Lista de Poemas
Acesso da noite

Fechado no invólucro do silêncio o tempo drena
Os derradeiros segundos hidráulicos e esdrúxulos
A milímetros da solidão escoam ecos sem escrúpulos
No lajedo da vida flutuam sussurros quase concupiscentes
Umidificam a derme onde pernoitam carícias tão latentes
Alinham as palavras onde se desnuda a caligrafia dos uivos prementes
Sem acessos a noite dormita no vão das escuridões mais recorrentes
Deixam em rodapé tantas desesperadas gargalhadas impenitentes
Içam as velas a todos os desejos, flamejantes, ígneos e contundentes
Frederico de Castro
167
Varredor de emoções

Permuta a solidão com o tempo uma hora tão transparente
O silêncio desanuvio inequívoco e acelerado trilha todos os
Lamentos que além se quedam ofegantes, felinos e inoperantes
Nas ruas varre-se a tristeza para debaixo das solidões itinerantes
Inventam-se palavras que perscrutam vícios e prazeres beligerantes
Cavalgam-se emoções platónicas, incendiárias e tão, tão delirantes
À porta do olhar mais sereno fenece o dia voraz e insignificante
Todos os segundos estremecem eruptivos explosivos e errantes
Nos céus o silêncio prolonga a sinestesia das memórias mais divagantes
Frederico de Castro
212
Quando éramos meninos

Quando éramos meninos a vida fluia deslumbrante…tão refrigerante
Ao nascer um novo dia o tempo namorava cada viral fantasia reconfortante
Bailando as palavras poéticas propiciavam mil gargalhadas exaustantes
Quando éramos meninos as lágrimas caiam prenhes de alegrias viciantes
Fecundavam esperanças casmurras, mas singelas, vorazes e excitantes
Alimentavam ingénuos sonhos absurdamente felizes, festivos e contagiantes
Frederico de Castro
186
Vem, que se faz tarde

Vem que se faz tarde e deixemos a maresia ainda incandescente
Estatelar-se nas beiras desta solidão imensa e tão entorpecente
Até a última luminescência encarquilhar a noite que chega fosforescente
Vem que se faz tarde, antes que as horas desvairadas desinspirem todas
As palavras e rimas plagiadas, salpicantes, irrequietas e displicentes
E os silêncios sobrevoem os céus sufocados por poentes tão efervescentes
Vem que se faz tarde e tarde o tempo sucuamba inerte,frágil e inocente
Mesmo que ariscas brisas debruem a derme das ilusões mais latentes
Transladando dos meus olhos todas as lágrimas carentes, poéticas e clementes
Frederico de Castro
134
Pousio dos solitários

No pousio dos solitários o tempo até parece que estagna
Ali até a milionésima hora fenece apática, serena e axiomática
Irrequietas brisas deslizam enfeitiçadas, embriagadas…tão fanáticas
Na antecâmara dos silêncios ecoa uma prece feliz e desmamada
A terra sedenta, ávida e cromática pintalga cada emoção fluindo arrojada
Salpica as escarpas das minhas solidões ariscas, sequiosas e emancipadas
Frederico de Castro
152
Quando olhei para o poente

Olhei para o poente e vi a noite felina e voraz pousar
Entre as plúmeas saliências da escuridão inexorável
Vi um eco fenecer perdido entre as entranhas de um breu admirável
Olhei para o poente e senti fugir no horizonte um lamento tão sísmico
Sua luz é como um cataclismo de palavras ferozes, ergonómicas e fanáticas
Ao relento a maresia dormita embebedada num soporífero silêncio quase atónito
Olhei para o poente e afoguei-me em mil carícias quase, quase incógnitas
Ausentei-me na procissão de preces emergentes, tão cientes e mais insólitas
Em cada esquina dos céus brota um aguaceiro de luminescências tão indômitas
FC
132
Espelho meu

Sem macular um breve silêncio a manhã reflete suas
Derradeiras luminescências, ariscas, brutais e excêntricas
Até um eco incita um naipe de bélicas carícias tão simétricas
A olhar para o tempo ficou uma memória fértil saudosista e aritmética
Díspares e esquecidos sonhos indultam minha esperança mais empírica
Horas corroídas e latentes umidificam cada estrofe voraz e tão lírica
Frederico de Castro
130
Dons da natureza

Adormece o dia metamorfoseado de luz e uivos audazes
Enxaguam tantas lágrimas incontidas, ávidas e mais fugazes
Mexem e remexem nos meus silêncios ferozes e eficazes
De cada brisa afetuosa rojam esperanças tão coloridas e radiantes
O que me agasalha a alma são sonhos e desejos sempre mais devorantes
Seivoso e gracioso o poente fecunda tantos quânticos afagos gratificantes
Frederico de Castro
126
Subindo com a solidão

Uma fluorescência tão cósmica embrenha-se nesta solidão
Quase petulante, absurdamente sonora, conivente e crónica
Dos tentáculos do tempo desprende-se uma hora inerte e afónica
Nesta via rápida das emoções reprimidas e mais catatónicas flutuam
Ilusões e palavras desgarradas, descomplexadas e quase platónicas
Assim se enamoram as gargalhadas provindas de preces tão arquitectónicas
Num canto a solidão sobe cada degrau da esperança inescrutável
Sobre o charco dos silêncios a vida espelha qualquer lamento tão instável
Inalcançável todo o horizonte naufraga saciado, inebriante e confortável
Frederico de Castro
88
Silêncios iniludíveis

São tantos estes silêncios quase iniludíveis
São imensas as ondas que além jazem audíveis
Amaram esmagadoras ao longo destas margens aprazíveis
Ao longe submerge o poente tão solitário e indescritível
A noite pondera embebedar-se num felino breu quase corruptível
A escuridão gatinha amparada a esta cúmplice rima sempre irresistível
Frederico de Castro
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