Lista de Poemas
Esfuma-se o tempo...

A manhã renascida atropelou a solidão quase idolatrada
Sem fé resmungou e soletrou uma oração ainda inacabada
Falsificou a esperança impressa nesta estrofe inconformada
Plagiou a memória estatelada num fatal poente exonerado
Confinou a saudade disruptiva contraceptiva…lisonjeada
Fecundou esta arisca ilusão tão refinada, tão escrutinada
Esfuma-se no tempo uma hora corruptível e indesejada
Refaz todos os inviáveis desejos quânticos e insondáveis
Municia-me as palavras com carícias selectivas e inexoráveis
Frederico de Castro
168
À hora certa...

À hora certa o relógio esconde cada silêncio secreto
Badala triste e sentido pois ali vai o féretro do tempo
Esquartejado constrangido, tão sombrio quanto um eco ferido
À hora certa a noite esbanja todas as suas escuridões introvertidas
Apalpa a melancolia das mil e uma emoções carentes e denegridas
Sangra ferida deixando na alma vestígios de tantas tristezas incontidas
À hora certa cada centésimo de segundo esboroa-se reprimido
Ali reage inerte o tempo castrado, desprezado, quase encardido
Expurga-se o simbólico silêncio despedaçado,subjugado…contorcido
Frederico de Castro
141
Manda chuva

Mirabolante e convergente assim transpira aquele aguaceiro renitente
Qual brado acanhado gentil e fluente esvazia o silêncio velozmente
Impera além, contudo uma paz sedenta, distinta e tão estridente
Escorrem pela caleira do tempo tantas gotas de um chuvisco dormente
Consola a terra ávida bebericando um ávido lamento delinquente
Naufraga a bordo de um fictício eco esmerado…assim tão docilmente
Frederico de Castro
149
Ondas e maresias

Deixem-me afogar nestas ondas e marés tão apaziguadas
Deixem-me sacudir esta fé que em mim renasce assolapada
Capaz até de excomungar toda a solidão sempre brutalizada
Deixem-me alimentar a esperança ainda mais alicerçada
Apreciar a fé esvoaçando sobre o altar da vida agora autenticada
Caminhar descalço ao longo da maresia que além se queda deliciada
Deixem-me extorquir a este sorriso uma gargalhada quase improvisada
Plantar nas margens do silêncio o sabor de um beijo em triplicado
Deixem-me dançar ao sabor de cada desejo desbravador e tão enamorado
Frederico de Castro
159
Time flies

O tempo voa e distende-se pelos céus num imenso lamento
No alvor da madrugada cada bruma fenece a sós, sem fingimento
Caluda que a noite ainda dorme escravizada…tão rabugenta
Inquietantes e profanas, as palavras estilhaçam-se sonolentas
Deixam arquirrivais rimas desnudarem-se mais avarentas
Tudo nasce e fenece na imutável perfeição das palavras sedentas
Frederico de Castro
134
Pra lá da noite...

Pra lá da noite quente madura, errante e apetecível
Esconde-se um breu requintado, tímido e imperceptível
No céu ouvem-se os gritos e gemidos de um afago infalível
Pra lá da noite o tempo escoa devagarinho e indefectível
Soletra palavras que rimam com este silêncio irredutível
Penetra na fauna de cada lamento feroz e irascível
Pra lá da noite cada hora elege sua angústia inexorável
No limite acampa ao redor da esperança fluindo imparável
Sua dimensão extrapola toda esta emoção tão inquebrantável
Frederico de Castro
204
Sem abrigo

Sem abrigo o silêncio fenece e no seu jazigo
Enterra-se o tempo solitário quase rendido
Paz a cada eco funesto e tão arrependido
Sem rosto as palavras enlouquecidas atropelam
Esta hora indomável, ensurdecida e despedaçada
Assim deserta a noite compungida e degradada
A escuridão arrepiada aconchega-se aos lençóis
Da minha solidão absurdamente conformada
Uiva cutucada por cada ilusão contrita e desolada
Frederico de Castro
153
Murmúrios da maresia

Suspira a maresia aconchegada no litoral
Das emoções exuberantes…tão embirrantes
Ali me deleito com brandas memórias sempre galvanizantes
Ouço ao longe o som das marés intensas e desconfinantes
Adentram o leito onde dormitam ilusões mais desconcertantes
Desvendam com carinho todos os olhares que palpitam coagulantes
No planalto dos sentidos mais distintos e quase asfixiantes mora
A saudade repleta de palpitantes e atiçantes memórias conciliantes
Alimentam o cotidiano dos meus silêncios alucinógenos e electrizantes
Frederico de Castro
123
Avassalador

Contida numa exígua luminescência a tarde afavelmente
Deixa sangrar os derradeiros gomos de luz, assim mortalmente
Pra nosso deleite os céus aconchegam-se ali furtivamente
No cimo da montanha a solidão dolosa e copiosamente
Estende-se na longarina do horizonte reverberando grandiosamente
Como me palpita a alma contente, fascinada…tão sedentamente
Frederico de Castro
152
Reprogramar o tempo

Prepotente e quase flatulenta a manhã engorda esgazeada
Pesou na balança dos dias um côvado de solidões acossadas
Enamorou-se de mim aquela emoção feliz e engravidada
O tempo reprogramado irrompe inspirado por inigualáveis
Palavras estáveis, amestradas e sempre muito vulneráveis
As horas extenuadas sucumbem ao som de cânticos tão afáveis
Sobre as dunas da solidão escorre uma brisa sonolenta e suada
Tatua o dorso da vida com uma esperança mais apaziguada
Alimenta cada lúdica palavra somada a tantas outras bem badaladas
Frederico de Castro
121
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