298 - O MEU ORIGINAL
Preparo o meu original que embalo
E envio às editoras do país.
Porém, por fim, nenhuma delas quis,
Por sua conta e risco, publicá-lo.
Talvez o que compus sem intervalo
Tenha sido um equívoco infeliz.
E quando com talento não condiz
Eu devo simplesmente engavetá-lo.
Que me dissessem, mesmo com desdém,
O que nos versos meus os desagrada
E o que nos temas meus não lhes convém!
Porém, a indiferença delas brada:
"Não és poeta! Tu não és ninguém!
Todos os teus poemas não são nada!"
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
290 - SUTIL PROFUNDIDADE
Em mim agora irrompe a tempestade:
Relâmpago há nos olhos quando estronda
Trovão cá nesta boca mais redonda.
Um mar de lágrimas também me invade.
Então, não mais importa o quanto nade
Porque me traga sempre a reles onda.
Que o vórtice de angústia só me esconda
Na minha mais sutil profundidade.
E enquanto a vida ainda não avança
Eu já me engulo e logo me avolumo:
Não quero vir à tona na bonança.
Prefiro as profundezas em que sumo,
A agonizar com sede n'água mansa,
Sem velas e sem remos e sem rumo.
(Escrito em 01/10/2020)
291 - MÃE DAS FAVELAS
Ó, mãe, tão duro pelo pão trabalhas
E à noite enfim retornas às favelas.
Não queres que o teu filho goste delas
Ou que do crime viva das migalhas.
Nos becos recomeçam as batalhas.
Tu trancas toscas portas e janelas
E, como sempre, apenas o interpelas
Sobre o dia mas não responde e ralhas.
Há almas miseráveis, tão aflitas,
Em cujas faces foram já escritas
Angústias com a lama deste mangue.
Ó, mãe, de desespero agora gritas:
Sob os barracos sobre palafitas
Há lixo, esgoto, o corpo dele e sangue!
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 05/10/2020)
230 - POETA ANÓNIMO
Ó, quem me dera fosse enfim poeta,
Desses com livro publicado e fama,
Que, na noite de autógrafos, declama
Do seu poema a parte predileta.
Mas, mesmo com a pena tão completa,
Cá sobre mim ainda se derrama
Do anonimato a pegajosa lama
E tudo o que componho se engaveta.
Poetas e leitores deste mundo
Vão todos logo ao túmulo profundo.
Por fim, ninguém se importará com isto.
Ó que me baste então que o Deus eterno
Conheça, neste mísero caderno,
Os versos meus que provam que eu existo.
(Escrito em 04/10/2020)
289 - EU E OS VERSOS MEUS
Seremos eu e os versos meus talvez
Um dia, conhecidos pela voz
Que emites quando os cantas logo após
O mal que o teu silêncio já te fez.
Queremos eu e os versos meus que dês
O canto teu a quem se cala a sós
E que, através de ti, o amemos nós
Como te amamos quando tu nos lês.
Fazemos eu e os versos meus que a luz
Incida sobre tudo o que te expus:
Que não te sigam mais as sombras más!
Tornemos eu e os versos meus feliz
Teu tempo nesta página e sorris
Quando existimos nessa tua paz.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 27/09/2007)
SONNET 138
Hawks seek a creek or peak so bleak: Each beak
Will sneak the weak that squeak, the meek that bleed.
No weeds or reeds of greed succeed or reek.
Indeed, good seed will feed the breed in need.
The breeze from seas through trees at ease agrees
To please, not tease, the bees like these by eaves.
The sheep do keep their sleep so deep and freeze.
Clouds weep; rains seep; winds sweep a heap of leaves.
Stars preach; skies teach; their speech does reach the beach.
Storm cleaves and grieves and heaves the sheaves of wheat.
Goats' feet repeat the beat of sleet and screech.
No peace will cease; release for geese; lambs bleat.
Let me just flee to sea to be so free
And kneel and feel more zeal and reel with glee.
(Author: Eden Santos Oliveira. Written in 18/08/2008)
287 - NAS HORAS MÁS
Fico de pé nas horas más do fim.
Longe do afã eu louvo ao Pai celeste.
Lástima vã esclamam: "Ai, que peste!"
Firme na fé não perco a paz: eu vim!
Vida pois é de luz que faz jardim.
Torna-se sã a voz que sai: "Que reste!"
Vem de manhã o que se vai no oeste
Deita-se até voltar por trás de mim.
Apenas o pó eu sou, por enquanto.
A corda desato quando me deito.
Há penas e o voo eu nunca levanto.
A cor da manhã traz dia perfeito.
A pé nas estradas vou ao recanto.
Acorda, Coragem, dentro do peito!
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 03/09/2020)
288 - LOGO APÓS O ARMAGEDOM
Sintamos já perfeita e pura paz
Após o Armagedom, sim, logo após.
Louvemos sempre ao Pai com alta voz
Pois sob os nossos pés o mundo jaz.
Assim, jamais olhemos para trás.
Pensemos no que Deus já fez por nós
E em como a salvação tornou veloz:
Não vemos ao redor as coisas más!
Sem dor, velhice e praga sobre os ombros
Que juntos transformemos os escombros
Em belas casas para quem amamos.
Plantemos nos lugares mais extremos
Árvores dos jardins e enfim achemos
Repouso eterno à sombra dos seus ramos.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 06/09/2020)
149 - OS MEUS POEMAS NÃO SÃO PARA TI
Os meus poemas não são para ti
Pois forma fixa para ti é má.
Esquema, rima e métrica haverá
Nos versos meus que nunca te escrevi.
Como um leitor cruel que deles ri,
Tu não és quem os quer nem quem os dá.
Só queres rejeitá-los desde já:
Não sei o que procuras por aqui.
Enquanto o que compus com tanto afã
Me foi o fruto duma mente sã,
Tu pensas: "É pedante e tão ruim!"
Ao menos concordamos que amanhã
Em ti não haverá lembrança vã
De algum dos meus poemas ou de mim.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 07/09/2020)
286 - SEGURO E PROTEGIDO
Seguro e protegido já me sinto,
Se dessas feras sempre te defendo;
Eu tenho a sensação de estar comendo,
Se te alimento enquanto estou faminto;
Eu não me perco mais num labirinto,
Se te resgato dum buraco horrendo;
À densa escuridão eu não me prendo,
Se então te acendo amor leal, extinto;
Sou teu escudo e que ninguém te agrida,
Se com a espada não te faço forte;
Por ti eu sangro quando estás ferida,
Se o teu afeto me estancar o corte;
Eu morro para que te dê mais vida,
Se aqui viver sem ti se torna morte.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 28/08/2020 para a minha esposa Ingrid da Rosa Rodrigues Oliveira)