Nasceu em Sá da Bandeira, Angola, em 1969. Licenciado em Ciências Sociais (Psicologia), desempenha profissionalmente funções no I.S.S., I.P., em Setúbal, cidade onde vive.
Que estranha língua esta, que estranha fala Que certas noites meus lábios ilumina E amargamente, a sós, a dor me ensina Num lânguido chorar que a morte embala
Como alma de outro alguém que em mim se instala Ou raio de outro mundo que fulmina Como misteriosa nau que em mim faz escala Lusitana, mágica, latina!
Nasceu em Sá da Bandeira, Angola, em 1969. Licenciado em Ciências Sociais (Psicologia), desempenha profissionalmente funções como Inspector da Segurança Social, no I.S.S., I.P., em Setúbal, cidade onde vive. No seu percurso literário contam-se participações esporádicas na década de 90, na página cultural “Arca do Verbo” do jornal “O Setubalense”, sob direcção do poeta João Raposo (Livraria UniVerso); Participação na colectânea de poesia Projecto Cultural “Poemas do País da Vida” – MJ Real IMO Editora; Participação na colectânea de poesia Traços da Memória – Casa da Poesia, Setúbal 2003, 28 Poetas Sadinos; Participação na colectânea “Entre o Sono e o Sonho” - Antologia de Poesia Contemporânea - Vol. VII - Chiado Editora; e participações esporádicas em concursos de poesia e conto.
Que estranha língua esta, que estranha fala Que certas noites meus lábios ilumina E amargamente, a sós, a dor me ensina Num lânguido chorar que a morte embala
Como alma de outro alguém que em mim se instala Ou raio de outro mundo que fulmina Como misteriosa nau que em mim faz escala Lusitana, mágica, latina!
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Naufrágio
Esvaio-me sozinho a um canto do passado E não é água nem sangue o que de meu corpo escorre São memórias que fugindo, correm p’ra nenhum lado Pelo rio da minha alma que enfim se esgota e que morre
Como um estranho sentimento amargurado Que lentamente pelo presente me percorre Que por mim passa…, e o que decorre Afunda-se, enfim, lívido, cansado
De ser no tempo a solidão que o rio sustenta Ou quiçá o fantasma atormentado Pela bruma cega que na escuridão inventa
O espírito que sou, alucinado Se sou só vento, leve-me a tormenta Esvaído de mim mesmo, naufragado.
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Outono
Brisa de setembro, perfeito sabor Desse mar de cor vestido de vento Que deriva morno e desagua em flor No jardim secreto do meu pensamento
Onde a paz por entre pétalas vagueia E as fadas existem num qualquer sorriso Onde ávido vivo dos sonhos que improviso Como vaga-lume que a si próprio se encandeia
Ou incauta aranha que na própria teia Tece de amor enleios com que se devora Como o velho lobo que na lua cheia Ferido na revolta com que se incendeia Uiva à alcateia que o mandou embora!
679
Noite Triunfal
Soturna é a noite e o verso vão Como vãs as preces são, e as orações Padecem de saber e em convulsões Vomitam a verdade e a razão
E eu fujo assim de mim, das multidões Estendendo ao vazio amigo a minha mão Mas o que toco é mágoa, dúvida, solidão Cobrindo a urna fria das minhas ilusões
Que partiram deste mundo magoadas Vestidas de tristeza, adultas, enlutadas Caladas num grito rouco e imortal
Ficam sangrando palavras de mãos dadas Apodrecendo em páginas guardadas Fico eu e a triste noite, triunfal!
630
Desencanto
Que herói sou eu se da luta fugi Envolto em louvores e com bravura tanta Se é de medo que minh'alma se agiganta Se saudoso vou, do nada que não vi!
Se por feito maior tenho o que não cumpri Se este estar por estar me desencanta P’ra quê quereres gritar, pobre garganta Se o teu grito é tudo o que esqueci...
Versos meus, se me julgais amigo Covarde fui p’la vida que vos dei Cuidando amar-vos fui, vosso inimigo
Sou no meu trono de loucura, rei! Porque chorando escrevo aquilo que não digo E escrevendo choro tudo o que não sei!
620
Ausência
Desculpem se não estive No banquete dos eleitos No festim dos escolhidos, De diamante polidos Vestidos de amores-perfeitos…
Ou se em eventos de ouro Engastados de marfim Safiras e prata boa Recusei, ingrato, a coroa Não quis ser esse Delfim…
Relevem a minha falta No desfile da aparência Dos sorrisos porcelana Cortejo de falso nirvana Quedei-me na doce ausência…
Ou se em pódios fulgentes Na soberba da vitória Enjeitei troféus dourados Vislumbro-os enferrujados Deixo-vos tamanha glória!
704
Submersão
O som da tua chuva soava-me na alma Abatia-se sobre o meu corpo como bátega ofegante Na pele da tua cama, prado errante
Encharcado na memória do teu olhar Inundava-me na torrente sem me debater Adormecido no teu amanhecer
Porém, quando submerso, parti pelas águas Com as asas que a enchente revelou Foi só o som da tua chuva que ficou…
326
Asas
Há nas borboletas Um não sei quê de ti Um não sei quê de mim Um não sei quê maior Há nas borboletas Um não sei quê de nós Um não sei quê de luz Em forma de cor
Há nas borboletas Um não sei quê de céu Um não sei quê de sol Um não sei quê de flor Há nas borboletas Um não sei quê de paz Um não sei quê de asas Em forma de amor...
338
Mãe
Não me recordo mãe, confesso, do teu rosto Com a clara nitidez que tanto desejava Como raio último de um sol há muito posto No poço da memória que, cruel, o tempo escava
Nem da tua voz, mãe, nem do teu cheiro Nem sequer do teu sorriso que imagino Adormeceram nas lembranças de um menino Que homem se fez, sem te ter por inteiro
Mas deixa-me dizer-te mãe, com a ternura Que do alto dessa luz de eterno amor Por vida gerares, a chama acendeste
Que ainda hoje na face sinto o calor Por mais fria que seja a noite escura Daquele último beijo que me deste...
435
Cegueira
Um dia olhando o mundo, cego me senti Não porque vagos meus olhos se tornassem Foi como se ao sol as pálpebras fechassem E cuidando ser noite, sem querer, adormeci
E na negra escuridão, como se a velassem Das longínquas estrelas, cadentes, vi Pelo fim da luz do mundo em que vivi Lágrimas caírem, como se chorassem
Porém, quando desperto, tornei desse sono E ao lúgubre infinito quis pintar cor Lívido amanheci nesse abandono
Pois neste universo dolente, de fel e dor Se em verso me couber tão triste outono Poeta só serei, deveras, se acaso for!