Lista de Poemas
Entre as aduelas da solidão
Entre o portão ficam as ombreiras da solidão
Recosta-se a alma envernizando as aduelas
Do tempo fechado a sete chaves, além onde
Aprumo à esquadria um verso trabalhado
Na minha marcenaria
Com o formão aliso uma rima crispada
Com o serrote corto a preceito o cedro ou
Mogno decorando a cenografia do tempo
Onde desfiro marteladas certeiras, guardadas
Na escrivaninha das palavras mais corriqueiras
No design das memórias concebo uma estrofe
Bem mobilada, abrindo o roupeiro da inspiração
Por onde chanfro e freso este poema oblongo
Sem arestas ou ranhuras , quase mondrongo
Frederico de Castro
223
Esqueleto do silêncio
Na estrutura óssea da noite cai um vertebrado
Silêncio apendicular e dormita entre os fémures desta
Solidão urdida na cartilagem do tempo quase desmembrado
Nas tíbias da memória sustento esta cervical ilusão
Apavorada até a medula da emoção mais famigerada
Oh, invertebrada hora perdida nas falanges e falangetas fracturadas
Entre ligamentos e tendões rotulianos inflama-se esta madrugada
Lesionada, emplastrada entre os glúteos que se amotinam até
Suturarem o endósteo momento da vida que recobra mais sarada
Subindo pelos ilíacos da saudade articulo uma caricia que
Se esvai pelo maléolo do prazer mais ferrenho até que, ao colo
Do útero se fecunde o occipital sonho gerado na epífise emoção tão brutal
De cúbito ficou a noite prostrada e amancebada alimentando o tarso e
Metatarso da luz fugindo pela escápula do tempo onde simétricos beijos
Se articulam até ao axilar silêncio gemendo entre bíceps tão atléticos
Pelo esfenóide deste murmúrio faço uma ressonância magnética
Preenchendo todas as mucosas da solidão mais obstétrica, by pass para
Um adiposo e musculado amor traumaticamente enfermo e ulcerado
No recôndito das meninges escorre uma ilusão fracturante, deixando
Um hematoma no cárpico silêncio que se bifurca neste libidinoso e vascular
Momento de paixão irrigando as carótidas do prazer...ah, tão intramuscular
Frederico de Castro
307
Livres instintos
Caminho pelo tempo escondendo minha
Sombra entre os cedros da solidão além
Fatigada, esquecida no colóquio daquelas
Horas que reiniciam um lamento tão entorpecido
Agoniza expectante a madrugada quase
Escarnecida, deixando estéreis as saudades
Matemáticas...surpreendentemente apoteóticas
Infinitamente elásticas e muito, muito românticas
O instinto é livre e esvoaça entre ágeis brisas
Que palpitam conflituantes e drásticas escorrendo
Pelo véu da noite fechada, hermética...apaziguante
As sombras nuas ramificam-se pelas ilusões mais
Flutuantes e acampam ao redor do meu silêncio
Inseminado até às mais longínquas lembranças inebriantes
Frederico de Castro
183
Ponto de luz
- para Sara
Enquanto a luz se espreguiça no leito do
Tempo mais além assoma a madrugada
Alcatifando toda a palavra perplexa e flagrada
Num pontinho de luz se insinuam beijos
Abrasadores...bem atarraxados deixando um
Lasso desejo, quase bárbaro...bem sentenciado
Na prole dos lamentos mais lívidos e relaxados
A leda manhã abençoa um suspirante gomo de luz
Que renasce desleixado, mas soberbo e apaixonado
Em tons selváticos desperta uma caricia feliz
Espargindo pelos cílios do tempo um pátrio eco onde
Propícios sorrisos agora adormecem sem suplícios
Frederico de Castro
380
E.T
Traçada ficou a simetria do tempo e
Nele naveguei até à plenitude astral
Onde o silêncio se inflama quase espectral
Ousaria eu palmilhar todo espacial sonho
Porque ali se permutam ilusões estratosféricas
Gravitando a inocência que sorri delicada e feérica
Frederico de Castro
255
O fado e o silêncio
Arqueada vai agora a solidão uivando de fininho
Até que, num pranto colérico e tão insano se revelem
Todos os detalhes de uma fé irremediável e lusitana
Soam guitarras lá longe e o fado triste homenageia
A dor sob o trinado de doze cordas desoladas pois o silêncio esse,
Calou-se, confidente, soluçando,ali pra sempre... inconsolado
Morrer de amor ou de saudade é uma sina que vem acoplada
A tanta solidão aliciada e exilada num naipe de ilusões sempre
Tão extrapoladas e sepultadas na noite enferma, ali estatelada
No jardim dos meus versos planto palavras líricas deixando vestígios desta
Lusofonia numa rima fecunda e tão eufórica, onde rubrico este poema sitiado,
Afogado, na piscina das tuas lágrimas caindo meteóricas e amnistiadas
Frederico de Castro
221
Caprichos
De tantos lacerados lamentos saiu um
Eco absorto e nostálgico colorindo a noite
Plácida, despojada, muito, mesmo muito desalentada
Tenho meus olhos fixos nos teus
Tal como o dia na luz que reaparece
Depois da escuridão que em nós convalesce
Tenho caprichos repentinos e fecundos onde
O tempo fenece depois de embater nas curvas
Sinuosas e volúveis dessa solidão tão astuciosa
Fez-se uma vénia à madrugada refém de uma
Gargalhada luminescente, espigando cada gota
De orvalho caindo bajulada e complacente
Vesti com organdis a memória que agora
Singra nestas maresias quase concupiscentes
Peleja para toda uma saudade que irrompe adjacente
Cada onda do mar enrola-se neste tempo caindo
Assim entorpecente deixando opulentas caricias
Desaguar em nós, decerto tão lamurientas
Frederico de Castro
250
Kuzas di Korason
- para o Ildo... uma voz brutal e imensa
Foi-se a voz e depois doendo,
A solidão desembrulhou seus lamentos
Sempre dilacerados...em reclusão
Despenteio meu lirismo num
Verso saudoso, apaixonado
Deixando encabulada a noite
Que além vagueia triste e exonerada
Enferrujada a memória repinta a saudade
Áspera e vibrante, deixando na vitrine do
Tempo nossas lembranças tão esmeradas
Olhei pelas pupilas da solidão e lá encontrei
Essa voz imensa dormitando num eco desaforado
Dragando aquele sonho aconchegado a esta morna
Renascida, divagando pelo silêncio que além paira deteriorado
FC
*(do krioulo de Cabo Verde - Coisas do coração)
197
Tridimensão dos desassossegos
Como é difícil confortar o silêncio quando os gritos do
Tempo eclodem em nós vestindo de tristeza toda uma
Melancolia que na hora cada lamento eu biografo e espolio
No regaço da vida agrafo a existência que chora
Recostada naquela sonâmbula tridimensão de tempo
Onde sem esquivas nos entregámos até á exaustão
Numa súplica quase vã a saudade brota à bastonada
Rebobinando minha memória entregue a esta madrugada
Tingida de desassossegos e angústias bem confeccionadas
Deixo os pincéis da minha solidão pintar cada paisagem
Desta fria e selvagem noite delirando assim aprisionada
Refazendo cada pegada de uma carícia curiosa e inflacionada
Frederico de Castro
159
Tela do tempo
Alimento todo este silêncio com ecos de
Uma nova esperança sincronizada em muitas
Gratuitas gargalhadas além fertilizadas
Desfaço cada curva do tempo e nele me
Embrenho mais homogeneizado regando a alegria
Quase gigantesca, tão geométrica, bem enraizada
Além no futuro esvoaça a solidão prenhe
De tristezas tão profundas e cabe-me embebeda-las
Com memórias ilustres, clementes...tão galvanizadas
Manietei a madrugada e fundi-a na tela do tempo
Roubei até todas as tranquilidades que um beijo antes me dera
Até gizar por fim uma caricia, jurada, amenizada, potencializada
Desamparado o céu esconde-se no seu breu imenso
Monopoliza cada gota de luz canonizada num verso bem
Vasculhado..ali onde desaborreço a saudade sempre hostilizada
Frederico de Castro
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