Lista de Poemas
A cércea da solidão
A luz da vida cambaleia e estatela-se pesarosa
Deixa no aterro da solidão a penumbra do silêncio
Fluindo pelo cordame da vida que fenece ao algemar
Mil fardos de caricias gentis e generosas
Vadia lá longe além dos céus condescendentes
A cércea desta minha solidão sempre dissidente
Adormecendo entre os rails da memória o espectro
Dos nossos sonhos agora mais confidentes
A sós a noite inventa tantas sílabas apaixonadas
Suspensas num glacial lamento onde se mutilam
Expressões rugindo numa palavra sempre aliciada
Quiçá o dia ribombasse de luz bem emulsionada
Parindo sob o frio lajedo do tempo um verso ardente
Temperamental ressoando de felicidade tão concludente
Frederico de Castro
209
Este meu suficiente silêncio
A noite suporta a escuridão porque o dia
Infeliz se acoita num montículo de solidão que jaz
Dispersa num breu profundo e quase perverso
Este meu suficiente silêncio é só meu
É destro, ambíguo e tantas vezes controverso
Que deixa até um lamento ali mais submerso
Este meu suficiente silêncio por vezes tão
Insuportável deixa pendurada num candelabro
A saudade suicida e irrefutável...de que tanto me gabo
Descalça-se e corre, corre mar a fora
Acudindo cada onda que amarinha de mansinho
Pela alma a dentro até fenecer assim qual denguinho
É epopeia que deixo como epitáfio neste meu silêncio
Tão sorrateiramente profano, tão embriagado e ufâno
Por onde deslizam os amores reconciliados e insânos
Na longa ladeira do tempo deixo meus sonhos rondar
A longarina dos desejos mais levianos soletrando todos
Os beijos transados neste silêncio quase soberano
Frederico de Castro
250
A sexta onda
Atarantada e tão assustada eleva-se numa vaga
Mais anárquica e depois mergulha mar a dentro
Até se perder entre margens que tagarelam numa orgia
De oceânicos prazeres tão titânicos
Numa inferneira polifónica e esganiçada escuda-se
Num banzé de desejos náuticos corrugando todos os
Marítimos momentos icónicos e tântricos onde aportam as
Paixões indubitavelmente mais arquitectónicas, mais semânticas
Ali vai ela a sexta onda na proa dos ventos seguindo a
Quilha deste silêncio que freme até se esbardalhar
Num chinfrim de brados e lamentos contristados
Imiscui-se entre pacíficos olhares de ternura onde pulsam
Brisas quase alienígenas soprando no anemómetro do tempo
Oh, inolvidável tsunami chapinhando naquela onda tão instável
Frederico de Castro
326
Penumbra passageira
Amontoam-se a jusante conturbadas lágrimas
Solitárias guarnecendo a forasteira noite onde
Anestesio cada palavra decerto tão desordeira
Pela penumbra da madrugada passeia uma caricia
Quase corriqueira deixando lotada a solidão abreviada
Com cânticos de esperança momentaneamente aliciada
Esborratada a memória projecta-se no tempo respirando
Todos os insanos desejos e prazeres mais levianos
Ficando sem autonomia cada beijo travesso...quase profano
Ostentei e aplaudi este tísico silêncio quando vandalizei um eco
De prazer tão tirano, tão esquivo até contornar a imensidão de
Sonhos inacabados, infestados de sentimentos sempre logrados
Frederico de Castro
221
Um pixel de silêncio
Condimento as memórias com um pixel
De silêncio harmónico e solitário
Foi importado daquele mágico momento
Digitalizado num verso livre...sem destinatário
Enquanto no dia assoma a luz peregrina mas
Tão prioritária, lá longe esconde-se uma ilusão
Quase tridimensional confinando ao monitor dos
Desejos um breve e adocicante prazer tão excepcional
Filtro do tempo linhas imaginárias, meço cada polegada
Da memória com um milhão de cores esplendidas embebedando
Aquele JPEG impresso na saudade proporcional e bem urdida
A cada hora que passa rastreio o bitmap deste silêncio
Quase aturdido reproduzindo na plotter da vida
A miniatura de cada imagem saindo bem scâneada e atrevida
Frederico de Castro
225
Na senda do silêncio
Deitei-me na esteira do tempo
Adormeci numa ilusão parca e cronológica
Fiz de duas rectas um segmento de silêncios onde
Pernoito numa insustentável leveza quase cosmológica
Estanquei toda a hemorragia que a noite
Ferida teceu vagabundeando em surdina pelas
Ruelas prenhes de tanta solidão onde qual gazua
Se abriam as margens do tempo marulhando de lassidão
Alistei-me no exército da solidão onde pontificam
Os sussurros de tantas brisas marchando sob a cadência
De uma memória interminavelmente fogosa, ternamente fervorosa
Na quermesse dos dias que fluem em sinistros lamentos arribam
Ao mastro da fé tantas coloquiais emoções calorosas deixando
Esquiar pelas palavras etéreas minhas orações sempre vigorosas
Frederico de Castro
220
Além adormece a noite
Aplaina-se a noite que murcha alada
Jorrando nos céus seus últimos ecos
De luz exsudativa e bem velada
Na escuridão evolam silêncios núbios
Dormitando numa ladainha de memórias
Algemadas a um poente mais contristado
E enquanto lá longe chora a noite refilando pelos
Beirais da solidão quase engaiolada, alvejo cada
Caricia ou gargalhada decerto bem estimulada
Com cautela escudo a memória que uiva capitulada
Enquanto cofio uma ilusão desgrenhada, ungida de
Fragorosos desejos filados na noite além encurralada
Frederico de Castro
286
O poderio do cio
Incomunicável deixei todo o meu silêncio
Estender-se pela macilenta noite desfeita em
Erotizantes lamentos tão corpulentos, pronuncio
De turísticas ilusões que um sorriso ainda enfeita
No jardim dos meus sonhos florescem ternas
Ávidas e endoidecidas buganvílias
Dormitam nos cipós do tempo perfumado de
Tantos equatoriais desejos apaixonantes
Desabam em mim quais plumas flamejantes
Indivisíveis momentos de prazer galopando
Até aos píncaros da alma embebedada e pujante
O poderio do cio converte-se agora em tantos
Beijos quase fulminantes e depois manifesta-se
Lá das profundezas do amor assim ofegante
Frederico de Castro
248
Na foz do tempo
Perco-me na foz deste tempo escorregadio
Amadurecendo cada hora suada, faminta,
Enxotando o silêncio degustado num lascivo
Momento de prazer que agora pressinto
Recompõe-se a solidão depois de deixar interdita
Outras tantas saudades quase inauditas
Vicia-se destas bucólicas palavras embebedadas
Até ao frémito de mil caricias sempre bem respaldadas
De muitas ambíguas ilusões se converteu a noite
Deixando esfarrapadas quaisquer memórias que depois
Se dissipam pela madrugada ternamente apaixonada
Com um elã fantástico renasce o dia alijado em breves
Sussurros quase assombrados deixando-nos fartos,
Despertos, impunemente carentes...mas tão saciados
Frederico de Castro
224
Manhãs encadeadas
Neste precário silêncio desponta a manhã
Desprotegida de luminescentes solidões
Vive cada hora no prefácio destes versos
Consumidos com tantas infectantes emoções
Como um foragido o tempo algemou-se numa
Brisa passageira, pousando aqui e acolá sem
Mais subterfúgios, deixando um sóbrio desejo
Autenticado na estética de cada retumbante gracejo
Além degenera a arquitectura da noite qual alimento
Para a cartilagem do meu silêncio ainda resistente
Atrofiante escuridão que pleita num relapso carinho latente
Realço a manhã que desponta encadeada de luz
Tão intermitente, deixando erráticas palavras a flutuar
Além onde badalam caricias e memórias que quero perpetuar
Frederico de Castro
221
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