegou. Antes, era apenas mais uma enfermeira, mas naquele lugar aprendeu a ser humana, a rir e chorar com cada uma daquelas pessoas especiais, que para muitos não passavam de deficientes mentais. Para Rosa, eles eram sua família! Enxugou as lágrimas e levou débora até a cozinha, onde todos os enfermeiros, médicos, internos e convidados a aguardavam.
                -Parabéns pra você...
                Débora pediu bolo e alguém se aproximou:
                -Rosa, quanto tempo Débora está aqui?
                -Desde que nasceu.
                -Dezesseis anos?! 
                -É, dezesseis anos... - e calou-se com um pedaço de doce.


ANO: 1999
324

UM ANJO MISERÁVEL

Existe um menino, com olhar parado, quieto. Às vezes procura sorrir para chamar atenção, mas acha que sorriso dói. Fica todo dia no mesmo lugar, oferecendo doces aos motoristas que, irritados, dizem não. Mais um não na sua vida de criança.
         Seu mundo é a rua, a calçada, as esquinas, os motoristas zangados. Sua música é o som dos carros, ônibus, motos e caminhões que cruzam a avenida, deixando o calor do combustível desperdiçado na correria em vão do dia a dia. Seu quadro é pintura inesquecível do céu acinzentado , sufocante e poluído da cidade. O frio que chega da noite diz que é tempo de se recolher, talvez para debaixo de algum lugar.
          As horas passam e chega o entardecer. Teve sucesso, dinheiro pra um lanche! Com os bolsos cheios de moedas, estampa um sorriso no rosto e entende que não é tão estranho sorrir.
         Prepara-se para ir embora quando avista uma mulher com um bebê. Ela está deitada com sua cria, que berra de fome em cima de trapos imundos e rasgados.
         O menino, sujo e fedorento, atravessa a rua e entra no bar mais próximo. Todos o olham com medo. Será um assalto? Será que viverão à essa catástrofe que assola o homem branco de bem, contribuínte da sociedade?
          O mesmo garoto compra um litro de leite e volta para aquele resto de ser humano abandonado com seu filhote do outro lado do paraíso. Num gesto de ternura, oferece a bebida à nova vida que, impaciente, grita pedindo a comida que a mãe não pode lhe dar.
          A mulher sorri e agradece. Deus lhe pague!
          O menino segue seu caminho mais miserável e feliz do que nunca, pois sabe que contribuiu para que uma nova pessoa sobreviva mais um dia.


ANO:1998
297

SALOMÉ

Boa noite, senhoras e senhores
que rufem os tambores
aqui é só alegria
saiam da rotina

Menina e dançarina
Salomé
a rainha desse cabaré
por favor,
todos em pé

Ela pode te olhar
um rebolado afinado
um decote de matar
e um beijo bem molhado

Salomé é tentação
moça quente e travessura
ela toca sua alma
a fogosa gostosura

Entre plumas e paetês
ela faz malabarismo
mexidinhas pra vocês
sua boca tem sorriso

A mulher virou de costas
sutiã ficou nos pés
ela sabe o que tu gostas
essa é a Salomé

Aquela noite estava quente
e a platéia delirava
um estranho forasteiro
fixamente à ela olhava

Jeremias era o nome
do homem sem paradeiro
ele, antes, um matador
era, agora, seu prisioneiro

Lhe pagou muita bebida
embreagou no seu sorriso
ele, cabra-macho nordestino,
por ela estava perdido

Dançaram juntos na multidão
e amaram-se na escuridão
Salomé, a dançarina
rebolava como menina

O dia amanheceu
e o matador acordou
Salomé abriu os olhos
e um grito escapou

Me discurpa, minha amada
muié boa e tão bandida
vim de longe pra essas bandas
pra colhê a tua vida

Alguém da cidade
bom dinheiro me deu
pra acabá com a muié
que traiu o nome seu

Salomé, atordoada,
lembrou-se da situação
traiu com novo menino
o Coronel de São João

Jeremias atirou
impiedoso, assegurou
estava morta Salomé
na cama rosa do cabaré

Essa é história de uma deusa
da vida noturna, soturna
aplaudam meninos e meninas
porque a vida continua


ANO:2020
291

ODE À QUALQUER COISA

Rumo sem distância
ou a vida é um círculo
basta ver a sua dança
e encontrar-se num penhasco
interno, materno, um asco
quer fugir
ou fingir
que é cego
Esperar até nunca!
E ver o amanhecer


ANO: 1993
360

NAQUELE LUGAR

Naquele lugar
se encontrava um vão
unindo homens do nada
aos homens do tudo
então,
numa dança,
formava-se o mundo


ANO: 1995
295

INFÂNCIA (INFANTICÍDIO ADULTERADO)

Promessas esquecidas
no clarão do pensamento
trás de volta a saudade
de um longo e bom tempo
onde a árvore florescia
e as nuvens coloriam
a infância complicada
de um futuro inseguro
um adulto rodeava
os pesadelos esquecidos,
apagados pelo vento,
pela dor de reviver
foi o passado o presente
foi o futuro o passado
a confusão não foi ausente
e nada mudou por completo
Minha boneca já chorou,
já sangrou, já lutou
enfim, cansou e encostou
no canto amaarelo do armário
foram poesias de ilusão
e quando cantavam para adormecer
queriam vendar uma criança
dessa longa e confusa
infância
que se fez no tempo
foi mentira?
Quem se importa
com o sentimento
de uma pessoa que
ainda não é nada?

Boi, boi, boi
boi da cara preta
pega essa criança estragada
adulterada
estrupiada 
que tem medo de careta...


ANO: 1995
322

FACE MODESTA DE MULHER (mais um sonoro mecanismo de defesa...)

 

A única coisa
que amo em você
é sua capacidade intelectual,
uma verdadeira bíblia informal
porque
apesar desse seu olhar
hipócrita, 
apócrifa, 
sem graça,
sem nexo,
sem nada, 
lá no fundo de sua mente
tem uma semente
de mim

A única coisa
que amo em você
é a minha presença 
nos seus sonhos,
nos seus dias, 
nas suas vias...
Só não se esqueça,
coração,
que eu em você
é grande ilusão


ANO:2003

186

SORRIA

Sorria,
você está sendo filmado
por algum olhar marcado
pelas ruas em que passa
Sorria,
você está sendo procurado
vivo, morto ou desmembrado
desse sonho amargurado
Sorria,
você está sendo gravado
no leito, cruxificado
na cena de enlatado
Não chore por estar vivo
porque tudo não conta nada
e o sorriso é uma farsa
da estupidez de ser um mero,
não quero, um zero
Se perca na lucidez
de algo que já foi 
no passado antigo
escondido
nas sombras da imensidão
do tempo
simples evento!


ANO: 2003
352

Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.