Lista de Poemas
Halo do silêncio
Assento-me naquele lamento
Deixo em detrimento do tempo
Um silêncio cativante em deferimento
Suaves e celestiais acasalamentos fluem
Pelas ilusões que acolá estremecem
Em intermináveis fragmentos
Aos sons serenos cantam ecos sonolentos
Deixando vespertinos cânticos delirando em
Tantos pas de deux em descarrilamento
E enquanto na alma gemem e choramingam
Aveludados silêncios de arrependimento, ilumina-se
O halo da solidão enclausurada neste sentimento
No cinábrio dos tempos brilha a luz espasmódica
De tantos, tantos beijos de entretenimento, carcomidos
Pela hora já adiantada que envelhece sem consentimento
Frederico de Castro
267
Morabeza
ao Soares e Roberto,
porque a mizade pode ser eterna...
Sentado no tempo observo o dedilhar
De cada som esbelto e irreverente decorando
Aquelas silhuetas envoltas em mil sombras
Tão profilácticas... tão telepáticas
O chorinho vai e vem até o por do sol onde
Embebedo palavras trajadas de amor e paixão
Clonadas na amizade tecidas na mais pura
Maresia ondulando, ondulando até à exaustão
A tarde caiu de mansinho e de solidão
Em solidão as ilusões agigantam-se pelo
Poente nutrido com caricias tão bem aferidas
Perfumo cada verso encorpado de rimas
Ardentes deixando na noite vultos de nós
Embalando o culto do amor remido e diligente
Frederico de Castro
297
A bordo da solidão
Fiz uma resenha de palavras debruadas
E embebedadas de prazer deixando uma
Curvilínea hora a circundar o tempo remendado
Com ciclos de desejos tão enamorados
A bordo das tristezas navegam meus lamentos
Engodados pela saudade nunca antes blindada
Mas reaberta à memória tecida em cada holocausto
De prazer bem fecundado
Ah, se pudesse sedava a solidão com beijos
Nunca antes deslindados até que toda a alma
Se refugiasse num dedal de caricias tão aveludadas
Afrontava a noite antes dela morrer sequer num
Gomo de escuridão senil e malfadado deixando as
Agruras deste silêncio, fluindo, fluindo bem salvaguardados
Frederico de Castro
250
Desabrigo da solidão
Por mais de uma noite abrigo a solidão
Espreitando deste sentimento quase estrangulado
Encobrindo o tempo que arde num archote
Crepitante...tremendamente flamejante e empolado
Continuou a chuva lá fora, alimentando a terra
Ressequida, mas arregalada embebedando-se com
Todas as gotas deste silêncio em mim mais atolado
Oh, lágrima enclausurada no degelo desta hora quase degolada
Vestida com arrepios de prazer ficou a noite assim
Esfarrapada galopando rua acima até que lá do alto
Se defenestre uma saudade ainda franzina e avassalada
Endoidecidos moram em mim, tantos desejos que prevalecem
Sempre dissimulados convalescendo nos peitoris de uma brisa
Que passa acoplada a esta caricia esquecida, mas bem adornada
Frederico de Castro
192
Curvas e contra curvas
Murei a curva das minhas memórias
Aboli do coração histórias idas, rigorosamente
Distorcidas mascando do calendário, anos,
Dias, horas tão enfurecidas
Revivi no tempo existências que foram ressarcidas
Bebi da solidão ferozes lamentos mapeados
Nos nossos seres subjugados em palavras
Amáveis e bem amadurecidas
Vadiam duas rectas paralelas até se unirem-se no infinito
Deixando um maiúsculo e matemático beijo cartografar
O desejo contido em cada algébrico silêncio mediático
Recorto da noite seus contornos sensuais e carismáticos
Até que o dia irrompa mais profiláctico saudando o rito
Dos amores deambulando no jardim de um prazer galáctico
Frederico de Castro
241
Brisas extasiadas
Oprime-me este silêncio bravio
Abandonado numa espessa hora
Tão mortal...quase fatal
No casulo da minha solidão soletro uma
Rima flamejando tão incendiada, até que
Irrompa uma esperança deveras sempre aliada
Num instante se perfumam nossas almas
Carentes, inebriadas pois de um taciturno
Desejo almejo tuas caricias chegando extasiadas
Fico à varanda da madrugada contemplando
A luz esmorecida e doce desertando pelos ecos
De uma manhã tão clarividente irrompendo saciada
A paisagem agora reluzente explode aliciada
Por tantas brisas contagiadas pela luz que
Perpassa, ígnea, suave...complacente e anestesiada
Frederico de Castro
276
Boulevard dos sonhos desfeitos
Nos limites do tempo corre uma hora
Milimetricamente solitária
Aninha-se entre os seios desta minha ilusão
Temperamental...quase hereditária
Remo mar afora e fico à mercê de muitas ondas
Ancoradas no galeão das saudades defuntas
Destino ou rota de mil memórias vagando
Pelo dossel do tempo obviamente tão fecundo
Vou pelas boulevards do mundo lajeando
Meu silêncio magmático até que se pavimente
De vez o cordato e eflúvio sonho tão cabalmente
Sob o manto da noite rastejam lamentos ou sussurros
Vagabundos quase reaccionários vestindo o corpete
Destas lágrimas pinceladas com desejos mais solidários
Frederico de Castro
228
Horizontes infinitos
Sobe pela haste da noite um breu
Quase ignominioso
Transforma cada sombra num
Belo pas de deux tão plumoso
Deambula pelo horizonte infinito
Alimentando o dialecto das paixões
Corporizadas numa onda bolinando
À deriva deste oceano mais audacioso
A madrugada bêbeda e solitária vomita
Na rua desejos tão causticantes
Deixa entre parenteses aquele beijo unificante
E rogado numa caricia sempre provocante
Descansam no sudário da minha solidão
Tantos sinuosos lamentos, malgrado esta
Inesperada saudade carcomida por remorsos
Lícitos, contagiantes, desesperadamente pujantes
Frederico de Castro
269
Realidade paralela
Acomodei-me a este silêncio que foge numa
Nesga de tempo deixando no receituário da vida
Dois cálices desta solidão bem dirimida onde depois
Me embebedo qual doido varrido
Pousou aos ombros da noite esta realidade
Paralela consolidando toda a escuridão quase
Tridimensional, para esta angustiante partida
Num poente deambulando acolá tão extravagante
Deixei a noite fragilizada, em cacos
Caminhei pelos últimos degraus desta ilusão
Quase bárbara e ultrajante, antes mesmo que
A madrugada feneça nesta hora vazia e relutante
São só mesmo um punhado de lamentos esquecidos
Encurralados à silente escuridão onde se aquartelam
Dois centímetros de um silêncio muito apetecido ou a
Génese da amizade que resguardo mais que enternecido
Frederico de Castro
211
Olha a onda...
Que parte para o infinito estatelando-se
Ao comprido e depois elegantíssima, deixa
Seu marulhar desenrolar-se tão apaixonadíssima
Olha a onda...
Que vai e vem de mansinho até
Arrotar a solidão que se espraia circunscrita
Pelas entranhas da alma sempre proscrita
Olha a onda...
Fiel e inspirada convertendo cada
Verso no verbo amar fecundando
Todos os desejos e caricias a sublimar
Olha a onda...
Que de longe, muito longe desfalece e
Por fim, no estuário do tempo perfuma cada
Gota de silêncio além revolto e aprumado
Olha a onda...
Enamorada e embevecida bordando nas suas
Margens a noite vestida de luares tão legitimados
Até que o dia irrompa solene, festivo e consumado
Olha a onda...
Palmilhando léguas e léguas deste imenso mar
Deixando na maturidade da vida uma bênção que
Flutua na maternal e tão excessiva saudade abismada
Olha a onda...
Que nos rodeia com impropérios purificantes
Deixando no açude do silêncio cada píncaro
De ilusão reverberando tão, mas tão gratificante
Olha a onda...
Que gota a gota fecunda o leito dos amores
Mais refrescantes desintoxicando aquela anónima
Memória que este verso baptizou assim quase sufocante
Olha a onda...
Ardente e perpetuamente magnífica, tão concludente
Afogando-nos numa esplendorosa caricia nupcial
Qual feroz brisa rugindo num murmúrio sempre passional
Olha a onda...
Rugindo tristíssima, envergonhada mas digníssima
Clamando quais açoites nesta noite que ainda pranteia
E todo silêncio mais que possesso assim escamoteia
Frederico de Castro
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