297 - CASTELO ESCURO
A Solidão da dor protege o peito
E foi portão, muralha, torre, muro.
Sem fundação, o meu castelo escuro
Já foi ao chão por ser de areia feito.
A Solidão com único proveito
Da sensação: julgar-me tão seguro.
Com a ilusão: ser rei do meu futuro
Em servidão o meu passado aceito.
Cada grilhão, sem a esperança acesa,
Foi meu então na cela de incerteza
E escuridão em que por fim me deito.
Faço prisão da minha fortaleza.
Na proteção eu torno a mente presa
Se à Solidão eu me fizer sujeito.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
296 - SOU DA ESTRADA
Estou de pé! Levanta-me a sagrada
E grande fé que, neste meu caminho,
Eu ande até não mais andar sozinho.
Sou quem não é daqui; eu sou da estrada.
Eu ontem vim depois que todo e cada
Lugar ruim de povo tão mesquinho
Tirou de mim a força e já definho
Antes do fim da minha caminhada.
Vou bem com quem chegou e enfim me ergueu.
Sou quem já vem de longe e logo vai.
Ninguém detém meus pés no passo meu.
Sou quem não tem amigo, mãe ou pai!
Porém, não sem a fé que Deus me deu
De quem vai bem além depois que cai.
(Aitor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
302 - VOZ TÃO BOA
Qualquer silêncio à noite até me espanta
Porque maiores são os meus temores
E os meus gemidos mais assustadores
Embora estejam presos na garganta.
E quando a minha angústia já é tanta,
Na escuridão, depois de enfim me expores
A pura boca, aonde quer que fores,
Tu levarás o canto que me encanta.
Enquanto da existência levo a carga
E o pranto meu te embarga a voz tão boa,
Até palavra que soa tão amarga
Nos lábios secos de qualquer pessoa,
Nos teus, mas só nos teus enfim se alarga
E docemente neste peito ecoa.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito para a minha esposa Ingrid da Rosa Rodrigues Oliveira em 10/10/2020)
299 - VEM, ALEGRIA
Vê, Alegria, quem dançando está;
Ouve, aprecia quem brincando ri;
Mostra-te guia a quem perdido eu vi;
Segue-o na via aonde quer que vá;
Vai, Alegria, aonde a vida é má;
Vem arredia e permanece aqui;
Dá euforia a quem se encheu de ti;
Leva agonia para longe já!
Tira, Alegria, o perdedor do pó;
Traz companhia a quem se sente só;
Faz menos fria a mão no peito nu;
Põe neste dia o sofredor de pé;
Dá valentia ao fraco, força e fé;
Torna, Alegria, todos como tu!
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 07/10/2020)
301 - A VOZ INTERIOR
A voz interior somente escuto
Enquanto for tão baixo o que me fala,
Os outros não puderem escutá-la,
E andarmos todos lânguidos, de luto.
Tal voz entendo só no meu reduto
Onde o refém que sou enfim se cala
Porque comum se torna a sua vala
Em que terá o espaço diminuto.
Agora eu em mim mesmo não mais entro
Já que os silêncios meus são emitidos
Só quando neles nunca me concentro.
Não ouço já que ainda tenho ouvidos
Que apenas captam sons aqui por dentro:
Obtuso estou ou eles, entupidos.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 08/10/2020)
298 - O MEU ORIGINAL
Preparo o meu original que embalo
E envio às editoras do país.
Porém, por fim, nenhuma delas quis,
Por sua conta e risco, publicá-lo.
Talvez o que compus sem intervalo
Tenha sido um equívoco infeliz.
E quando com talento não condiz
Eu devo simplesmente engavetá-lo.
Que me dissessem, mesmo com desdém,
O que nos versos meus os desagrada
E o que nos temas meus não lhes convém!
Porém, a indiferença delas brada:
"Não és poeta! Tu não és ninguém!
Todos os teus poemas não são nada!"
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
300 - O IMIGRANTE
Quem me dera poder viver um dia
Na terra deste meu antepassado
Que com coragem veio ao outro lado
Dum oceano d'água brava e fria.
Que lá consiga mais sabedoria
Por aprender de todos de bom grado.
Que, enfim, eu já durante o aprendizado
Veja a vida melhor, não como a via.
Desta gente de vinhas e olivais,
Por fim, farei amigos com os quais
Rirei se alguém me perguntar: "Tu ris?
De lá não tens saudade? Quando vais?"
Direi: "Ó, sim! Mas lá não vivo mais
Porque meu lar é onde sou feliz!"
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 07/10/2020)
295 - COMO O CÃO
A Solidão seguiu-me fielmente
Em sujeição ao dono que a governa.
É como o cão que tem em cada perna
A proteção tenaz, audaz, valente.
A Solidão fareja bem e sente
Voraz leão faminto e mau que hiberna
No coração (a escura cova interna),
À qual paixão chegou bem de repente.
Até clarão do dia da esperança,
Não saberão do leito em que descansa
Este ermitão na alcova em que me deito.
Se a fera então em mim jamais avança,
E dorme tão furtivamente mansa,
A Solidão do mal protege o peito.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
230 - POETA ANÓNIMO
Ó, quem me dera fosse enfim poeta,
Desses com livro publicado e fama,
Que, na noite de autógrafos, declama
Do seu poema a parte predileta.
Mas, mesmo com a pena tão completa,
Cá sobre mim ainda se derrama
Do anonimato a pegajosa lama
E tudo o que componho se engaveta.
Poetas e leitores deste mundo
Vão todos logo ao túmulo profundo.
Por fim, ninguém se importará com isto.
Ó que me baste então que o Deus eterno
Conheça, neste mísero caderno,
Os versos meus que provam que eu existo.
(Escrito em 04/10/2020)
292 - SOU E ÉS
Sou árvores, tu és as ventanias;
Sou pássaros, tu és as minhas asas;
Sou peixes, és melhor que as águas rasas;
Sou barcos, és as ondas tão bravias;
Sou sombras, és o sol dos novos dias;
Sou palhas, és o fogo e já me abrasas;
Sou intempéries, és as belas casas;
Sou pedras, és cinzéis se me esculpias;
Sou rio aos afluentes, és a foz;
Sou terras litorâneas, és marés;
Sou, línguas, dentes, lábios: és a voz;
Sou dunas dos desertos, és os pés;
Sou para ti por mim, tu és por nós;
Sou teu em ti por fim, tu és quem és.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito para a minha esposa Ingrid da Rosa Rodrigues Oliveira em 06/10/2020)