As narinas abertas haurem o espaço ocluso com sofreguidão,
não há perspectiva ou certeza que alente a desobstrução
da paz enviesada, da empresa que aliena por furtar o tempo.
O problema é simples: não há tempo livre para se prender,
não há o cacho imaculado da ninfa inspiradora roçando-lhe a tez,
muito menos a adaga da expressão inquisidora arrepiando o pescoço.
Para onde foi a metáfora? Só existem metas e o resto está fora.
Para onde foi o pensar? Só existe o agir e todo tempo verbal
se reduz ao presente, embalado e endereçado às ilusões futuras.
Respira. Mais um pouco. Respira.
Está quase. É questão de tempo. Já está saindo.
As horas passam e nada. Sequer vestígio daquele dejeto
expelido, geralmente, no fulcro da rotina do poeta evanescente.
36
Por outras memórias
Por outras memórias eu aniquilo a história para nutrir a fantasia.
Por outras memórias eu preparo a lâmina e cogito um seppuku.
Por outras memórias eu abandono o desejo para tornar-me objeto.
Por outras memórias eu embarco no vento e escoo o céu azul.
Por outras memórias eu performo Midas e amputo as mãos.
Por outras memórias eu invento um órgão que circule esperança.
Por outras memórias eu aquieto a batida da própria obsessão.
Por outras memórias eu troco o imaculado em prol das sardas.
Por outras memórias eu vejo crisântemos no sorriso mais vil.
Por outras memórias eu torno-me asceta e castro os sentidos.
Por outras memórias eu deixo meu corpo olvidar a precedência.
Por outras memórias eu aceito o inexistir, como se fosse exorável.
119
Vida Perdida
Uma vida perdida sob horários passados, sob o ponto sem vírgula em um itinerário.
Um atraso espontâneo sob a rua deserta, sob a morte oásis por tudo encoberta.
O grito da ave, o grito de ave, o resgate do império no vício atávico.
A moça que ri, a moça que chora, o enlaço que amarra e pelo qual se implora.
A parte da vida que parte o humano, o partir dos andróginos sem pano ou remendo.
o pender da coragem, o pendor à insônia, o distrair-se à vontade para perder as chaves
dos dias, do cofre, do sentir, da porta que se escancara ao esperar que um dia
A vida pródiga retorne.
32
As teclas do piano
As teclas do piano sussurram, demandam o inclinar da cabeça para que se ouça em pleno tom as verdades da alma sustenida. Esse acorde, repetido ad nauseam, é exatamente o som da tua vida. Uma garoa, simples e sentimental, retorcida entre as nuvens cheias. O branco da neblina e o negro dos olhos secos que observam...
As teclas do piano sussurram e vertem lágrimas da harmonia, cuspindo cifras melodiosas em um refrão de covardias. Seus dedos cansados arrastam uma música feita para acabar, uma súbita vontade de ouvir aquilo que ninguém sabe entoar. Muito menos você, bem menos. Sua música é mera excrescência de uma garganta secundária por onde é impossível se comunicar.
As teclas do piano sussurram, brancas e pretas na madeira. Contam sua história inteira e não deixam sequer uma dúvida para mantê-la viva no segundo. Ninguém irá ler sua partitura, muito menos entender o símbolo que representa sua clave. As palavras não foram feitas para você, instrumento humano. Serás sempre incompreensível como o ruído quase inaudível que deduzem ser do piano.
110
Suspiros de amor
Ceifa-me a vitalidade. Suas flores cacheadas embalam-me na paisagem de alpendres adornados com frases tocantes, retiradas de túmulos.
Seus beijos assombram o canto mais iluminado de uma alma avultada pela constrição do abraço, pela oxidação do afeto, suspenso em camadas agudas de necessidade.
E o seu andar vacilante compensa a rigidez de um amor agarrado, de um ímpeto animalesco denominado "amor" apenas pela falta de um termo adequado ao tom vernacular.
Sua voz é o cutelo que corta e separa qualquer liberdade. Seu choro é a agulha penetrando meus olhos e drenando a pupila. Suas palavras são dores organizadas em verso no poema-navalha dedicado ao pescoço.
Mesmo sua súplica tem algo de pecado. Mesmo seu gemido tem algo de mártir. E quando olho o relógio já é hora de partir, mas você não parte. Nós permanecemos, como sombras teimosas imitando uma pessoa que nunca existiu sob o espectro óptico.
125
Esperança
Encarar o papel em branco, a luz que trespassa a cortina, o sábado em máximo avanço por sobre semanas infindas.
A aranha tecendo, no canto, uma teia não resolvida, capturando o passar das horas e sorvendo frutos da míngua.
Humano, aranha e flagelo. O que mais guardar nas retinas? Um mundo que nada nos guarda além do que a mente germina.
120
Um animal com dor no peito
Algo se ascende, inquebrantável, no fundo das minhas pálpebras. É uma luz opaca de coisa alguma, um ventre nutrindo o ápeiron em pleno parto de recordações que não são minhas. O que será?
O que será que causa a dor que ordena as nuvens do peito em uma escala tão vespertina, apenas para que aquele avião siga rasgando um véu de sonhos ainda não desvelados? O que será?
Talvez mero princípio do estouro direcionado para a aorta, detalhe objetivo da existência que sopra, em um segundo, aquilo que sobra quando insistimos em dividir o que nos resta.
E esse algo permanece, irredutível, no fundo de todo horizonte. Eclodindo tal qual uma tempestade cujos ventos ameaçam edifícios em uma intenção de Bastilha - Ainda que inócua, meramente visual.
E eu, que encaro de dentro, fujo. Percorro o cansaço como um cão que lambe a mão do dono que o agrediu. Perco-me naquilo que surge do vácuo e produzo cinismo e apatia entre o abrir e fechar das pálpebras.
127
O Flâneur tropical
Vou decompondo pela rua.
Rogando a beleza do verbo, deixando no corpo a feiura. Rasgando a ametista do verso, extraindo uma rima inconclusa.
Safira nos olhos da moça, brilho opaco de quem comunga. Topázio nas mechas da rosa, bela boêmia da alma imunda.
Caminho, sem jeito ou remorso.
Apoiando-me na face alva do pássaro bicando o asfalto. Descobrindo que a tarde assalta o gosto de qualquer assunto.
Extirparam o aço da lua, revestindo o fio do machado, suspendendo o desejo humano no corte limpo de algum carrasco.
E eu? Vou compondo ao declínio.
Colocando o ouvido no peito, na parede da controvérsia. Será que a vida me deu tato para entender o que tanto dissertam?
159
Treze de janeiro, 2024
E você, que amei por tanto tempo, aparece para lembrar dos acordos que quebrei por insuficiência, por covardia nua e vergonha vestida.
Me encara e vê nos dentes tortos uma razão para a partida, um motivo para tentar uma última vez reanimar o coração que palpita através de gestos mimetizados.
Foi embora, conforme sugeri no início. Não me deu mais sequer a calma de saber que está em casa, triste comigo e nada mais. Apenas comigo.
Chorou um choro distante, rítmico. Um grito que não é de garganta, mas de tambor na marcha da culpa, atingindo o canto mais inaudível das vielas numa tarde de sábado.
E eu, criatura hedionda e apática, reservo minha angústia ao verso. Balbucio em metáforas e abstrações o que é concreto, claro e retilíneo: estragastes o que te era imprescindível.
E olhe para ti, aliviado ao confirmar que ela está em casa, ainda que lânguida. Respirastes ao saber que não foste causa de um desastre de marca maior, mas de um pequeno acidente desses que matam uma ou duas pessoas ao invés de dizimar um grupo vasto.
Expulsa, expulsa essa mulher para um lugar que não reserve um melancólico, covarde, esquisito, egoísta, cínico e desmerecedor de tudo. Afasta-me de qualquer vida que não seja a que findará no reflexo do espelho.
151
Lapso existencial
Perto. Perto de tudo, mas nunca próximo o bastante para estar dentro. O que é? Eu não sei. Não poderia saber. Só o que resta é dançar a valsa da santa ignorância. E se é santa, sinto-me abençoado: anistiado do beijo - mas também do bafo, expulso da festa - mas também do fim, sem quem me ame - mas também invicto, sem quem veja - mas também infiltrado, sem existir - mas também eterno.
Perto de ser poeta, mas longe do ritmo. Perto da bicicleta, mas longe do pedal. Perto da alma abjeta, mas longe da espécie. Do que é que estou perto, afinal? Da figura no espelho é que estou mais distante. Estou no estar da estante? No andar em Andaluzia? No sol do mirante? No fundo do oceano? Uma linha no plano? O rosto ameno? O casal fumegante? O cinza da quadra quando a bola passa na luz do poste? A viga da ponte? Mentir é mais fácil:
Sou pai de fulano, filho de ciclano e um trabalhador amante do sucesso e da família. Alheio ao protesto incessante da consciência, do absurdo rastejando no neocórtex da cabeça animal. Gânglios basais? Hábitos transversais? É tudo cérebro e eu não tenho a mais ínfima noção do que é essa massa cinzenta chamada esperança - que resiste ao constatar que estamos perto.