Eduardo Becher_2

Eduardo Becher_2

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Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
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Poemas

21

Constipação

As narinas abertas
haurem o espaço ocluso
com sofreguidão,

não há perspectiva
ou certeza que alente 
a desobstrução

da paz enviesada,
da empresa que aliena
por furtar o tempo.

O problema é simples:
não há tempo livre
para se prender,

não há o cacho imaculado
da ninfa inspiradora
roçando-lhe a tez,

muito menos a adaga
da expressão inquisidora
arrepiando o pescoço.

Para onde foi a metáfora?
Só existem metas
e o resto está fora. 

Para onde foi o pensar?
Só existe o agir
e todo tempo verbal

se reduz ao presente,
embalado e endereçado
às ilusões futuras.

Respira.
Mais um pouco.
Respira.

Está quase.
É questão de tempo.
Já está saindo.

As horas passam
e nada. Sequer vestígio
daquele dejeto

expelido, geralmente,
no fulcro da rotina
do poeta evanescente.
36

Por outras memórias

Por outras memórias
eu aniquilo a história
para nutrir a fantasia.

Por outras memórias
eu preparo a lâmina
e cogito um seppuku.

Por outras memórias
eu abandono o desejo
para tornar-me objeto.

Por outras memórias
eu embarco no vento
e escoo o céu azul.

Por outras memórias
eu performo Midas
e amputo as mãos.

Por outras memórias
eu invento um órgão
que circule esperança.

Por outras memórias
eu aquieto a batida
da própria obsessão.

Por outras memórias
eu troco o imaculado
em prol das sardas.

Por outras memórias
eu vejo crisântemos
no sorriso mais vil.

Por outras memórias
eu torno-me asceta
e castro os sentidos.

Por outras memórias
eu deixo meu corpo
olvidar a precedência.

Por outras memórias
eu aceito o inexistir,
como se fosse exorável.
119

Vida Perdida

Uma vida perdida
sob horários passados,
sob o ponto sem vírgula
em um itinerário.

Um atraso espontâneo
sob a rua deserta,
sob a morte oásis
por tudo encoberta.

O grito da ave,
o grito de ave,
o resgate do império
no vício atávico.

A moça que ri,
a moça que chora,
o enlaço que amarra
e pelo qual se implora.

A parte da vida
que parte o humano,
o partir dos andróginos
sem pano ou remendo.

o pender da coragem,
o pendor à insônia,
o distrair-se à vontade
para perder as chaves

dos dias, do cofre,
do sentir, da porta
que se escancara
ao esperar que um dia

A vida pródiga
retorne.
32

As teclas do piano

As teclas do piano sussurram,
demandam o inclinar da cabeça
para que se ouça em pleno tom
as verdades da alma sustenida.
Esse acorde, repetido ad nauseam,
é exatamente o som da tua vida.
Uma garoa, simples e sentimental,
retorcida entre as nuvens cheias.
O branco da neblina e o negro
dos olhos secos que observam...

As teclas do piano sussurram
e vertem lágrimas da harmonia,
cuspindo cifras melodiosas
em um refrão de covardias.
Seus dedos cansados arrastam
uma música feita para acabar,
uma súbita vontade de ouvir
aquilo que ninguém sabe entoar.
Muito menos você, bem menos.
Sua música é mera excrescência
de uma garganta secundária
por onde é impossível se comunicar.

As teclas do piano sussurram,
brancas e pretas na madeira.
Contam sua história inteira
e não deixam sequer uma dúvida
para mantê-la viva no segundo.
Ninguém irá ler sua partitura,
muito menos entender o símbolo
que representa sua clave.
As palavras não foram feitas
para você, instrumento humano.
Serás sempre incompreensível
como o ruído quase inaudível
que deduzem ser do piano.
110

Suspiros de amor

Ceifa-me a vitalidade.
Suas flores cacheadas
embalam-me na paisagem
de alpendres adornados
com frases tocantes,
retiradas de túmulos. 

Seus beijos assombram
o canto mais iluminado
de uma alma avultada
pela constrição do abraço,
pela oxidação do afeto,
suspenso em camadas
agudas de necessidade.

E o seu andar vacilante
compensa a rigidez
de um amor agarrado,
de um ímpeto animalesco
denominado "amor"
apenas pela falta
de um termo adequado
ao tom vernacular.

Sua voz é o cutelo
que corta e separa
qualquer liberdade.
Seu choro é a agulha
penetrando meus olhos
e drenando a pupila.
Suas palavras são dores
organizadas em verso
no poema-navalha
dedicado ao pescoço.

Mesmo sua súplica
tem algo de pecado.
Mesmo seu gemido
tem algo de mártir.
E quando olho o relógio
já é hora de partir,
mas você não parte.
Nós permanecemos,
como sombras teimosas
imitando uma pessoa
que nunca existiu
sob o espectro óptico.
125

Esperança

Encarar o papel em branco,
a luz que trespassa a cortina,
o sábado em máximo avanço
por sobre semanas infindas.

A aranha tecendo, no canto,
uma teia não resolvida,
capturando o passar das horas
e sorvendo frutos da míngua.

Humano, aranha e flagelo.
O que mais guardar nas retinas?
Um mundo que nada nos guarda
além do que a mente germina.
120

Um animal com dor no peito

Algo se ascende, inquebrantável,
no fundo das minhas pálpebras.
É uma luz opaca de coisa alguma,
um ventre nutrindo o ápeiron
em pleno parto de recordações
que não são minhas. O que será?

O que será que causa a dor
que ordena as nuvens do peito
em uma escala tão vespertina,
apenas para que aquele avião
siga rasgando um véu de sonhos
ainda não desvelados? O que será?

Talvez mero princípio do estouro
direcionado para a aorta,
detalhe objetivo da existência
que sopra, em um segundo, aquilo
que sobra quando insistimos
em dividir o que nos resta.

E esse algo permanece, irredutível,
no fundo de todo horizonte.
Eclodindo tal qual uma tempestade
cujos ventos ameaçam edifícios
em uma intenção de Bastilha
- Ainda que inócua, meramente visual.

E eu, que encaro de dentro, fujo.
Percorro o cansaço como um cão
que lambe a mão do dono que o agrediu.
Perco-me naquilo que surge do vácuo
e produzo cinismo e apatia
entre o abrir e fechar das pálpebras.
127

O Flâneur tropical

Vou decompondo pela rua.

Rogando a beleza do verbo,
deixando no corpo a feiura.
Rasgando a ametista do verso,
extraindo uma rima inconclusa.

Safira nos olhos da moça,
brilho opaco de quem comunga.
Topázio nas mechas da rosa,
bela boêmia da alma imunda.

Caminho, sem jeito ou remorso.

Apoiando-me na face alva
do pássaro bicando o asfalto.
Descobrindo que a tarde assalta
o gosto de qualquer assunto.

Extirparam o aço da lua,
revestindo o fio do machado,
suspendendo o desejo humano
no corte limpo de algum carrasco.

E eu? Vou compondo ao declínio.

Colocando o ouvido no peito,
na parede da controvérsia.
Será que a vida me deu tato
para entender o que tanto dissertam?
159

Treze de janeiro, 2024

E você, que amei por tanto tempo,
aparece para lembrar dos acordos
que quebrei por insuficiência,
por covardia nua e vergonha vestida.

Me encara e vê nos dentes tortos
uma razão para a partida,
um motivo para tentar uma última vez
reanimar o coração que palpita
através de gestos mimetizados.

Foi embora, conforme sugeri no início.
Não me deu mais sequer a calma
de saber que está em casa, triste
comigo e nada mais. Apenas comigo.

Chorou um choro distante, rítmico.
Um grito que não é de garganta,
mas de tambor na marcha da culpa,
atingindo o canto mais inaudível 
das vielas numa tarde de sábado.

E eu, criatura hedionda e apática,
reservo minha angústia ao verso.
Balbucio em metáforas e abstrações
o que é concreto, claro e retilíneo:
estragastes o que te era imprescindível.

E olhe para ti, aliviado ao confirmar
que ela está em casa, ainda que lânguida.
Respirastes ao saber que não foste
causa de um desastre de marca maior,
mas de um pequeno acidente desses
que matam uma ou duas pessoas
ao invés de dizimar um grupo vasto.

Expulsa, expulsa essa mulher para
um lugar que não reserve um melancólico,
covarde, esquisito, egoísta, cínico
e desmerecedor de tudo. Afasta-me
de qualquer vida que não seja
a que findará no reflexo do espelho.
151

Lapso existencial

Perto.
Perto de tudo,
mas nunca próximo
o bastante para
estar dentro.
O que é?
Eu não sei.
Não poderia saber.
Só o que resta
é dançar a valsa
da santa ignorância. 
E se é santa,
sinto-me abençoado:
anistiado do beijo
- mas também do bafo,
expulso da festa
- mas também do fim,
sem quem me ame
- mas também invicto,
sem quem veja
- mas também infiltrado,
sem existir
- mas também eterno.

Perto de ser poeta,
mas longe do ritmo.
Perto da bicicleta,
mas longe do pedal.
Perto da alma abjeta,
mas longe da espécie.
Do que é que estou
perto, afinal?
Da figura no espelho
é que estou
mais distante.
Estou no estar da estante?
No andar em Andaluzia?
No sol do mirante?
No fundo do oceano?
Uma linha no plano?
O rosto ameno?
O casal fumegante?
O cinza da quadra
quando a bola passa
na luz do poste?
A viga da ponte?
Mentir é mais fácil:

Sou pai de fulano,
filho de ciclano
e um trabalhador
amante do sucesso
e da família.
Alheio ao protesto
incessante
da consciência,
do absurdo
rastejando no neocórtex
da cabeça animal.
Gânglios basais?
Hábitos transversais?
É tudo cérebro
e eu não tenho
a mais ínfima noção
do que é
essa massa 
cinzenta
chamada
esperança
- que resiste 
ao constatar 
que estamos 
perto.

De que?
Eu não sei.
Mas sigo.
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